Os Melhores Amigos

1 Capítulo Único - Daniel


Notas iniciais
Essa história é dedicada para aqueles que amam o amor em todas as suas formas... E recomendada para aqueles que não o fazem.

- Ei, cê tá legal? – Daniel estalou os dedos na frente dos meus olhos.

- Que? Ah, tô, de boa. – Respondi, só então percebendo que eu havia estado em silêncio já fazia algum tempo.

- No que tava pensando? – Amanda perguntou de seu ponto sob meu braço, a mão sob meu peito.

- Tava pensando como você é linda. – Respondi com um sorriso meio triste, recebendo com certo desgosto o beijo estalado que ela deixou no meu rosto.

Baixei os olhos para meu prato de comida, ja quase vazio. Era uma mentira deslavada. E olhar para os olhos de Daniel, seus olhos azuis e profundos, aqueles que sempre estariam ali por mim fazia a mentira parecer mais dolorosa ainda. Só que eu não sabia o que estava acontecendo, eu ainda era muito novo e naquele dia tudo estava mudando para mim. Bem ali, numa mesinha da praça de alimentação no meio do shopping, minha vida ia ficar totalmente diferente.

- Já volto, vou ao toilette – Amanda se desvencilhou de meu braço, levantando-se toda cheia de cerimônia e caminhou até o banheiro do outro lado da praça.

- Cara, que foi? – Daniel perguntou uma vez que minha namorada já tinha se afastado o suficiente para que não nos escutasse. Estavamos sozinhos e ele se reclinava sobre a mesa para que só eu pudesse ouvir o que ele sussurrava.

- O que? – Me fiz de bobo. Ele me conhecia bem demais.

- Ah, fala sério. Você ta esquisito pra caramba. Diz aí, que aconteceu?! Sério cara, fala aí! Eu so teu melhor amigo, não so?!

Olhei para ele, ali parado e olhei por mais tempo e por alguns segundos mais e olhei para o outro lado e para ele de novo. Pensei em esperar até a Amanda voltar, mas não ia ter jeito. Aí tentei inventar uma história qualquer mas minha mente estava tão confusa que eu não conseguia pensar em nenhuma resposta plausível.

- Sei lá, cara. Eu meio que… Eu meio que to gostando de outra pessoa. A Amanda é legal e tal mas eu acho que eu cansei dela ou alguma coisa assim. – Eu sacudi a cabeça e olhei para o outro lado, incapaz de fita-lo enquanto contava aquilo tudo. E o pior de tudo é que ele nem sabia.

- Ah, ta. Ah mano, é normal, mas você vai te que fala pra ela alguma hora. Mas fala aí, que é essa mina? Eu conheço?

Não disse nada, só voltei a olhar para ele, sério. Acho que de alguma forma eu queria que ele entendesse só pelo meu olhar. Não só me entendesse, me explicasse, por que eu também não estava sacando tudo. Mas de repente ficou difícil demais olhar para ele e pensar que aqueles cabelos castanhos emaranhados eram perfeitos, acalentando olhar para sempre aqueles olhos safira. Eu tive de olhar para o outro lado e senti meu rosto tomar traços pesarosos. Por que tinha de ser tão difícil? Talvez naquele momento ele tenha descoberto. Talvez não. Mas eu serei eternamente grato a ele pelo que ele fez naquele momento.

- Ei, Fê. – Ele pegou minha mão que agora estava espalmada em minha testa e apertou, me olhando com a testa franzida. – Olha pra cá. Ta tudo bem cara. Eu to com você. Você é meu garoto, lembra? Meu brother!

Ele riu e bagunçou meu cabelo com a mão livre. Um sorriso, devagar, começou a exigir seu lugar nos meus lábios e meu coração acelerou. Ele ia estar ali, não importa o que acontecesse. Então por que… Por que não contar?

- Ô Dani. Escuta aí. – Eu me esquivei dos cascudos dele e me acomodei na cadeira. – A gente já é amigo faz uns cinco anos. Mas é que hoje, no cinema, eu tava lá sentado entre você e a Amanda e aí eu olhei pra…

- Voltei! – Ouvi a voz doce e dolorosamente aguda de Amanda bem do nosso lado, antes que ela se sentasse ao meu lado, acomodando-se em seu lugar novamente, depositando meu braço sobre os ombros dela para que ela pudesse escorar-se em mim. – O que eu perdi?

- Nada. – Eu menti. Acontece que eu sou um péssimo mentiroso.

- Como nada? – Ela riu. – Vocês ficaram em silêncio olhando um para a cara do outro esse tempo todo?

- Na verdade, a gente tava falando do show, Amanda. Sabe, o do Green Day? A gente vai. Eu pedi pro Fê compra os ingressos. – Daniel veio em meu socorro, sabendo que Amanda não iria querer ser convidada para um show de rock.

- Ah, tá. – Ela respondeu e eu tirei um segundo para olhar para ela.

Senti pena de mim mesmo. Muita pena. E um pouco de raiva. Com ela tudo seria muito mais fácil. E lá estava eu, com a menina mais linda do mundo debaixo do meu braço, olhos castanhos grandes e delicados, cabelos lisos e compridos, dourados e brilhantes como raios de sol, pele bronzeada e macia e um corpo perfeito e tudo que eu mais desejava no mundo é que ela desaparecesse naquele momento.

E então olhei para Daniel, que sorria para mim daquela distância angustiante que parecia muito maior do que realmente era. Não, isso era tudo que eu queria.

Eu não descobri minha sexualidade naquele dia, não foi isso que me marcou. Mas uma coisa permaneceu em minha memoria sobre aquele dia: Eu amei pela primeira vez.

Notas finais
Desculpem por qualquer errinho ou falha, escrevi isso quando era bem mais nova e, bem, senti tanto carinho por ela que decidi não mudar nada quando a encontrei...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!