Os Karas : em Busca do Condor
8 Vai dar tudo certo
No dia seguinte como haviam combinado, Miguel saiu de sua aula de álgebra e caminhou até a quadra de ginástica. Nunca entrara ali antes. Era extremamente grande, havia aparelhos de todos os tipos espalhados por todos os lados. Cavalos com alças, argolas, barras fixas, barras assimétricas, barras paralelas, traves olímpicas, tatames azuis por todo o chão. Em volta, uma enorme arquibancada que se estendia ao teto onde se encontravam grandes refletores.
Miguel ficou maravilhado sentindo-se em uma olimpíada. Lembrou do Elite que tinha uma quadra desse tipo, mas bem diferente. A estrutura nem se comparava. A quadra do Elite era bem menor, tinha uma arquibancada simples e só tinha um aparelho de cada espécie. O rapazinho caminhava por entre os equipamentos deixando sua mão correr por entre eles e seu coração tomar as rédeas de seus sentimentos. Chorou como uma criança ao lembrar dos Karas. O avesso dos coroas. O contrário dos caretas. Não conseguiu mais segurar as emoções e se deixou largar no tatame abaixo de seus pés e se permitiu chorar copiosamente, ali, sozinho. Foi então que sentiu outra mão afagar a sua e a solidão e a tristeza perderam lugar para o conforto e a alegria de uma companhia. Ao virar-se avistou Peggy deitada ao seu lado na mesma posição apertando sua mão com um olhar amigo como quem diz “Fique calmo. Estou aqui com você. Tudo está bem,agora.” O jovem a retribuiu com um sorriso forçado e um olhar de agradecimento. A moçinha tomou-lhe a mão e conduziu-o por entre os aparelhos. Entraram na sala de uniformes. No canto, um pequeno armário de produtos de limpeza, talco e vassouras. No teto, um forro falso. Acima, um espacinho pequeno que abrigava no máximo duas pessoas. Era limpo, havia desenhos de criança colados nas laterais, um lampião a gás, pacotes de biscoito e um caderninho ao fundo onde na capa se lia “Diário da Peggy”.
- É este o lugar do qual te falei ontem.
- Me lembra o esconderijo dos Karas.
- Sinto muito, mas foram vocês que roubaram minha idéia. Fiz esse lugar primeiro. Venho para cá desde meus dez anos – ela riu.
- A atmosfera é bastante pesada e deprimente. O que você faz aqui?
- Você não imagina como é ser filha de Vossa Excelência o Senhor Presidente da República dos Estados Unidos da América. Muitos pensam que é o máximo só porque sou rica. Pois, eu preferiria mil vezes não o ser. Desde que nasci vivo no meio dessa gente falsa, desse mundo sujo e podre da política. Por isso, eu sempre andei deprimida, sozinha e excluída. Ninguém me tratava como uma menina comum. Eu via a falsidade escancarada nos rostos das pessoas. Então, descobri esse lugar e fundei a sede da Peggy. E é para cá que eu fujo quando me sinto mal.
- Nossa Peggy, eu sinto muito!
- Não. Não sinta. Temos algo mais importante com que nos preocuparmos.
- Diga.
- Preciso da sua palavra de honra de que absolutamente ninguém ficará sabendo disso.
- Você tem a minha palavra. Vá em frente.
- Meu pai vem desviando dinheiro dos cofres públicos há não sei quanto tempo, teve que parar por causa da crise econômica pela qual estamos passando e por isso interrompeu as negociações que fazia com a Long Line e agora eles estão ameaçando meu pai e como sempre vai sobrar para mim.
- Você disse Long Line? A empreiteira brasileira? Meu pai trabalhou lá durante muitos anos.
- Então seu pai deve conhecer os caras e vai poder nos ajudar.
- É, mas o que vamos fazer exatamente?
- Vamos pôr todos na cadeia! Ainda não sei como, mas vamos.
- Não se esqueça de que seu pai está envolvido, Peggy.
- E minha mãe. Ela é cúmplice.
- Você tem certeza de que quer fazer isso?
- Absoluta!
- Está bem, então vamos traçar um plano o mais rápido possível.
****
A execução do plano saíra melhor do que a encomenda. Nenhum ruído, nenhum vestígio foi deixado. Jogada de mestre, execução de gênio. Os três adolescentes e o gordo detetive surpreenderam o técnico e o preparador físico da equipe de ginástica olímpica do Elite e rapidamente amarraram suas mãos e pés, selaram suas bocas e vendaram seus olhos. Logo em seguida, Crânio se juntou aos amigos que pegaram as bagagens dos reféns e seus uniformes. Andrade pôs os capturados na mala do carro do técnico e junto com Chumbinho seguiu para sua casa, onde ficariam até a finalização da operação.
Crânio e Calu puseram respectivamente os uniformes de preparador físico e técnico. Magrí seguiu para casa de onde partiria com os pais em direção ao aeroporto. Na sequência, os rapazes deixaram a rua caminhando até o ponto de ônibus onde tomariam o transporte até o aeroporto e Crânio não devolveu aos postes a iluminação para não causar desconfiança deixando que a companhia responsável pela iluminação pública tomasse as devidas providências.
Já no aeroporto, Calu se dirigiu ao orelhão e discou:
- Alô!?
- Oi, é a mãe da Magrí?
- Sim, quem fala?
- Sou eu, o técnico. Olha, aconteceu um imprevisto e vamos nos atrasar, então, sua filha vai embarcar com os outros dois competidores apenas, nesse vôo. Nós pegaremos o vôo seguinte.
- Ah... Tudo bem então – a mulher desligou.
- E aí Calu, deu certo?
-Sim. Ela caiu direitinho. Vamos fazer o seguinte: vamos ao banheiro tirar esses uniformes e pôr os disfarces que eu trouxe. Depois, poremos as malas numa cabine do banheiro e a trancaremos e ao sair ficaremos sentados esperando a Magrí e os pais. Quando eles chegarem ela vai fazê-los ir embora com a desculpa de está-la envergonhando porque nós (os colegas) estaremos sem os pais. Assim que eles se forem, nós voltamos ao banheiro, pegamos as malas e vestimos os uniformes para embarcar. Essa é a parte do plano que você perdeu. Alguma dúvida?
- Não.
- Ótimo. Vamos nessa!
****
Harold adentrou o gabinete presidencial aparentando estar um tanto preocupado. Entretanto, sentou-se e dirigiu-se ao presidente americano da forma mais serena possível:
- Então, Wilbur, já decidiu o que vai fazer?
- Já, mas, infelizmente, não poderei mais contar com Anne. Ela está completamente fora de si. Tive que mentir e brigar com ela para que ela me deixasse em paz.
- O que disse a ela?
- Disse que tinha acionado o FBI, a CIA e a NSA.
- Você ficou doido? O que é que está acontecendo, o medo está te fazendo perder o juízo? Acorde homem! Onde já se viu, falar isso para ela. Já pensou se ela dá com a língua nos dentes para uma dessas instituições. Estamos acabados, na sarjeta. Acho bom você consertar isso!
- Você tem razão. Não tinha pensado nisso. Vou contar tudo a ela, então, não me espere amanhã.
- Por quê?
- Porque estarei morto – ele riu.
- Afe Wilbur. Péssima hora para fazer piada. – Harold lhe lançou um olhar de reprovação – Afinal, o que é que você resolveu com a relação à Long Line?
- Vou marcar uma reunião, entregar tudo que eu tenho em caixa e pedir a eles mais um tempo para eu retirar o país dessa crise.
- Sabe o que você está parecendo?
- Não.
- Uma menininha! – ele debochou – Quanta ingenuidade acreditar que eles vão aliviar a tua barra, Wilbur. Eles não vão. Vão sugar até a sua alma se possível.
- Não seja tolo Harold! Eles dependem de mim!
- Há há. Não, não. Aí é que você se engana. É você quem precisa deles. Foram eles que te puseram no poder Wilbur.
- Mas, o que eles fizeram também é ilícito, então, se eu cair, eles também caem.
- Tudo bem. Faça o que quiser. Quando se estabacar, me chame. Estarei aqui ao lado. Com a sua licença – e saiu.
“Onde já se viu” — pensava Wilbur – “Estão todos contra mim. Ah, se eu pudesse voltar no tempo. Nunca teria feito nada disso. Mas, agora, é tarde. Tenho que resolver isso.”
Nesse momento, o presidente disca para a secretária:
- Judith, marque uma reunião com o advogado chefe da Long Line, por gentileza – e desligou.
“Vai dar tudo certo. Eu sei que vai!”
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