Os Karas - Cigarros e Moscow Mule.
7 2. Testamento.
Notas iniciais
Brigas de irmãos dentro da igreja é o mesmo que assistir desavenças entre parentes: não existem respeito e princípios.
— Meu Avô.

—Eu desisto. — Crânio se levantou motivado pela repentina fúria que tomou conta de seus pensamentos. – Calú e Peggy não virão.
Todos os presentes no local suspiraram fundo. Uma mistura de decepção com aquele sentimento estranho de que... Por alguma razão, eles já esperavam aquilo. Miguel consultou o relógio no pulso, sendo alvo dos olhares de Magri e Chumbinho.
Crânio foi em direção a grande porta da igreja e tentou abri-la. Trancada. Bateu com força, chamando a atenção dos rês Karas e daquele dentro da igreja.
—Apenas quando os seis filhos estiverem aqui. — Disse o homem por de trás da porta -
—O quinto filho e a sexta não virão.
—Apenas com a presença dos seis.
—QUE?
Miguel suspirou. Deu três ou quatro passos chamou a atenção do amigo.
—Crânio, deixe como está. Vamos esperar.
O antigo gênio dos Karas tinha uma expressão de tensão.
—Calú... É melhor você ter sofrido um acidente. Caso o contrário...
Crânio não teve tempo para terminar a frase. Um som alto de motor de moto se aproximava da fachada da igreja. Os quatro amigos observaram assustados a aproximação repentina. Calú freou o mais preciso que jamais conseguira em anos pilotando uma moto. Peggy ria e parecia estar animada.
—Você é maluco. — Ela disse entre risadas.
—… Talvez, a proposito, chegamos.
Peggy olhou ao redor e logo localizou os quatro Karas os observando. Abriu o sorriso mais encantador que tinha.
—Lá estão eles.
Calú suspirou fundo. Não sorria. Removeu o capacete e os cabelos foram soprados pelo vento húmido da tarde. Ajudou a namorada a descer da moto e deixou-a ir à frente para conversar com os amigos.
—Peggy!— Chumbinho abraçou a amiga – Você está mais linda que nas fotos das revistas!
—Não fale esse tipo de coisa, Chumbinho... — Miguel disse coçando a cabeça – É muito bom te rever, Peggy.
—Peggy!— Crânio apertou a mão da garota -
Peggy caminhou por fim até a direção de Magri e se abraçaram.
—Ainda não entendi o motivo de largar a ginastica. — Magri se preencheu no abraço delas -
—Eu não conseguiria estar no mesmo nível que você de qualquer forma... — Peggy estava feliz de ver o pessoal – Tenho coisas que quero conversar com você, Magri...
—E ai Kara...— Miguel disse ao observar Calú -
O Mesmo evitou contato visual. Todos os cinco rostos se voltaram para o mais famoso dos Karas.
—Não vai me dar um abraço depois de anos?— Miguel abriu os dois braços em um tom leve de sarcasmo. Apesar de ter certo receio da resposta. -
Calú foi sem expressão para o encontro com aquele que já fora um dia o seu melhor amigo. No caminho, afagou a cabeça de Chumbinho. Sorriu para Magri e a cumprimentou com um beijo no rosto. Quando o abraço com Miguel aconteceu, Calú não evitou abrir um sorriso. Fazia quatro anos e mesmo evitando pensar naquilo, sentia-se levemente melhor na presença deles.
—Como vai, Miguel?
—Não vou tão bem quanto você. Seu filme é ótimo.
—sei como seu gosto é difícil. Bom saber que todos gostaram... – Disse entre meio riso -
—Eu não gostei!— Disse Crânio com os dois braços cruzados – Roteiro meio sem nexo...
Calú caminhou em direção de Crânio. Conforme se aproximava o sorriso recém-adquirido em seu rosto ia desaparecendo.
—Está bem, Crânio? — Perguntou sem vontade de ter a resposta -
—Como sempre... — Crânio e Calú apertaram as mãos. Um aperto de mão sem afeto. -… Muito bem. Só estou um pouco rabugento.
—Errou alguma conta de matemática? — O sarcasmo de Calú estava afiado -
—Não, você sabe, quando estudávamos no ‘elite’, eu entrava exatamente três minutos antes das provas começarem.
—Amor ao conhecimento, se supõe... — Calú não já não estava para brincadeira. Aquela conversa estava se provando extremamente cansativa. Exibia um semblante serio e ao mesmo tempo, desafiador -.
—Não... — Os olhos de Crânio se fecharam levemente - Odeio esperar.
Todos os olhos já se voltavam para os dois. Peggy foi a responsável pelo clima esfriar. Levantou a mão e sorriu timidamente.
—Gente, perdão, foi culpa minha. — Forçou um riso tenso — Meu português melhorou muito, mas há primeira hora aqui foi difícil. Andar por São Paulo é como andar pelos Estados unidos. Uma confusão.
Calú e Crânio ainda se olhavam. Como dois cães que gostariam de avançar ao ataque.
A Porta da igreja enfim se abriu e um homem vestido de branco contou os presentes.
— Seis... — Ele contou — Prestem atenção. Velado no altar se encontra o pai de vocês. Temos alguns convidados. A Cerimônia dura uma hora e após isso, vocês podem se despedir de forma mais intima do Detetive Andrade.
Andrade foi católico toda a sua vida. A Cerimônia foi baseada em sua religião, afinal, ele não possuía família. Perfilados, os Karas oravam pela alma do velho amigo. Peggy e Magri não conseguiram conter as lagrimas. Chumbinho também não, mesmo evitando demonstrar.
A Cerimônia fora dividida em dois atos. No primeiro era uma missa.
A Missa se encerrou com a seguinte sentença:
“Somos gratos por Andrade, e a vida que ele viveu. Que nós sigamos o seu exemplo, em ser feliz, e, especialmente, no desejo de ir para o céu. Embora seu corpo vai estar em uma tumba, ela vai continuar a falar para todos nós pela forma como ele viveu.
Nos ajude a lembrar que somos pó, e ao pó, havemos de retornar. Ensina-nos a contar os nossos dias, de maneira que possamos aplicar o nosso coração para a sabedoria.
Quando a nossa hora chegar de caminhar pelo vale da sombra da morte, que não temamos nenhum mal. Ajuda-nos a viver de tal forma que possamos ser enumerados com os justos, cujos corpos aguardam a ressurreição dos justos. Que possamos receber essa gloriosa imortalidade e viver contigo para sempre no céu. Sabemos que nesse dia, o Senhor vai enxugar todas as lágrimas dos nossos olhos. Lá Não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, e não haverá mais dor, pois todas as coisas antigas terão passado distante.
Oremos”.
O segundo ato se tratava de uma declaração dos filhos sobre o que Andrade representava para cada um deles.
“Um ser humano par em um mundo impar” — Crânio.
“Meu Segundo pai” — Magri.
“O exemplo do homem que quero ser no futuro” — Chumbinho.
“Um verdadeiro Herói e defensor da lei” — Peggy
“O Melhor que conheci” — Miguel.
Apenas Calú se recusou a falar o que deixou o clima do lugar mais pesado. Crânio serrou os punhos de raiva. Sentou-se no banco da igreja e tornou-se a admirar as luxuosas estatuas da catedral.
A Cerimônia por fim de encerrou depois de uma hora e meia, quase atingindo o pico das duas horas. Os Karas perfilados ao redor do caixão --exceto de Calú que estava sentado em uma das fileiras destinada a locar fiéis- se perguntavam o estado de Andrade dentro do Caixão.
—Vamos abrir?— Perguntou Chumbinho que mesmo tendo crescido, precisava se por nas pontas dos pés para ver. Seus olhos estavam inchados de choro. -
—Não, é desrespeitoso com Andrade. — Magri disse – Não se atreva.
—Magri, Eu confesso que também tenho curiosidade. — Miguel disse – Tem coisas que preciso confirmar.
—Não sei não me parece certo... — Disse Peggy que observava os colegas -
—Miguel!— Calú gritou, fazendo ecoar a sua voz pelo sagrado local -
Todos voltaram a sua atenção para Calú. Ele apontava para a entrada da igreja. Um rapaz jovem vestindo terno e outro senhor entrava na igreja. O outro senhor era mais velho. Aproximaram-se deles com certo cuidado.
—Vejo que vocês são os filhos de Andrade... Um momento, por favor — O Homem por fim buscou algo em sua pasta. O Rapaz foi em direção a eles -
Os olhou com certa admiração. Crânio notou timidez em seus olhos quando ele se aproximou.
—Nunca fui apresentado a vocês, mas, eu conheço bem cada um... — O Policial disse – Meu nome éNicolas Rodrigues,Há dois anos eu sou assistente do detetive Andrade. Ele me contou tudo sobre vocês.
Como sempre ocorreu, todos os olhos voltou-se para Miguel.
—É um prazer...— Disse Miguel -
—Andrade arrumou um ajudante então... — Crânio o observou -
Nicolas sorriu com o canto do rosto.
—Sim, Andrade começara a ter uma idade avançada. Aposentar-se-ia no fim do ano que vem. E Na realidade, estava de férias quando tudo...
—Espera ai!— Calú se levantou do banco da igreja e caminhou em direção a eles. – Disse que Andrade contou “TUDO” sobre nós?
A atenção do grupo voltou-se para Nicolas. Calú acabara de mostrar ao seu antigo time que aquilo poderia significar que...
—Sim, não deve ser surpresa pra vocês imaginarem a minha reação ao saber do que vocês são capazes... – Ele disse com certa timidez — mas isso é assunto para outro momento.
Calú tinha uma expressão de decepção. Que vinha junto com a sensação inerente de uma traição.
—Nicolas. Por favor. — Disse Miguel. Ele não parecia abalado com o fato de Nicolas saber do segredo – Éótimo que esteja aqui. Tenho duvidas que eu pretendo ver serem resolvidas o quanto antes.
—Um momento, Senhores. — O Homem que acompanhava Nicolas se revelou – Represento aqui o Sr. Detetive Andrade. Ele deixou algo para cada um de vocês.
O Homem tinha em mãos um bloco branco de papeis. Em colunas escritas o que cada um dos filhos receberia de seu “pai”.
—Para o pequeno Chumbinho, cujo real nome é... — Chumbinho engoliu seco de nervoso. Tinha curiosidade em saber o que lhe guardara o tão nobre amigo detetive -… Deixo uma quantia de seis mil reais, destinada a estudo. Observação: Está especificado aqui que, antes de Chumbinho atingir a maioridade se algo vir a acontecer com Andrade, o dinheiro deve sim, ir para os estudos.
Chumbinho suspirou decepcionado.
—Para Crânio, cujo verdadeiro nome é... — Crânio suspirou fundo. — Deixo metade dos meus pertences de casa para tratar como achar melhor. O Senhor Tem permissão assinada de Andrade para se livrar da forma que quiser dos pertences. Faça um leilão.
Crânio não gostou do tom do homem em “se livrar” de algo que fora de Andrade. Embora, não soubesse o que faria com aqueles pertences.
—Para Magri, cujo verdadeiro nome é... — Magri secou as lagrimas – Deixo a outra metade dos pertences e também a casa onde vivi. Que ela possa lhe ser útil.
Chumbinho deixou o queixo atingir o chão.
—Isso não é Justo Magri, você sempre foi a preferida do Andrade. — Reclamou Chumbinho. Miguel olhou em seus olhos e o colega e Chumbinho entendeu que era o momento de ficar calado. -
—Para Miguel... — Miguel encarou o caixão – Deixo minha coleção de cartões de viagem e uma quantia igual a de Chumbinho para uso de sua vontade.
Miguel não tinha o que reclamar. Nem reclamaria de qualquer forma.
—Para Calú...
—Eu não quero nada...
Crânio começou a caminhar na direção de Calú. O antigo gênio dos Karas iria ensinar o antigo amigo a ter boas maneiras, porem, foi impedido por Miguel.
—Continue senhor, por favor...
—Para Calú, deixo o meu carro, um Fusca 93 branco. Cuide bem desse velho amigo.
—Não acredito!— Chumbinho reclamou – Isso não é justo! Calú me dê o fusca.
—Chumbinho!— Magri disse por fim um tanto irritada -
—Existe outro nome aqui...
—É o de Peggy.— Miguel respondeu – O que Andrade deixou para ela?—
—Não estou vendo nada relacionado à senhorita em questão. — Ele colocou seus óculos – O Testamento está incompleto na sentença do sexto nome.
—O Que diz ai?
—E por fim, meu ultimo pertence, deixo a P...
—P... P de Peggy. — Chumbinho arriscou -
—Acredito que sim. — Disse Miguel -
—Bem, deixarei então com você até que se esclareça Senhorita Peggy... — O Homem disse por fim – A Você, ficou confiado o lenço do Detetive Andrade.
Chumbinho segurou o riso. Os outros acharam estranhos e se entreolharam, mas não questionaram, afinal era um pedido de testamento.
—Francamente, querida... — Calú disse com um olhar de desaprovação que incomodou Crânio uma vez mais – Eu troco com você se quiser.
—Estou feliz de Andrade ter se lembrado de mim, Não me desfarei desse lenço tão cedo.
O Homem se despediu e deixaram os seis Karas juntos de Nicolas.
—Miguel, disse que tinha uma duvida.
A atenção do Kara voltou-se ao dono daquela voz.
—Sim, Nicolas, Como Andrade veio a morrer?
—Bem, pelo que entendi... Ele estava em sua casa, tinha voltado de férias. Viajou para o México. Voltou cheio de vontade de viver... Mas veio há morrer uma semana depois.
—Espere um pouco!— Crânio o interrompeu –Isso significa que Andrade não morreu em operação?
—Não. Andrade morreu em sua casa.
Todos os olhos se voltaram para Miguel. Chumbinho parecia ter entrado em um estado elétrico.
—Não posso acreditar nisso... — Miguel disse sério -
—Andrade...
—Nicolas, quem você acredita que poderia ter algo contra Andrade? — Crânio perguntou -
—Não me digam que vocês pensam em investigar esse caso? – Nicolas perguntou com certo triunfo em sua voz -
—Não, não pensamos. — Disse Miguel -
—AH, Miguel, eu fico feliz de saber que alguém pensa como eu por aqui... — Disse Calú que apoiou as costas em uma grossa coluna de mármore -
—Nicolas, peço que compartilhe tudo o que sabe sobre a morte de Andrade conosco.
—…
Nicolas encarou o olhar de todos os seis membros dos Karas.
—Muito bem, mas não falaremos disso aqui. Vamos enterrar o caixão de Andrade e conversamos sobre isso a noite. Frequentam bares?
—Sim. — Disse Calú para a surpresa e decepção dos Karas -
—Muito bem, então... Nos encontramos no Bar P&C as 19h. Até mais tarde.
—Peggy!— Calú chamou a atenção da namorada e os dois saíram da igreja. Peggy acenou para o grupo –
—Nos vemos mais tarde... – Disse Peggy se apressando e indo arás de Calú.
Os Karas assistiram o dois saírem da Igreja. Não iriam enterrar Andrade. Chumbinho exibia uma cara feia.
—Não posso entrar dentro de bares, estão lembrados?
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