Notas iniciais
Segundo cap. Do terceiro arco. Reunindo o grupo todo. Boa leitura.

Magrí cumprimentou o dono da empreiteira. Andrade deixara a casa para ela, e ela gostaria que a casa fosse ocupada por outra família. Acreditava que Andrade iria querer o mesmo.

Não poderia morar lá, nem sublocar com aluguel. Vender a escritura fora o que decidira fazer. Pensava no que faria com o dinheiro. Dispunha de um valor alto de renda. Maior do que o amigo detetive possuiu na vida.

Na tarde, bateram na porta da casa de Andrade. Magrí lia um livro sentada a mesa de jantar que ainda não havia sido removida. Deixou de lado o livro e foi abrir a porta. Sorriu quando viu quem chegou.

—Boa Tarde. Vim ajudá-la. Sou Miguel.

Magrí seguia Miguel com os olhos por cada canto da casa de Andrade. Ela parecia um tanto incomodada. Estavam os dois sozinhos. Miguel observava o local com um ar de surpresa e curiosidade. Magrí serviu um café.

—Ainda não me disse a fundo o que conversou com o Dr. Q.I - Magrí segurava a xícara e a encarava esperando Miguel responder suas perguntas -

—Bem, Q.I é dono de um psicólogo assustador. Digo... Era. - Miguel disse se sentando -

—Com certeza não é a experiência mais agradável. Se não tivesse ido, não teríamos avançado.

—Agradeça o Calú. Ele quem pensou nisso.

Silêncio.

—Tenho notado seus olhos recentemente… -Magrí disse- Sempre olhando pro nada...

Miguel encolheu os ombros.

—Foi o ritmo que eu adotei nesses últimos dias. Tenho pensado em algumas coisas…

—No que, por exemplo?

—Talvez conhecer o Andrade de verdade.

Magrí olhou ao redor.

—Somos adultos, Miguel…

—Sim. Eu sei. É só… Eu não sei. Q.I me deixou com isso na cabeça. Morais também. Seria o Andrade tão bom quanto pensamos?

Magrí serviu o café e perguntou se Miguel tinha fome. Ele respondeu negativamente.

—Enfim. Aquela é a sua caixa. Andrade gostava de cartões postais.

Miguel observou a pequena caixa de sapatos. Lotada até o topo de cartões postais. Sorriu. Era o que Andrade deixara para ele.

—Sinceramente, nunca imaginei que Andrade tivesse viajou tanto.

—Olha essa aqui. Foi da época que buscamos o Crânio no pantanal.

O cartão postal era mais novo do que a grande maioria. Era uma pequena caixa de sapatos. Mas cada um tinha uma data e um endereço. Escrita do próprio Andrade. Era uma bela forma de recordar o amigo detetive.

Miguel observou Magrí com o canto dos olhos. Aquela mulher forte e independente. Admirada em todo o país e desejada por ele.

—Magrí… O que vai fazer hoje?

—Cuidar dos pertences do Andrade. Quero resolver tudo isso até amanhã, no máximo. Está com vontade de matar aula na faculdade? — Ela sorriu -

—Não sei... Acho que estava simplesmente com vontade de te ver. — Miguel disse, sendo muito honesto -.

Magrí sorriu surpresa.

—Estudante de advocacia, ex-líder dos Karas, faz longas pausas para refletir e pensar estratégias, ex-presidente do grêmio de um dos melhores colégios do Brasil… Esqueci alguma coisa?

—Que ele tem uma amiga que tem a vida fora dos trilhos. — Miguel retribuiu o sorriso -

—Como anda a vida amorosa?

A pergunta pegara Miguel de surpresa. Não soube o que responder. O Líder dos Karas disse com uma sinceridade maior do que gostaria.

—Nada de muito extraordinária. Uma vez ou outra me relaciono com alguma conhecida. Nenhuma delas é interessante.

Magrí deu uma gargalhada. Miguel sorriu.

—O que é tão engraçado?

—O modo como você disse. Definiu-me completamente.

Sorriram como um casal de amigos perante uma cena cômica.

—Faz quase dois anos que não me relaciono com alguém. — Ela se aproximou - Tive um “Quase namoro” com um repórter esportivo… Mas eles não são…

—Interessantes? - Miguel se aproximou de Magrí -

—Leu a minha mente. — Os olhos de Magrí fecharam-se lentamente.

Três batidas na porta interromperam o ato que se seguia. Magrí observou a porta com certo alívio, mas ao mesmo tempo, irritada.

—Poderia assinar alguns documentos da negociação?

Magrí cumpriu o ato com muitas coisas na cabeça a atrapalhando. Seus olhos seguiam Miguel pela pequena sala de Andrade. O Rapaz se levantou. Magrí detectou certeza em sua face.

—Obrigado. -Assim que o tal elemento se foi, Magrí fechou a porta voltando a sua atenção para Miguel -.

—Vender uma casa é mais complicado que resolver um…

—Dane-se. -Miguel puxou Magrí para o seus braços e beijou a sua boca. Ele pode sentir a aroma de Magrí, sentir sua pele... Naquele momento, Magrí era um deleite para todos os seus sentidos.

Ela demorou um pouco para retribuir, com a mesma intensidade de Miguel. Eram desejos há anos reprimidos que acabavam de se tornar uma (confusa) realidade. Miguel se afasta dos doces lábios de Magrí e a observa. Ela enlaça os braços no pescoço dele.

—Eu choquei você?

—Não. — O silêncio na casa, desta vez era ocasionado por beijos já muito atrasados pela vida. Aquelas duas almas, corriam atrás do tempo perdido.


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Chumbinho tirara ao todo, sete notas nove e três dez. Em anos, nunca havia tirado notas tão altas. Todos estavam surpresos com o rendimento do jovem garoto elétrico, com exceção do próprio.

Desde a saída dos Karas do Elite, Chumbinho tentou embarcar em uma espécie de carreira solo. Ele agora seria o líder dos Karas. Mas, o vento soprou forte, e a história dos Karas dentro do colégio elite que sempre foi um segredo, sem ⅘ do time, estavam fadada a serem memórias.

Chumbinho até então nunca tinha questionado isso. O time nunca tinha sido uma criação sua, mas temia perder aquilo tudo. Ser um Kara era ser o oposto de um careta. E Chumbinho, que logo seria um adulto, refletiu se gostaria de ser como seus queridos amigos.

Chumbinho era o último Kara. Na sua cabeça, poderia estrelar um filme. Não atuava bem como Calú, obviamente, mas não era de todo ruim.

A professora deu ordens para formarem um grupo para um projeto novo. Chumbinho observou seu time. Quatro adolescentes e um Kara.

Porque as coisas precisam sempre mudar?


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Miguel ajudou Magrí com as caixas de pertences de Andrade. Roupas foram doadas, móveis leiloados, só restavam duas caixas. A dos pertences mais íntimos e pessoais do amigo detetive. O relógio já passava um pouco mais das quatorze horas quando Magrí lembrou-se de algo divertido.

—Já viu a foto do Andrade jovem?

Magrí exibiu a foto. Andrade parecia ter saído de um musical dos anos 60. Estava usando camiseta social e os cabelos levemente bagunçados. Um sinal claro de uma rebeldia da época. Parecia que o vento havia soprado no instante da foto. Ele estava magro e exibia um rosto de certa forma Blasé.

—Uau.

—Uau mesmo, Andrade era bonito. - Magrí disse provocando Miguel que retribuiu com um sorriso sarcástico -

O Líder dos Karas se aproxima de uma outra foto e fez um comentário.

—Está senhora da foto, ela também poderia ter sido muito bonita…

Miguel observou a fotografia destruída pelo tempo. A foto não evidenciava quem era a mulher. Seu rosto estava obstruído por má conservação da fotografia. Miguel virou a parte de trás e pode observar aquela sequência de palavras.

““U•a •e•••ia de ••a et•r•• •••da””

—Magrí… — Miguel observava a foto com muita concentração — Já chegou a ver isso?

—Fala do recado na parte de trás? Sim. Mas não consigo interpretar. — Magrí levantou-se sorrindo - Mas, tenho a impressão que você consegue.

—Essa é a letra do Andrade.

Miguel se sentou e observou a sequência de letras destruídas pelo tempo. Magrí recostou-se na cadeira. Sem pensar, pôs os pés em cima da caixa onde estavam os álbuns de foto e outras memórias antigas.

—Tenho certeza que essa é à letra do Andrade. Quem é essa mulher? A mãe dele?

—Não consigo me lembrar de nenhuma vez que o Andrade citou alguma coisa relacionada à mãe dele... —Magrí disse -.

Silêncio. Desta vez, nada romântico.

—O que faremos? - Magrí perguntou

—Vou ligar para os Karas. Não tenho certeza de que esta pista nos leve a algum lugar, ou se estaremos perdendo tempo. Nicolas está investigando quem envenenou o Andrade. Talvez isso nos de algum indício de quem possa ter feito algo contra ele.

—Mesmo que todos nós já desconfiamos no ex-detetive Morais? — Magrí disse -

—Eu não tenho motivos convincentes para desconfiar dele. Ainda.

O olhar de Miguel tinha a estabilidade da certeza. A mesma certeza que o fez, a alguns momentos atrás, a beijar como na cena de filme de Hollywood. Magrí sorriu de repente.

—Ligue para os Karas, por favor. — Ali se mostrou novamente o líder dos Karas em sua essência.

A foto era alvo de algo totalmente inesperado. Andrade nunca tivera uma família. Guardar uma foto de alguém, então, demonstrava o gigantesco afeto que ele havia por aquela pessoa. Miguel refletiu, por menos de um minuto, se fazia isso por Andrade ter sido morto, ou para sanar a sua curiosidade para com as pessoas que Andrade guardou o mínimo de afeto.


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Calú estacionou a moto em frente a um local que chamou a sua atenção. O bar ainda estava fechado e ele observou atentamente o local. “Moscow Mule”. O mesmo bar que Crânio havia passado com Maria. Calú, obviamente não tinha ciência do fato, mas um pequeno conflito havia se instalado em seu ser.

De fato, ele adorava a bebida a base de vodca. Era uma gostosa (e cara) iguaria. Mas, claro, tinha feito uma promessa para si mesmo. Não iria mais beber.

O ator dos Karas sentiu dois olhos o fitavam,. Vinha andando com confiança em seus passos. Seus olhos eram negros e o cabelo loiro brilhante estava escondido por um belo chapéu de Cowboy. Na sua mão, uma caneca da bebida que dava nome ao bar. Recebeu Calú com um sorriso.

—Lamento muito, estamos fechados. Mesmo para o senhor. Desculpe a forma informal. Eu sou um grande fã.

Calú sorriu. Observou ao homem e tirou o capacete.

—Não estou o julgando, mas… Não está um tanto cedo para beber? Moscow Mule é um tanto forte.

O homem sorriu.

—Sim, não se engane pelo seu gosto doce. Ela é uma bebida má. Mas, tenho resistência. Afinal, sou eu quem a preparou aqui. - Ele sorri — Este bar é meu.

Calú sorriu por educação.

—Entendo.

—Volte aqui mais tarde, e te oferecerei a melhor Moscow Mule que já te serviram na vida. Não querendo me gabar, mas eu já servi ministros em boa parte do mundo e sempre afirmam que a minha receita supera a dos russos.

Calú gostou daquele sujeito.

—Certo qual o seu nome?

—Paolo.

Apertaram-se as mãos.

—Certo Paolo. Vou me lembrar disso.

—Volte. Traga sua linda esposa para provar a iguaria. Vocês não se arrependerão. Estou aberto todas as noites, mas só sirvo as Moscow Mules a partir das dez.

Calú ligou a moto. O sotaque daquele homem o fez refletir por alguns momentos. Era espanhol. Riu. Um latino fazia bebidas russas melhores que os próprios russos. Irônico.

Assim que chegou ao hotel, recebeu o telefonema de Magrí. Peggy já havia sido chamada. Esperava por Calú. Disfarçados os dois saíram do Hotel como dois desconhecidos. Observou os fotógrafos ao longo da calçada em frente ao hotel. Calú apreciava os raríssimos momentos de anonimato em sua vida.

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Crânio fora o último a chegar à casa de Andrade. Observou a imponente moto de Calú. O carro de Miguel e a bicicleta de Chumbinho disputando espaço contra os veículos. Sorriu. Bateu na porta da casa do detetive Andrade. Meio minuto até que alguém abrisse.

Foi recebido por Peggy, que abrira a porta com um sorriso. Algo cômico de se pensar. Que uma modelo internacional acaba de abrir uma porta para o gênio dos Karas.

Todos agora estavam reunidos. Seria o momento de fazer algo inédito na história dos Karas. Os seis, juntos, iriam investigar.

Todos os olhos voltaram-se para Miguel. Sentados a mesa, a expectativa era enorme.

—Bem…

—Miguel. - Chumbinho o cortou. Todos os rostos se voltaram para o adolescente — Poderíamos pelo menos nos sentar no chão em homenagem ao velho esconderijo que descansa em paz?

Um a um os Karas se encararam e não puderam conter o riso. Nenhum deles entendeu o porquê, mas todos se sentaram no chão, ao redor da foto e das anotações que Miguel, Crânio e Chumbinho haviam feito ao longo do caso.

Uma segunda investigação se iniciava.

Notas finais
Essa semana, teremos mais um cap. Até lá. Obrigado por ler. =)