Os Karas - Cigarros e Moscow Mule.
19 14. Cicatrizes fantasmas.
Notas iniciais
Morais Santos, ex-detetive, cinquenta e nove anos, abaixou a mão da arma e contemplou a confusão no rosto daqueles cinco jovens adultos. Encarou Chumbinho com olhos de reprovação.
—Você. Eu sabia que traria problemas, pivete.
Chumbinho não disse nada. O velho de cabelos brancos caminhou em direção ao grupo. Calú deu um passo à frente.
—Não se aproxime. — Calú se botou entre Crânio e o velho –
Morais empurra Calú com má educação e vai até Crânio. Calú pensou em socar o velho, porém teve o braço travado por Miguel.
O dono dos fios grisalhos observou Crânio. Olhou nos olhos do garoto e suspirou.
—Não vai morrer. Já vi pessoas em estados piores. Vamos levá-lo para minha casa.
Ele observa o grupo em silêncio. Suspira.
—Estou falando com vocês, seus m*rdas. Vamos logo.
Calú tremeu de raiva. Morais caminhou em direção até Nicolas. Observa o bandido gordo que ainda estava rendido.
—Escória. — Ele diz –
Miguel se aproxima de Magri.
—Ele é um radical. Já entendi.
—O que vamos fazer?
—Ele parece saber quem nós somos… Vamos esperar.
O susto foi grande. O velho atira no joelho do gordo bandido que cai em lágrimas. Ele não parecia nem um pouco afetado pelo bandido.
—Esses capangas do Q.I me dão dor de cabeça. Eu tenho vontade de entrar na penitenciária e transformar ele em uma peneira.
Nicolas o observa.
Ele suspira e o encara.
—Vamos logo. Eu quero almoçar ainda.
•|•
A casa de Morais passou a impressão de um lugar estranho e desconhecido quando Nicolas entrou pela primeira vez naquele lugar. Ajudava Miguel e Calú a trazerem Crânio para dentro.
Morais os encarou. Sumiu da vista deles por meio minuto até retornar com uma caixa de primeiro socorros. Ele a atira no colo de Miguel.
—Ajude seu amigo de cabelo falso.
Os últimos sete anos tinham sido marcados por uma inquietação em sua aposentadoria. Problemas do lado de fora. Em anos em silêncio, milhares de problemas estouraram no país como se um vulcão que até então era desconhecido, despertasse de um sono de mais de seis séculos.
—Como você nos conhece?— Magri deu um passo à frente.
Morais suspirou. Vai até Crânio, diz alguma coisa pra ele e começa a fechar o buraco. Crânio urra de dor. Ele começa a falar.
—Sou ex-detetive. Conheci Andrade na época de treino.
—Ainda não respondeu a pergunta. — Magri foi fria -
Ele não se importou.
—Não gosto de pensar naqueles anos do começo da minha vida como detetive. Fazem-me sentir uma fragilidade e um sentimento de raiva inacreditável. Eu me lembro dele… Cabeludo, magro, mas dono de um charme que, sinceramente… era insultante.
Os Karas estão em silêncio.
—Ah... Andrade. Meu bom e velho amigo. Eu evito pensar nele, também. Nossa diferença nos nossos dias atuais deve ser uma brincadeira do destino.
Peggy não entendeu.
—O que quer dizer?
—Não importa. Éramos bons amigos. Até que no último ano ele se distanciou. Íamos para o treino juntos, logo, passamos a ir por caminhos diferentes para o mesmo lugar. As pessoas notavam que eu e ele já não nos falávamos. Um ano depois, assim que se acabou nosso treino e recebemos nossos distintivos ele foi viver a vida dele.
—Nunca mais o viu?— Miguel perguntou –
Ele o encara.
—O vi há… Quatorze anos. Nesse dia, terminamos com um olho roxo e um dedo da mão partido.
Os Karas se entreolharam. Miguel suspirou fundo. Afastou-se de Crânio e entrou na frente de Morais.
—A pergunta da Magrí.
Ele bufou cansado.
—Fui afastado por problemas psicológicos depois de doze anos. Uma aposentadoria precoce. Fiquei fora do Brasil por alguns anos, pedi para manter o meu distintivo e fiquei por aqui, onde nasci. Mantive-me afastado do mundo da polícia. Até, o dia em que chegou aos meus ouvidos que alunos dos colégios de São Paulo começaram a desaparecer.
Os Karas se entre olharam. Chumbinho então sorriu.
—Fiz uma breve pesquisa para saber quem estaria responsável pela investigação. Qual foi a minha surpresa ao saber que seria o Andrade o líder da investigação.
—Foi nessa época que conheci o Andrade. - ele disse -
—Andrade tinha se aliado ao mais novo detetive. Rubens. Um bom homem que respeitava a lei. Era uma boa pessoa. — Ele volta a sua atenção para Crânio. Coloca no braço do rapaz uma gaze e fecha o buraco. Entrega uma pílula. — Não vomite e durma.
Ele volta sua atenção aos Karas.
—Rubens era um canalha. Desde aquela época era para o jovem Nicolas ser o auxiliar de Andrade, mas, Q.I já impunha as suas iniciais na própria força policial. Cardoso. Aquele desgraçado. Ele tem influência na polícia até hoje. Mesmo depois de anos. Foi assim que fiquei ciente da existência de vocês.
—Por conta da época dos eventos da Droga da Obediência… - Calú tinha os dois braços cruzados -
—A partir do dia em que Andrade começou a se relacionar com vocês. Quando a filha do presidente dos Estados Unidos agradeceu ao “incrível” detetive por ter resgatado ela…
Calú não gostou do tom.
—Olhe bem a maneira que fala do Andrade.
Morais o fuzilou com o olhar.
—Cale a sua boca.
Miguel entrou no caminho entre os dois.
—Andrade era um detetive incrível. Ele tinha habilidade. Fazia coisas acima dos demais.
—Dito do garoto que deu a ele todos os títulos que ele tem hoje.
Droga. Como ele sabia?
—Andrade nos ajudou e nós os ajudamos. Ele era o melhor para isso. - Calú disse — Você deve ter inveja. Não teríamos passado da primeira semana com você no lugar do Andrade.
Chumbinho observou Magrí. Calú provocava o velho Morais como se o convidasse para uma luta. Miguel o observou. Até aquele momento, Calú não tinha mostrado esse lado em relação ao velho amigo detetive.
Morais não demonstrou, mas se ofendeu com o que havia sido dito.
—Calú… — Nicolas começou, mas foi cortado por Morais -
—Eu? Inveja… Talvez. — Ele olhava nos olhos de Calú — Você, rapaz, não conhece nem metade da pessoa que você defende. E mesmo assim, o defende como um cãozinho leal ao seu dono. Tenho inveja de Andrade conseguir controlar as emoções de gente como você.
—Ah, claro. Quem conhece é você. Um detetive invejoso que sempre se fixou em ter tudo o que o Andrade teve.
—Ter tudo? O que? Eu e ele tínhamos o mesmo. Nada. Nunca tive família. Nunca fui o mais popular do meu ciclo. Você deu a ele toda essa fama. Ele nunca mereceu. Ele mentiu sobre as coisas que fez para a mídia. Acha mesmo que ele amou algum de vocês?
—Cale a sua boca.
—Colocou uma auréola na cabeça do diabo, seu idiota. Andrade era um grande filho da…
O punho direito de Calú foi debaixo do queixo do velho Morais. Um pouco no lado esquerdo. As pernas do velho Morais começam a ceder e ele se apoia na pia da cozinha que estava atrás dele.
Calú caminhou até o velho e o pegou pelo colarinho. Miguel e Nicolas seguravam juntos, cada um com um de seus braços, os ombros direito e esquerdo do amigo.
Calú estava enfurecido. Magrí, Peggy e Chumbinho nada poderiam fazer.
—Calú… Pare.. — Peggy disse -
—Fala de novo isso, e eu arrebento a sua cara. - Calú disse — Nunca mais fale do Andrade na minha frente, seu miserável.
Morais suspirou. Sentia o queixo dolorido. Suspirou e observou dois filhos de Andrade a sua frente, junto com Nicolas.
Calú não esperava por aquilo. Recebeu uma cabeçada tão violenta, que alguém menos preparado, ou com o sangue menos quente do que o de Calú, apagaria na hora. O golpe afasta Calú. Dessa vez todos os Karas estão de pé.
—Vocês… Filhos de Andrade me irritam. Andrade nunca teve filhos, aquele bruxo. Ele consegue fazer essas pessoas desconhecidas se apegarem a ele. O Andrade que conheci não era digno de tanto respeito.
Miguel, naquele momento parou o que estava fazendo. Sentiu-se extremamente desconfortável. Ouvirá as mesmas palavras da boca de Doutor Q.I. Um homem do crime e um radical da lei. O benefício da dúvida acabava de ser plantado.
Observou ao rosto de Morais. Ele tinha raiva em seus olhos.
—Saiam daqui. Saiam da minha casa. — Ele atira uma nova caixa de primeiros socorros no peito de Calú –
Ficaram mais trinta minutos antes de saírem em dois carros da periferia.
•|•
Magrí, Crânio, Peggy e Calú andavam no fusquinha de Andrade. Magrí conversava com Peggy.
—... É um sucesso parcial… Ou um meio fracasso? — Pergunta Magrí –
Crânio foi quem respondeu.
—Não foi um fracasso… — Ele olhou para Magrí — Calú e eu só estamos com as marcas de uma missão que foi realmente cumprida.
Peggy encarou Calú. Ele olhava para a janela. Ela acaricia o rosto do namorado.
—Vai ser difícil de explicar… — Ela sorriu –
Ele não olhava para ela, mas apertou a mão de Peggy.
Crânio observava o perfil de Magrí dirigindo. Ele não entendia o que sentia, mas ver ela por debaixo do disfarce que Calú criara a tornava menos interessante. Sentia-se distante dela, mesmo estando ao lado, no banco da frente de um carro. Com uma mão ele tocaria em seu rosto. Lembrou-se dos beijos que trocaram quando novos… E suspirou. Finalmente parecia estar entendendo. Aquele tempo havia passado. Era a hora de assumir.
Miguel estava quieto. Ele observava o laudo no banco de trás. Chumbinho estava em silêncio.
—Encontramos.
Miguel não respondeu.
—Vou levar para a delegacia. Depois, encontro com vocês para mostrar uma cópia.
—Amanhã, por favor…
—Amanhã? Por quê? -Chumbinho parecia impaciente -
—Pensar, Chumbinho… Preciso muito pensar. - Miguel encerrou assim o assunto.
Calú mentira para a mídia, disseram que caíram da moto e se machucara. Não usou capacete… Enfim.
Todos os Karas passaram aquela tarde em seus próprios mundos particulares. Era preciso depois daquilo. A resposta para as perguntas… Seria aquela a última noite em dúvida? Se Andrade morreu no dever… Ou alguém havia o matado?
Uma coisa era certa… Miguel, em especial, já não sabia com total certeza das ações de alguém tão querido.
Nicolas chegou ao local durante uma grande discussão. Uma rebelião na penitenciária.
—Qual o problema?
O delegado de polícia.
—Tá tudo uma loucura aqui hoje. Confusão na penitenciária. O Q.I está morto.
Nicolas suspirou. O dia seria muito, muito longo.
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