Os Karas - Cigarros e Moscow Mule.
15 10. Na pista do subordinado.
Notas iniciais
A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória. Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.
—Me deixa ver se eu entendi… — Disse Nicolas entre uma garfada e outra, os dois olhos fitavam Miguel que ainda tinha um semblante muito perturbado — O último capanga vivo do Dr. Q.I está com o laudo do Andrade?
—Exatamente. — Miguel começava aos poucos a ter uma aparência melhor. O encontro com o Dr. Q.I era um teste de resistência psicológica. — Ele se esconde em alguma periferia de São Paulo. Deve ter ganhado uma grana alta pra manter isso escondido.
—Se envolver com bandidos é muito difícil. Se um deles vir o seu rosto, adeus. E devo te lembrar de uma coisa… Calú não pode aparecer. Ele é famoso. Peggy e Magri também não poderão.
—Mas que droga!- Miguel praguejou com intensidade a mesa -
—Sobrou para nós dois e Crânio.
—Não desconsidere o Chumbinho. – Miguel disse sem olhar para Nicolas -
—Não acho certo ele estar envolvido nisso.
Miguel o encarou. Olho no olho
.
—Nicolas, o Chumbinho já passou por tantas coisas quanto você quando o assunto é bandido. Já ficou preso junto com sequestradores no pantanal, já enfrentou neonazista… e coleciona vitórias contra capangas do Dr. Q.I antes dos seus dezoito anos.
Miguel tomou um gole d'água e observou Nicolas com um sorriso.
—Você está agindo como Andrade, cara.
—Então, estou agindo como uma boa pessoa… — Ele disse sorrindo—.
Miguel parou por um segundo e refletiu. As palavras que o Dr. Q.I disseram se repetiam em sua mente. Andrade seria capaz de esconder algo de seu passado todos esses anos… Não, muito provavelmente aquilo tudo era mentira. Dr. Q.I sempre jogou com todos a seu redor… Tinha que ser isso. Era apenas uma manobra para atordoar Miguel.
—Qual o próximo passo?
—Vamos precisar analisar o registro de ocorrências. Alguém deve ter visto os bandidos. Devem ter ocorrido em algum local depois do desaparecimento do laudo do Andrade ao menos um indício deles.
Nicolas se surpreendeu.
—Vocês nunca param de me impressionar. Certo. Vou providenciar. Vai fazer alguma coisa hoje à noite? Podemos começar hoje mesmo.
—OK. Esteja lá em casa, às 17h.
O almoço se encerrou e cada um seguiu seu caminho.
As anotações de Crânio sobre seu projeto levaram um pouco mais de tempo para serem feitas. Poucas pessoas notaram que Crânio vestia as mesmas roupas do dia anterior, e que chegara junto de Maria no campus.
Maria fazia a tudo com um sorriso bobo no rosto. Desviava a atenção dos tubos de ensaio para observar a Crânio volta e meia.
O Gênio dos Karas por sua vez, variava seus pensamentos em dois rostos femininos. Magri e Maria. Era mais difícil esquecer Magri do que parecia. Porém, Maria começara a despertar em Crânio algo diferente. Diferente do que ele sentia por Magri, mas tão bom e satisfatório quanto.
“Droga!” Crânio pensou. As mulheres tiravam dele a concentração. Começou a focar-se completamente ao experimento. Química orgânica. Hidrocarbonetos para ser mais exato. Sua área preferida.
Crânio aprendera na escola que Hidrocarbonetos eram o nome genérico para compostos binários de carbono e hidrogênio. Estaria usando agora Alcanos ou parafinas. Estes dois eram hidrocarbonetos de cadeias alifáticas saturadas, ou seja, apenas ligações simples. Eram insolúveis em água e, em geral, os pontos de fusão e de ebulição aumentam com o aumento do número de carbonos. Brincadeira de criança para o gênio dos Karas.
Seu raciocínio foi interrompido por um funcionário do laboratório.
—Telefone pra você.
Crânio saiu da sala. Os olhos de Maria o seguiram.
—Quem fala?
—Crânio, sou eu.
—Miguel? Qual o problema? –Crânio não tentou esconder uma surpresa, ou qualquer coisa do gênero.
—É o seguinte, preciso de você para uma missão importante. É referente ao caso Andrade.
—Eu não sou da sua equipe de investigação, caso não se lembre.
—É importante, vai por mim. Pode aparecer aqui mais tarde?
—... -Crânio suspirou— Tá, eu vou…
—Ok. 17h.
—Tchau.
°|°
Calú se segurava para não bocejar.
O desfile de moda em que fora convidado a assistir estava mais tedioso do que de costume. Não era um cara que ligava para a alta moda. Vestia o seu coração. Claro, é difícil de acreditar quando a jaqueta de couro que ele vestia custava mais de novecentos dólares.
Peggy tinha um dia livre. Não foi para o desfile de moda. As modelos sempre disparavam seus olhares sedutores para Calú, ao invés de olharem para as câmeras. Um fato, que Peggy não demorou a perceber.
Calú sabia que diversas modelos nacionais e internacionais eram loucas por ele. Já teve a oportunidade de encontrá-las vez ou outra, o que era um prato cheio para os urubus da mídia. Boatos e mais boatos. Calú não ligava para nenhum deles, desde que não envolvessem o nome de Peggy.
Em meio ao tédio do desfile, Calú começou a refletir sobre o caso Andrade. Já havia se envolvido mais do que queria a essa altura. Perguntou-se como estaria Miguel depois do encontro com Dr. Q.I que havia sido ideia sua. Levantou-se e caminhou para uma área especial do evento.
—Posso fazer uma ligação?
Calú ligou para Miguel. Ele atendeu no primeiro toque.
—Alo?
—Miguel. Sou eu.
—Mas que droga Calú, Eu tentei te ligar o dia todo, cadê você?
—Estou num desfile rodeado de supermodelos rezando para deus me matar o mais rápido possível. Como foi a visita ao Q.I?
—Kara, você precisa vir pra cá. Agora.
—Eu sabia que você tinha algo a dizer…
—Eu tenho MUITO o que te dizer, Calú. Vem logo.
—Tá, ok ok.
Calú se dirigiu a saída do local. Era mais divertido brincar de Kara do que ficar assistindo a desfiles. Os únicos desfiles que Calú se importava eram os que Peggy era uma das modelos. Sem o brilho da sua escolhida no palco, tudo tinha menos graça.
°|°
Chumbinho saia do Colégio Elite com pressa. Iria conversar com Miguel sobre tudo o que se sucedeu do encontro com o Dr. Q.I. Chumbinho gostaria de ter ido. Não pensava o mais jovem dos Karas que havia sido tão ruim.
Foi andar de bairro em bairro, sem bicicleta, sem parar pra pensar na escola ou nos colegas. Tinha em mente a vontade de viver mais aventuras.
A casa de Miguel não era tão distante do colégio Elite. Quando chegou reconheceu a viatura de Nicolas na frente da casa.
Esperou que abrissem a porta. Calú foi quem abriu.
—Caramba, um astro de cinema abrindo a porta pra mim?
—Haha. Entra Chumbinho.
Uma cena memorável a sua frente. Miguel, Crânio e Nicolas olhavam papéis diversos ao redor da mesa. Eram os registros de ocorrência.
—Isso sim é o que eu chamo de time investigativo. Até temos o Crânio dessa vez.
—Não se acostumem. — Disse Crânio -
Calú se aproximou. Tocou no ombro de Crânio com um ar de deboche.
—Nos saímos bem sem você, Gênio. Não vai nos felicitar? — Calú provocou -
Crânio suspirou e sorriu para Calú, algo inesperado por todos ali.
—Tá... Tá legal, Meus parabéns Calú e pessoal. Vocês estavam à frente do meu pensamento…
Calú estava satisfeito.
—Muito bem… -Miguel se levantou — Acho que encontrei. Quase dois meses atrás. Deixe-me ver… Quatorze horas depois do desaparecimento do laudo do Andrade.
—Quatorze horas? — Chumbinho se perguntou — Não é muito tempo para alguém agir?
—Chumbinhos, criminosos depois de um crime demoram por volta de semanas para voltar à atividade dependendo do tamanho do crime.
—Deixar a poeira descer… — Calú entendeu -
—Qual foi o delito que ele cometeu? — Crânio perguntou para Miguel -
—Bem, a testemunha disse que ele estava atrapalhado com documentos que vinha trazendo. Ela foi tentar ajudá-lo e ele agrediu a mulher no rosto. Pegou os papéis e aproveitou ela no chão para pegar a bolsa da vítima.
—Que cara maldito. — Chumbinho pensou em falar um palavrão, mas preferiu não arriscar.
—Ele se esconde na periferia, zona leste de São Paulo.
—O que farão?— Nicolas se levantou -
Todos os olhos voltaram para Miguel. Alguns costumes nunca mudam.
—Vamos procurá-lo na periferia.
—Não sabemos como ele é.
—Sabemos sim. — Calú disse apontando para Chumbinho que tinha uma pasta em mãos -
—Vocês disseram que ele roubou a bolsa da mulher. Nessa pasta, temos algumas cópias dos retratos falados dos últimos dias. O único que bate mais ou menos com a data do ocorrido é esse aqui.
O bandido era caucasiano, tinha um corte na sobrancelha esquerda. Uma mancha de nascença pequena próximo ao grande nariz. Era um pouco gordo, tinha o papo cheio que lhe fazia parecer um segundo queixo.
—Crânio, Eu achei alguém mais feio do que você. — Calú fez uma piada. Crânio não aprovou e ignorou o comentário -
—Hunf. — O gênio dos Karas continuou — Ainda sim, é um retrato falado, ele pode ter mudado de aparência.
—Acho que vale a pena tentar. – Disse Nicolas -
—Como iremos abordá-lo?
—Podemos nos passar por capangas do Dr. Q.I. Miguel sabe como está a condição dele. Saberia como enganar o cara.
—Queremos ter o laudo de volta certo? — Chumbinho disse — Tudo o que precisaremos fazer é dizer que o Q.I quer que ele fique com a gente. Não acho que esse bandido seja muito esperto.
—Sim… Eu tenho pensado nisso também. Como ele pode roubar a bolsa da mulher se o objetivo dele era não ser visto com o laudo? Se a polícia o pegasse naquela hora e com o Laudo do Andrade... Ele estaria em péssimos lençóis. – Crânio disse -
—Bem, é isso. Estaremos nós passando por agentes do Q.I. Quem vai comigo? – Miguel se virou para os amigos -
—Eu, Crânio e Chumbinho. — Disse Nicolas — Foi mal Calú, fique longe. Você é famoso e vai levantar bandeira.
Calú levantou os dois braços em sinal de compreensão.
—Vamos quando? – Chumbinho perguntou -
—Amanhã mesmo. – Lhe respondeu Miguel—
—Vou estudar o mapa do lugar. – Crânio se debruçou sobre a mesa -
—Calú, se não retornarmos até às 17h você tem permissão legal para se preocupar e chamar reforços. — Disse Nicolas -
—Mas você não está investigando por conta própria? Pode ser ruim pra você…
—Na verdade, todos esses papéis que vocês estão vendo aqui, são confidenciais. Eu não poderia mostrar para vocês.
—Como sabe que eles não irão notar a falta deles?
—Eles vão com certeza…
—Nicolas…
—Quero resolver esse caso logo… Não me importa o que aconteça… Quando Andrade foi atrás do Crânio no pantanal sozinho… ele sabia que poderia perder o distintivo…
Miguel encarou Nicolas. A Visão dele de Andrade era a mesma que tivera a vida toda… Pelo menos, até o encontro com Dr. Q.I naquela manhã.
A reunião se encerrou, no dia seguinte, eles teriam uma difícil tarefa.
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