Os Jogos do Amanhã
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A água do chuveiro está fria, mas não tem problema, geralmente eu só uso água quente no inverno. Pela janela eu posso ver a lua, que hoje parece ser um sorriso na vertical. Gosto de pensar que, quando a lua está sorrindo assim, algo bom pode acontecer.
Saio do chuveiro e visto as roupas habituais: calça jeans (segundo o fornecedor das roupas para o complexo, jeans é um material raro e antigo, devíamos ficar contentes), e uma blusa. Rumlow entra de supetão no quarto:
–Ei cara, por que ainda se preocupa em pentear essa juba? Só meninos do 12 fazem isso.
12 é o nome da ala onde os meninos e meninas de 12 anos ficam. Jogo o pente nele e rebato:
–Aprendi que garotas não gostam muito de jubas embaraçadas, e por isso, não levo tantos foras.
Ele dá um sorriso maldoso:
–Sua irmã não é uma delas.
–Como é que é?- me viro para ele, exaltado. Se esse filho da mãe está achando...
–Cara, foi só um beijo!-ele me interrompe, como se pedisse desculpas. Pelo menos ele sabe que é melhor não me importunar quando fico irritado.
–Ah, foi só um beijo?! Iza é minha irmã, não sua conquista!- vou jogar outra coisa nele. Tem um tubo de cola à minha esquerda, e dói mais do que um pente. Então a formação do meu plano de ataque é interrompida quando Dave também entra, exclamando:
–Senhoras Morfleynder e Turckey, eu estou louco por uma torta especial, então podem parar de discutir qual será o cavalheiro que puxará a cadeira para vocês se sentarem essa noite, e irem até o refeitório?!
Rumlow e eu nos entreolhamos, e caímos na risada.
–É claro sra. Locke, por acaso sua lua de sangue já chegou? Está tão exaltada...
Dave revira os olhos, e nós vamos para o refeitório. Lá, sentamos na mesma mesa em que Iza está, com sua amiga-quase-irmã Alice.
Percebo as risadinhas que Iza solta, quando olha para Rumlow. Fala sério. Que infantilidade. E ele é só dois anos mais velho que ela, e na minha opinião, bem mais feio. Altura média, cabelos e olhos castanhos e um nariz quebrado, os fios da barba grandes e por fazer. Iza é só um ou dois centímetros mais alta, é mais parecida comigo. Cabelos compridos e cacheados até quase a cintura, e olhos azuis esverdeados. Gosta de liderar, e tem uma predileção por sangue.
Desvio a atenção dos dois e observo o restante do pessoal no refeitório. A sociedade do complexo, vinte e cinco jovens, de 12 a 18 anos, tem seus grupos, apesar de sermos praticamente uma família. Os meninos e meninas de 18 anos, os mais velhos, foram transferidos à essa parte do complexo quando tinham 12 anos, e viveram juntos desde então. Todos os anos, durante sete anos, crianças de doze anos são introduzidas nesse lado do complexo, onde aprendem sobre tecnologia, como fazer atividades normais, e principalmente, a lutar. A aprendizagem sobre luta, nas palavras do diretor e dos professores, sobre como se ''defender'', é essencial, mas eu acho que nós temos que aprender porque em algum momento da vida vamos usá-la.
Talvez quando sairmos daqui. Amanhã. Amanhã vamos a um lugar novo, desconhecido, e possivelmente, encontrar pessoas novas. Ficamos sabendo disso há dois meses, e desde então, todo mundo se pergunta para onde vamos, o que faremos, qual é o nosso propósito lá. Eu fui quem mais perguntou, argumentou, supôs e explicou. Até os funcionários que trabalham no complexo começaram a me evitar. Eles não suportam a minha capacidade de questionar. Acho isso divertido. Mas, sinceramente, é um pouco aterrorizante não saber oque o amanhã nos trará.
Além dos grupos animados e preocupados de habitantes espalhados pelo refeitório, há os que ocupam quatro mesas em um dos cantos. Silenciosos. Calmos. Graciosos, se movem sempre em conjunto. Não interagem com nós, os mortais. Esses são os Elsir'es. Uma raça superior, sobrenatural. Eles estão aqui há dois meses,um pouco depois que o diretor nos disse que sairíamos daqui. Durante os treinos, eles apareciam e faziam um espetáculo. O treinador Luke pediu que um deles mostrasse como lutar contra robôs com uma balista. O Elsir' derrubou um por um, dois segundos depois de terem entrado na arena, e depois deu um golpe com a arma com tanta força no pescoço do último robô que arrancou sua cabeça. Outro, teve que lutar contra todos os treinadores juntos, e derrubou todos. O nome dele é Thernin.
Essas criaturas são apavorantes e impressionantes. Observá-los é como observar o movimento da água, sempre fluída. Sua aparência é humana, sem contar os olhos grandes com fendas, como os dos gatos, as orelhas pontudas, e os sentidos muito mais aguçados do que os dos humanos 'normais'. Eles enxergam tudo nos mínimos detalhes, sua audição alcança até um 1,5 km, e são mais rápidos e habilidosos com as armas. E é claro...impecáveis. Indiscutivilmente bonitos, na aparência, na alma... quando eles estão dispostos a mostrar.
A voz de Alice me traz de volta á realidade:
–Ian, o que você fez mesmo com a Lavinia quando entrou no dormitório 15?- o sorriso dela é provocante, acentuado pela ação de enrolar uma mecha do cabelo castanho no dedo.
–Fui olhar o seu diário. Caramba Alice, não sabia que você é capaz de pensar aquelas coisas.-respondo. A sombra de um susto repentino passa por seus olhos, mas ela dá de ombros e devolve:
–Sou mesmo. Nesse momento estou pensando que você é sem vergonha, cara de pau, e mentiroso.
O diretor do complexo, Alex Norman, me impede de dar uma resposta, quando entra na sala.
–Boa noite meus jovens. Espero que estejam preparados para amanhã.
O diretor Norman é, no geral, uma boa pessoa. Têm boa aparência, e é jovem, tem trinta anos. E é bom em deixar as pessoas agitadas, como agora.
–Vim dar um aviso sobre amanhã- ele prossegue- é necessário que entendam que não podem levar nenhum objeto do complexo...
–Para onde nós vamos mesmo?-um dos meninos do 12 pergunta. Eu o teria mandado calar a boca. O diretor pode ser legal, mas não gosta de ser interrompido. Além disso, mesmo a pergunta dele sendo a que todos querem fazer, temos que ouvir o aviso. O aviso é tudo oque temos para nos orientar amanhã. O diretor sorri friamente para o menino:
–Para algum lugar, sr. Hayes. Não revelar o destino de vocês faz parte do programa. Como eu estava dizendo, vocês não podem levar nada daqui, nenhum acessório, brinquedo, arma, comida, bebida, e etc.-enquanto ele fala, funcionárias servem pedaços da torta especial para nós, que por sinal e está com um cheiro ótimo e melhor ainda, é torta de maçã- Vistam as roupas que acabam de ser colocadas em seus baús, elas os ajudarão aonde quer que forem, e cheguem às naves às oito em ponto da manhã. Lá estarão disponíveis armas, e vocês devem pegar cada um, pelo menos uma. É isso. Boa sorte.
Enquanto ele sai, percebo um leve brilho cruel em seu olhar. De repente me parece que a lua sorri um sorriso igualmente cruel, como se nada de bom fosse acontecer amanhã. Um arrepio percorre minha espinha.
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