Os Jogadores
10 Capítulo 10
Notas iniciais
– Eu sou filho de Enzo Voltolini.
– Grande coisa... – sussurrei e vi todos virarem para mim, estava um silêncio assustador.
– E você admite isso? – meu pai falou descrente. Pera aí? Ele sabe da existência de alguém com esse nome?
– Claro, se aqueles babacas do colégio de quinta categoria não investiga a fundo a vida de alunos que se candidatam a estudar lá, problema deles e quem disse que meus documentos lá estão validados? – bela educação, hein...
Que conversa mais sem sentido era essa, o pai dele era tão importante e conhecido assim que só eu não sabia? Os dois não desviaram mais os olhos um do outro enquanto falavam. Mamãe virava de um lado para o outro cada vez que mudava o locutor.
– Você deveria ter uns dezoito anos. – disse minha mãe.
– Não acredite em tudo o que ouve por aí senhora Young. Mas eu tenho dezoito mesmo, apesar de meu pai fazer questão de mudar meus documentos diversas vezes... Por segurança, é claro.
– E o que ainda faz na escola? Ou está no último ano? – perguntou meu api.
– Meu pai me colocou um ano mais cedo na escola, mas acontece que às vezes aconteciam coisas que faziam com que eu não pudesse ir e eu reprovava.
– Porque você está aqui?
– Eu quero seguir os passos do meu pai. Saí de casa há uns dois meses, ele ainda não me encontrou, ou está me observando à distância e vendo que estou me saindo bem e não se preocupa.
– Seguir os passos do seu pai? E o que tem a ver isso com estar aqui?
“Quer saber, eu não aguento mais estar aqui!” Pensava.
– Que merda é essa que vocês tão falando, não tem sentido nenhum! Alguém me explica alguma coisa! — disse ficando vermelha de raiva, pela minha própria burrice.
– Cuidado, não se estresse muito, pode fazer mal ao bebê. – fuzilei o Cameron com o olhar e ele lidou como se fosse nada.
– Vocês Jogadores são um bando de doentes! – arrastei minha cadeira pra trás e de saí da frente da mesa.
– Senta aí! – disse minha mãe séria. Dando-me medo, fazia anos que ela não falava assim comigo. Voltei para meu lugar.
– Responda a pergunta que eu fiz Cameron. – disse meu pai.
– Bom, eu sei da fama dos Collins nessa cidade e quando cheguei dei de cara com um Collins quando fui pegar umas informações na escola. Ouvi umas histórias aqui, outras ali... Hackiei o sistema de segurança, câmeras de diversos lugares por aí. Achei que depois daquela cena na escadaria eu tinha que aparecer, sabe... Meu pai tinha uns arquivos, foi só mexer uns pauzinhos e pegar, ele nem dava muita preferência a isso então...
– Pera! Então seu pai é tipo um detetive? Nossa! Eu tenho muita sorte, com tanta gente que poderia gostar de mim tinha que ser justo um doente mental com um pai com a ficha mais suja do que um esgoto e que paga pra nada vir à tona. Perfeito! – Eu falei tudo isso em voz alta? Droga! Controle-se mulher!
– Na verdade é mais um hacker que atua como infiltrado do que realmente um detetive, detetive no caso é mais no que estou atuando. E quanto o resto que você falou aí... Já não é comigo. – falou se achando a última trakinas do pacote, só pode. “no que estou atuando...” Me poupe e volte a falar como estava falando antes... – Meu pai uma vez falou de vocês dois. – falou para os meus pais. – Ele achava vocês engraçados. Divertidos. – corrigiu. Então ele também conhecia alguma história.
Meu pai me olhou com canto do olho e quando notou que eu olhava de volta desviou.
– Miley, poderia ir para o seu quarto? – meu pai falou. – Você tem um trabalho de literatura para fazer.
– O quê? É sério isso? – não acredito que eles estavam me excluindo de uma conversa que para início de conversa deveria ter sido só minha e do Cameron! Definitivamente ele deve saber alguma história que eu não. Sem contar que eu tenho quase certeza que esse trabalho é fajuto!
– Vai filha. – disse minha mãe e eu fui.
Øøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøøø
Já estava no meu quarto a dez minutos mais pareciam dez horas. Não adiantou colocar meu ouvido na fechadura, não vinha nenhum som da cozinha e isso me deixava com muita raiva, porque a curiosidade me escolheu?
Como sentia que não ia me chamar tão cedo, decidi entrar no Facebook para falar com o Richard.
19:57 — Miley: Oie.
20:00 – Rick: Oie, td bem?
20:00 – Miley: Ss e com vc?
20:00 – Rick: Tbm. Como vai a noite?
Falava ou não falava?
20:02 – Miley: Muito estranha, vc ñ tem ideia! Sabe quando vai poder dar uma passadinha aqui de novo?
20:02 – Rick: Como assim estranha?
Conseguia o ver franzindo a sobrancelha lendo a minha mensagem. Não deveria ter dito, como é que eu ia explicar o que estava acontecendo? Eu não sei.
20:03 – Miley: Sei lá, ñ sei explicar, se fosse pessoalmente... Responde minha pergunta.
20:04 – Rick: Que pergunta?
20:04 – Miley: A que eu fiz lá em cima.
20:05 – Rick: Manda de novo to com preguiça de ter que subir toda a conversa pra saber a pergunta.
20:05 – Miley: Mas não é toda a conversa, é só umas mensagens.
20:06 – Rick: Mas agora já são várias mensagens kkkkk Manda de novo.
Gente preguiçosa é outro nível...
20:06 – Miley: Okay, quando vc vai vir aqui dar uma passadinha.
20:09 – Rick: Talvez final de semana. Só + 4 dias, hein!
20:10 – Miley: Legal
20:10 – Rick: Você pode ao menos tentar contar?
Antes de eu ter a chance de pensar em uma resposta que explicasse o mínimo dos mínimos da situação, ouvi uma batida na porta.
– Filha, pode vir. – era minha mãe, sua voz estava mais neutra, e ela normalmente é sempre animada, a não ser que eu faça algo errado ou me recuse a fazer algo que ela me mandou.
– Já vou. – respondi sem abrir a porta.
20:12: Miley: Eu até tentaria te falar algo, mas estão me chamando, tenho que ir, bjuuss.
20:12: Beijos.
Saí da minha conta, desliguei o computador e quando fui abrir a porta do meu quarto minha mãe já não estava lá – mas também do jeito que meu computador era lerdo, não me surpreende... — então segui para a cozinha e os três estavam lá sentados, meu lugar ainda estava vago e fui à sua direção para mudar isso. Sentia o silêncio no meu ouvido como uma bomba prestes a explodir. Estavam todos em silêncio e com uma expressão neutra no rosto. Vai virar moda agora? Expressões neutras: A venda em todos os mercados da região!
– Você vai voltar para a escola. – disse meu pai depois de mais alguns segundos de silêncio perturbador.
– Como assim? Não! Eu não volto lá enquanto aquele bando de merda estiver lá!
– A escolha não é sua e como eu disse, enquanto você for menor de idade quem cuida da sua vida sou eu. E não adianta falar com o Richard que ele não gostou nada de saber que você não está indo nas aulas.
– Porque você não contou toda a verdade pra ele, que eu tava fazendo meus trabalhos aqui em casa – enquanto falava fazia diversos gestos diferentes com as mãos para dar mais ênfase no que eu dizia. -, ele até queria brigar comigo pelo telefone mais cedo!
– Filha! – minha mãe chamando minha atenção. — Para com essa TPM que já está incomodando. – podia sentir minhas bochechas queimarem de vergonha.
– Bom, olhe pelo lado bom. – Cameron se intrometeu. – Não vai precisar fazer o trabalho de literatura porque ele era fajuto. – o fuzilei com o olhar mais uma vez ele não deu a mínima para ele. Já suspeitava que não fosse verdade, minha turma tinha terminado a fase do Realismo mês passado e a professora disse que não retomaria o assunto. – Agora vou indo, tenho que arrumar meus materiais para a aula de amanhã. Ham... Eu já conheço a saída. – Atrevido!
Levantou-se e saiu pela mesma porta onde entrou.
– Eu não vou voltar pra escola, o que esse cara falou pro senhor pra fazer a sua cabeça?
– A verdade. – falou como se não fosse nada. – E o senhor está o céu, no asilo ou onde for mais não é aqui onde eu estou.
– A verdade? Agora eu estou mentindo?
– Pelo contrário, foi essa a verdade que ele falou e citou outras coisas que não tinha como um dos garotos da sua escola saber, o Enzo Voltolini foi nosso professor de sociologia quando estávamos no último ano da escola, mas ele não era um professor. Ele estava investigando um acontecimento que não vem ao caso agora, foi ele que me fez querer ser advogado.
– Acho que a última vez que nos vimos foi no dia que o Cameron nasceu. Não é mesmo? Nós estávamos lá. Na época ele ainda não tinha um nome certo. O Richard estava com oito meses na barriga, mas não impediu a Mary de ir ao hospital. – ria minha mãe enquanto ia lembrando os fatos. — O Phil estava bêbado e queriam nos expulsar de lá. – ria cada vez e ao terminar a frase começou a se acalmar. – Bons tempos. Filha você nem sabe o que está perdendo por se preocupar de mais em o que vai acontecer no lugar de viver o momento. Eu sei que parece que só acontecem coisas ruins com você, mas... Só aproveite aqueles momentos que parecem certos. Porque querendo ou não você vai voltar para a escola, você perdeu seu bebê e nunca esteve tão triste. E continuar atuando enquanto não confiar em ninguém lá ou simplesmente não existir uma só pessoa que valha a pena o esforço.
– Eu não estou feliz. – sussurrei e pela primeira vez no dia, foi algo sem estar na defensiva, eu só precisa dizer, achava que precisava admitir para mim mesma em voz alta.
Meu pai há essa hora não estava mais na cozinha a muito tempo, ouvia sua voz que parecia vir da sala, ele estava ao telefone. Minha mãe passava os braços a minha volta – Oi, filho... – dava para ouvi-lo falando com o Richard.
– Ele é um gato, não é? – minha mãe falou. – Acho que é genética... O professor Voltolini também era muito bonito na minha vista e de minhas colegas. Porque o filho dele também é muito gato, hein? – veio se engraçando para cima de mim.
– Não! – respondi voltando a ficar brava.
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