Os Intocáveis

1 Castelo de Lama, Cabel e a Camara de Vidro.


Dois pares de pernas, dois pares de braços, e joelhos fincados na lama espessa.

As duas crianças moviam solenes um único bolo de lama com gravetos longos, as folhas secas por cima enfeitavam o pequeno paraíso emporcalhado e o pântano gelado em volta soprava seus uivos de contentamento.

Aquele tronco apodrecido com musgo parecia sorrir pra cena toda.

- acha que um dia poderemos morar aqui dentro? Se fizermos um bom castelo com portas e janelas? – Cabel, o garoto sujo até a alma propôs movendo um grande bolo da lama macia até o alto da pilha.

Micaela considerou. Considerou bastante, seus olhos de garotinha de nove anos se voltaram para o céu nublado onde corvos em revoada partiam para o oeste, olhou o pântano gelado em volta onde as sombras brincavam de ser monstros, observando a espreita num iminente ataque.

- seria uma ótima coisa. – respondeu ela por fim na tentativa de cavar uma janela no castelo-bolo de lama.

por fim o enorme castelo de lama mais parecia um atoleiro de esterco, tão alto quanto metade de um poste das praças publicas de Marchal.

uma corvo se empoleirou num galho.

- Micaela! Cabel! — era a voz da mãe de Cabel.

os dois desafundaram os pés o mais rapido que puderam, mas a sucção da lama estava dificultanda a escadapa, o castelo foi esquecido, Cabel cedeu a mão para que Micaela desafundasse o mais depressa, as delicadas meias-calça e a barra dos vestido estão imundos.

ambos pularam o tronco apodrecido, e começaram a fazer o curto caminho de volta entre a nevoa espectral e os cipós.

logo estavam nos fundos da mansão dos Carteline.

Lígia, a ama da casa e mãe de Cabel esperava furiosa no umbral da janela, o quintal que dava para a curta faixa de bosque era explêndido, o chão se recortava em grama pura e verde e caminhos de mosaicos portugueses ladrilhados, uma fonte de água limpida com anjos de manfin banhavam o centro do espaço com um círculo de pinheiros altos e grossos.

depois de xingar baixo para que as crianças não pudessem ouvir LÍgia saiu até o encontro das duas crianças fujonas.

- o que eu falei pra vocês sobre ir pra mata? — esbravejou ela contemplando minuciosamente a sujeira nas roupas de ambos. — Cabel, pro quarto.

Cabel correu pela porta dos empregados enquanto Lígia pegava a pequena Micaela no colo; a tina polida de mármore já estava preparada, cada milimetro da garotinha foi lavada por sua ama sorridente, que cantarolava uma música sobre trovadores e poetas que lutavam contra um dragão. o corpo muito palido como cera, as bochechas sem cor, os dedinhos ossudos e o cabelo tão quente e vermelho como ferro fervido, como lascas de brasas.

" uma garotinha feiosa" pensou a ama com pena "a riqueza e o bom trato hão de deixa-la bonita quando se tornar uma mulher."

fim do banho,afagada pela toalha e vestida a gosto de seus pais ausentes: meias calças claras, um vestido de botões perolados, e o cabelo envolvido por uma fita escura, o velho broche de família vinha adornando o peito.

- seja uma boa menina e vá desenhar na sala.

Micaela desceu as escadas saltitando perigosamente, quase escorregou na madeira recém encerada, mas um grosso tapete de caça freou o acidente bem a tempo de ocorrer. Cabela já estava lá embaixo, banhado e penteado, as roupas simples de algodão de garotinho malandro, os sapatos gastos, o sorriso alegre tentava desfarçar os olhos vermelhos, olhos esses de quem de alguma forma deve ter sofrido alguma breve punição física da mãe no intervalo de tempo em que Micaela esteve distraída contemplando a beleza de garotinha limpa no grande espelho do salão de jogos.

- Cabel!

- Caela!

ambos sentaram no chão com os gizes franceses de Micaela, ela colocou-se prontamente a tentar desenhar Cabel, ele por sua vez tentava desenhar um palácio tão grande quanto aquele que vos cercava.

- a sua mãe te bateu? — disparou Micaela

- claro que não. — mentiu Cabel lembrando da escova de madeira que o atingiu na bochecha e no ombro tão em cheio que fez sua alma viajar para fora do corpo.

- ouvi mamãe e seus pais conversando — disse Cabel com seu arrastado sotaque infantil

Micaela percebeu que seu desenho mais se parecia com uma batata com olhos do que com seu amigo a quem mirava sob os raios do sol que escapavam das grossas cortinas.

- isso acontece sempre- deu ela de ombros.

- dessa vez foi uma coisa diferente Caela, eu ouvi eles dizendo que eu e mamãe poderiamos ficar com a casa porque a qualquer momento vocês podem partir. — Cabel fez um arco-íris por cima da mansão torta.

Micaela achou graça. ora porque haveriam de ir embora? seus pai e ela adoravam aquele lugar, um pequeno paraíso estilo inglês perdido no tempo. porque deixariam aquela enorme mansão bem abastecida para a ama? Lígia era muito mais do que uma pessoa da família, estava ali desde que Micaela era capaz de lembra, mas isso era um pouco de otimismo demais da parte de Cabel, morar no quarto dos fundos dividindo a cama com a mãe devia o estar enlouquecendo.

- não sonhe Cabel, voce me quer longe daqui pra ter a casa sozinho? — ela se irritou.

- sabe que voce é minha melhor amiga Caela. não quero que voce vá embora.

sua mão pequena pegou a dela e seus olhos de lodo desbotado olharam nos escuros pretos dela, os dedos pequenos em seu aperto de mão esfarelaram o giz laranja que tingiu ambas as palmas suadas e limitadas.

- voce estragou meu giz Cabel. — disse Micaela com doçura.

- sinto muito. — murmurou ele se sentindo um tonto.

reparando a situação em que tinha se metido Micaela se sentiu uma criatura má, retirou a fita preta das ondas curtas avermelhadas e passou em torno do pulso de Cabel, uma pulseira firme, compacta envolvendo o pulso do garoto como um amuleto.

- se caso aconteça de eu ir embora como voce diz que vou, vou te procurar e vou te achar... nunca tire essa fita, pra eu saber que é voce mesmo.

Cabel conferiu o pulso apertado pela fita.

- tudo bem.

- Micaela — era a voz de Lígia no topo da escada — comer, e pra cama. sem demora.

Micaela e Cabel se olharam por um longo minuto, em seguida o garoto desapareceu pelos corredores escuros da casa, enquanto Micaela se dirigia arrastando até a sala de jantar, com a palma embebida de suor, pingado a cor forte do laranja do giz.

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a colcha foi colocada até seu pescoço, o quarto era uma paraíso rosado, um violão pendurado na parede, prateleiras com lindas bonecas francesas, uma janela grande e de cortinas finas permitiam que a luz da lua arejasse o local, tapetes coloridos, quadros de bailarinas, aparelhos de chá, livretes infantis...

- onde Cabel está? — questionou Micaela

"se não fosse loucura diria que estes guris se amam" pensou Lígia beijando o topo da cabeça da garota.

- Cabel já dorme querida. tente dormir também.

- e meu pais?

Lígia nunca conseguia responder essa pergunta com precisão.

os pais da garota Micaela eram sujeitos esquisitos, andavam com um lorde e uma dama a moda antiga, sempre bem vestidos e alinhando mesmo em passeios de veraneio, Lígia sabia que eram cientistas, trabalhavam incansavelmente em uma laboratório fora da cidade, iam a casa muito raramente para comer, pegar alguns livros e substancias guardadas nos cofres e eventualmente, muito eventualmente acarinhar e mimar a filha, quando não podiam deixavam um regalo com a pequena, mas o acumulo de bonecas, gizes e relógios cucos não pareciam suprir a falta dos pais.

- no trabalho querida. agora durma.

a luz foi apagada, Micaela se aninhou nas cobertas macias e esperou que o sono chegasse... e chegou. sonhou que corria com Cabel no pântano, corriam de mãos dadas e não se cansavam ou tropeçavam, corriam tão felizes e velozes que mal podiam enxergar os próprios pés.

- Micaela.

estão correndo, estão correndo tanto, estão sorrindo tanto.

- Micaela acorde!

sobressaltada a garota pula da cama, lá estão juntos, mamãe e papai com expressões desesperadas, no escuro podia ver os tons graves de feições que lhe cobriam os rostos, ela não teve nem tempo de se alegrar com a repentina visita dos pais, porque papai a pegou no colo enquanto sua mãe enfiava roupas e brinquedos aleatórios em uma mochila de viagem.

- o que está acontecendo?

- fique quietinha querida, logo vai saber. — mamãe disse

papai começou a descer com a garota na escada, mamãe veio em seu flanco com a bolsa no ombro.

- Lígia! — papai berrou em tom de urgencia prepotente.

a ama logo estava ali, com um desbotado pijama de convento e chinelos de borracha.

-está acontecendo.

Lígia levou as mãos a boca e começou a desbotar em lágrimas.

- controle-se e ouça Lígia. — disse mamãe amparando-a — vai ficar tudo bem, a casa é sua e do Cabel, aqui vocês vai ficar plenamente seguros,eu e o Roger vamos cuidar de que nada aconteça a vocês.

- e a menina? — murmurou Lígia.

- já esta tudo certo pra ela.

- o que está acontecendo? — berrou Micaela inquieta no abraço forte do pai — não quero ir embora daqui. pra onde vamos?

papai e mamãe começaram a correr para a garagem da casa, Micaela via a imagem de sua sala de estar e Lígia diminuírem.

-Cabel! Cabel! Cabel!

o carro acelerou pelas ruas da cidade, depois de atravessar o trecho de mata que dividia a mansão da família até a civilização, Micaela percebeu algo de errado, não costumava vir muito a cidade, tinha professor particular e os suprimentos vinham de m entregador, passeios se limitavam ao pântano, mas as vezes que veio não era assim. haviam latas de lixo em chamas, muros sujos, tochas, cartazes rasgados e carros quebrados nas estradas, haviam grupos de pessoas marchando dos becos, uma pedra atingiu a janela do carro em cheio fazendo-a trincar.

- tudo sob controle — murmurou papai acelerando o carro.

começaram a desembocar em um trecho ermo da cidade, as casas e prédios iluminados pelo caos sumiram, estavam em um trecho enluarado onde fábricas e galpões se erguiam do chão, após atravessarem 3 portões gradeados com cachorros malvados e vigias o carro deu um solavanco e parou em um prédio muito alto e iluminado, era um prédio como Micaela nunca viu em toda sua breve vida de criancinha, é certo que tudo nessa idade era novo, fresco, mas este prédio era era realmente um alienígena! comprido e todo prateado, haviam galpões atrás dele até onde a vista não podia alcançar, mais grades, mais muros e mais cachorros dentuços.

papai e mamãe saltaram do carro desta vez com os papeis invertidos,mamãe com o rosto próximo a explodir em lágrimas pegou a garota no colo, papai pôs a mochila no ombro e um envelope no guarda-volumes.

caminharam em silencio uma estada de chão cromado, polido e escorregadio, passaram por um arco que apitou ao chegarem, foram vistoriados por câmeras que soltavam faixos vermelhos e tiveram que dizer seus nomes para uma caixa de som:

- Sr. e Sra. Carteline. área de pesquisa laboratorial.

o portão com cerca elétrica deu um estalo e se abriu em dois, liberando a passagem para a entrada do prédio, neste meio tempo Micaela sentia o frio do medo invadir a sua pele e faze-la formigar por dentro, não entendia nada do que estava acontecendo.

colocaram-na no chão, cada um pegou em uma das mãos da filha e caminharam até o centro do salão onde uma secretária elegante ladeada por dois seguranças fortes revirava papeis a procura de algo.

- Ângela.

- ah, Doutores, finalmente! a cúpula está aguardando vocês a um tempo, o Procedimento dos Intocáveis já foi acionado, os populares já tomaram conhecimento e estão marchando para a sede. — disse a secretaria sem respirar.

- já esperávamos por isso — completou mamãe — elas acham que nós somos a ameaça, quando na verdade estamos apenas protegendo o protótipo, nossa intenção nunca foi segregar ninguém da Cura.

Micaela achava que aquela conversa de ETs estava confusa demais, a garota estava tonta.

- já que eles não nos deixam explicar, vamos reagir com fogo também. — disse papai.

nesse momento um homem muito velho e de jaleco apareceu por uma porta lateral e cromada, ele calçava luvas bem grossas e botas pretas.

- não temos mais tempo. os rebeldes estão no Portão A prestes a invadir. — disse ele

nesse momento papai, mamãe e o doutor começaram levando Micaela por um longo corredor,foram todos pulverizados por uma fumaça e atravessaram um portão, mais fumaça de outra cor e outro portão, depois um jato vapor d'água e o ultimo portão, por fim chegaram a uma enorme sala, a sala mais esquisita de todas, uma sala cheia de tubos grossos que saiam do teto, cada tubo era ligado a uma câmara com uma cama, fechada tampa de vidro e travas, eram milhares delas, um elegante computador e tubos menores acompanhavam uma mesinha em casa câmara.

- passagem e identificação doutores. — exigiu o velho de jaleco.

papai entregou ao homem o envelope, nele continham todos os documentos da garotinha, fotografias, registros e um fino cartão prateado.

- foi pago desde o inicio do projeto — se afobou a mãe a dizer.

- de certo — ironizou o homem analisando o cartão.

em seguida ele se abaixou e começou a inspecionar Micaela, pôs uma lanterna em seu rosto, verificou seu antebraço, pediu para que retirasse os sapatos.

- vistam-na com isso — o homem de jaleco entregou ao casal um pacote vedado de plástico, logo descobriram que se tratava de uma bata de algodão com elásticos nas alças, a contra gosto e com muita resistência da parte da garota, os pais trocaram sua elegante roupagem de veraneio pela roupa feiosa de hospital.

micaela ainda se questionava o porque daquilo, em silencio ela estava sendo roida pela curiosidade.

- leito 114567 — disse o homem em voz alta em seguida os conduziu até a camara que tinha este numero, passou o cartão prateado em um dos computadores fazendo-o ligar imediatamente, a camara de vidro se abriu e uma foto de Micaela saltou na tela com os dados principais.

um bipe no rádio, o homem de jaleco disse "cambio"

- os rebeldes já estão quebrando a porta D, mais um pouco e entram no saguão. — disse a voz feminina daquele lado da linha

- mandem os seguranças para o arsenal, quero esses infectados longe de toda área do prédio está entendido? reforce a segurança. — respondeu ele.;

virou-se para os pais de Micaela:

-sejam rápidos, temos o que fazer lá fora doutores.

os pais se ajoelharam a garota assustada.

- Micaela, escute — começou papai — estão acontecendo algumas coisas muito ruins em nosso mundo agora, coisas que não podemos explicar pra você, mas foi por causa desses problemas que papai e mamãe sempre estavam tão distantes de você, fora de casa, trabalhando, estávamos em busca da solução desse problema.

-as pessoas estão ficando muito doentes lá fora meu bem. é uma doença feia e nova que faz as pessoas morrerem em pouco tempo, mas nós e os nossos amigos fizemos um remédio muito forte pra essa doença, um remédio que ainda nem todo mundo pode ter acesso... — mamãe completou — não queremos que você sofra com isso, mamãe não quer que ninguém sofra com isso, mas já que não é possível pra todo mundo escolhemos a nossa coisa mais preciosa para ficar boa dessa doença para sempre.

- você vai precisar ser forte minha filha, vai ser curada, vai ser uma pessoa melhor... tudo o que tem de fazer é confiar em seus pais e ficar um tempo aqui nesse lugar, é uma cama especial, que vai fazer você ficar completamente boa enquanto dorme.

- dormir? — questionou Micaela — quanto tempo? não quero dormir aqui sozinha! quero ir pra casa! eu estou bem gente, vamos todos pra casa.

papai e mamãe se olharam.

papai pegou a garota no colo com pesar e a colocou na cama especial, mesmo sob o choro da garota pôs uma sonda em sua veia, eletrodos em seu corpo infantil.

- não quero ficar aqui! tirem essas coisas de mim por favor! — suplicava ela.

a mãe não aguentou, correu para fora da sala no intuito de choras.

o pai apertou um botão vermelho, a câmara foi fechada, a garota estava presa lá dentro, o computador começou a dar inicio a um procedimento, a sonda foi ligada emanando liquido de tubos e reservatórios, os eletrodos mapearam o corpo da garota e mandaram relatórios digitais, depois de conferir tudo um botão na tela questionava:

"iniciar hibernação curativa?"

papai hesitou.

olhou para a garota se debatendo e chorando na câmara, se perguntando o porque daquilo tudo.

- me tirem daqui! eu quero minha casa! eu quero Cabel, Cabel me ajude! papai não faça isso... me solte.

ele beijou o vidro, podia ouvir dali de dentro os rebeldes sendo fuzilados no saguão, um alerta de infecção foi emitido.

papai apertou no ok.

névoa espessa entrou do tudo do teto e preencheu a câmara por sufocantes 10 segundos, ao se dissipar, Micaela dormia, a garota dormia como se estivesse morta.

"agora você será intocável minha filha, no futuro nada te fará mal, você vai me agradecer por isso."

papai alisou o vidro da câmara e saiu finalmente com uma arma do arsenal em direção ao saguão.