Os Intocáveis
7 Curativo, Renuncia e Partida
Notas iniciais
– é uma bela tatuagem.
– qual delas?
Seu dedo frio apertou o exato ponto nas costas dos ombros onde uma lua desenhada por Naomi ficava, uma lua meia lua negra.
– porque está tentando mudar de assunto Caela?
– não estou tentando – suspirou – já estou mudando.
Ela virou a cadeira hospitalar e passou a ultima faixa de gaze em torno da minha barriga, uma pequena fita de esparadrapo prendeu a faixa bem, levantei-me de sobresalto e como esperado fui fisgado pela dor como se pequenos ganchinhos segurassem duas partes distantes da minha pele.
Fiz careta
– alguém já te disse que você é muitissimo teimoso? Quando alguém diz “fique sentado porque vai doer” é porque você precisa ficar sentado.
– porque você vai me deixar? Você não precisa fazer isso. Todos aqui estavam bem antes disso, vamos ficar, pra que perpeturar a vida nesse lugar horrivel? — eu continuava batendo na mesma tecla como uma criança que importunava o pai usando um argumento repetido na esperança de que ele de repente provocasse efeito.
Micaela levou as mãos ao rosto e suspirou.
– da próxima vez que pensar algo tão estupido Cabel, pense no Nael. Pense na vida que você está tirando dele se eu fizer a escolha errada. Agora tenho que ir pra fazer o ultimo exame antes do procedimento.
Ela ia saindo, eu a puxei de volta, o que não fez muito efeito porque ela fez sua mão escorregar pra fora da minha.
Ficamos nos olhando alguns segundos, por fim ela saiu pela cortina do centro médico dos oficiais e eu fiquei em pé por meia hora, meia hora inteira, como um relogio de time perfeito, findado esse tempo eu chorei de tristeza real pela primeira vez em todo tempo em que estive no acampamento, chorei bastante, chorei.
…
o mergulho foi longamente angustiante, quando Micaela voltou a tona com Nael tornei a suspirar tranquilo aqui do cais, onde estavacom as calças dobradas nos joelhos e os pés na água. Nael parecia um pato, o cabelo escuro quase nos olhos e um bico de quem saboriava um ar e terminava num assovio; os dois voltaram até mim, Micaela me entregou Nael em seguida subiu para sentar-se em ao meu lado.
– viver é lindamente perigoso – suspirou
deitou na estrutura fraca de madeira com o sol na pele, secando-a.
– antes que você ache que isso vai me fazer retroceder Comandante... esqueça, isso é bom mas já estive morta antes e garanto que não ruim assim, a diferença é que dessa vez você não vai me reativar por acidente.
– eu não te reativei – foi o que consegui dizer – te econtrei já fora do seu cazulinho de vidro.
Nael já ressonava no meu colo de enfado. Caminhamos até uma parte do bosque, um jardim empobrecido onde ficava uma clinica psiquiatrica, as ruinas nos encaravam medonhas, arrumamos uma arvore com sombras bonitas projetadas no chão, esticamos minha colcha de retalhos, coloquei Nael na parte mais fofa e sentei como Micaela perto do tronco da árvore.
– quanto tempo? — quis saber
– amanhã de manhã tudo vai estar como é pra ser.
Suspirei, passe o braço em torno dos ombros de Micaela e ela ficou brincando de cutucas minha fita do pulso meio umida.
– nada que eu te diga vai te fazer fugir comigo não é?
– nada.
– vou sentir sua falta.
– Cabel – ela se virou pra mim – depois de amanhã, quando sol nascer e você for fazer um grande discruso, e olhar pra todas as pessoas la'embaixo, quando você olhar pra cada sorriso, quando você olhar pra cada criança, cada velho, quando você olhar pra Nael todas as manhãs eu estarei lá... eu estarei com você. Como sempre estive.
Beijei sua testa e abarquei sua cabeça num abraço suave, ela passou os braços em torno da minha barriga e estava sorrido,dava pra sentir.
– não vai ser a mesma coisa.
–não vai não – a voz dela abafada sussurrou – vai ser melhor.
…
três batidas no microfone, uma multidão que dançava lá embaixo e sevia uma abundancia de comida quase ofenciva de tão exagerada, se entragava em abraços e beijos se calou de repente, todos olhvam pra mim agora.
Esperei os tres minutos de palmas.
– Eu sinceramente a dois dias atras quando estava dormindo, me perguntei se queria estar vivendo isso agora, me perguntei se eu era capaz de suportar toda a dor e toda felicidade que isso poderia me trazer...
…
– doutor a Melhorada já está na maca.
– magnifico, traga o equipamento de sonda, depressa...
…
–... era como se um pedaço de mim que eu sonhei em tantos anos recuperar fosse arrancado sem nem que eu tivesse chance de cola-lo de volta no meu corpo, foi como se um trabalhador que ficasse anos juntando todos os dias uma moeda, um dia antes de gastar sua fortuna, fosse até o seu cofre e descobrisse que tudo pelo qual ele lutou uma vida desaparecera sem deixar nenhum sinal...
…
– você foi enviada por Deus querida, a humanidade vai sempre lembrar de você. Vamos começar agora
enfermeira aperta a mão
– quer dizer alguma coisa?
– diga a Cabel que eu o amo.
…
– …mas esse trabalhador olha pela janela, e ve que cada moeda que ele tinha foi dada a uma pessoa que passava fome na rua, então apesar da sua perda, há uma chama de felicidade acesa eternamente no seu peito, felicidade angustiante, laceramento doce, dor aliviadora. Micaela Carteline, o amor da minha infancia, a minha irmã, a minha amiga, a pessoa que eu mais devotei amor por todos esses anos, mesmo sem conhecer ninguém aqui, num ato de coragem para que o Gerador-mestre, a gênese, a fonte da cura fosse capturada, injetou-o no próprio coração pra protege-lo...
…
– anestesia
– já injetada
ela está fechando os olhos de novo, a mão está soltando.
– ligue o dreno.
A entermeira liga tubos em várias partes do braço, o sangue começou a ser puxado, vermelho como o cabelo, vivo, reluzente.
…
– o Gerador Mestre era nosso objetivo, a capsula de ativo concentrado que se atritada em alta pressão e diluida virava a Cura para o Avoid; o sangue de Micaela, virou um liquido neutro, virou a própria cura, compativel a todos os corpos. Bombeado por seu coração, fuido no seu corpo, nas entranhas, na alma... Micaela Carteline, a filha daqueles que criaram a Cura, foi o vetor da mesma para nós, ela nos trouxe e agora somos todos livres para sair desse acampamento e começar a reconstuir a humanidade, o amor e as coisas que perdemos virando primiatas caçadores da própria sobrevivencia... Muito obrigado a todos.
Um temporal de palmas se instalou, uma foto de Micaela pintada a mão caiu como uma bandeira atrás de mim, coloquei a minha rosa branca aos pés da foto e comecei a descer as escadas ardendo de ódio, ardendo de angustia e trsiteza.
Tudo que eu amava estava perdido.
Emile se aproximou de mim.
– isso não é o fim Comandante.
Nael estava em seu colo, tão sorridente, tão vivo... ele se lançou em meus braços e eu o abracei com toda força, era como se a presença de Micaela pousase sobre ele, tão viva, tão forte.
– meu filho...
seu dentes pequenos desenharam uma expressão feliz no rosto.
– eu e Ulisses vamos pro campo. Construir uma casa, lá tem muita água potável por perto e podemos começar um cultivo... você e Nael são bem vindos.
O por do sol pintava o céu de vermelho, como o cabelo dela, como o sangue dela;
eu sorri.
– mê dê um tempo pra pegar nossas malas.
De mãos dadas, mãos juntas, protegendo o toque uma da outra, eu e Nael começamos a entrar no alojamento, vivos, curado e saldaveis como ela foi um dia, para nunca mais voltar.
Fale com o autor