Os Intocáveis

6 A Revolução, a Tortura e a Fita


Com madeiras e tecidos incitamos tochas, marchando a noite como milhares de pontos luminosos; atrás de mim a multidão era um formigueiro gigante, todo o acampamento estava lá, exceto Ulisses, Emile e meu Nael. Haviam mulheres, velhos, crianças, os militantes mais fortes, as professoras, os combalidos, os visivelmente doentes que conseguiram escapar da Ala de Quarentena, ninguém mais ligava pra infecção, todos pisavam forte na terra, quebravam pedras, marchavam, ou iríamos voltar com a cura ou morreríamos.

– A Cura é nossa!

– A CURA É NOSSA!

Uma chuva de tiros encheu o céu de barulho e ar do cheiro metálico da morte, o caminho era estilhaçado, esmagado, a cidade já em ruínas nos assistia marchar destruindo, depredando o pouco ou o nada que restou.

Uma fileira de vinte e quatro soldados do centro de pesquisa formavam uma fila indiana bloqueando uma ponta da rua a outra, todos bem equipados de coletes, capacetes, pistolas elétricas e escudos blindados.

– a direção do centro de pesquisa ordena que todos vocês voltem para seu acampamento, repito, retornem ao seu acampamento e ninguém vai se machucar – disse o soldado do meio por trás de toda sua couraça.

– saiam do caminho – gritei eu por cima dos urros da multidão – e vocês não se machucam, somos centenas.

– vocês foram visados.

Milhares deles surgiram das esquinas subseqüentes, começaram a atiras e desferir golpes a cassetetes, os gritos de todos nós de espalharam e todos correram em grupos para alguma direção atacada, desferindo tiros, nós a linha de frente seguimos marchando atirando nós que bloqueavam nossa passagem, estes recuavam protegendo os tiros com sua blindagem, uma nuvem tóxica foi despejada por um helicóptero, o ar era quente e fazia os olhos sangrarem e a garganta fechar, resistimos, permanecemos atacando, nossas granadas artesanais foram necessárias, a linha de artilharia mais ao fundo lançou dezenas delas como catapultas que ateavam fogo nos soldados inimigos da linha de frente.

– fogo! Fogo! Fogo!

Aqui é o cume do inferno.

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Ela se contorcia, os choques elétricos de intensidade quatro faziam a alma sair do corpo e os músculos se atrofiarem, a dor era tão intensa quanto infinita.

– pode parar – disse a Doutora.

Micaela estava amarrada pelas mãos, pendurada como uma peça de carne de açougue, seu corpo foi despido, chicoteado, e agora foi banhado para que a eletrocussão fosse mais intensamente dolorosa, sangue começou a escorrer do seu nariz e ouvidos e o cabelo se espalhava pelo rosto e chicoteava as feridas das costas e ombros.

– Miabe vamos matar a garota – disse o assistente que segurava o cilindro elétrico.

– calado verme – ela bateu os saltos no chão com satisfação, a sala ali era um silencio mortífero, nada alem de instrumentos de tortura dispostos na mesa bem como ganchos, três outros assistentes melhorados assistindo a sessão de tortura por uma janela de vidro onde faziam anotações. – ela vai abrir o bico,é uma boa garota.

Ela andou em torno de Micaela que fatigada, já não mais sentia os braços e as pernas.

– vamos acabar com a brincadeira por aqui Carteline – suspirou a doutora – sabe... seus pais foram os principais colaboradores dessa pesquisa, vocês acham que eles ficariam felizes se soubessem o que esta fazendo com os anos de trabalho deles?

Micaela permanecia calada, arfando, o gosto de sangue lhe preenchia toda a alma, a dor já era costume, onipresente, inumano.

– eles trabalharam horas, durante anos, dedicaram uma vida, morreram por esta causa... e você era o mundo deles, sempre tive uma certa invejinha da mosca morta da sua mãe, sempre tão dedicada.. tudo por você, tenho certeza que ela desaprovaria eu estar te fazendo tão mal, e posso parar... basta você me dizer onde e porque escondeu o Gerador-Mestre.

– não sei o que é isso. – arfou Micaela.

– Jonas. – Miabe grunhiu.

Mais dez segundos torturantes de choque. Finalmente parou, Micaela estava chorando e soluçando copiosamente. Jonas estava se segurando pra não chorar, era um Melhorado como Micaela, não conhecia aquele lado obscuro do Centro de Pesquisa.

– o Gerador-Mestre sua porcazinha mentirosa – berrou – aquele que você roubou da Base, aquele que você está escondendo porque se desbandeou pro lado dos Imundos!

– eu não sei o que é isso! – Micaela gritou em toda sua rouquidão vencida.

–eu vou te matar! E vou fazer isso agora! Diga-me onde está o Gerador-Mestre, me diga agora! – a doutora Miabe já estava completamente fora de si, os cabelos já tinha fugido do grampo e o jaleco estava suado.

– eu não sei o que é isso.

– Jonas duplique a potencia.

– Doutora, ela não...

– agora seu verme!

Os fios já estavam estalando, a eletricidade zunindo, Micaela podia sentir a dor se aproximando e tomando conta de si; não queria sentir isso, não queria mais, queria morrer de uma vez, mas não podia se morresse...

Se morresse tudo teria sido em vão...

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– marchem!

Os nossos mortos foram tantos que nadamos sobre eles, correndo, pranteando mas seguindo, estávamos atravessando o espaço entre a cidade e o Centro de Pesquisa.

Os que sobraram comigo choravam alto, mancos, sangrado, envenenados, baleados, combalidos...

– comandante – disse uma soldado correndo ao seu lado – somos menos de duzentos agora.

– isso tem que bastar – respondi

Entramos numa emboscada, na mata fechada cachorros correram até nós, atiramos ofensivamente sem pensar muito, vi de relance um cachorro pular no pescoço da soldado que estava ao meu lado e a devorar em segundos.

Daqui as luzes do Centro de Pesquisa brilhavam cem passos mais próximos.

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– ela desmaiou. Desgraçada – Doutora Miabe jogou a prancheta metálica no chão e soltou o ar pesado, sentou-se, cruzou as pernas e começou a saborear seu café, o assistente sentou-se ao seu lado, os olhos cor de areia apreensivos, Miabe admirava a garota desmaiada com saborosa crueldade. – vamos esperar que acorde pra recomeçar.

– Doutora talvez ela não saiba mesmo onde está.

Ela virou a cabeça lentamente fazendo o sangue congelar do jovem rapaz.

– então foi você?

– n...não..eu não! – gaguejou

– tem pena dela Jonas? Gosta dela?

– Doutora eu apenas...

– não quer que eu a machuque... ela é linda não acha? – a doutora levantou-se, pegou uma navalha na mesa olhou o brilho intenso na lamina com o demônio nos olhos – como você acha que ela reagiria se acordasse sem esse belo rosto?

Ela encostou a lamina na bochecha de Micaela.

– ela é uma ladrazinha... mapeou nossa estrutura, matou um paciente, e você é fraco o suficiente pra s encantar com ela apenas pela aparência, ela está com o gerador-mestre. Pegue o acido em cima da mesa.

Jonas levantou-se tremulo, Miabe já desferira um corte raso na bochecha de Micaela, divertia-se, deliciava-se em destruí-la. Jonas não pensou, pegou a acido que continha nas mãos e o lançou no rosto da doutora, essa blasfemou, urrando contorcendo-se, caiu pra trás, os residentes da sala de anotações correram pra pedir socorro.

– morre sua miserável.

Enquanto o rosto da doutora derretia, Jonas retirou Micaela de sua prisão e a levou pelos corredores escuros.

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– todo mundo pro chão! Vai! – o saguão estava em nosso poder, com armas forçamos os que ali estavam a se renderem, duas fileiras da tropa subiram a escada.

– A CURA É NOSSA! A CURA É NOSSA!

Meu peito exposto e ensangüentado já não agüentava mais respirar, cansado e esfrangalhado eu só possuía Micaela na mente. Comecei a correr pelo

corredor atirando sem saber exatamente pra onde e porque, não havia tantos seguranças assim, tecnicamente tomamos o poder, grande maioria foi morta no confronto de rua.

O grupo maior correu até a sala de checagem, vorazes, preparados para sugar a cura e pegar o gerador-mestre. Um grupo menor aguardou meu comando, coloquei a arma na cabeça da secretaria deitada no chão.

–onde está o gerador?

– por favor eu não sei! – miou ela aos prantos.

Dei dois tiros pra cima, encostei o cano quente do atrito das balas no centro da sua testa fazendo-a debulhar em lagrimas,

– o gerador?

– na sala subterrânea, pátio AA-6, senha: Carteline, por trás da porta de resfriamento.

– obrigada.

Olhei para o pequeno grupo, eles sabiam exatamente para onde correr.

– assim que acharem, voltem pro acampamento, não esperem por mim – ordenei.

Comecei a andar pelos túneis escuros dos laboratórios do centro de pesquisa, pelas janelas de vidro via melhorados em esteiras, sendo dissecados, sofrendo terrores, os médicos que faziam esses experimentos completamente a parte do caos e dos alarmes que soavam lá fora, não sei se torcia pra Micaela estar aqui ou não estar.

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–muito obrigada por me tirar de lá Jonas – agradeci ofegante – estávamos no extremo do corredor as portas de uma saída oculta.

– fiz o que achei ser certo – disse ele envergonhado, disfarçando aquele sorriso de orgulho heróico.

Estava prestes a correr pra porta de saída quando Jonas segurou meu braço.

– posso ir com você?

– lógico! Você não pode mais ficar nesse inferno, sabe que vão te punir pelo que você fez.

Puxei o braço dele de novo e ele continuou parado.

–o que foi agora Jonas? Meu corpo não se recuperou totalmente das torturas, precisamos sair daqui. – me irritei

– o gerador está com você?

–está!

– onde?

– te digo no caminho vem...

Jonas puxou meu cabelo e me empurrou pra parede, a lamina que ele escondia na outra mão parou em meu pescoço entre uma divisão altamente fatal.

– então pode passar pra cá.

– mas Jonas, pensei que fossemos...

– pensou errado bonitinha, eu precisava de você e não posso mais esperar, os nômades estão pagando caro, bem mais caro do que qualquer outro, e eu vou sair desse inferno multimilionário. – seu sorriso outrora bondoso agora era sedento e maníaco – só precisava te tirar daqui, se não aquela tonta da doutora Miabe te mataria e eu jamais ficaria rico. Agora diga! Diga! Eu não vou perder mais tempo.

– Micaela! – a voz de Cabel ecoou do inicio do corredor – ao se distrair, Jonas não esperava meu chute certeiro no abdômen fazendo-o bater contra a outra parede, corri até Cabel, ele me abraçou, beijou meu cabelo e apertou o meu rosto.

– você ta bem?

– estou! Temos que sair da...

A fita preta, a fita preta de cabelo no pulso de Cabel...

Fui engolida pra dentro de mim mesma...

“ – se caso aconteça de eu ir embora como você diz que vou, vou te procurar e vou te achar... nunca tire essa fita, pra eu saber que é você mesmo.”

– pare de me molhar Cabel!

– É só água do rio sua bobinha, do que você tem medo?

–– tubarões

Ele sorriu

– não seja ridícula. Pega minha mão.

...

– apaga essa lanterna! Apaga! Apaga!

– se a sua mãe nos pegar na biblioteca a essa hora estamos fritos.

– Está chovendo forte lá fora.

– – não tem medo, pega minha mão.

...

– feliz aniversario Cabel!

– Obrigado!

– Toma, é pra você.

– – eu nunca tinha ganhado uma bola antes, você é a melhor amiga do mundo Caela!

– – Cabel pode soltar minha mão, voce já agradeceu.

– – não quero.

...

– um dia vamos nos casar.

– – eca! Prefiro morrer

– – você é tão dramático.

– – se casamentos funcionassem no mundo dos adultos, meu pai não teria nos deixado.

– – vai ser diferente, agora vamos,pro pântano.

– – me dá sua mão.

...

– Cabel! – o tom de voz dela denunciou, ela lembra de mim! Ela se lembrou de mim! Ela lembra de mim de verdade!

– Você se lembra não lembra? Lembra de mim mesmo?

Ela pulou me agarrando pelos ombros,sua respiração eram martelos, e seu aperto era um nó cego sufocante, alisei suas costas tomado pela melhor sensação que já senti nessa minha vida miseravel.

– Micaela eu amo você.

– Segure minha mão.

Desprendi minha mão e segurei a dela.

Foi pouco tempo demais, foi rápido demais, até eu sentir o golpe da lamina me perpassar as costas, apunhalado, soltei-me de Micaela, e assisti agonizando ela matar o agressor como uma fera bestial.

– quantos dedos tem aqui Cabel?

– Seis

– Três!

Ela me colocou no ombro e correu comigo pra saída como se estivesse carregando papel.