Notas iniciais
Finalmente, Terra-Vida. Espero que curtam esse universo que estou criando, e por favor, não deixem de comentar.

Caído à beira de um rio cristalino, estava um jovem de cabelos pretos e todo sujo de sangue seco e terra. Suas roupas estavam em farrapos e, apesar de o jovem parecer bonito, aquilo não ajudava em nada a sua aparência. Seus olhos se mantinham fechados.

O som de pássaros cantando e água corrente, mas o calor que ele sentia tocar em sua pele dava um ar de calmaria. Davam vontade ficar ali para sempre. Mas seu corpo se recusava, especialmente seu estomago que parecia travar uma luta dentro de si.

Wallace abriu o olho lentamente, ainda cansado. Virou o corpo e vomitou água. Respirava de maneira uniforme. Deixou-se cair novamente contra o solo e as pedras a beira do rio que se encontrava.

Perguntou-se onde estava enquanto observava, através das árvores, o céu azul. Ele tinha certeza de que não estava em Nova Iorque, poderia ate duvidar se não fosse pelo fato de no céu houver três sois.

– Ou eu morri e fui para o paraíso ou... Fui para um hospital e estou fortemente sobre medicação ou... Eu finalmente fui parar em um hospício...

Sua barriga rugiu em fome. Levantou-se e se sentou observando a paisagem. Nada parecia diferente, então por que havia três sois no céu? Ele voltou sua cabeça para o céu. Isso não fazia sentido. Isso era totalmente impossível, pelo menos ate onde o conhecimento sobre astrologia que ele possuía aquilo não era possível. E se existe mesmo três sois no céu acima dele, então por que aquilo não parecia um deserto escaldante?

Uma fraca brisa passou por ele trazendo o cheiro de algo assando.

As perguntas podiam esperar, mas sua fome não. Levantou-se, e antes de perseguir aquele delicioso cheiro, ele caminhou ate o rio. Impressionou-se pelo fato do rio parecer raso, cristalino. Os peixes nadavam despreocupados.

Agachou-se e viu seu reflexo. Tirando o fato de estar imundo e fedido, tudo parecia certo. Lavou o rosto e o máximo que pode do corpo antes de seguir o cheiro.

Seu caminho era seguindo o rio correnteza abaixo. Olhando em volta, viu que estava dentro de uma floresta que apenas poucas partes selecionadas pela natureza eram abertas.

O cheiro foi ficando cada vez mais forte a cada passo dava dentro da floresta seguindo o rio.

Wallace já esteve em uma floresta uma vez, quando tinha apenas doze anos. A família com quem ele estava na época decidiu acampar. Aquilo não acabou bem, não quando o patriarca da família decidiu caçar e levar Wallace junto. Que tipo de homem entrega uma espingarda para um menino e manda atirar em um cervo? Ele não teve culpa de acabar assustando um gambá, que resultou em uma nuvem de puro mau cheiro e ele escorregando para trás e disparando a espingarda, mas ao invés de acertar o cervo, o alvo foi o traseiro do seu atual pai adotivo. E foi assim que mais uma vez ele retornou para o sistema.

A lembrança agora ate que era hilária. Seu caminho durou pelo menos uns cinco minutos, ate que ele finalmente chegou ao local onde estava sendo assado seja lá o que fosse. Escondeu-se atrás de uma moita entre as árvores acima de um barranco.

Bisbilhotou e viu uma fogueira e peixes, seis deles, em espetos de madeira e fincados na terra e assando próximo ao rio. Já parecia estar no ponto.

Ao redor da fogueira, ele não viu ninguém, apenas um tipo de mochila feita do que parecia ser couro. Era um tipo de mochila de viagem que ele já tinha visto uma vez em um filme de idade média.

– Quem sabe eu não tenha, por acidente viajado no tempo? – brincou consigo mesmo.

Usou seus sentidos, não encontrou ninguém mais perto do que uns duzentos metros de distancia, além dos animais pequenos.

Ele não era um fã de roubar, mas no momento sua barriga parecia ser.

Wallace saiu da moita e com passos cuidados, andou pelo barranco, e sem querer perder tempo, simplesmente saltou. Olhou para os lados pra ver se não tinha ninguém por perto. Vendo que estava tudo limpo por pelo menos uns três minutos, correu ate a fogueira.

Pegou dois peixes, apesar de estar faminto, não iria roubar toda a comida de quem quer que seja. Ouviu o som de gravetos se quebrando não muito longe. Alguém estava vindo. Com os dois peixes em mãos, ele olhou em volta, não viu nada que pudesse o esconder tão bem assim, ainda mais quando descobrisse que foi roubado. Viu uma árvore alta a alguns passos atrás da fogueira. Correu ate a árvore e saltou pulando um pouco mais de dois metros. Ao tocar os pés no galho, saltou novamente e repetiu o processo mais duas vezes ate ficar a um pouco mais de sete metros de altura, escondido entre os galhos e folhas.

Com sua visão melhorada, ele tinha uma vista boa e ampliada da fogueira.

Ao olhar rio abaixo, viu alguém subindo usando uma capa cinza com capuz usando um tipo de calça marrom e carregando entre os braços frutas que logo ele reconheceu como algumas mangas, bananas, goiabas e maçãs. O encapuzado usava luvas de couro marrom. Estranhamente tudo parecia tão... Medieval.

Torceu em pensamento para estar errado. Ele precisava estar errado, mas as circunstâncias não pareciam cooperar, ainda mais com a pessoa encapuzada parando a uns quinze passos da fogueira e deixou as frutas caírem. Foi então que Wallace pode ver que ele estava em uma furada, a estranha pessoa levou a mão direita pra trás deixando a vista o... O porta-flechas nas costas, ou melhor, aljava.

O encapuzado retirou uma flecha da aljava, e com a esquerda retirou um arco enorme de madeira e se preparou para disparar a flecha enquanto se aproximava da fogueira em passos calculados. É claro que apesar de tudo, ele assistia todo o desenrolar saciando sua fome. E ele tinha que confessar que aqueles peixes estavam deliciosos.

O encapuzado se aproximou da fogueira e observou tudo atentamente. Já Wallace, sentado no galho e comendo o segundo peixe, se sentia assistindo um filme de suspense ao observar o encapuzado olhar para os lados e logo em seguida se virar para observar o outro lado do rio. Ele só sentiu falta do refrigerante e dos chocolates.

Com uma velocidade acima da media, como um reflexo, o encapuzado se virou e disparou a flecha contra o meio da cabeça de Wallace.

Ele deixou seu corpo cair para trás surpreso pelo ataque repentino. A junta de suas pernas sob o joelho serviu como um gancho para segurar ele. Sem hesitar, se deixou cair dando um mortal em pleno ar e aterrissando em pé e sem deixar o seu alimento roubado escorregar pelos dedos gordurosos.

– Cuidado... Isso pode acabar machucando alguém. – Wallace sempre teve uma facilidade incrível para irritar as pessoas.

O encapuzado pareceu indiferente ao comentário dele, mas já estava disparando outra flecha.

Wallace desviou da flecha que era dirigida ao seu coração. Deu uma mordida no peixe.

– Hm... Olha, tenho que te dizer, seja quem você for, tem a mão cheia. Já pode casar.

Parece que desta vez ele conseguiu irritar o encapuzado, pois flecha após flecha, uma atrás da outra foram disparadas furiosamente e com uma precisão anormal. Wallace teve que dançar para desviar de todas, mas infelizmente duas flechas o atingirão. Uma no antebraço direito e a outra na coxa esquerda. Ao olhar para baixo, respirou aliviado.

– Ufa, foi por pouco... Ai... – murmurou contendo a dor.

Olhou para o restante do peixe em sua mão direita e logo em seguida para as duas flechas. Não pensou duas vezes, pegou o peixe com a mão esquerda e terminou de comê-lo antes de retirar as duas flechas e se segurando ao máximo para não gritar de dor.

A regeneração foi instantânea. Ele olhou para o encapuzado.

– Adianta eu pedir desculpas por ter te roubado?

Com o arco em mão, o encapuzado se lançou em uma velocidade incrível pra cima de Wallace.

– Pois é, achei que não... – disse ele e logo em seguida usou os braços cruzados para se proteger do punho pesado que o encapuzado demonstrou ter.

Wallace deslizou alguns centímetros para trás. Ele tentou ver o rosto do encapuzado, mas só viu uma máscara medieval que se assemelhava muito em asas de uma borboleta. Era de uma cor prata velho. A máscara cobria somente do nariz pra cima. Seus olhos eram diferentes. Não havia aquela parte branca, a Esclerótica, ao invés disso, era uma cor meio marrom, laranja e amarelo. Também não havia a íris e a córnea, simplesmente a cor ia ficando mais clara. E a pupila era um risco preto, como os de cobra.

Seus lábios eram rosados e sua pele tinha um tom diferente. Era muito parecido semelhante ao tom da pele de uma pessoa branca. Era um tom meio amarelo, se aproximando do verde, e ele podia jurar que, mesmo quase imperceptível, sua pele era escamas. Escamas que iam do queixo para baixo e também iam subindo e ficando mais fortes e perceptíveis próximas as orelhas.

Isso se comprovou segundos depois quando o encapuzado girou seu corpo e de trás de seu corpo, saiu debaixo da capa, um rabo enorme parecido com de um lagarto. Devia ter quase dois metros, ou mais. Se o soco do encapuzado já era forte, o golpe que Wallace levou da cauda o arremessou longe contra algumas árvores menores.

Wallace chacoalhou a cabeça tentando dissipar a dor do forte baque que ele deu contra uma árvore. Ainda meio caído, sentado e encostado na árvore, ele focou sua visão no encapuzado que ele suspeitava ser mulher e isso não contribuía nada para o seu ego.

Com sua cauda inclinada para o céu, o encapuzado estava em pé o observando em uma postura de raça superior.

– Ai... Isso doeu... – comentou enquanto se erguia e estalava alguns ossos. – Não podemos nos sentar e conversar como pessoas civilizadas? – flechas foram disparadas. – Não? Então, não diga que não tentei ser cordial.

Wallace desviou das flechas com maestria enquanto corria contra o encapuzado. A última flecha foi disparada, Wallace desviou e com o punho fechado, tentou socar o rosto do encapuzado, mas este se defendeu pondo o arco de madeira na frente, que curiosamente não deu o menor sinal de que iria se quebrar, mas em compensação, a força sobrenatural de Wallace não se conteve e lançou a estranha pessoa longe contra o rio.

O encapuzado caiu de costas e cambaleou duas vezes antes de cair de barriga pra baixo quase na margem do outro lado do rio.

Com as vestes encharcadas, ele se levantou. Pendurou o arco nas costas, e com um impulso, pulou chegando a quase três metros de altura, abriu a boca e cuspiu fogo como um dragão.

– Oh... Por essa eu não esperava... – disse Wallace e se jogou para o lado.

A manga de sua camisa do lado direito foi chamuscada.

– Hey, tem muito peixe aí, não precisa tentar fazer churrasco de mim. Acredite, não sou nada saboroso. – disse ele se levantando.

O encapuzado caiu em pé na margem do rio. Wallace esperou pela terceira rodada, ou quarta, seja lá qual fosse, mas ao invés disso, foram interrompidos pelos sons de cavalos relinchando como se fossem obrigados a parar de cavalgar.

Seja quem fosse, devia estar a mais de uns duzentos metros de distância, e seja quem fosse, de alguma forma assustou o encapuzado que em segundos já estava com sua mochila nas costas e se virando pra correr para o lado oposto de qual veio o som de cavalos e logo em seguida o latido de cães.

– Espere! – disse Wallace. – Quem é você? E por que você esta fugindo?

E pela primeira vez, o encapuzado deixou Wallace ouvir sua voz aveludada, porém séria.

– Quem sou não lhe importa estranho humano, mas se presa por sua vida, também fugirás... – e assim ela correu atravessando o rio e sumindo floresta adentro. Seja quem ou que fosse, era mulher.

Wallace resolveu aceitar o conselho da encapuzada e correu atrás dela logo ficando ao seu lado.

– Já que temos uma ligação, resolvi me juntar a você.

A mulher mascarada e com cauda de lagarto não disse nada, apenas tomou impulso e aumentou a velocidade.

Acho que ela tem uma queda por mim... – comentou Wallace antes de aumentar a velocidade e alcança-la. – Então, por que estamos fugindo?

A encapuzada, sem parar de correr, girou o corpo com o intuito de arremessar longe Wallace com sua cauda. Já Wallace, achou melhor levar tudo na brincadeira, pois se ele decidisse parar pra pensar no assunto, ele com certeza absoluta enlouqueceria com o que já testemunhou desde o assassinato daquele pobre infeliz.

Deu um mortal para trás desviando do golpe e diminuiu a velocidade, deixando a encapuzada pegar distância. Com um impulso potente, e o dobro da velocidade, ele correu e ao se aproximar dela, aumentou ainda mais a velocidade a ultrapassando. Ficou a vinte metros de distância da encapuzada, mas logo diminuiu a velocidade ao mesmo tempo em que se virava e corria de costas na frente dela.

– Vamos ser amigos... – insistiu Wallace com um levantar de sobrancelhas e um sorriso amigável.

Tudo o que ele recebeu foi um olhar frio por trás daquela máscara prateada. Wallace se virou a tempo de desviar de uma árvore e logo se pôs ao lado dela.

– Sério, ouvi dizer que cara feia dá rugas... – Wallace comentou apoiando a cabeça nos braços despreocupadamente. – Hum... Já sei...

E assim, ele se virou e correu em alta velocidade rumo ao rio. Rapidamente ele chegou ao rio e lá encontrou a fogueira ainda acesa e os peixes quase passando do ponto, mas não foi só isso o que ele encontrou.

Se aproximando da fogueira, três cavaleiros de armaduras negras e sinistras com espadas enormes e poderosas montados em cavalos negros, de olhos vermelhos e armaduras negras, acompanhados por três cães de pelo negro com quase dois metros de altura. Os cães pareciam lobos, mas vindos do inferno, pois seus olhos eram vermelhos e seus corpos deformados; era visível parte da carne e ossos, assim como nos cavalos. O ar em volta daqueles seres era denso e sombrio, carregando por onde passavam o cheiro de morte e a sensação de perigo. Wallace sentiu medo. Agora ele entendia do por que da encapuzada fugir, ele queria dar meia volta e nunca mais se deparar com aquelas criaturas, mas não podia, não se ele esperava ter alguma chance de receber a ajuda da encapuzada.

Sem parar de correr, foi como se ele surgisse do nada na frente daquelas criaturas, ao lado da fogueira. Socou com força o cão mais próximo quebrando alguns ossos da criatura e o jogando contra os outros dois cães, sem parar, desesperado para ficar o mais longe o possível daqueles seres que pareciam ter saído do submundo, agarrou os quatro espetos com os peixes, e correu usando toda a sua velocidade para o lado o oposto, seguindo em direção à encapuzada.

Ele corria a mais de cento e setenta quilômetros por hora, ele constatou. Demorou em torno de uns três minutos para alcançar a encapuzada que corria em torno dos sessenta quilômetros por hora.

– Oi de novo... – ele disse surgindo ao lado dela. – Peixes para a linda dama...

Ele disse com um sorriso galanteador. Não muito distante, eles puderam ouvir o som dos cachorros correndo atrás deles.

Wallace olhou por cima do ombro.

– Eles logo estarão na nossa cola... – comentou. Forçou-a segurar os espetos com os peixes. – Tome!

E sem cerimonias, a pegou no colo.

– Não temos tempo a perder... – ele disse sério e a jogou nas costas. – Se segure e me oriente para qual direção ir pra despistarmos aquelas coisas que parecem ter saído das profundezas do tártaro...

Ele sentiu que ela queria retrucar, mas ao ouvir o uivo de um dos cães mais próximos do que deviam, ela enrolou a cauda na cintura dele.

– Há uns dois quilômetros seguindo em frente a oeste, há um penhasco, se conseguirmos passar para o outro lado, conseguiremos despista-los. – ela indicou.

– Lá vamos nós... – comentou Wallace antes de aumentar a velocidade ao máximo que pode.

Apesar da enorme velocidade que ultrapassava facilmente os cento e cinquenta quilômetros por hora, Wallace podia ver tudo normalmente, quase em câmera lenta. Aos poucos, foi mudando a direção para a esquerda, sem segundos eles saíram de dentro da floresta para se depararam com um penhasco que ficava entre o lado deles e a outra parte da floresta. Sem hesitar, ele continuou a correr e saltou, chegando a um pico em torno dos dez metros de altura. A distância entre as duas partes da floresta tinha não menos que vinte metros de comprimento, e a queda era aterrorizante, pois um rio cheio de rochas, muitas pontiagudas, circulava a mais de cinquenta metros de altura.

Mas ele não se importou com aquilo, pois aquela sensação de quase estar voando, o ar limpo se chocando contra ele, era simplesmente incrível.

– Não pare de correr... – ela avisou enquanto ainda estavam em pleno ar. Sua voz, apesar de séria, tinha um pingo de excitação.

Wallace nada respondeu. Naquele momento, ele só queria aproveitar aquela sensação de liberdade que ele sempre buscou.

Rapidamente, ele caiu no outro lado da floresta, e como ela mandou, ele continuou a correr a toda velocidade.

Boa parte do caminho pelo qual ele seguia, era descida. A encapuzada indicava o caminho. Wallace desconfiou de que ela estivesse o usando como algum tipo de cavalo para chegar seja lá qual fosse o seu destino. Ele achou melhor não dizer, se bem que no lugar dela faria o mesmo. Ele precisava saber onde estava, se ele ainda estava na Terra, e se aquilo era permanente, e ter uma amiga seria o melhor jeito de descobrir as coisas e não acabar se metendo com estranhos, tipos os cavaleiros esquisitos de quem eles fugiram há alguns minutos atrás.

Mas uma coisa ele tinha certeza, estava mais perto de sua irmã. Ele se recorda claramente do estranho de olhos dourados dizendo que o prazo era ate o Eclipse Triplo. Na hora ele não soube como um eclipse triplo era possível, mas ao acordar a margem do rio e ver três sois no céu, tudo começou a fazer algum sentido. E ele apostava que a tal Aldenorah era um lugar daquele mundo surreal. Agora só era preciso ter um pouco de calma para não correr o risco de estragar tudo.

Quanto mais adentrava na floresta, mais forte o cheiro salgado invadia suas narinas. Ele sabia que o mar estava perto, cada vez mais perto. Aquelas árvores eram altas, bom, a maioria, e cobriam a floresta impedindo os raios do sol de alcançar o solo, então, quando Wallace atravessou a cortina de árvores e arbustos, foi como ver a luz no fim do túnel, e de novo, ele constatou, estava diante de um penhasco, mas desta vez, ao invés de ter um rio de água doce entre as duas partes da floresta, havia um mar, um oceano entre, o que ele desconfiou ser uma ilha pequena em que estava, e apenas uma sombra de terra a mais de dez quilômetros de distância, talvez muito mais. Aquela sombra de terra e montanhas não parecia ser apenas uma ilha, mas sim apenas uma parte de uma gigantesca cidade. Talvez seja ate mesmo a margem de um continente.

Ele parou bruscamente impedindo por pouco a queda para uma morte dolorida e sangrenta, ele constatou ao observar as ondas do mar se chocar bruscamente contra as rochas. Mais para a esquerda, com sua visão melhorada, Wallace viu o que parecia ser um pequeno vilarejo com casas de madeira e rochas a beira mar. Se ele estava na Terra, então era em uma época diferente, por que tudo indicava idade medieval.

A encapuzada desceu de suas costas.

– Então, o que eram aquelas coisas? – ele perguntou tomando folego.

Por um momento ele chegou a pensar que ela não iria responder. Ela jogou os espetos com os peixes penhasco abaixo, Wallace fez sinal de tentar impedir, mas já era tarde. Ele achou aquilo um desperdício.

– Não faço ideia, só sei que estão tentando impedir a minha missão. – ela respondeu e deu as costas para Wallace seguindo ao lado do desfiladeiro rumo à inclinação que levava direto ao vilarejo.

– Hey... – chamou Wallace e correu atrás dela e ficou ao seu lado. – Espere! Que missão é essa que quase lhe custou à vida?

Ela simplesmente o ignorou e continuou a andar. Wallace suspirou e a acompanhou em silencio, pensando em algo para conversar. Ele ate entendia o motivo dela manter a missão em segredo, ele era um estranho e nunca se sabe quem pode estar ouvindo. Ele também tem a sua própria missão: salvar sua irmã.

– Já sei... – ele disse com um tom mais alegre. – E se fizermos um acordo...

A encapuzada não parou de andar, mas ele notou que ela estava ouvindo.

– Eu te ajudo em sua missão, e você responde minhas perguntas sem fazer perguntas?

Ela nada disse, apenas continuou a andar. Wallace também não disse nada, apenas a seguia. A cada passo eles ficavam mais próximos da inclinação circular que levava ate o vilarejo. Na inclinação havia árvores, era a entrada para a floresta de quem vivia no pequeno vilarejo.

– Tudo bem... – ele ouviu a voz dela ao seu lado.

Wallace foi tirado de seus devaneios.

– O quê? – perguntou confuso.

Ela suspirou sem parar de andar e olhar pra ele.

– Eu aceito o acordo. – ela respondeu. – Mas antes, você tem que dar um jeito nisso, pois esse seu cheiro é horrível.

Wallace se pôs em sua frente estendendo a mão. Ele só não cuspiu nela, pois achou meio nojento.

– Wallace Wender.

Ela encarou a mão dele por trás daquela máscara prateada. Ela retirou o capuz e logo em seguida a máscara.

Apesar de tudo, de certa forma, de um modo exótico, ela era linda. Apenas a pele de suas bochechas e nariz era humana. Suas narinas eram quase duas fendas. A partir de seus olhos pra cima, eram escamas esverdeadas. Seu cabelo era liso e ultrapassava seus ombros, e tinham uma cor viva, eram de um vermelho escarlate vivo. Três chifres pequenos saiam entre sua testa e seu couro cabeludo. Suas orelhas eram meio pontudas e esverdeadas. Wallace constatou na hora, apesar de soar tão maluco, ela era algum tipo de... Dragão em forma humana.

– Khalya Mehrywgohn, princesa e herdeira do trono dos Dracognatus do reino dos dragões, Drasengohr. – e a princesa apertou a mão de Wallace.

O aperto foi no automático, pois Wallace estava pasmo. Dragões? Aquilo era sério? Era real? E ela disse reino?

Assim que o aperto de mão oficializando o acordo foi encerrado, Wallace tratou logo de beliscar seu braço pra ver se não estava sonhando.

Não, estou bem acordado... – comentou pra si mesmo. – Então, qual a missão?

Os dois voltaram a andar rumo ao vilarejo. Wallace percebeu que Khalya ainda estava hesitante, mas depois de ponderar por alguns segundos, ela respondeu:

– Salvar Joshua Draconiel, príncipe e herdeiro do trono dos Dragondohr do reino dos dragões, Drasengohr. Meu noivo e o homem que eu amo. Ele foi capturado por mercenários e vendido no mercado negro como um escravo.

– Espera um pouco, noivo? – Wallace perguntou se sentindo rejeitado.

Ela o encarou sem demonstrar emoção. Ele suspirou.

– Foi bom quando durou... – ele disse. – Explica direito essa coisa de princesa e príncipe.

– Em Drasengohr, além dos tradicionais dragões, também existem dos dragões humanoides divididos em duas espécies, os Dracognatus e os Dragondohr. Diferente dos Dracognatus, os Dragondohr possuem asas de dragões, e por esse motivo, se acham superiores e puros. Então, as duas espécies nunca se deram bem. Dispostos a mudar essa inimizade entre as duas espécies, nossos pais, atuais reis das duas espécies, arranjaram o casamento entre seus únicos filhos. Joshua e eu. Nos apaixonamos e estávamos dispostos a enfrentar os rebeldes que não aceitam essa união. Depois de sair para impedir o massacre de um vilarejo por piratas, Joshua foi dado como morto, mas quinze noites atrás descobri que ele foi capturado por mercenários. Os pais de Joshua foram mortos por criminosos mascarados que invadiram o castelo há dois meses. Se Joshua não retornar ate o Festival das Chamas que celebra o deus dragão, Norphestok, e também é o dia da coroação de Joshua como o novo rei da espécie dele, o tio carrasco de Joshua, Kulak Draconiel, será coroado o novo rei dos Dragondohr. Kulak deseja guerra e a total aniquilação dos Dracognatus, além de nos culpar pela morte dos pais de Joshua.

Wallace sentiu uma enorme vontade de dar meia volta e se mandar daquela loucura, mas ele fez um acordo, e ele nunca gostou de quebrar seus acordos.

– Quanto tempo para a coroação?

– Nove dias. – respondeu Khalya.

– E temos tempo?

Ela suspirou. Eles agora entravam na floresta descendo e virando na inclinação rumo ao vilarejo.

– A viajem ate Drasengohr leva no mínimo dez dias. – Wallace abriu a boca pra perguntar, mas ela respondeu antes. – Eu vim pelo caminho mais fácil e longo. O caminho mais curto, porém mais perigoso, leva apenas oito dias. Eu nunca conseguiria sobreviver pelo caminho mais curto, pelo menos não sozinha.

– E onde estamos? – perguntou Wallace.

– Estamos no continente Tran, na ilha Gallapargus, e aquele é um dos dois vilarejos da ilha, Gallap. Aquela sombra além do mar é o resto do continente Traniano. A viajem em alto mar ate a cidade portuária mais próxima do continente Razenía leva cinco dias com um navio bom. Os mercenários pegaram um dos caminhos mais longos para virem ate Gallapargus, ultima parada para finalmente irem ate o continente Stonía e de lá para o continente Metalía, o lugar onde se mais tem mercadores de escravos.

Wallace apenas confirmava com a cabeça, mas o fato era que ele não estava entendendo nada.

– Os mercenários ao invés de viajarem pelo mar de Razenía ate Gallapargus, resolveram viajar boa parte pelo continente Traniano. Em outras palavras, vou intercepta-los em Gallap.

– Então depois de resgatarmos o príncipe, vamos por... – Wallace deixou a meia pergunta no ar.

– Pelo mesmo caminho que eu vim. O caminho mais curto e perigoso de qual eu falei, é nas terras do continente Razeniano. Vamos viajar ate a cidade portuária mais próxima de Razenía por quatro dias e mais quatro dias por terra. Se fossemos pelo caminho mais longo e fácil, iriamos viajar pelo mar por mais dois dias e depois mais uns quatro ou cinco dias por terra. Se viajarmos ainda essa noite, podemos conseguir dois dias de vantagem.

– E quando os mercenários chegam aqui? – Wallace perguntou finalmente entendo pelo menos a ultima parte.

Eles caminhavam entre as árvores que aos poucos iam se dissipando e mostrando um campo arenoso e logo depois as pequenas casas simples com algumas soltando fumaça de suas chaminés.

– Hoje, ao pôr do sol. – ela respondeu.

– E... Como você sabe disso? – ele fez uma pergunta válida.

Wallace notou que ela não queria responder, mas acordo era acordo.

– Com a ajuda de uma sacerdotisa de meu vilarejo. Ela usou magia para ver quando os mercenários com o príncipe Joshua chegariam ate aqui, o local onde eu teria chance de intercepta-los.

– E quanto tempo para o pôr do sol?

– Três horas. – ela respondeu.

Wallace e Khalya rapidamente chegaram ao vilarejo. Eram poucas casas. O chão do vilarejo era uma calçada de pedras. Um rio com água do mar circulava pelo vilarejo, passando por baixo de algumas casas que eram suspensas. Um cais era visto em quase todo lugar pela pequena cidade. O cheiro de peixe impregnava o ar sobre o vilarejo. O clima era meio nublado sobre a cidade que atendia pelo nome de Gallap.

Wallace se sentiu dentro de um filme de fantasia medieval. As pessoas usavam roupas antigas, exatamente como ele já viu em alguns filmes de reis e rainhas, cavaleiros e magia medieval. Parecia ser um vilarejo bem calmo, pois ali não parecia ter mais que umas duzentas casas, e o povo todo pareciam ser camponeses e pescadores. Havia poucas pessoas que aparentavam não serem do local, pois usavam capas escondendo os rostos, algumas usavam roupas mais elegantes e muitos tinham olhares curiosos pelas casas.

Khalya rapidamente pôs a máscara e se cobriu com o capuz da capa que ela usava.

– Vamos achar um local para ficarmos, e aproveitar para comprar algo decente para você usar e tirar esse cheiro imundo de morte que emana de você. – disse Khalya.

Wallace suspirou, mesmo sabendo que de certa forma ela tinha razão, ele estava fedendo, mas mesmo assim não se conteve e acabou murmurando:

– Mulheres... Sem querer parecer um maluco e nem nada, mas qual é o nome desse mundo?

Ele notou que ela queria perguntar do por que dessa pergunta que aparentemente era obvio a resposta, mas acordo era acordo. Andando lado a lado e chamando a atenção de algumas pessoas, Khalya respondeu:

Terra-Vida.

Notas finais
Então, o que acharam de Wallace? E de Khalya? Em breve, pretendo postar um glossario e o mapa de Terra-Vida. O mapa eu já tenho feito, mas foi no word, se alguém se disponibilizar a fazer uma caridade pra esse pobre lego, eu ficaria muito feliz. Criei um trailer para a fic, por favor, assistam e me digam o que acham. https://www.youtube.com/watch?v=G6e4exTHNZA Abraços e ate o proximo capítulo.