Notas iniciais
Nenhum comentario? Sério? Por favor, não me façam implorar de joelhos... Bom em todo caso, mesmo que esses fantasmas desalmados não comentem, eu vou continuar postando...

No pouco tempo em que estavam em Gallap, Wallace e Khalya logo encontraram uma barraca na pequena rua de comércios do vilarejo. Os vendedores faziam seus papéis, tentavam vender seus produtos com perseverança. Wallace, mesmo sem dinheiro, quase comprou tudo o que lhe ofereciam.

A barraca em que estavam vendia roupas e acessórios. Khalya pegou uma bolsinha de couro dentro de suas vestes e com cinco moedas de ouro, comprou novas roupas para Wallace.

Os dois seguiram ate uma velha hospedaria que se chamava “Mr. NIGHTDREAM”.

– Nome ousado para uma espelunca... – comentou Wallace antes dos dois abrirem a porta e um sino toar acima dela.

Havia um balcão de madeira com pouquíssimos objetos. O lugar era iluminado pelas janelas velhas com o tempo e por luminárias sob as paredes. Passando pelo balcão, logo depois havia uma escada de madeira já velha e gasta que dava para o andar de cima. Atrás do balcão havia um homem gordo e com óculos meia-lua. Sua barba precisava urgentemente conhecer um barbeiro, constatou Wallace.

Khalya manteve o rosto baixo e deixou Wallace falar:

– Um quarto pra uma noite...

O velho homem gordo o observou, possivelmente imaginando se eles tinham dinheiro para pagar, pois Wallace não ajudava nada usando aquelas veste sujas, velhas e rasgadas.

Khalya entregou a bolsinha para Wallace, e esse por sua vez, retirou sete moedas de ouro e pôs sobre o balcão.

– Um quarto, agora. – disse Wallace soando o mais maduro que pode.

O homem pegou as moedas sem se deixar intimidar e ainda conferiu se eram verdadeiras. Constatando que eram verdadeiras, o homem nada disse além de entregar as chaves e informar o quarto de número 8.

Ao subir a escada, o som de madeira rangendo só indicava o quanto aquele quarto saíra caro, comentou Khalya.

O quarto por sua vez, era ainda mais infeliz do que ela imaginava. Já Wallace não achava de todo ruim, pra alguém que morava na rua pelos últimos... Quanto tempo havia se passado? Depois ele tinha que descobrir.

Era bem simples o aposento. Apenas uma cama que Wallace duvidava ser de solteiro, mas também duvidava ser de casal, estava entre os dois. Uma mesa com uma cadeira ao lado. Uma janela com uma cortina branca visivelmente velha, e uma porta que levava, possivelmente, ao banheiro.

– Eu vou me limpar e vestir as roupas novas... – ele informou antes de seguir para a porta e deixar Khalya que havia se sentado na cama parecendo que iria descansar um pouco.

Ao abrir a porta, ele constatou que era o banheiro, bom, pelo menos era algum tipo de banheiro. Havia somente uma banheira de metal e uma pia de pedra. Ele agradeceu por não estar com nenhuma vontade de fazer nada além de tomar um banho, pois claramente ele teria que ir a algum tipo de casinha lá fora.

Depois de encher a banheira, Wallace retirou suas veste e se deixou relaxar na água quente que a banheira lhe proporcionava.

Quase uma hora depois, Wallace saiu do banheiro usando suas novas vestes. Ele usava uma camisa esverdeada de mangas longas e capuz, um colete de couro cor-de-terra, luvas de couro e da mesma cor do colete que cobriam apenas a palma da mão; os dedos ficavam de fora, uma calça um pouco mais escura do que o colete e um par de botas cor-de-terra.

– Então, como ficou...? – sua pergunta morreu no ar ao observar que Khalya não se encontrava no quarto. – Deve ter ido estudar o perímetro... Pareço ate estar em algum tipo de filme de espionagem... Legal...

A janela do quarto se encontrava aberta deixando correntes de ar entrar e balançar a cortina. Decidiu sair também e conhecer um pouco desse novo mundo. Colocou o capuz sobre a cabeça e saiu pela porta do quarto.

Ao andar pelas ruas de Gallap, Wallace notou várias esquisitices das pessoas. Um homem, possivelmente um pescador não muito mais velho que ele, vociferando diante de uma janela do segundo anda de uma casa humilde – como todas as outras. Uma senhora já acima dos quarenta anos aparecendo na janela com um balde e despejando o que tinha lá dentro sobre o homem, e do lado da senhora, uma jovem tentando impedi-la. O homem ficou encharcado com um tipo de liquido gorduroso.

Crianças brincando do que parecia ser amarelinha. Barcos sendo ancorados, alguns trazendo peixes, outros caixotes e barris.

O som de seu estomago clamando por alimento o levou a procurar algo para comer. Próximo ao cais mais perto do mar aberto, ele encontrou um tipo de bar, se ele não estava enganado, aquilo era chamado de taverna. Em sua placa de madeira velha com o tempo e chuva, em uma tinta verde desbotado, ele leu:

Sher’r LLis... Cada nome ridículo... – disse negando com a cabeça. – Chega dar vergonha... – ele comentou seguindo rumo à taverna.

Ao adentrar no estabelecimento, o clima pareceu ficar tenso, as pessoas lá dentro, discretamente, paravam o que faziam e encaravam o mais novo cliente. A maioria das mesas de madeira estavam ocupadas e lotadas, algumas mais nos cantos, mais discretas, acomodavam pouquíssimas pessoas. Wallace não deixou de notar, mesmo disfarçadamente, na mesa no canto mais escuro da taverna, havia uma pessoa encapuzada usando uma capa preta bebendo o que parecia ser uma caneca de cerveja e comendo carne de modo discreto e misterioso.

Ele não podia julgar o desconhecido, pois também usava o capuz de sua camisa a modo de tentar ser misterioso. Ele sempre gostou de mistérios, era ótimo para manter interesse na vida.

Mulheres, algumas bonitas, outras já com alguma idade, passeavam pela taverna com bandejas de madeira servindo os clientes.

No balcão, um homem grande, gordo e meio musculoso fazia serviços repetidos como limpar os copos. Ainda havia clientes sentados nas cadeiras no balcão tomando suas cervejas, ou o que fosse aquilo. Alguns pareciam já estar corados pelo efeito do álcool.

Ele caminhou ate a mesa mais próxima que estava vazia e se sentou próximo ao balcão ficando de costas para a porta de entrada. Observando discretamente a taverna, notou uma escada de madeira que levava para o andar de cima logo depois do balcão. O silêncio que havia se instalado no momento em que ele entrou, desapareceu e os clientes voltaram a conversarem e gargalharem alto.

Uma jovem que devia ter a mesma idade dele o foi atender. Ela tinha um lenço sob a cabeça mantendo seus longos e cacheados cabelos cor-de-chocolate sob controle. Seus olhos eram de um castanho quase preto, e sua pele tinha um leve tom bronzeado. Ela era muito bonita. Wallace ate pensou em tentar flertar com ela, mas pensou melhor e achou melhor não, afinal, não queria causar problemas e em menos de duas horas estaria de partida para possivelmente sua morte.

– Desejas algo? – perguntou a moça não muito contente. Trabalhar em uma taverna cheia de bêbados deveria ser nada fácil.

– Por enquanto, não. – respondeu ele sem levantar o rosto. – Estou esperando alguém.

– Qualquer coisa, é só me chamar. Sou Neerin. – e ela se foi atender outro cliente.

Manter-se desconhecido era algo necessário, pois aqueles cavaleiros negros viram o seu rosto e ele não podia arriscar pôr a vida de ninguém em risco por causa dele. Já o fato dele não ter pedido nada, mesmo estando faminto, era por que não tinha nenhum tostão. Wallace esperava que Khalya surgisse a qualquer momento para que ele pudesse finalmente se aproveitar da boa vontade dela e compra o que comer, se isso não acontecesse, era só fingir que levou um bolo e se levantar e ir salvar o tal príncipe, Joshua, de estomago vazio.

Os minutos foram se passando e cada vez mais ele estava por dentro do que acontecia nas vidas de alguns clientes.

Um homem entrou na taverna usando roupas um pouco diferente do que era visto. Ele também usava uma espécie de chapéu preto e em sua cintura, uma espada. Uma capa preta com uma pelugem cinza sobre os ombros. Ele se sentou no balcão e pediu um copo de cerveja.

Uma mulher gorda e de cabelo trançado carregando uma bandeja com uma jarra de um liquido meio amarelo serviu duas mesas a sua frente. Havia cinco homens sentados à mesa bebendo e comendo carne, queijo, pão e peixe.

– Alguma noticia da filha do duque, Annadelle, xerife? – perguntou a mulher enquanto servia os homens. Sua pergunta era direcionada ao homem que havia entrado agora pouco e se sentado no balcão.

As risadas foram cessadas e um clima tenso pairou pelo lugar.

– Nada... Edgar insiste em dizer que cavaleiros negros os atacaram pelo caminho enquanto atravessavam a ilha ate Pagius, e ela foi capturada enquanto ele conseguiu fugir e retornar. – o xerife respondeu.

– Sabem o que eu acho? Acredito que essa história de cavaleiros negros seja mentira e ele a tenha a matado e a jogado no mar depois de ser rejeitado pela milésima vez. Ele deve ser julgado e enforcado! – a maioria dos clientes gritou em coro concordando.

– Isso já é com o duque. Ele será julgado hoje no meio da praça às sete da noite. – o xerife informou antes de virar o liquido da caneca garganta abaixo.

Se Wallace não estava enganado, Pagius era a outra cidade que ficava no outro lado da ilha.

– Nunca confiei nesse Edgar... – alguém comentou. – Cinco meses atrás ele chegou todo misterioso...

Como Wallace estava usando seus sentidos aguçados, ele ouviu por um mero segundo um rosnado.

– Tem recompensa? – Wallace perguntou atraindo a atenção pra si.

– Como? – o xerife parecia não ter entendido a pergunta.

Ele ainda tinha algum tempo antes do pôr do sol, e como ele estava naquele mundo sem dinheiro e com a barriga vazia, estava na hora de usar suas habilidades para se sustentar. E também tinha o fato de que ele sabia que talvez esse tal de Edgar fosse inocente, e se essa tal mulher ainda estivesse viva e na ilha, uma vida inocente poderia ser salva.

– Para encontrar a filha do duque, tem recompensa? – ele perguntou sem mostrar o rosto.

– Na verdade, tem sim... – o bartender respondeu e apontou com o polegar por cima do ombro.

Na parede atrás do balcão, além de haver prateleiras com algumas bebidas, também havia um mural com cartazes de procurados, avisos, entre outras coisas.

Wallace se levantou e foi ate o balcão, mesmo não precisando. Havia um retrato falado de uma jovem que não devia ter mais dos vinte e três anos. Ele não sabia se ela era loira, ruiva ou morena, mas desconfiava que ela fosse loira, e talvez de olhos azuis e muito bonita. Era o que ele imaginou ao observar o folheto preso no mural. A recompensa era de dois mil nycles. Ele havia perguntado para Khalya como funcionava o dinheiro e ela o explicou de forma resumida: Ouro. Prata. Bronze. Cobre.

Wallace logo entendeu como funcionava. Se ele tivesse que explicar para alguém do mundo dele, a forma mais simples seria da seguinte forma:

Uma moeda de ouro era o equivalente a cem dólares. Uma moeda de prata era o equivalente a cinquenta dólares. Uma moeda de bronze era o equivalente a vinte dólares. Uma moeda de cobre era o equivalente a cinco dólares. Mas ao invés de dólares, era Nycles.

O xerife se virou pra ele.

– Você acredita mesmo que consegue encontrar Annadelle em menos de três horas...? – o xerife perguntou descrente.

– Duas. – Wallace corrigiu. – Tenho um compromisso ao pôr do sol.

E sem esperar por mais interrupções, Wallace caminhou rumo à porta. Ele parou e se virou.

– Onde ele disse que a viu pela ultima vez antes de fugir?

Todos o encaravam sem saberem exatamente o que pensarem. Boa, Wallace, já é o centro das atenções.

– No pé da montanha Allapg, atravessando a ponte Nydin, em Silent Fall. – o bartender respondeu.

Nada de bom poderia vir de um lugar chamado Silent Fall, mas agora era tarde demais, não ira dar a chance de o chamarem de covarde, mesmo que faltasse pouco para sujar as vestes.

Saiu da taverna sendo acompanhado pelos olhos curiosos e descrentes das pessoas. Apesar de não conhecer nada daquele lugar, achou que não seria difícil de encontrar o tal lugar. O ponto de referencia era uma montanha, e pelo pouco que estava naquele lugar, não viu nenhuma montanha, então, talvez fosse a única de Gallapargus. Achar uma montanha não deveria ser tão difícil, ainda mais quando ele sabia que ela deveria ficar mais para o meio da ilha.

Ouviu a porta da taverna ser aberta atrás dele.

– Por quê? – alguém lhe perguntou, era uma voz desconhecida, de um homem. Escuto passos, mais pessoas haviam saído da taverna logo atrás dele.

– Por que o quê? – perguntou Wallace se virando e constando que o dono da pergunta era o misterioso encapuzado que estava sentado no canto mais escuro da taverna.

O xerife também estava no meio das pessoas que haviam saído para observá-lo.

– O que te faz pensar que Edgar talvez esteja dizendo a verdade? – reformulou a pergunta.

Wallace não viu nenhum motivo exato para ocultar a informação sobre os cavaleiros negros, pelo contrario, achou que talvez eles estivessem em perigo já que os cavaleiros aparentemente estavam perseguindo Khalya.

– Mais cedo, a caminho daqui, do outro lado da ilha, minha acompanhante e eu fomos atacados por cavaleiros vestindo armaduras negras. – ele respondeu mantendo a voz calma e misteriosa. As pessoas prenderam a respiração.

O encapuzado retirou o capuz revelando seu rosto. Ele devia ter em torno dos trinta anos. Ele era meio robusto, do tipo guerreiro, mas também tinha um ar mais jovial, intelectual, além de emanar um ar de honra. Seu cabelo era um liso meio ondulado, preto, e apesar de parecerem longos, não passava do pescoço e cobriam um pouco as orelhas, além de serem mal penteados para trás. Pele branca com levíssimos tons de bronzeado, quase imperceptíveis. Seu rosto era meio quadrado. Seus olhos eram de um castanho claro, quase dourado – por um momento Wallace teve uma ligeira impressão de que seus olhos haviam ficado dourados. Uma barba mal feita, além da roupa preta e cinza, a espada na cintura, tudo contribuía para dar a impressão de que Wallace estava diante de algum tipo de guerreiro poderoso e meio selvagem, talvez ate mesmo príncipe, além do ar de mistério em volta do homem. As mulheres suspiraram com a aparência do homem. Wallace revirou os olhos por debaixo do capuz.

– Mas se esses cavaleiros são reais, então como você espera enfrenta-los? – aquele misterioso homem fazia perguntas calculadas e sempre mantendo a voz o mais calma possível.

Wallace o encarou por debaixo do capuz. Qual era o jogo desse estranho?

Wallace retirou o capuz e esperou pelos suspiros que não vieram. Seu ego murchou.

– Vou pensar em algo na hora... – ele respondeu.

– E como uma criança pretende enfrentar esses tais cavaleiros? – o xerife perguntou.

– Hey, eu já tenho dezoito anos! – Wallace se sentiu ofendido. Ele se virou ficando de costas pra eles. – Eu não preciso provar nada pra vocês...

E sem esperar por mais perguntas e argumentos, usou sua velocidade anormal para correr, praticamente desaparecendo das vistas dos aldeões.

Ele só esperava que Khalya não ficasse irritada com ele por desaparecer antes horas antes de resgatar o príncipe. Bom, ele esperava retornar a tempo de salva-lo, mas mesmo que ele se atrasasse, ainda poderia ter chance de salva-lo, pois os mercenários teriam que atravessar a ilha para chegarem a Pagius.

Já próximo à floresta, ele aproveitou a velocidade e um barranco para saltar além das árvores e ter uma vista da ilha. Felizmente, ele conseguiu ver quase escondida pelas árvores, e bem distante, o pico da tal montanha meio coberto por nuvens e talvez neve.

Enquanto caia, ele ouviu passos rápidos, mas ao mesmo tempo leves, olhou para baixo e viu o misterioso homem o observando. Quando caiu de pé sobre o solo, ele não continuou a correr, apenas se virou para o homem.

– Nada mal... – o homem disse com um fraco assovio. – Decidi te acompanhar...

– Por quê? – perguntou Wallace.

Ele deu um leve sorriso sem emoção.

– Tenho um interesse especial nesse caso.

– Não pretendo dividir a recompensa. – avisou Wallace.

– Não quero recompensa. – ele disse.

– Então, tente me acompanhar... – Wallace correu floresta adentro.

Ao olhar para o lado, observou o homem correndo apenas uns dois passos atrás. Ele suspirou. Não estava correndo com toda sua velocidade, na verdade, deveria estar correndo em torno dos setenta quilômetros por hora, mais ou menos a mesma velocidade que Khalya tinha. Ele estava ciente de que essa velocidade era anormal para um humano, mas aparentemente era normal para outras criaturas.

A lembrança do que aconteceu no Central Park tomou conta de sua cabeça. O que aquele homem de olhos dourados era? Sua velocidade era anormal, ate mesmo para ele. E por que aqueles vampiros temiam tanto ele?

Discretamente, ele olhou para o homem que agora estava correndo ao seu lado. Perguntou-se o que seria aquele homem misterioso.

Rapidamente logo se viram próximos ao penhasco que parecia dividir a ilha, eles correram pertos seguindo o rumo ate a montanha que logo foi ficando cada vez mais a vista.

– Então, qual o seu nome? – Wallace perguntou.

– Antes de perguntar o nome de alguém, você deve primeiro se apresentar. – ele disse.

Wallace bufou e revirou os olhos.

– Bond, James Bond. – Wallace se apresentou sério como se fosse o próprio personagem.

O homem movimentou a sobrancelha perguntando se era verdade. Wallace riu.

– Desculpe, sempre quis dizer isso... – ele disse. – Wallace Wender.

O homem pensou por alguns segundos.

– Wallace Wender. Nome interessante. O Andarilho Forasteiro. Ethel Ulric. – ele se apresentou.

Wallace não sabia que seu nome significava O Andarilho Forasteiro, e de acordo com sua atual situação, isso era uma enorme coincidência.

– Algum significado? – Wallace perguntou.

– Nada que valha a pena mencionar... – ele respondeu.

Wallace resmungou fazendo bico, mas ficou só por isso mesmo.

O caminho era repleto por árvores, rochas e troncos cobertos por musgos. Árvores enormes com raízes maiores que ele próprio era vistas. Ele percebeu que conforme iam se aproximando da montanha, a floresta ia ficando cada vez mais silenciosa e deserta de animais. Ao olhar penhasco abaixo, notou que cada vez mais o fim ia sumindo e nuvens ou nevoa, seja lá o que fosse, estavam começando a surgir logo abaixo no penhasco impedindo a visão da enorme queda. E o céu estava cada vez mais sendo coberto por nuvens cinza, parecia que o inverno estava chegando.

Ao longe, graças a sua visão melhorada, Wallace logo avistou a ponte. Ainda estava muito longe para ver a construção claramente, mesmo pra ele. Logo atrás da ponte, meio ofuscada por aquilo que ele adivinhou ser neblina, talvez nuvens, a majestosa montanha, Allapg. Mesmo longe, ele notou o qual imenso ela era. Ele não conseguia ver o topo dela, e as nuvens eram mais concentradas sob a montanha.

– Então, qual o seu interesse nesse assunto? – Wallace perguntou, pois o silêncio estava começando a incomodá-lo.

Por alguns instantes, Ethel nada respondeu, apenas continuou a correr, muitas vezes desviando de árvores, outras saltando rochas e troncos. Cada vez mais próximos da ponte.

– É... Complicado... – ele disse por vez. Ethel suspirou por vez antes de decidir continuar. – O real nome de Edgar é Kane... Kane Ulric...

Levou alguns segundos para Wallace associar o sobrenome de Kane com Ethel.

– É o mesmo sobrenome... – comentou Wallace surpreso. – Então... Vocês dois são...?

– Kane é meu irmão mais novo...

– Por essa eu não esperava...

Wallace achou melhor não se intrometer mais na história de Ethel, mesmo que ele estivesse morrendo de curiosidade.

Finalmente haviam chegado à ponte. Wallace fez bicou e assobiou. Ethel, por mais sério que fosse, acabou sorrindo ao testemunhar a fracassada tentativa de assobiar de Wallace.

– Um dia eu ainda consigo... – o jovem declarou com os olhos azuis brilhando de determinação.

Com alguns passos mais a frente, o penhasco se tornou uma cratera disforme com provavelmente a mesma largura de um lado para o outro da montanha. Uma fraca nevoa cobria a cratera. As árvores eram quase nulas ao redor da ponte e da cratera. Devia ter um pouco mais de cem metros entre a ponte que cruzava o penhasco ate a montanha. Para chegar ate a montanha, era necessário rodear a cratera, mas com a nevoa ate mesmo na floresta, era difícil ver o real tamanho da volta que teriam que dar na cratera.

Ao olhar do outro lado da ponte, Wallace viu o caminho em terra pura que entrava na floresta e devia levar direto para a outra cidade portuária da ilha, Pagius.

– Então... – Wallace comentou vislumbrando a paisagem misteriosa que aquele lugar transmitia. – Essa cratera é... Silent Fall...

Wallace usou seu nariz para cheirar o ar. Era fraco, quase nulo, mas o cheiro de algo metálico, ferrugem.

– Sangue... – ele constatou.

– Hmm, parece que além de rápido, você também tem ótimos sentidos... – Ethel comentou.

– De fato. – Wallace não soou nada modesto.

Sem perder tempo, ele caminhou em direção ao sangue que levava direto para a cratera. Ao adentrar naquela nevoa, seu passo se tornou mais firme e cuidadoso. Seu pé direito tocou, ou melhor, não tocou nada. Ele sabia que finalmente estava na beirada da cratera. Algo incrível aconteceu, algo que pegou tanto Wallace, quanto Ethel desprevenidos. Uma rajada de ar os atingiu. Como se fosse magica, a nevoa começou a se dissipar. Bom, a nevoa não se dissipou, apenas retrocedeu se afastando da cratera e formando um tipo de parede logo atrás dos dois.

A visão limpa da cratera era algo que Wallace nunca imaginou ser capaz de testemunhar. Diferente do que ele pensava, e do que parecia ser, a cratera não era tão funda, devia ter uns cem metros de onde Wallace estava ate o fundo do local que parecia ter sido esculpido em rocha pura. No centro da cratera, havia um lago que era sustentado por uma cachoeira que devia estar a uns vinte metros de altura, e desse lago, um rio que passava pelo penhasco, abaixo do rio e que deveria ter seu fim no mar. A cachoeira caia de uma caverna na montanha. Havia outras inúmeras cavernas menores na montanha em quase todas as alturas. Na caverna mais próxima em uma altura em que Wallace e Ethel se encontravam, ele pôde ver o que parecia ser um enorme ninho de pássaro, maior que qualquer outro que ele já viu.

Em uma caverna entre rochas no pé da montanha saia fumaça. Próximo à caverna, pendurado na parede da cratera, havia uma construção de madeira sustentando uma gaiola de madeira, e dentro da gaiola havia alguém sentado, era uma mulher e ela parecia bem acabada, do tipo que já desistiu da vida.

– Acredito que aquela seja a... a... a tal filha do... ah, você sabe... – disse Wallace.

– Sim, mas... – disse Ethel o observando pelo canto do olho. – Nem mesmo eu consigo ter uma visão ampla... – ele murmurou quase imperceptível.

Wallace segurou o sorriso que queria dar.

– Bom... É só pegar ela e voltar... – Wallace parecia bem convencido.

– Espere! – Ethel o impediu pondo o braço na frente dele. – Não podemos simplesmente ir sem se preocupar com quem a colocou naquela jaula. Veja... – ele apontou para as cavernas na montanha. – São ninhos de águias douradas, Khyllis.

– E...? – Wallace não via o que tinha de mais.

– Elas são maiores que cavalos. – Ethel respondeu.

Wallace focou seus olhos na caverna mais próxima e lá viu dois pontos brilhantes, um brilho meio durado. Pareciam olhos.

Definitivamente aqui não é a Terra... – Wallace comentou.

– E também tem quem pôs a filha do duque naquela jaula... – Ethel continuou. – Pensei que eram somente rumores, mas parece que de fato eles habitam nas cavernas mais baixas dessa montanha...

– Eles? Quem são eles?

Era visível para Wallace que Ethel estava começando a se questionar a respeito dele, pois obviamente Wallace não sabia de praticamente nada sobre aquele mundo. Ele se perguntou se ele iria lhe responder. Ficou aliviado quando Ethel lhe respondeu.

– Orcs.

Ele tinha uma vaga noção do que aquilo significava. Assistir TV escondido pela janela dos vizinhos era algo que ele fazia quando mais jovem – alguns meses atrás. E foi assim que ele viu em alguns filmes e desenhos orcs. Criaturas que parecem ogros, mas ao mesmo tempo são bem mais humanos. Pelo que ele sabe, são criaturas selvagens, mas racionais e totalmente perigosos, e pelo que parece, comem carne humana, pois a jovem na jaula parecia mais um porco esperando pelo abate.

– Mas isso não importa... – ele disse antes de saltar cratera abaixo em uma queda silenciosa.

Notas finais
Então, o que acharam? Em breve, pretendo postar um glossario e o mapa de Terra-Vida. O mapa eu já tenho feito, mas foi no word, se alguém se disponibilizar a fazer uma caridade pra esse pobre lego, eu ficaria muito feliz. Criei um trailer para a fic, por favor, assistam e me digam o que acham. https://www.youtube.com/watch?v=G6e4exTHNZA Abraços e ate o proximo capítulo.