Os Howard - Fanfic Interativa
1 Prólogo
Notas iniciais
Prólogo
"A recordação é o perfume da alma. É a parte mais delicada e mais suave do coração, que se desprende para abraçar outro coração e segui-lo por toda a parte." — George Sand

No centro de tudo, havia Mary. As empregadas se multiplicaram num piscar de olhos e seu quarto ganhou dimensões extraordinárias, cabendo dentro o banheiro, um quarto de vestir e a luxuosa, porém exagerada, cama de dossel. Mary sentia-se em uma casa somente sua, um pequeno reino onde poderia mandar e desmandar, enviando criadas para encher os vasos de flores do jardim da mãe, ou chamando a governanta para combinar o horário da ceia particular. Havia sempre alguém entrando e saindo de seu quarto. O que mais gostava nele eram as altas janelas, estreitas, porém numerosas, em fileiras que cobriam toda uma parede. A luz que adentrava o quarto iluminava todos os cantos, mesmo os mais escondidos, nunca faltava claridade. E durante a noite era possível observar as estrelas de seu lugar na cama. Quando chovia, gostava de olhar as gotas escorregando contra o vidro, ou as sombras que os relâmpagos e trovões deixavam no chão. E no centro de tudo, havia Mary.
Quase que a joia da coroa da Rainha, de uma beleza simples e verdadeira, saída de um dos quadros renascentistas que transcreviam tão bem o modelo da mulher da sociedade atual. Seus cabelos eram louro-avermelhado, longos e finos, quase sempre presos em tranças elaboradas pelas caprichosas criadas. A tez branca, aveludada, com bochechas naturalmente ruborizadas e ângulos leves e arredondados. Queixo fino, nariz pequeno. Olhos redondos e do azul dos rios. Também era pequena e ainda ostentava um pouco das gordurinhas de infância, embora isso nada estragasse seu ar angelical e harmonioso.
— Senhorita Mary! Senhorita Mary! – a camareira atravessou as portas duplas do quarto de vestir, com seus sapatos de salto baixo ecoando sob o carpete e nos dois braços os mais belos vestidos que Mary Howard possuía. Ela parou abruptamente diante de Mary e esticou a frente os modelitos de 1837 que já precisavam de um novo lugar junto aos “vestidos para usar durante o dia”. E isso significava que os vestidos de “usar durante o dia” precisavam de um novo lugar junto aos “vestidos de doar para as criadas”. – O que acha, Senhorita Mary? O rosa realça sua pele e os cabelos ficariam maravilhosos com as pedras que seu irmão lhe comprou. Porém o verde é tão límpido e lhe dá um agradável ar de inocência. É claro que as mangas são um pouco largas e estão fora de moda, mas...
— O verde, senhora Tunner, foi o presente de mamãe para meu aniversário, lembra-se? – o sorriso de Mary destruiu qualquer desafeição que senhora Tunner tivesse contra o vestido verde. Ela tratou de assentir muitas vezes, enquanto se afastava de costas, até o quarto de vestir. Abriu um sorriso calmo e fechou as portas duplas.
— Você sabe como deixar as pessoas aos seus pés, Senhorita Mary. – disse a nova criada, que Mary recrutara a sua equipe de preparo para o primeiro baile de 1842. Ela fora recém-contratada pela mãe, assim que se mudaram para a Casa Howard, herança que pertencia a Bernard, mas que o irmão permitia a toda a família. Antes que Mary pudesse responder, porém, a moça colocou as mãos na cintura e disse: — Está pronto.
— Oh, Beth, incrível. – a senhorita se levantou, apreciando a própria imagem no espelho da penteadeira. Seus cabelos estavam levemente encaracolados, embora fossem lisos. A criada certamente tinha talento, pois trançara toda a parte da frente dos cabelos de Mary e prendera o fim da trança debaixo do coque alto que fizera, como se a trança estivesse segurando os cabelos. E ainda permitira que poucas madeixas encaracoladas cobrissem os ombros de Mary. Com certeza ninguém pensaria em algo tão elaborado. Embora a menor presenciasse todos os anos, desde que debutara, os mais escandalosos e estranhos penteados.
As pedras, que senhora Tunner mencionara, estavam estrategicamente colocadas nos vãos das madeixas da trança, como que aleatoriamente, embora mantivessem todo o penteado no lugar certo. Beth levantou um espelho de mão oval e colocou-o atrás de Mary, para que ela pudesse apreciar a parte de trás do penteado. Uma rede fina e prateada prendia o coque e as madeixas soltas não estavam dispostas ao acaso, mas foram separadas e enroladas uma a uma pelos dedos habilidosos de Beth. Realmente, era incrível.
— Posso chamar a senhora Tunner para vesti-la? – perguntou a criada, sem disfarçar o orgulho que sentia da criação.
— Por favor! Não vejo a hora de mostrar-me para mamãe. Muito obrigada, Beth, você tem dedos de ouro!
A faxineira se curvou levemente, ainda com um sorriso bobo nos lábios, e se encaminhou até o quarto de vestir, deixando Mary livre para se deliciar de todos os ângulos de seu belíssimo penteado. Quando a camareira retornou ao quarto, segurando apenas o vestido verde, prendeu a respiração e mordeu os lábios, contento os elogios que adoraria despejar sobre sua senhorita, porém mantendo a classe e pigarreando de leve.
— Por favor, vista-me. – ordenou a senhorita, e senhora Tunner não pôde deixar de notar o pedido em frente a ordem. Mary nem sempre fora a irmã de um duque, ela era uma menina simples e feliz com todas as coisas ao seu redor, o fato de pedir e não ordenar as suas criadas só demonstravam a beleza de todo o seu coração.
Então três mulheres se colocaram a trabalhar arduamente. Senhora Tunner chamou suas ajudantes e juntas vestiram as roupas debaixo de Mary e o suporte para a saia do vestido, que estaria esvoaçando pelo salão do baile em poucas horas. Quando a cintura de Mary foi bem modelada e os seios achatados contra o bustiê, elas vestiram a parte de cima do vestido em Mary e abotoaram as mangas de renda, combinando com as luvas também de renda. Então abotoaram a saia e as barras de renda, para que combinassem em tudo com a leveza da senhorita. Os sapatos, embora não fossem vistos debaixo do vestido, combinavam perfeitamente e deixavam a parte de cima dos pés de Mary a mostra, sem incomodá-la, como as botas e os sapatos muito fechados. Ela gostava de bailar e sentir o vento nas pernas enquanto girava, como se realmente estivesse sem sapatos (adoraria que realmente o fosse). As três criadas se afastaram para apreciar o resultado. Uma jovem encantadora e delicada, que convidaria com apenas um olhar a todos os rapazes solteiros a chamarem-na para dançar.
— Nunca esteve tão radiante, Senhorita Mary, asseguro-lhe que a fizemos hoje a mais bela de todas as donzelas de Birminghan. – senhora Tunner parecia prestes a enxugar uma lágrima.
— Ora, que rude. – Mary virou-se para as criadas – Apenas por ora sou a mais bela? Isso justifica porque nenhum rapaz se interessou por mim nos últimos quatro anos.
O rosto de Sra. Tunner empalideceu. A mulher abriu a boca para negar, porém sua voz lhe falhava. Havia insultado sua senhorita, a alma mais gentil e bondosa que conhecia, em frente a duas novas criadas. Como elas poderiam respeitar a Senhorita Mary se nem mesmo a mais velha camareira da família o fazia? As mãos da senhora se uniram em frente ao corpo e ela enfim encontrou a voz.
— C-Com certeza não foi o que quis dizer, Senhorita Mary, jamais a insultaria deste modo! Não há dúvida de que é a mais bela de todas! Minhas palavras foram mal colocadas, eu apenas queria dizer que está ainda mais bela!
A risada melodiosa de Mary tirou a todas de seu estado de pânico e tornou todo o ambiente novamente em uma mistura de encantamento e harmonia.
— Perdoe-me a brincadeira, mas não pude evitar, senhora Tunner. – a menor moveu a mão no ar, como se dispensasse a brincadeira como algo banal. – Eu realmente sou uma pessoa péssima!
E as duas criadas novas, e a senhora Tunner, tiveram de concordar que realmente Mary Howard era uma pessoa maravilhosa.
º º º
As coisas se arrumaram facilmente após assinar o documento.
Pensou que teria de enfrentar filas de burocracia intermináveis até ter acesso total ao dinheiro e aos bens que herdou em menos de... um mês? Era incrível como você podia sair da lama em menos de quatro semanas, mas é isso o que as pessoas chamam de “sorte”. Bernard Howard se considerava uma pessoa sortuda. Mas sua definição de sorte também ia contra o que a maioria das pessoas pensavam: não era uma substância palpável em todas as áreas da vida, mas uma pequena eventualidade, um detalhe que poderia transformar um homem. Não era a coisa mais simples do mundo perder o pai e ter de assumir o comando da família em meio aos vinte e dois anos. Havia acabado de abandonar a universidade para arrumar a vida da família e a sua própria, agora que eram duques. Ou, pelo menos, ele era. E havia ainda o marquesado de sua mãe, que ela ainda comandava embora fosse uma mulher. A herança era sua, claro, e seu nome estava nos documentos oficiais, mas... Seria errado negar algo que a mãe fazia com tanta perfeição. O marquesado de Northampton os salvara da ruína, e não por ser grande e rico, mas porque Juliana Howard estava no comando.
Agora tinha um baile para ir, e esse era o mais agradável dos trabalhos a fazer. Dispensara os criados que queriam arrumá-lo. Desde quando ele precisava de ajuda para colocar as calças? Era humilhante saber que todos os grandes homens da alta sociedade inglesa se rebaixavam a ter suas calças erguidas por pessoas pagas apenas para isso. Ele não precisava de um camareiro, sabia como organizar suas coisas, e gostava de fazê-lo, na verdade.
Arrumou uma última vez o lenço no pescoço. Era um acessório desnecessário, mas como Juliana dizia: um homem que se preze não mostra a garganta por aí, existem pessoas que não hesitariam em cortá-la se pudessem se aproximar o suficiente. Não que um lenço fosse impedir que uma navalha cortasse sua artéria principal, mas era o jeito da mãe dizer “eu falei e será assim”. Ela sempre conseguia o que queria.
— Senhor, trouxe suas cartas. – disse Martha, a governanta que o acompanhara desde que era um garotinho. Se havia uma pessoa tão próxima dele quanto toda a família, esta pessoa era Martha. Ela limpara seus machucados e ensinou as lições de aritmética quando nem mesmo o tutor tinha paciência para tal. A mulher soltou gritinhos de felicidade quando segurou Henry, Mary, Julie e Eddie assim que nasceram; e chorou quando o Senhor Henricky Howard morreu. A simples presença de Martha naquela nova e imensa casa era reconfortante e o mantinha disposto. – Se me permite, recomendo ler antes de ir ao baile. Pode lhe interessar.
— O que seria desta vez? Mais banqueiros pedindo para descontar os impostos do ducado? Ou exigindo que eu tire o marquesado das mãos de minha mãe? Desde quando eles a odeiam tanto? Foi uma ótima marquesa, lidou muito bem com a crise e melhorou o comércio.
— Eles implicam com os impostos que ela estabeleceu quando entraram em... uma situação mais delicada. – a governanta disse, cuidadosamente, pois estava se referindo a falência da família para a qual trabalhava.
— Mas agora estamos ricos. É óbvio que ela irá abaixar os impostos novamente. Custa esperar?
— Cada dia para eles importa, meu senhor. Não seja insensível.
Afundou-se na cadeira. Martha com certeza seria a única a ousar falar com ele daquele modo. E era grato a ela por fazê-lo. Eram tantas coisas em sua mente para uma única semana como duque! Ao menos as contas havia pago e a família conseguira se instalar com conforto na Casa Howard. Birminghan parecia pronta para receber os novos aristocratas, embora de novos não tivessem nada. Crescera naquela cidade cheia de fumaça e coches, visitou todos os maiores concertos desde os dezesseis anos e nunca abandonou a irmã em seus bailes, mesmo quando já havia debutado há anos. Mas de acordo com a sociedade, ele não existira até o dia em que se apossara do título de Duque de Norfolk.
— Irei me retirar agora, senhor. – disse Martha, fazendo uma leve mesura e deixando o escritório de Bernard com educação.
Olhou novamente as cartas antes de esticar as pernas sobre sua própria mesa de escritório e gentilmente emburrar a vela com a ponta do pé. Provavelmente mamãe teria falado o quando aquilo era irresponsável, mas como ela não estava por perto, abriu apenas um pequeno sorriso e se afundou um pouco mais na cadeira confortável e acolchoada.
— “O mais nobre de todos, Lorde Bernard Molineux Howard, duque de Norfolk.” – Bernard achava engraçado como as pessoas gostavam de enfatizar o fato dele ter dois sobrenomes fortes, que por algum motivo nunca foram notados antes. -...“venho por meio desta convidá-lo a conhecer minha filha”... – Bernard suspirou, abandonando o papel e colocando ambas as mãos no rosto. Respirou fundo, pressionou mais um pouco as pálpebras e então tirou as pernas da mesa num salto, arrumou-se na cadeira e abriu a segunda carta. – “...no baile dos Claret, seria de enorme prazer que o senhor conhecesse minhas filhas gêmeas...” – ignorou o resto e pegou a terceira e última – “Senhor Howard” – olhou bem para as letras e releu-as. Estavam chamando-o de senhor pela primeira vez em quatro semanas? Piscou, atônito. – “Senhor Howard, é de conhecimento de todos que o senhor e sua família comparecerão ao baile de Lorde Claret e Lady Claret. Evidentemente tem recebido muita atenção nestes dias, mas creio que um pedido de um velho amigo não vá incomodá-lo tanto quanto os outros” – Bernard temia o pior – “Por favor, dance com minhas filhas, Joana e Augusta, elas estão desanimadas após duas temporadas e poucas danças. Sabe como são as mulheres, elas precisam de um pouco de atenção.” – Bernard sabia que não tinha como recusar, não um pedido dele — “Se for você o próximo homem a dançar com ambas, creio que a popularidade delas cresceria e que logo encontrariam bons maridos. Faça-me este favor, sim, caro amigo? De Stephan York, arquiduque de York”.
Era impossível recusar o homem que ajudara tanto sua família durante tantos anos. Principalmente quando não eram duques. Juliana Molineux devia seu marquesado a Stephan e mesmo toda a burocracia que Bernard enfrentaria fora amenizada pelos contatos de Stephan com a coroa e o parlamento. E, acima de tudo, era o arquiduque de York que pedia a um mero duque de um ducado distante e infeliz para que dançasse com suas duas filhas por uma noite. Não era um grande pedido, na verdade Bernard deveria se sentir honrado. E se sentia, claro. Mas... conhecia as irmãs York, Joana e Augusta. Cresceram no mesmo bairro e frequentavam os mesmos bailes. Eram meninas pequenas, franzinas e pálidas. Tinham cabelos loiros como palha seca e olhos mortos. Suas feições não eram horríveis, porém não inspiravam os poetas ou atraíam os pintores, eram a encarnação da fome e da morte, embora de nada disso sofressem. Desafortunadas, as duas nasceram com grandes chances de conseguir um marido, porém um fator importante vinha de encontro quando pensavam em tê-las como esposa: ninguém queria acordar e ver o rosto de Augusta ao seu lado, feito um cadáver.
Bernard anotou mentalmente o nome de todas as filhas de senhores da alta sociedade que já haviam reservado uma dança com ele, embora o pedido sempre fosse do homem, e não das moças. Mas no caso, seriam os pais das moças, certo? Suspirou. E ainda teria de acompanhar Mary e a primeira dança da noite seria com a irmã, ao menos assim poderia conversar com ela sobre o novo assédio de homens que ela iria sofrer e... se ao menos o pai estivesse ali para tomar seu lugar na maior parte dos problemas...
Então estaria sendo fraco e covarde. Bernard se recompôs, colocou um cigarro no bolso do terno, pela parte de dentro, passou a mão pelos cabelos assegurando-se de que estavam bem presos, então colocou a cartola, os sapatos e enfim o broche com o brasão da Família Howard.
Iria dançar com todas as senhoritas que sua mãe ordenasse e no final da noite teria uma duquesa Howard em mãos.
º º º
Deixou que amarrassem o bustiê ao máximo, sem reclamar, embora estivesse doendo. Conseguiria aguentar por um baile. As mangas compridas assemelhavam-se a uma segunda pele, o tecido grosso pinicava sempre que tentava dobrar os cotovelos ou os pulsos, que tinham barras de veludo. O corpete lhe tirava o ar (ou ao menos grande espaço que poderia utilizar), ricamente costurado com uma boa imitação de fio de ouro, que se destacava bastante contra o vermelho vinho. A saia era feita do mesmo tecido, pesado e quente, que a parte de cima. Muito quente. A lareira estalou. Do lado de fora da janela o vidro congelava e era possível ver os flocos de neve ainda rodopiando pelo céu.
— E dizem que é primavera – mamãe disse, inspecionando-a uma última vez – Empurre esta barriga para fora, está ereta demais.
— Pensei que a moda era ter uma coluna reta.
— Isso quando não se tem um metro e setenta e cinco! Ande, diminua essa pose, mocinha.
— Sim, mamãe.
A marquesa Juliana era exigente com seus rebentos, principalmente com Julie. Era a quarta de cinco irmãos e a segunda filha. Mesmo assim a mãe parecia determinada em casá-la antes de Mary, a mais velha. Era injusto que Julie carregasse as expectativas da mãe, quando Mary era que deveria estar casada, com suas quatro temporadas inteiras no currículo, era quase uma intitulada solteirona. Mas é claro que Juliana Howard se preocupava mais com sua filha mais teimosa e menos atraente.
É claro que não apenas a mente quanto o rosto de Julie não ajudavam-na na caça aos maridos, mas tinha de ser tão alta também? Não que os homens fossem baixos demais para ela, eles normalmente a ultrapassavam facilmente, porém não era do feitio deles olhar para moças que poderiam estar em seu campo de visão quando eles não quisessem olhar para elas. Julie também tinha um rosto ameaçador, todos diziam, com olhos frios e um queixo fino demais. Uma vez ouvira “Lady Juliana com certeza poderia ser sua filha”. Fora o comentário mais rude que já lhe fizeram, embora ela não estivesse no meio da conversa quando a frase fora proferida, recebeu a notícia uma noite depois, quando recebeu o Baybourt. O jornal fora bem específico quando concordou com o dono da citação.
Ouviu a mãe suspirar.
— Poderia ao menos sorrir?
Julie abriu seu melhor sorriso de “estou tentando de verdade”, mas a marquesa Juliana não se satisfez e apenas revirou os olhos, como se já esperasse. Embora a mãe não estivesse criticando-a seriamente, sentia que a decepcionava, e esse era um dos piores sentimentos que Julie guardava no peito sempre que se olhava no espelho. Mary sempre fora graciosa e adorável, com tudo e todos. Inteligente, educada, energética... e Julie sempre fora... Julie. Era impossível comparar as irmãs Howard sem chegar a conclusão de que Julie não passava da sombra de Mary, seguindo-a pelo salão como se fosse uma dama de companhia com vinte anos a mais. Quando na verdade era a mais nova.
— Vou pedir a Bernard para que dance com você. – disse a matriarca, como quem tem tudo ao seu controle. E ela realmente tinha.
— Pelo que sei, Bernard irá dançar com Mary, ele prometeu acompanhá-la.
— Então será Henry. Não importa. Ele é um barão, mais que o suficiente. – então Juliana abriu um sorriso provocativo. – A menos que queira dedicar a primeira dança ao visconde Mirnoube...
— Não, com certeza não! – Julie exclamou, e então notou a falta de educação e pigarreou. A mãe apenas colocou as mãos na cintura roliça e ergueu as sobrancelhas. – Claramente que o senhor Mirnoube levará sua irmã Amandla para debutar.
— Claramente. – concordou Juliana, não sem antes sorrir debochadamente. A mãe sabia como ser irritante, mas era o que as unia, o que impedia Julie de odiá-la. Isso e o grande amor incondicional que toda família tem.
A governanta Martha entrou no quarto de vestir de Julie e informou a senhora Howard de que a carruagem chegara para levá-los ao baile dos Claret. Era um evento quase tradicional, uma cerimônia para a abertura da Temporada. A Casa Claret tinha um grande salão perfeito para danças, e Lady Claret sempre se certificava de selecionar uma grande e atípica lista de músicas para que os casais dançassem não apenas a valsa, mas as quadrilhas e, claro, para as senhoras que ficassem tomando o chá de cadeira não se entediassem.
A família se encaminhou para as escadas da Casa Howard. Eram degraus demais para um segundo antes tão baixo, mas as curvas pareciam a última moda quando a construção fora erguida. Havia duas carruagens esperando-os. Julie olhou uma última vez para a casa e suspirou. Eddie tinha sorte, ele com apenas treze anos, não precisava participar daquele ritual da sociedade, onde a metade do ano era ocupada por um evento idiota para casar jovens bobas com homens arrogantes e grosseiros. Talvez isso fosse o que realmente impedisse Julie de se interessar por qualquer cavalheiro no salão. Ela era rigorosa demais em seus julgamentos.
— Bernard acompanhará Mary. – disse Juliana, como se estivesse decidindo isso agora. O irmão mais velho assentiu, fingindo concordar instantaneamente com a mãe. Esse era um típico jogo de poder e submissão onde, olhe só, a mulher tinha o controle. Juliana era sua heroína! Mas a peça um dia teria de chegar ao fim. – Henry fique com sua irmã.
Não era preciso perguntar qual, é claro, porém ele virou seus olhos questionadores para a mãe e piscou os longos cílios. Era impossível não detestá-lo à primeira vista por ser tão atraente e aparentemente nada arrogante.
— Julie.
— É claro. – ele concordou, como se soubesse daquilo desde o início – Ora, mãe, não entendo por quê achou que precisava me explicar. – ele piscou, fazendo Juliana cerrar os olhos e os punhos. Ela apenas deu de ombros suavemente e declarou:
— Eu vou com Bernard e Mary.
Era claro que ela iria com eles, os mais velhos não a infernizavam como os seus rebentos mais jovens. Tendo enfim terminado a seleção, cada par entrou em sua respectiva carruagem, e a marquesa deu um último adeus a governanta. Julie gostava especialmente do interior das carruagens, eram sempre confortáveis e ela se sentia muito à vontade para ler um livro. Henry adivinhou seus pensamentos.
— Você deveria se casar com uma biblioteca, Juliane. – e deu um sorriso sarcástico. Ele era o único que a chamava de “Juliane”. Ela não gostava do nome, pois só a tornava ainda mais velha. É claro que ela nunca diria aquilo para a mãe. Mas seria impossível esconder seus segredos de Henry por muito tempo. Tentou entender como o irmão fazia aquilo de ler sua mente, quando o viu abrir novamente o sorriso espertalhão – Você sempre olha para o colo quando está ponderando em ler um livro ou dar um soco na pessoa ao lado. E como eu sou adorável demais para a segunda opção, obviamente seria a primeira.
— Muitas vezes você me faz ponderar pela segunda, querido irmão. – retrucou.
— Não seria eu se não o fizesse. Faz parte do meu charme, é por isso que sou ainda mais adorável. – Henry piscou, o que a irritou muito, muito mais.
Deu-lhe um estabanado tapa no ombro, que provocou apenas uma risada fraca, antes de enfim se colocarem em movimento. A carruagem balançou no começo, quando os cavalos hesitaram em passar para o trote, porém o sacolejar foi se acalmando conforme a velocidade aumentava. O cocheiro dizia os costumeiros “Aia” e “Eyo”. Julie gostaria de ter comandos tão simples quanto esses para colocar as pessoas para andar ou parar. Talvez ela tivesse um pouco da sede de dominação de Juliana Howard.
Antes que Henry pudesse atacá-la com mais de suas provocações, a carruagem parou em frente a Casa Claret e o cocheiro abriu a porta para eles. Henry desceu e a ajudou com uma mão, educadamente. Como eram irmãos, Henry tinha o dever de guiá-la e não deixar que qualquer homem sem escrúpulos se aproximasse de sua adorada irmã. Uma vez ele a deixara na companhia de um libertino para buscar limonada e Julie se viu contra a parede com um pedido impulsivo por “ser minha por uma noite”. Graças a Deus Henry voltara a tempo, antes que o estranho a puxasse para algum canto escuro e a estuprasse, mas isso não significou que estava livre do sermão de duas horas sobre “como damas não devem ficar sozinha na companhia de homens, principalmente aqueles que gostam de ficar sozinhos com damas” de Juliana. E, como se não bastasse, Henry havia sorrido como um demônio para ela por quase uma semana.
Subiram as escadas do jardim e entregaram os convites ao mordomo.
Julie recebeu seu cartão de baile, enquanto Henry enumerava todos os seus amigos, para quem a apresentaria hoje. Era quase uma obrigação, embora os Claret fossem o único casal a pedir a lista completa de senhores com quem a jovem conversaria, eram muito bisbilhoteiros. Mas isso facilitava o trabalho do Baybourt para as fofocas.
Entrou na sala de recepção, onde todos os convidados se amontoavam, esperando a abertura das portas para o baile. Como de costume, todos estavam um pouco atrasados quanto ao horário, para dar tempo aos mais nobres de tomar os primeiros lugares na fila. E, como sempre, Julie e Henry se posicionaram no final da fila, já que não passavam de aristocratas sem títulos. Enquanto pensava nisso, porém, Julie sentiu alguém segurando seu braço fortemente. Senhora Claret exibia sua verruga horrenda ao lado da sobrancelha e os olhos profundamente azuis, capazes de arrancar o último suspiro de um jovem cheio de forças.
— Senhorita Howard.
— Lady Claret – Julie fez questão de uma cortesia mais demorada. Embora todos em Birmingham comentassem o quanto Evangeline Claret era uma mulher ranzinza e indelicada, Julie gostava dela. Lady Claret a acompanhara na maioria de seus chás de cadeira durante os primeiros bailes, e desde então criaram uma amizade que convenceu os filhos de Evangeline a tirarem-na para bailar, mesmo que todos contra a vontade.
— O que está fazendo aqui? – a mulher questionou, sem prelúdio. – Senhor Henrick, por que trouxe sua irmã para o final da fila?
— Porque é o nosso lugar, Lady Claret. – Henry foi educado o bastante para não sorrir ironicamente. Porém a anfitriã não deu sinais de notar o sarcasmo presente na frase.
— Nem mais uma palavra! Esse não é o lugar da irmã de um duque. – e segurou deselegantemente o pulso de Julie. – Venha querida. E traga esse traste junto.
A jovem teve a decência de assentir com uma segunda cortesia, antes de virar o rosto por cima do ombro, em direção a Henry, e sorrir diabolicamente. O irmão apenas revirou os olhos, seguindo-a enquanto era arrastada por Evangeline. Pararam em frente à Tatyana Benroth. A garota, de um lindo sorriso largo e um horroroso vestido laranja, abriu a boca para falar, porém se deteve. Não seria educado falar com uma pessoa em posição superior, principalmente se fosse Lady Claret.
— Aqui é o seu lugar. – a anfitriã empurrou Julie para o quarto lugar na fila, atrás de... Mary e Bernard! Os irmãos mais velhos sorriram por cima do ombro, voltando a olhar para frente como se nada acontecesse. Mas Julie não tinha o mesmo talento deles para evitar os olhos arregalados e a boca em um grande círculo.
— Estamos honrados, Lady Claret, mas evidentemente nos colocar logo atrás de um duque, e em frente a filha de um conde, não seria o mais educado a se fazer. Com certeza não irão olhar com bons olhos...
— O baile é meu e eu decido quem é mais importante que quem. – Lady Claret o interrompeu imediatamente, voltando seus olhos para Julie e abriu um sorriso caridoso. Isso deixou Julie ainda mais animada. – É claro que, se eu pudesse, a colocaria na frente de todos, querida. Mas... o seu acompanhante parece um pouco constrangido com tanta atenção. – e então soltou uma bufadela decepcionada e abandonou-os para ir ralhar com seus filhos.
Henry revirou os olhos três vezes, até esquecer o que havia acontecido.
Julie não se importava tanto assim com o que as regras exigiam, e era de conhecimento de todos (através do Baybourt, é claro) que Lady Claret nutria um carinho especial pela filha mais nova dos Howard. Por quê, ninguém sabia. Nem mesmo Julie. Mas, enquanto ponderava sobre o assunto, sentiu algo roçar em seu dedinho e notou que era o dedo de Tatyana. A garota estivera sentada junto a Julie, nos bailes, e elas dividiam um companheirismo silencioso agradável. Se havia alguém que poderia ser sua melhor amiga (ou o mais perto disso) esse alguém seria Tatyana Benroth. Retribuiu o gesto segurando o dedinho dela com o seu próprio e ouviu-a sorrir através da respiração.
Finalmente as portas se abriram, revelando o salão imenso. Havia milhares de velas iluminando o ambiente e fora especialmente decorado este ano, com diversas estátuas renascentistas. Um luxo. Lord Claret segurou a mão de sua esposa, que olhou-o com olhos arbitrários, como se estivessem travando uma guerra silenciosa, e juntos eles adentraram o salão, seguidos dos convidados mais importantes, até os baronetes e cavaleiros. Como estava logo no começo, Julie pôde apreciar toda a maravilha do ambiente sem que mil pessoas estivessem bloqueando a visão.
— Não é à toa que os viscondes estão acima de duques como Bernard. – sussurrou Henry, sem precisar se curvar até o ouvido dela – Eles gastam mais com este baile que nós gastaríamos em um ano. E eu me dou a alguns luxos exagerados, na minha opinião.
Julie apenas concordou com um meneio e seguiu Henry até as cadeiras. Sentou-se, enquanto ele permanecia em pé atrás dela. A medida que os convidados entravam, iam ocupando os assentos. Algumas senhoritas eram acompanhadas por damas, outras pelas mães. Julie tentou encontrar a marquesa Juliana, porém ela deveria ter ficado como babá de alguma segunda filha desafortunada de uma senhora também desafortunada. Não era incomum. Quando finalmente estavam todos lá, o Senhor Claret se curvou diante da esposa, beijou-lhe a mão e a tirou para dançar. Seguindo este procedimento, os primeiros na fileira também o fizeram e levaram suas acompanhantes.
Henry apenas roçou os lábios na mão de Julie, pois ele não gostava muito disso, mas era educado o suficiente para seguir a norma. Eles se encaminharam até o centro do salão. Henry se curvou e Julie fez a cortesia. Quando todos estavam já no salão, a corneta soou em três tempos, até que o primeiro músico colocasse o arco no seu instrumento e iniciasse a música. Julie pousou a mão sobre o ombro do irmão e ele segurou em sua cintura e em sua mão desocupada. Mantendo uma distância respeitável (embora desnecessária, pois eram irmãos e por isso ninguém os olharia torto), começaram a mover os pés.
Por algum motivo, Henry se tornava outra pessoa quando dançava. Ele normalmente olhava para um ponto invisível no rosto de Julie e a conduzia sem erro. Era como se ele se perdesse em um mundo só seu, conforme a música passava. Talvez fosse um costume que ele gerara ao ter de dançar com jovens pouco atraentes, ou talvez fosse seu modo de dizer “não quero papo”. Isso não a irritava, de modo algum, era muito bom não ter as piadinhas de Henry enquanto tentava se concentrar em não pisar no pé dele.
Algo que por si só já era uma grande demonstração de amor.
º º º
Levou Julie até as cadeiras novamente e então deixou a irmã. A apresentaria a seus amigos depois, no momento tinha assuntos mais importantes. Procurou-a por todo o salão, mas era baixo e infelizmente as mulheres desapareciam atrás de seus parceiros de dança. Quando, finalmente, chegou a mesa com limonadas, pegou uma e bebeu-a. Azedo. Fez uma careta e deixou o copo no mesmo lugar. Teria de continuar procurando-a, como fazia em todos os bailes desde 1841. Dois anos procurando eram muita coisa, embora tivesse apenas metade do ano para fazê-lo. Era sempre o seu primeiro pensamento ao acordar na manhã de um dia de baile, eram as suas reflexões na semana anterior ao começo da Temporada, tudo o que ele desejava em suas noites e por quem fazia de tudo o que a sociedade ordenava. Henry sentia-se impotente contra a força dela, uma criança boba correndo atrás da borboleta. Como se fosse a mais bonita de todas, mesmo sendo apenas uma borboleta entre tantas.
Antes de suas esperanças começarem a definhar, a viu.
Era incrível o que provocava apenas por surgir diante de seus olhos. Era uma tortura o que provocava apenas por surgir diante de seus olhos. Engoliu em seco, sem perceber até o momento que estava segurando a respiração. Quando finalmente recobrou os movimentos, se pôs a empurrar casais que dançavam graciosamente. Ignorava qualquer resmungo e não se dava ao trabalho de pedir desculpas. Ela desapareceu, andando sem um rumo, talvez desorientada ou apenas curiosa. A cada passo que se aproximavam mais, Henry sentia o peito se comprimir. Tentou convencer-se de que era apenas a felicidade por revê-la após tanto tempo. Mas com certeza não era isso. Com certeza era mais que isso.
Seus cabelos estavam longos, mais longos que da última vez. Embora estivesse de costas, já conseguia visualizar a franja dela, encobrindo as sobrancelhas. Sempre se perguntou que tipo de expressão estaria debaixo delas. Um dos mistérios que o assombravam sempre que pensava nela. Sua tez era branca, alva como a neve. Em encantador contraste com as madeixas negras e grossas. Ela tinha um rosto delicado, e lábios desenhados. Seus olhos eram grandes e os cílios escuros e longos tocavam as pálpebras quando ela erguia a cabeça e...
— Jane. — ...eram os olhos verdes mais belos que já vira.
Por um momento aterrorizante ela estreitou os olhos e encarou-o. Então ergueu as sobrancelhas (ou ele achava que tinha feito isso) e abriu um sorriso pequeno.
— Henry.
— Senhorita. – ele se curvou e pegou a mão mais afastada do corpo dela, beijando-a de leve. Jane soltou o ar pelo nariz numa risada que ficava bem apenas nela. Henry ergueu seus olhos, ainda no ato, e vislumbrou-a observando-o com atenção. Jane não parecia ter uma companhia, entretanto, nenhuma dama ou cavalheiro. Mas na última vez, ela também não tivera. – É um prazer revê-la. A Inglaterra nunca foi tão entediante após sua partida.
E então ela riu de verdade. Mal-educada, barulhenta e rouca. Henry a venerava.
— Por favor, Maggie. Apenas minha família me chama de Jane.
— Como quiser, senhorita. – e apertou-lhe um pouco mais a mão, então soltou-a, pois se permanecessem mais tanto tempo próximos todos começariam a sussurrar, e a última coisa que Henry queria era difamar Jane. – Quer companhia? Vejo que está sozinha.
— Prevejo que não terei como recusar, olhe só todos esses olhares fugazes em minha direção. E eu apenas entrei sozinha em um salão. – e então olhou para as mulheres que a encaravam. As viúvas esconderam o rosto com o leque com que se abanavam. – São todas xeretas.
— Xeretas. – ele repetiu, brincando com a palavra. Poucas vezes tinha ouvido algo assim. Na verdade, pensava que nunca ouvira de alguém, até Jane dizer, com completa naturalidade. Havia poucas coisas nela que se pareciam com o resto da sociedade em que vivia. E isso era o que mais o fascinava. – Mas talvez não seja tão apropriado um homem com quem conversou apenas duas vezes te acompanhar a um baile.
— Eu nunca me importei em ficar sozinha. – Jane deu de ombros, deselegantemente.
Queria levá-la dali, onde pudessem conversar somente os dois. Na primeira vez em que a viu, ficou sem fôlego e por sorte estavam no jardim, onde os casais eram permitidos de conversar enquanto caminhavam. A segunda vez aconteceu um ano depois, e embora Henry não tenha imaginado encontrá-la, não podia negar que ficasse de braços cruzados enquanto todos os convidados entravam nos salões de baile e ela nunca estava presente. Durante um dos últimos bailes da Temporada Jane surgiu montada em um cavalo. Ele estava do lado de fora, fugindo da mãe e de suas pretendentes a noiva, quando ela apareceu, ao longe. Não reconheceu de imediato, claro. Mas assim que vislumbrou o vestido esvoaçando, perguntou-se que tipo de mulher cavalgava a noite com roupas de baile.
Era a primeira vez que a via em um salão de baile. E a visão não o desapontou. Se antes se perguntava de que talvez toda a sua surpresa e emoção com a beleza de Jane fosse mera má-iluminação ao ar livre, podia agora mesmo se estapear. À luz das milhares de velas do Salão Claret, os olhos de Jane brilhavam ainda mais. Sua pele parecia bruxulear junto das chamas, recebendo as sombras e brilhos do contraste da luz. Seus lábios ficavam entreabertos e ela erguia bem o queixo para olhar diretamente no rosto dele, o que a deixava ainda menor e mais graciosa. Quando Jane expirou, sentiu um impulso de abraçá-la e observar a curva de sua garganta bem, bem de perto. Mas apenas desviou os olhos, fingindo estar desinteressado no rumo da conversa.
— Os Claret são conhecidos por pensar em cada detalhe de seus bailes. Ninguém fica sozinho, mas todos ficam à vontade. Os salões pós-baile estão abertos para os convidados que desejam privacidade. Porém existem dois salões. Para mulheres e para homens.
— Entendo o problema. Imagino que o senhor não queira passar pela humilhação de ser encontrado no salão das mulheres.
Henry abriu seu melhor sorriso travesso.
— Na verdade seria bem interessante.
Jane ergueu uma sobrancelha e em seguida bufou. Como um animal. Henry teria achado aquilo horrível para qualquer um, mas em Jane se tornava adorável.
— Vocês homens são todos iguais, acham que podem tudo. – seu sotaque era tão delicado e expressivo!
— Desculpe. – balbuciou, ainda cego de admiração.
Jane deu de ombros novamente.
— Então eu vou para a sala das mulheres. – disse, olhou ao redor e pareceu avistar as portas com flores vermelhas e algumas senhoras em sofás e divãs espalhados. – É, eu vou. – então voltou a olhar para Henry, algo que sempre lhe tirava o fôlego. – Até outra vez.
E ela se foi. Fácil assim. E ele não queria prendê-la ali, queria que voasse livremente por todos os lados, e que voltasse a pousar em seu ombro quando lhe conviesse. Ou quando o destino assim quisesse. Notou que estava imóvel apenas quando sentiu a mão da mãe puxando-o pelo cotovelo e obrigando-o a se virar, dando as costas para as portas do salão das mulheres e ficando de frente com uma jovem de... quatorze anos?
— Esta é Lolita Fairchild, filha do marechal Leonel Fairchild. E este é meu filho, Henry.
A menina ergueu os olhos rapidamente apenas para constatar quem era Henry, e então voltou a abaixá-los com a mesma rapidez. Henry soltou um sonoro e quente suspiro, que não deixou Juliana nem um pouco contente.
— É um prazer conhecê-la, senhorita Fairchild. Me daria a honra da próxima dança?
— Decerto.
Henry não pediu por autorização, pegou o cartão dentre os dedos dela, anotou seu nome caprichosamente e voltou a entregá-lo a moça, que enrubescia como uma pimenta. Quando ela se afastou, a mãe segurou firmemente seu braço, antes que ele também escapasse.
— Eu vi. – disse com os olhos felinos. – Eu sei.
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