Os Howard - Fanfic Interativa
9 Chapter VIII
Notas iniciais
Chapter 8
"O verdadeiro homem quer duas coisas: perigo e jogo. Por isso quer a mulher: o jogo mais perigoso."
Friedrich Nietzsche
O Sarau das Gunninstones era terrível e embora fosse o seu primeiro sarau dentro da aristocracia inglesa, Jack decidiu que odiava sarais. Ficar sentado, ouvindo jovens tocando em desarmonia e com veneno nos dedos era algo que somente os mais fortes conseguiriam. Pobre moças, jamais arrumariam um bom esposo com tal demonstração de falta de graça e feminilidade.
Ao contrário, ao seu lado, Katherine era a postura exemplar de um quadro vitoriano, os ombros retos, o rosto bem erguido com o nariz arrogante, os olhos fixos na apresentação, por mais que não estivesse realmente escutando, suas mãos unidas sobre o colo e o vestido simples, diferente de todos os que ele vira até então. Sorte sua que os Havington haviam falido antes de desposar Katherine, ou a teria visto naquelas mesmas circunstâncias que a moda exigia, e realmente não queria isso.
De repente a música parou para o interlúdio e Jack viu uma movimentação estranha sobre o palco, com as moças que estavam tocando se retirando e levando junto seus (malditos) instrumentos, uma a uma, curvando e agradecendo a todos por terem paciência para aguentá-las (ou assim Jack supôs). Então uma garota que nunca havia visto antes em nenhum baile da Temporada surgiu detrás da cortina pela direita, acenou a todos e curvou-se levemente. Usava um vestido infantil, cheio de babados e cor-de-rosa, sua pele era branquíssima e as bochechas avermelhadas, seus olhos do mais puro azul e a cabeça sustentava fios de ouro. Poderia mesmo ser uma princesa e Jack se curvaria diante de seus pés. Mas ela parou no centro do palco e entoou em voz de soprano, na nota mais suave e harmônica daquela noite.
— Meu nome é Paige Gunninstone, debuto este ano, neste sarau. – e então suas mãos trêmulas tiraram algo de um... bolso? O vestido tinha um bolso? Jack achou aquilo engraçado. – Minhas irmãs todos os anos tocam, porém não tenho aptidão para a música.
Gargalhadas afloraram entre os convidados, que logo as contiveram, porém Paige apenas abriu um sorriso consolador que significava que ela tinha consciência do desastre de suas irmãs, e que por saber de seu próprio desastre não seguiria o caminho delas.
— Lerei um poema, escrito por mim. – e então ela abriu o papel que agarrava firmemente. Jack supôs que aquele fosse um importante rito na vida de uma jovem, o dia em que enfim poderia frequentar a sociedade como uma adulta, ser tratada como uma adulta. Embora não necessariamente ser uma adulta. – O tempo é muito lento para os que esperam; Muito rápido para os que têm medo; Muito longo para os que lamentam; Muito curto para os que festejam; Mas, para os que amam, o tempo é eterno. [Henry Van Dyke]
— É muito verdade. – disse Katherine ao seu lado, e Jack sentiu os pulmões se enchendo de ar, enquanto pensava em uma resposta inteligente e charmosa para lhe dar. Mas não foi ele a dizer:
— Ela escreveu algo muito perspicaz. Ninguém divaga sobre o tempo e como ele passa para diferentes pessoas em diferentes períodos.
Jack encarou-o, irado. Como ousava falar com sua noiva como se ele fosse alguém próximo o bastante? Não sabiam todos que quando os noivos estão juntos em alguma ocasião, deve-se tratar com formalidade o casal e deixá-los debater em paz, isso quando já são grandes o suficiente para não precisarem de acompanhantes? Mas não era qualquer jovem prepotente e metido a galanteio, tinha um rosto sério, cabelos ruivos escuros e olhos pequenos, espreitando a ideia do poema. Jack se empertigou, abrindo seu sorriso mais amigável.
— Uma surpresa e tanto, aposto que todos falarão por uma semana sobre como a última garota dos Gunninstones fez o sarau valer a pena.
Katherine virou a cabeça com seu olhar mais mortal, a própria figura do ódio. Jack não entendia ainda por quê ela o odiava tanto, afinal ele fora educado e amigável em todos os saraus, o que já era um milagre se comparado ao tipo de coisas que ele pensava enquanto apertava a mão do Conde Nelson ou de um embaixador engomado. Só conseguia se lembrar das ruas aonde foi criado, do bordel, de sua mãe. E da vida que milhões de pessoas tinham além daquela mansão.
— Por semanas eu não garanto, mas até o próximo baile, sim. – concordou o rapaz, esticando a mão. – Bernard Howard.
— Jack Mason. – cumprimentou-o, analisando bem aquele sorriso amigável. Katherine parecia desconfortável em ter ambos os homens se cumprimentando a sua frente. Jack recolheu a mão rapidamente, pensando que talvez ela estivesse se sentindo sufocada. – Você quer sair e tomar um ar, Kathe?
Katherine enrubesceu instantaneamente, as bochechas ganhando um tom tão intenso de vermelho que Jack ficou pasmo de medo.
— Não me chame de Kathe! E eu estou bem!
— Katherine, não seja dura com o rapaz, ele só está preocupado. – Bernard corrigiu-a, com um jeito paternal.
Jack não soube por que, mas de repente ele era quem precisava de tomar um ar, enchendo-se de ciúme, enquanto aquele homem controlava a situação com tamanha maestria. Queria permanecer a sós com sua noiva, ao menos para que ela se acostumasse a odiá-lo em segredo. Mas por que tinha de ser tão amável com alguém que não era o seu futuro esposo? Por que tinha de odiá-lo tanto? Jack não entendia isso, também não entendia por que se importava com isso, afinal já estava tudo certo e Katherine seria sua esposa. Ela poderia ser gentil com quem quisesse, mas ainda permaneceria eternamente ligada a ele. Tentou se acalmar com essas afirmações.
— Servirão o jantar em breve – anunciou Bernard, levantando-se e arrumando as abotoaduras de suas mangas. Ele lançou um olhar risonho a Katherine e esticou a mão – Poderia fazer companhia a minha família, Srta. Havington?
— Não!
Diversas conversas próximas se interromperam no mesmo instante que a voz de Jack ecoava pelo salão da Casa Gunninstone, até mesmo as meninas que se apresentaram e agora arrumavam todos os seus apetrechos de música pararam para observar o que se passava com o Duque de Norfolk e um sujeito qualquer chamado Jack Mason. Jack sentiu a vergonha recair sobre seus ombros, porém o peso era três vezes maior ao notar que Katherine cobria a boca com a mão e seus olhos faiscavam de raiva. Mas não podia deixá-la escapar tão facilmente, não quando poderia passar um jantar confortável com ela, tempo para conversarem e se entenderem. Afinal ele não queria passar o resto da vida sendo fuzilado por quem dormiria ao seu lado na cama. Talvez estivesse sendo egoísta demais. Não pensara antes de dizer aquilo, algo que raramente fazia, apenas quando perdia o controle de suas próprias emoções. Outra coisa tão rara ainda.
— Digo, Srta. Havington jantará comigo. – disse, polidamente, tentando encontrar seu sorriso amigável, mas colocando no lugar o sorriso desconcertado. – Ela me prometeu. Não, Kathe?
Katherine cerrou os punhos ao lado do corpo, enquanto contava mentalmente até dez, mas perdeu a paciência no seis. Assentiu, sem demonstrar qualquer emoção. Bernard deixou-os, indo se juntar a sua família, e a cada passo que se afastava dela era uma pedra atirada contra seu pobre coração. Katherine achou que iria desmoronar, suas esperanças estavam todas sobre Bernard, e Jack parecia decidido a estragar qualquer chance. Ele não era seu esposo ainda, poderia quebrar o acordo se quisesse e os Howards a sustentariam com conforto, eram uma família rica e prosperavam a cada mês.
— Por que sempre estraga tudo? — disse, sem pensar, quando estavam longe das pessoas bisbilhoteiras.
Havia uma saca no salão, de frente para o jardim, onde as grandes cortinas brancas impediam que a luz passasse e que alguém pudesse ver além delas. Sem temer, Katherine atravessou-as, encostando-se no parapeito de metal, frio e pontiagudo, enquanto Jack se aproximava, ombros encolhidos e olhos baixos. Katherine não pôde deixar de sentir um pouco de pena por ele, um pobre que vinha pela primeira vez a um sarau da aristocracia poderia passar por más cenas caso não se comportasse com elegância e educação, algo que muitos pobres não sabiam de nascença e tinham de batalhar para conseguir obter. Nunca vira um dentro de um baile da Temporada, é claro, mas sabia que eles existiam, já se fora o tempo em que a Nobreza era feita de sangue e história, infelizmente.
— Não quis gritar.
— Claro que não – ela concordou – mas o fez e por isso seremos alvo de fofocas, e Bernard também estará dentro delas, você está destruindo a imagem que ele tem, deveria se envergonhar, Bernard nunca fez mal a ninguém e não merece passar por uma humilhação.
— Se ele é tão bom como diz, então não se preocupe que as pessoas não irão especular nada de ruim.
— Você não nos entende. – revirou os olhos.
— Ainda bem – ele murmurou, mas Katherine ouviu e lançou-lhe um olhar mortífero que poderia atravessar sua alma, ou chegar muito perto dela. Jack suspirou, e o silêncio entre eles, misturado ao frio, serviu para amenizar as apunhaladas que um lançava ao outro. Quando ambos estavam mais calmos, o salão encheu-se de um cheiro maravilhoso de jantar dos Gunninstones, a verdadeira parte que fazia a todos da sociedade irem ao maldito sarau. A comida era sempre deliciosa, Katherine se lembrava da última vez em que ali comera. Carneiro e vinho para todos. Sua boca encheu-se de sede apenas por lembrar.
— Deveríamos entrar? – Jack propôs, a voz mais serena e conciliadora. Katherine olhou para o salão e balançou a cabeça negativamente.
— Ainda há muito saindo do salão para a sala de jantar, ninguém pode nos ver sozinhos deste jeito, parecerá algo indecente.
Jack riu.
— Mas é algo indecente. – concordou. – Não tão indecente com o que já vi, mas indecente o suficiente para a sua gente.
Ela revirou os olhos, batendo ansiosamente o dedo sobre o parapeito. Isso lhe deu uma sensação de familiaridade e de conforto maior, talvez Katherine estivesse se sentindo mais a vontade em sua presença, um avanço e tanto. Jack queria dizer algo, falar qualquer coisa que pudesse tornar aquele momento engraçado e memorável. Algo que os conciliassem para sempre. Não apenas o silêncio e o vento.
— Me desculpe por ter gritado, eu estava me corroendo de ciúmes. – disse, sincero. Katherine ergueu o rosto imediatamente, as sobrancelhas arqueadas e os olhos cheios de espanto. Então ela riu, uma estrofe que embalou os ouvidos de Jack com maestria, e por fim ela cruzou os braços.
— Ciúme? Não sabia que pessoas como você conseguiam sentir ciúme, apenas inveja. – mas seu tom era de quem tira sarro com uma piada amigável, e o encorajou a continuar.
— É verdade, raramente alguém como eu consegue se importar com outra pessoa além de si mesmo e deixar de invejar aquilo que pessoas como você têm.
— Justamente, e no entanto me diz que foi capaz de tal feito. – Katherine assentiu, compreensiva – Não me sinto impressionada, vocês homens gostam de ter o controle sobre aquilo que acham que lhes pertence, talvez estivesse enciumado por pensar que Bernard estava se aproveitando de um benefício somente seu. – e com isso ela torceu o nariz, escondendo um sorriso audacioso. – Mas eu não pertenço a ninguém, Mason, e é melhor se recordar de que Bernard é um duque rico e suas terras ficam ao norte, próximas a Nothumberland, ele com certeza é um candidato muito mais viável que você.
Jack sentiu uma forte pontada em seu peito, não pensou que sua chance de se tornar um nobre de repente ficara tão longe assim. Ou seria o fato de que uma mulher o estava trocando por outro melhor e mais “adequado”? Talvez fosse o mesmo motivo que o fazia querer acalmar sua raiva, tirar seu desconforto ou tomar a atenção de Katherine só para si. Mas provavelmente era algo incompreensível e por isso muito improvável.
E ela continuava naquela pose divertida e acusadora, que somente Katherine sabia fazer sem ferir seu orgulho ou ofender seu nascimento bastardo. Jack Mason soube naquele momento que estava apaixonado por uma mulher inflexível e teimosa feito pedra, com lindos olhos castanhos claros e lábios entreabertos de um formato conveniente.
— Posso beijá-la? – perguntou, a voz somente um grunhido oscilando entre o animal e o homem que era (todos os homens têm um pouco do animalesco com que a natureza rege seu reino). Estava já se aproximando, embora ela ainda não tivera lhe dado a resposta. Seria ousadia sua? Uma fraqueza repentina? Uma vontade irrefreável? Queria apenas fechar os olhos para sua consciência e abri-los para um momento caloroso na sacada da Casa Gunninstones. Obviamente seus pensamentos não estavam só no beijo quando tocou seus cotovelos, dando-lhe acesso ao peito para que o empurrasse e socasse o quando quisesse caso ela não apreciasse o modo gentil com que fazia tudo. Era um talento do qual se orgulhava, Jack sempre teve habilidade em conseguir o que queria, principalmente se o assunto era flertar.
— Não... – respondeu baixinho, sua respiração já quente próximo ao rosto de Jack. – Por favor, não...
Mas ele foi surdo como um tolo apenas e beijou-a mesmo assim, sem se importar com os dedos que se gravavam em seu braço ou as costas que se arqueavam, forçando-o a tomar novamente as rédeas da situação. Colocou o braço em frente ao corpo para se defender e segurou seu rosto, estalando em seus lábios e beijando-a novamente, sem tempo para que gritasse, abafando todos os seus protestos. A queria de verdade, estava completamente louco por mais. Explorou-a, tocando suas costas e suas coxas por cima do vestido, a língua saboreando-a e mordiscando-a, deliciosamente. Sentiu algo quente em seu rosto, talvez fosse o sangue pulsando rapidamente, o coração em adrenalina, enquanto mergulhava a língua para dentro de sua boca, completamente cego para a razão. Os dedos soltaram-no lentamente, ela com certeza estava se entregando.
Jack não sentiu o soco no começo, apenas depois, quando estava estatelado no chão. Sua cabeça havia batido contra o parapeito da sacada e agora latejava. Orelha e testa pulsando dor, gemeu, tentando se orientar, mas recebeu apenas um chute como ponto de referência.
— Peça perdão a Srta. Havington agora. — a voz era familiar... com certeza já a ouvira...
Fungando, soluçando. Focalizou o rosto de Katherine, as lágrimas rolando até seu queixo e pingando sobre o corpete do vestido, que por algum motivo estava meio abaixado. Chorando. Jack tocou o próprio rosto e percebeu que o calor que antes pensara ser sua adrenalina era na verdade as lágrimas de desespero que Katherine soltava enquanto ele a agarrava como um louco. Sentiu vergonha de si mesmo, sentiu repulsa. E principalmente sentiu dor por vê-la assim.
— Peça perdão! – Bernard agarrou sua gravata, o rosto bem próximo ao seu, mas Jack só soube encará-lo, estupidamente. Então o duque soltou-o e se virou para Katherine, dizendo algo baixo para ela, talvez consolando-a ou talvez pedindo perdão em nome de todos os homens por aquela criatura que era Jack.
Não, ele não era assim. Sabia que não era, nunca fizera algo assim antes, ele nunca usaria alguém desta forma. Nem mesmo a mais fracassada das prostitutas.
Então eles se foram, deixando-o ali, deitado e cheio de dor. Mas em nenhum momento Jack sentiu pena de si mesmo, aceitou sua punição e implorou ao céus por mais.
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