Notas iniciais
Dei um tempo maior para que pudessem me enviar as fichas, aqueles que reservaram e os novos leitores. Peço, humildemente, que me enviem aqueles que não o fizeram, pois preciso deles para continuar a história. Seria muito difícil encaixar um personagem novo ao redor de personagens mais antigos, os quais já estão no gosto dos leitores há mais tempo. Espero que compreendam ^^ Boa leitura!

Chapter 2

“O entusiasmo sublime que leva ao sacrifício é o segredo de todas as redenções” – Coelho Neto

A casa cheirava a mofo, mofo e... poeira. E ratos. E tinha ainda algo de estranho... sugou profundamente, ignorando a risadinha de Cecílie ao seu lado. Sim, era isso mesmo. Cheiro de água parada nas telhas mau-encaixadas do telhado. Ele teria de lembrar de arregaçar as mangas e concertar essas aberturas antes da próxima chuva, que... — sugou novamente o ar -, não seria agora. Abaixou os olhos, erguendo uma sobrancelha para a irmã, que ainda mordia os lábios de forma infantil.

— Relatório?

— A casa precisa de reparos e não irá chover.

— Ótimo. – concordou ela, deixando a maleta (da qual não desgrudara desde a carruagem) sobre um criado-mudo.

A casa de campo, nas proximidades rurais de Birmingham, fora uma das residências herdadas por Edmund, para que ele pudesse relaxar em algum lugar. Normalmente ele teria adorado a ideia de se mudar imediatamente para Birmingham, não fossem os inúmeros problemas que surgiam conforme o processo de mudança se aproximava de concretizar. Não que Edmund detestasse a cidade, ele adorava Londres. Amava as pessoas e todos os lugares para ir. As Temporadas eram sempre muito agitadas e Cecílie tinha grandes amigos de infância. O que os motivou a sair de lá foi mais como um capricho de Edmund, e dito isso tinha de pedir perdão a alma finada de seu pai por tal egoísmo, de tirar férias dos problemas alheios.

Era o gênio interior que o condenava. Ajudar as pessoas não era algo ruim, de modo algum, trazia prazer e alegria a ele, como se estivesse fazendo aquilo por si mesmo. Prometera auxiliar o divórcio de Felicity e Harold, seu melhor amigo do colégio em Eton. Quando Harold não estava mais chorando oceanos, surgiram as gêmeas Tatyana e Tifany, amigas de Cecílie, para superar a morte da mãe. A semana de luto demorou dois dias a mais, até que os Roche puderam enfim deixar a casa da família. Então, quando os móveis já estavam todos envelopados e já possuía uma governanta para cuidar da casa em Londres, a carta de Cecílie para a sua entrada em Oxford foi negada.

Fora extremamente difícil matricular a irmã em Wycombe Abbey, a escola somente para meninas recém-inaugurada, que aceitava apenas as mais altas famílias da aristocracia inglesa. Como eram franceses, Cecílie precisou passar por seis provas, divididas em Inglês, Francês, Latim, Matemática, História e Geografia. Ainda assim, Edmund preferia tê-la enviado para Eton, onde o estudo seria realmente bom. Wycombe Abbey era um excelente avanço, dado as circunstâncias de que mulheres não podiam frequentar os grandes colégios e universidades. Mas não era o que todos chamariam de “boa educação”. Um internato voltado para meninas, administrado por um homem, jamais poderia evoluir o suficiente quanto se tem capacidade. Provavelmente ele as oprimiria com o ensino básico que os tutores dão normamente às filhas da alta sociedade. E isso o irritava muito, pois Cecílie estivera muito entusiasmada por se livrar de seu tutor Francis Coermi, um “completo nojento e antiético” segundo ela.

Quando a menina finalmente terminou os estudos (e ela fez isso aos quinze anos de idade, meses antes de debutar!), insistiu dias inteiros para que Edmund permitisse que ela enviasse uma carta a Oxford, contando sobre seus estudos, suas orientações e com recomendações dos professores que teve em Wycombe Abbey. Mas pouco importava para os diretores da Universidade que ela fosse uma ótima aluna, exemplar e inteligente, se não fizesse a prova de admissão, dedicada a todos os alunos que não pudessem pagar a matricula. Isso significava que estavam igualando a irmã de um Barão aos filhos de trabalhadores de classe média, que tinham um estudo regular e poucas recomendações. Isso a havia deixado incrivelmente ofendida, muito mais do que Edmund pensou que fosse ficar.

— Como assim novecentos? A média é clara, são setecentos! – ela gritava, rasgando o envelope com o resultado de sua avaliação. – Me enganaram! Trapacearam diante dos nossos olhos!

— Tecnicamente, eles podem fazer isso. São eles quem estipulam o modo de avaliação.

— Mas não o fizeram com os demais! Aposto! Eu passei, passei! – e então atirou uma almofada da cama contra Edmund – São impostores! Têm medo de mim! Malditos homens que não aceitam que uma garota com a metade da idade deles consiga a soma de oitocentos e noventa e dois!

— É um resultado incrível, Ceci, ouvi que apenas nove alunos foram aceitos este ano como bolsistas.

— E TODOS ELES ERAM HOMENS, COM DUAS BOLAS E NOTAS INFERIORES A OITOCENTOS! – ela exibia as bochechas infladas e vermelhas como sangue, os olhos borbulhavam ódio e um orgulho ferido que ela mesma não conseguia esconder (era claro que Cecílie queria gabaritar a maldita prova). Edmund a teria repreendido por um palavreado tão inadequado a uma dama. Mas quem poderá culpá-la? Ela tinha razão.

— Calma. Falarei com os diretores, pedirei uma segunda prova.

— Não! Vão mudar os resultados, de novo! Eu me recuso a repetir uma prova onde já comprovei ser suficientemente boa.

— Às vezes precisamos abrir mão de nosso orgulho, Ceci...

— Você não entende, Ed. Eu fiquei sem dormir pensando nessa prova, e esperei meses para o resultado. Vamos ser honestos, você não teria tirado uma nota tão alta. Eu já me humilhei demais tendo de concorrer a uma bolsa de estudos, me recuso a repetir a humilhação, como se eu precisasse de uma segunda chance.

Edmund decidiu que ficar em silêncio seria a melhor opção, então apenas continuou ouvindo as críticas de Cecílie contra a universidade e todos que faziam parte dela. Era capaz dela culpar até mesmo os faxineiros e as cozinheiras. Enquanto a fúria de Cecílie passava (e ela aos poucos destrancava a porta de seu quarto, onde se isolou), Edmund acertou os últimos preparativos para a mudança. E lá estavam eles agora. Com boas e más lembranças de Londres, e muita expectativa para Birmingham.

A exaustão tomou conta do corpo de Edmund, jogou-se sobre uma das poltronas recém-posicionadas na sala. As paredes foram preenchidas por cores claras e tranquilas, as janelas eram grandes e permitiam que a luz do dia atravessasse todo o espaço de leitura, perfeitamente encaixado perto também da lareira. Cecílie tirou os sapatos, deixando-os no chão sem qualquer cuidado, e saltou sobre a mesa. Seus pés delicados mancharam o vidro com suas digitais, porém ela não se importou. Subiu na ponta dos pés e ergueu os braços graciosamente em um meio-arco. Girou como as bailarinas das caixinhas de música, enquanto murmurava o ritmo do baixo com a boca. Edmund conhecia brincadeiras como aquela e tratou de seguir o ritmo, fazendo ele mesmo a marcação com a voz de barítono. A menina abaixou os braços e jogou-os lentamente para trás do corpo, a cintura se demarcou no corpete do vestido e ela virou o rosto para cima, seguindo o movimento, deixando que Edmund visse apenas seu queixo e sua garganta. Para mistério da irmã e de muitas donzelas, aquele ato era deveras sensual. Claro que não desejaria Cecílie, de forma alguma, mas era preciso notar alguns comentários de vez em quando.

Ela terminou de elevar os braços para trás e trouxe o pulso para perto do rosto, os olhos cravados em Edmund, os lábios entreabertos e os dedos roçando de leve a pele da bochecha. Ergueu a perna esquerda para trás e colocou os braços no mesmo meio-arco de antes, então girou. Edmund gostava de quando ela dançava para ele, era relaxante. Dava-lhe tempo para pensar, sem precisar se importar com a situação de Cecílie, afinal a pequena sempre parecera tão bem se movimentando... era fato que ele nunca a viu cair ou ralar o joelho, como todas as crianças faziam, mas era mais que isso. Uma confiança na pose da irmã, orgulho em cada ato, seus tornozelos sempre estariam firmes e os ombros sempre se encontrariam eretos. Inabalável.

Dentre os vários assuntos que conseguia pensar enquanto assistir a Cecílie, a família era o que mais aparecia vívido. Eles sempre foram muito unidos, mesmo antes do pai morrer, quando Edmund fazia apenas o papel de mãe, trocando as fraldas de Cecílie e limpando o nariz dela com um lencinho fino. Sorriu. Olhe-se, como ela estava crescida, uma moça. Debutara em Londres com louvor, entre as mais competidas da Temporada, e recusara mais cavalheiros que ele mesmo poderia contar. O fato de Cecílie acreditar que mesmo depois de se casar conseguir manter uma família e estudar em Oxford deve ter assustado muitos dos pretendentes menos corajosos. Os outros foram julgados por seus métodos. Alguns eram preguiçosos demais, e Cecílie abominava a preguiça, principalmente no provedor do lar. Lembrava-se de tê-la ouvido chamar o mais velho deles de “arrogante e fraco”. Como alguém poderia ter as duas qualidades juntas, Edmund não sabia. Mas quem era ele para obrigá-la a se casar com vagabundos, idiotas, burros, libertinos, bebedores, devedores, agressivos...

Às vezes se perguntava se ela realmente gostava de homens. E então se condenava por um pensamento tão sujo sobre a própria irmã. Quem era ele? Que a Santa Mãe o perdoe.

— Eu quero ir para a cidade. – Cecílie estava ajoelhada na mesa, bem na ponta, encarando-o. Edmund piscou algumas vezes, até compreender exatamente o que ela tinha dito. A cidade? – Eu quero ir para a cidade. – E ela insistia.

— Mas a cidade é longe. – Edmund murmurou, esfregando os olhos. Estava realmente cansado, detestava viagens como aquela que fizeram, cheias de paradas, buracos na estrada e Sol escaldante. – Para que ir a cidade?

— Preciso de vestidos.

Arregalou os olhos inocentemente. Era impossível a irmã desejar visitar Birmingham por meros vestidos, que aliás ela tinha aos montes nos baús que trouxera de Londres. E, após olhar bem para ela, Edmund constatou que aquele não era o real motivo para Cecílie querer ir a cidade. E isso o deixava ainda mais inconformado com tamanha insensibilidade. Ela não via o quanto estava cansado, como queria tomar um banho e dormir! Talvez ela só o quisesse irritar. Como sempre, mas isso não importava, não importava mesmo. Cecílie já havia ganho aquela discussão.

— Vestidos para...?

— Os bailes! Ou esqueceu que a Temporada começou ontem? Preciso saber o que houve no baile principal e quais solteiros são os mais recomendados. Sou uma jovem solteira!

— Ou seja, precisa se uma linha de fofoca confiável.

— Sim. – Cecílie sorriu, cruzando os braços, enquanto saltava da mesa e se sentava nela. – E para você também, sim senhor. Eu quero sobrinhos logo!

Edmund revirou os olhos. Perguntava-se por quê as únicas ideias relacionadas a maternidade e casamento que a irmã tinha, eram sobre a vida dele. Talvez em um universo paralelo, ele fosse a irmã mais nova, e Cecílie fosse o herdeiro do título e estudante universitário. Suspirou. Consentiu sem dizer uma única palavra, e a menina uniu as mãos em frente ao corpo, abraçou-o fortemente e beijou-lhe a bochecha. Subiu correndo as escadas a fim de se preparar para a viagem até a cidade. Viagem. Edmund levantou-se e caminhou até as escadas, segurando no corrimão de mogno. Haveria uma longa tarde pela frente, até que ele finalmente pudesse relaxar. E não se sentia nem um pouco bravo por isso.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Agora vou passar um recado: Tenho demorado a receber reviws, e estou muito feliz com os leitores ativos que tenho, mas... eu sei que tenho mais leitores. E sei que eles têm suas próprias vidas a cuidar, mas eu gosto deles e gosto quando me dão um pequeno pedaço de seu tempo para ler e comentar minha fanfic. Muitos o fazem e me avisam de que não podem fazer isso todos os dias, e eu entendo. Mas muitos apenas deixam enrolar, até que a fanfic tenha dez capítulos a mais, desde onde ele parou a leitura, e isso o desanime e o leve a abandonar a fanfic. Por favor, não deixe virar uma bola de neve ^^ Estou ansiosa para seu comentário, saiba disso, e quero muito saber sua opinião sobre tudo. É para isso que estou aqui. Aos leitores fantasmas, não me importo de ter, mas poderiam comentar de vez em quando, nos capítulos que gostarem mais? Só deixar sua opinião, sobre o que deve ou não melhorar. Por favor ^^ E a todos: amo vocês muito! Beijos da Meell Gomes.