Os Homens dos Meus Sonhos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu sou o tipo de pessoa que quando abre os olhos, não consegue mais dormir. Sabe como é? A mente começa o seu trabalho: tudo que eu tenho que fazer naquele dia vem de uma vez só e eu perco todo o sono. Por mais que eu tente rolar um pouco na cama e relaxar, é impossível esquecer que tenho que passar na papelaria, na lavanderia, almoçar com minha mãe, comprar leite e ovos, buscar minha sobrinha no dentista, entre milhares de outras coisas... Não importa o quão exausta eu estiver; é só dormir um pouquinho e se eu acordar, ferrou.
Faz parte da minha rotina diária ficar pelo menos cinco minutos deitada na cama, olhando o teto e repassando todas as informações necessárias na minha cabeça. Eu conto os dias que tenho para pagar a próxima prestação do carro, quantos cigarros eu posso fumar (estou parando com esse hábito gradualmente...) e o saldo que tenho em meu banco. As coisinhas básicas que ajudam a organizar meu dia a dia.
Meu método de despertar sempre funcionou, ainda mais porque a hora em que costumo acordar me dá tempo o bastante para fazer o que preciso pela manhã com calma. O problema mesmo era quando isso acontecia no sábado, oito da manhã, o que naquele dia em especial, era o caso.
Assim que meus olhos se abriram, eu pensei “Ei, é sábado, dia de passar o dia inteiro sem fazer nada.” e então, arrisquei uma olhada rápida no celular.
Oito da manhã significava tempo demais para não fazer nada; tempo demais acordada, onde eu ficaria entediada, talvez, e fumaria mais do que devia. Não era fácil não colocar um cigarro na boca quando minha cota diária (que só tendia a diminuir) era alcançada. Fumando desde os dezesseis, eu já estava mais do que viciada em nicotina. Mamãe, como uma boa médica, falou tanto no meu ouvido sobre quebrar maus hábitos e blá blá blá, que acabamos combinando que eu iria cortar um cigarro por dia.
Levantei da cama e fui ver a quantidade que eu poderia fumar naquele dia no calendário que havia colocado em minha parede especialmente para isso: cinco maço exatos. Menos dois dos sete que eu fumava quando comecei com minha “dieta”. Uma quantidade bem grande, mas que às vezes não me satisfazia. Eu odiava minha mãe por me fazer concordar com aquele acordo, mas odiava ainda mais a possibilidade de morrer de câncer ou enfisema pulmonar.
Prefiro estar viva. Durante muito tempo.
Porém... um cigarrinho não faria mal algum. O primeiro do dia, apenas.
No entanto, assim que eu fui alcançar o maço aberto na bolsa, minha atenção foi desviada para algo mais... viciante.
— Você jura que já levantou, Laila? — aquela voz sexy, com uma rouquidão sonolenta me fez olhar novamente para a cama.
Eu mordi o lábio inferior com discrição ao contemplar a delicia que se espreguiçava e esfregava o corpo nu maravilhoso em meus lençóis. Ele parecia um gato de cabelo negros e olhos azuis, encarando minha pessoa muito mal vestida de um modo extremamente sedutor. E tudo que eu consegui fazer enquanto sustentava seu olhar era pensar em todas as coisas divertidas que havíamos feito na noite anterior.
Félix era um golpe de sorte que eu havia dado na sexta feira. Nós sempre flertávamos e ele costumava me oferecer a terceira cerveja de graça. Sim, ele era um bartenter no bar onde eu e minhas amigas costumávamos ir no fim se semana, religiosamente. E também, fora tudo que eu precisava para um dia péssimo.
Não é necessário entrar em detalhes, eu só tinha sido praticamente crucificada por meu chefe por causa de um simples comentário e ouvido umas idiotices de uma colega de trabalho que estava com ciúmes de mim. Tudo culpa de uma pessoa na qual eu nem ao menos gostava, mas isso fica pra depois...
A questão é que: eu, Viviane e Laura fomos beber um pouco, conversar sobre a semana, como toda sexta, e eu precisei sair para... bem, fumar um pouco. Eu acendi meu cigarro no beco ao lado de onde estávamos e no instante que que dei a primeira tragada e soltei aquela fumaça para fora de mim, ele apareceu.
— Você sabia que é proibido fumar aqui? — apontou para uma placa nem um pouco discreta pregada a alguns metros de nós dois. Fiquei tão presa a seu olhar felino e sua acusação que mal pude raciocinar uma sentença completa, então me limitei a apenas tentar falar qualquer coisa, o que acabou não dando muito certo. — Tem fogo? — E me surpreendeu com as palavras, tirando um maço próprio de seu bolso.
Com isso, eu pensei “Porque tão idiota, Laila?” e abri um sorriso totalmente amigável para ele.
— Claro — entreguei o meu isqueiro prateado em sua mão: foi a segunda vez naquele noite que sua pele se friccionou contra a minha. Mas não a última...
Enfim, nós estávamos ali, na manhã de sábado que tinha tudo para ser super desconfortável e esquisita, se parássemos para pensar em todas as partes minhas que ele tocou, beijou e fez o que mais queria. Mas não era estranho, de forma alguma.
Ele parecia disposto repetir a dose e eu tinha o dia inteiro livre... Como negar?
— Que horas você tem que ir trabalhar? — fiz a pergunta me dirigindo novamente a cama. A erguida de sobrancelhas que deu me deixou sorridente.
— Só às três da tarde. Por quê?
Balancei a cabeça de um lado para o outro, já visivelmente feliz com a notícia.
— E você? Tem algo pra fazer hoje? Agora?
Repeti meu suave balançar.
De um lado para o outro, de um lado para o outro...
Mas na verdade, na verdade... eu tinha: passar quase cinco horas seguidas trancada em meu quarto com Félix. E só Deus sabe como, para mim, esse compromisso era inadiável...
— Nós deveríamos... comer uma pizza. Uma hora dessas — a naturalidade com que as palavras saíram da boca de Félix foi genial. Teria sido lindamente inocente, caso não houvesse um tom malicioso brincando com cada sílaba soletrada.
É claro que eu sabia o que ele queria. Aliás, eu teria que ser muito idiota para não perceber que a pizza na qual se referia era uma chamada para... bem.
— Com certeza — devolvi na mesma tonalidade, enquanto seus lábios procuravam os meus para um beijo de despedida.
Félix se afastou de mim, finalmente, e partiu em direção do elevador no minuto em que o mesmo abriu. Minha vizinha idosa saiu dali quase em choque ao ver aquele espécime masculino carregado com o cheiro do fantástico sexo que fizemos e jogou um olhar extremamente julgador na minha direção, logo após me avistar com um sorriso no rosto e um aceno na mão. Mas eu não dava a mínima se estava passando a impressão de que era uma “vagabunda”, ou qualquer coisa do gênero.
Assim que o elevador se fechou com Félix dentro, eu voltei para meu apartamento em busca daquele conforto que adorava após uma transa. Ou após qualquer outra coisa.
Só tive tempo de fumar um mísero cigarrinho; meu celular vibrou com um sms de Viviane — o oitavo que eu recebia desde que havia sumido na noite passada. Dessa vez, eu não tinha motivos pra não ver do que se tratava: não estava nem em cima e nem embaixo de alguém. Portanto, peguei meu celular e comecei a ler todas as outras coisas que ela havia enviado para mim durante aquelas horas desaparecida.
kd vc sua piranha maldita???? — recebida às 23:32
vc vai ser uma vaca eterna se tiver largado a gente pra dar — recebida às 23:58
jura q n vai me responder?? espero q seja a pior trepada da sua vida — recebida às 00:45
eu to comeando a fica bebada e se vc n der nenuma noticia, vo barracar na porta do seu ap — recebida às 02:04
esqeuce q ue eixsto afffffffffffffff — recebida às 02:21
dccslp, t amo :( sja mihna amgia p semper :((( s3— recebida às 03:00
Lai, é o Breno. Quando puder liga p/ Vi pq ela tá preocupada cntg, bjs — recebida às 03:37
vagaba, passa aqui AGORA e me dá uma ótima explicação p vc ter desaparecido ontem — recebida às 14:47
Nem um pouco controladora, né?
Se eu não tivesse que ir na casa dela naquele exato momento, teria me jogado na cama e tentado adicionar mais algumas horas de sono às somente seis que eu havia dormido. Olhei mais uma vez para a mensagem de Viviane e fui para o banheiro, completamente exausta de tudo.
Sabia que se a ignorasse de novo, acordaria com ela socando a porta do meu apartamento e me xingando de todos os nomes feios que conhecia. E o que eu menos precisava era um pouco de drama em minha vidinha pacata.
A água sobre meu corpo me deu um leve relaxamento — o bastante para que depois eu ficasse um pouco mais energizada — e eu coloquei qualquer roupa para ir na casa dela. Provavelmente ainda teria que ouvir suas reclamações por me atrasar e seu discurso sobre as “mil e uma razões para não abandonar as amigas por causa de homens”, sendo que ela não poderia falar nada (afinal, a garota que desapareceu na festa de quinze anos da melhor amiga bem na hora da dança com as quinze amigas, pra ir se enroscar com um dos dos primos dela não fui eu...). Mas eu era uma pessoa complacente — ao contrário de Viviane — e escutaria em silêncio todas as coisas que ela tinha pra me dizer.
Por que eu faria isso? Porque sou uma ótima pessoa, claro.
Dirigi até seu apartamento com Breno — o nosso amigo de faculdade com quem ela havia se casado no final do ano passado — por quase meia hora; nos não morávamos muito longe uma da outra. O problema era arrumar uma vaga naquele caos de cidade, então, acabei rodando por mais dez minutos antes de um Corsa sair de um espaço no final da rua dela.
Quando cheguei lá, ela me recebeu com um abraço e depois um empurrão: — Porra! Eu fiquei preocupada! Onde você tava, sua piranha?
— Eu estava... — suspirei.
Assim que seus olhos se apertaram e ela me puxou para dentro de casa, preparei minha mente para a metralhadora de “gentilezas” dela, o que não tardou a vir. Ela tinha um temperamento curto...
— Você tava dando, né? Eu aposto que você tava! Você é muito vagabunda, cara... — rosnou, literalmente. Sempre teve essa mania... — Não porque deu. Dar é bom. Mas porque nem se dignou a dar uma, — e levantou o tom de voz. — uma noticiazinha sequer do seu paradeiro. Não se faz isso com suas amigas. Lalau cachorra e eu morremos de preocupação por sua causa, você não tem ide...
— E foi por isso que você ficou trêbada? — um riso ecoou atrás dela e ambas olhamos para o dono daquela voz infeliz: Vicente. E com um adendo: sem camisa.
Meu amor de adolescência que nunca tive coragem de consumir, apesar das intensas tentativas dele. Era um safado que não valia nada e graças a Deus eu havia sido forte o bastante para resistir às suas investidas tentadoras. Até porque eu tenho certeza de que ele teria destruído o meu coraçãozinho jovem.
Para cortar a nostalgia que eu sempre deixava me preencher quando o via, tinha a sua irmã, minha melhor amiga, Viviane. Seu segundo rosnado e olhar maligno na direção dele foi o que bastou tanto para ele, quanto para mim.
— Ô vagabundo, isso aqui não é casa da mãe Joana pra você ficar andando andando semi nu e nem pra ficar se intrometendo nos meus assuntos com a Lai. Coloca uma camisa, tá? E vaza.
Vicente obedeceu a primeira ordem, mas com a maior má vontade do universo. Já a segunda...
— Então a senhorita estava rodando... — sussurrou em tom acusatório e depois, passou os braços pelos meus ombros, afastando-me de Viviane antes que ela pudesse esboçar qualquer reação. — Com quem você estava traindo o nosso amor? Em quem eu vou bater hoje?
— Ninguém, porque não é da sua conta — ela fez questão de responder por mim, antes de me dar um puxão agressivo e me tirar de perto dele. — E vai caçar alguém que não seja minha amiga... Melhor, alguém que eu não goste nem um pouco. Prefiro te ver pegando um desafeto meu, do que minha b-f-f.
— Vocês são tão gentis um com o outro... — suspirei, agarrando meu braço que começava a doer. — Posso ficar longe um pouco? — E fui sentar no sofá de couro marrom.
Viviane olhou pro irmão com aquele ódio fraternal que eu bem conhecia (embora já não visse minha irmã havia um bom tempo) e ele lhe devolveu com um sarcasmo típico “Vicentino”.
Que os dois amavam brigar um com o outro, todos sabiam; o que ninguém sabia era que eu costumava ficar no fogo cruzado. Tantas as vezes que eu havia pagado o pato por me intrometer ou por simplesmente ser o motivo da discussão — já que como eu dissera, ele costumava investir em mim intensamente. Fora as competições que tinham e me obrigavam a ser a juíza... No final, quem acabava se ferrando era eu, portanto, nada mais saudável e autoprotetor do que ficar afastada dos dois.
— Então — ela colocou seu melhor sorriso no rosto, aproximando-se de mim e sentando ao meu lado com uma doçura mais do que forçada... — quem foi?
Ergui minhas sobrancelhas em um olhar desconfiado e medi cada palavra antes de respondê-la.
— Foi o bartender. O moreno. Félix.
— O quê?! — e colocou a melhor expressão de choque no rosto. — Você deu praquele homem? Meu marido que me perdoe, mas estou com uma leve inveja.
— Não acredito nisso. Até você vai nesse “charme” — Vicente desdenhou fazendo aspas com as mãos; nem preciso mencionar que tinha uma expressão de nojo no rosto. — dos bartenders. Eu achei que você gostasse de homens de terno, engenheiros, especialmente os da área civil.
— Tipo você, imbecil? — sua irmã gargalhou o mais alto possível.
— De caras como você eu passo longe, por favor, né... Me poupe — bufei. — Deixa eu contar...
— Espera! Preciso de água. Guarda as palavras, por um minutinho — Viviane correu para a geladeira e o imbecil, de acordo com ela, inclinou-se em minha direção, até que ficássemos bem próximos.
— Tudo bem. Eu até acho legal você treinar pra quando for ficar comigo. Porque nós dois sabemos que no fim, eu serei o seu escolhido. — e sussurrou... Cretino!
Eu me preparei para dar uma resposta bem da malcriada a ele, no entanto, tive de guardá-la em minha garganta para outro momento; Viviane voltava e eu precisava contar como havia parado na cama com o gato Félix... Pelo menos esperava que ela conseguisse expulsar Vicente antes dos detalhes sórdidos.
Spoiler: ela não conseguiu... E, sim, eu tive que narrar minha aventura sexual na frente dele.
Perfeito.
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