Os Homens Mortos

1 Capítulo Único


Era apenas outro terreno gramado e sem dono no meio do nada, o luar brilhava tão fortemente que se podia ver qualquer coisa mesmo sem nenhuma luz, nesse momento tão vazio da noite foi que aconteceu, uma ponta de lâmina simplesmente brotou do chão sem um motivo aparente e começou a escavar o chão, como se quisesse sair dele, logo em seguida, a lâmina revelou-se ser uma baioneta presa a ponta de um rifle, que também se movia como se escavasse o chão para sair, minutos mais tarde, uma mão segurando o cabo do rifle surgiu, e então soltou o rifle, que caiu inerte, e continuou a puxar a terra de cima de si, até que enfim, uma figura surgiu do buraco.

O sargento Branko Seidel era apenas outro homem preso na guerra, que muitas vezes sentiu a morte o seguindo de perto e que tinha certeza que morreria a qualquer momento, mesmo sendo um ótimo combatente, porém, ele acabou notando que não era tão bom quanto seu inimigo, uma vez que numa missão qualquer, ele acabou sendo pego numa emboscada e no fim ele acabou sendo baleado, caiu no chão cercado do próprio sangue, e esperou a morte, foi quando tudo escureceu. Porém, ele recuperou a consciência, sentia a falta de ar lentamente o matando quando percebeu que na verdade ele estava enterrado debaixo da terra, sem saber o que fazer, ele usou seu próprio rifle para cavar um buraco que o tirasse daquela situação.

Depois de muito tempo sem respirar, muito mais do que Branko acreditava aguentar, ele conseguiu sair da terra e avistou a inacreditável luz do luar daquela noite, se perguntando onde estariam seus amigos e inimigos, pois não queria que a luta pra sair do buraco fosse em vão. Sua preocupação com seus amigos foi curta, pois ao olhar pra seu uniforme, notou que o buraco onde a bala o atingiu ainda estava ali, então ele olhou para as próprias mãos e percebeu que o que temia naquele momento era verdade, ele estava morto há muito tempo. Ao perceber a horripilante verdade, ele caiu de joelhos e gritou para a lua que apenas observava a agoniante existência dele, mesmo assim, sua dor não desaparecia e derrotado, ele parou. Logo um homem surgiu do nada e se aproximou, ao chegar numa distancia razoável, ele disse:

— Oi, como está, senhor? – Branko ficou com medo de que o homem fugisse caso pudesse ver seu rosto, então ele abaixou a cabeça e respondeu:

— Que dia horrível para se viver, não acha? – O homem respondeu:

— Não tenho certeza disso... Afinal, viver é tudo que nos restou, certo? A não ser que você tenha consciência do que acaba de fazer. – Então Branko se questionou qual seria seu grande mérito, mas a resposta era óbvia, então perguntou:

— Escavei o terreno de alguém? Quero dizer, o seu terreno? – O homem sorriu e disse:

— Nada disso meu amigo, você voltou da escuridão, voltou pra essa luz formosa que brilha essa noite, digamos que eu e você somos extensões de nós mesmos.

— O que quer dizer com extensões?

— Ora, é muito simples, só existem duas explicações pra você me ver, ou você é um médium, ou você está morto... E você não parece muito vivo não, meu amigo.

— Estou assim tão horrível?

— Não terrível, só falta umas coisas pequenas, tipo um nariz, bochechas e lábios, fora isso, você tá bem normal, pro padrão de um morto que ficou anos enterrado.

— Como entende o que eu falo se eu não tenho boa parte da boca?

— Eu não sei, não fui eu que escrevi as regras, só sei que você é o único que me vê e provavelmente eu sou o único que te entende. Agora escuta, existem três tipos de pessoas que morrem: as que simplesmente perdem a vida e nunca mais a encontram, as que dormem um tempo e acordam debaixo da terra com um corpo ferrado, como você, e os como eu, que simplesmente são uma imagem sem corpo da pessoa que eram antes, de qualquer forma, somos apenas extensões, em nenhum caso somos a mesma pessoa por completo, você é uma sombra de quem você era antes, eu sou apenas uma imagem...

— E o que fazemos agora?

— Sentamos, conversamos, esperamos.

— E esperamos o que exatamente?

— Nossa segunda morte, você teve sorte que voltou com um corpo, em breve seu cérebro irá apodrecer e você vai esquecer tudo, começa com pequenos lapsos na memória e vai até que você esqueça absolutamente tudo o que já soube na sua vida, mas já que eu estou aqui, não vai precisar enfrentar isso sozinho, eu estou aqui do seu lado agora.

— E você, quando você morre pela segunda vez?

— Não é tão fácil pra mim, eu sou um espírito livre de um corpo, estou aqui porque meu espírito está ligado a outra coisa, um objeto que precisa ser destruído, a linhagem do meu sangue, algo assim, mas posso sentir a minha ligação com esse mundo cada vez mais fraca, em breve também poderei ter meu eterno descanso, afinal de contas, já estou cheio da terra, quando eu era vivo, prezava minha vida mais do que tudo, agora que morri, percebo que a vida nada mais é do que um pesadelo finito e que eu devia era dar graças ao manto negro da morte.

— Há! De tudo que eu podia esperar da minha vida, nunca imaginei que isso aconteceria, eu sonhava em uma vida tranquila ou uma morte honrada no campo de batalha, parece que consegui a segunda, agora só falta eu esperar esse horror terminar.

— Como é possível, não é? Digo, olhe para a lua, não há questionamento em sua posição para com o universo, não há nada lá, apenas um monte de pedras, e mesmo assim, vista daqui, ela parece ser tão... Bonita... Mesmo assim, sua superfície é como um fosso da morte pra um humano sem equipamento, sabe, a vida não é uma coisa bonita, pois se fosse, como que um amontoado de pedras cinzentas pareceriam tão mais bonitas que qualquer ser vivo. A vida é insignificante.

— Você não entendeu e achei que por não ter corpo, ficaria livre desse tipo de pensamento, você sabe que não existe nada bonito, sua afinidade com as coisas vem de simples conexões neurais e processos químicos no seu cérebro, não há nada além disso, mesmo assim, concordo que a vida na terra é insignificante, ora, se o universo é infinito, o que seria um mero habitante de um planeta? Seria ele apenas mais um entre tantos outros no universo? Estaria ele sozinho? E se houver algum outro, seria ele bom ou mau? Bem, nada disso importa pra gente agora, nosso tempo já passou.

— Esse é um pensamento que não posso discordar, o mero fato de nós dois existirmos já prova que muito do que acreditávamos estava errado, acho que não há nenhuma resposta para nosso problema em nenhuma religião de que eu me lembre, pelo menos não pro nosso problema em conjunto, já vi muito sobre espíritos, imagens ou extensões que sobram de pessoas que já se foram, mas nada corpóreo como você, não existe nada como você em nenhuma religião que eu já tenha visto. Isso pode ser muito desesperador em certas circunstancias, claro que você ainda pode ser um demônio ou deus pagão tentando se apossar do meu espírito, mas duvido muito que uma entidade dessas surgiria dessa forma.

— Se for verdade, está funcionando não está? E você seria o que? Um anjo me puxando pro bom caminho? Um demônio tentando me desvirtuar? Não adianta, não existe nada esperto o bastante pra bancar coisas como nós, se um existe já está negando a existência do outro em qualquer religião.

— Pois é, bem, acredito eu que não há nada que possamos fazer... Mas mudei de ideia sobre esperar, talvez possamos dar um jeito de acabar logo com isso.

— Bem, se meu rifle ainda funcionar depois de sei lá quanto tempo, eu tenho controle sobre a minha morte, agora não sei você...

— Eu acho que meu espírito está preso a uma coisa bem simples que perdi nesse terreno há muito tempo... Um objeto pequeno que eu costumava ter, um globo de neve.

— Um globo de neve... Você lembra onde você perdeu mais ou menos?

— Eu não perdi, eu escondi ele de alguém e nunca mais fui buscar, me lembro que era perto de um riozinho que passava ali mais adiante.

— Vamos até lá então. – As duas estranhas figuras seguiram até o riozinho que passava por ali e pararam, seguindo as ordens da imagem, Branko foi até uma arvore que continha uma marcação e cavou embaixo dela, depois de um tempo, ele encontrou um objeto redondo, sem dúvidas era o globo de neve.

— Encontrei o globo de neve, posso destruir ele e libertar você.

— Que emoção, finalmente poder dormir eternamente, não há nada melhor do que isso.

— Posso te fazer uma última pergunta?

— Sim, faça, já esperei tanto tempo que mais alguns minutos não farão diferença.

— Como é o seu nome?

— Meu nome é Helias Alfons.

— Muito prazer, sou Branko Seidel. – Ambos moveram os braços, como se estivessem se cumprimentando e logo em seguida acenaram com a cabeça, então, Branko quebrou o globo de neve, Helias desapareceu, Branko foi em direção ao seu rifle e tirou a bala que tinha no bolso, pois era costume ser enterrado com uma bala, assim, se o homem acordasse no caixão, poderia se matar rapidamente. Ele sentou-se no chão e comtemplou o brilho da lua, logo em seguida engatilhou o rifle e apontou pra própria cabeça. E então pensou‘ Tomara que isso seja apenas um horrível pesadelo... ‘, fechou os olhos e apertou o gatilho.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!