Os Homens Merecem Morrer
18 A dama, o diabo e os vagabundos
Notas iniciais
CAPÍTULO DEZESSETE
A dama, o diabo e os vagabundos
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— Você só pode estar brincando! — Scorpius exclamou, fitando Rose com perplexidade.
Alguns dias tinham se passado desde a missão com a Agente Heart, e o humor de Rose havia melhorado consideravelmente nos dias que antecederam o jantar com os pais de Scorpius, tanto que ela decidiu ser compassiva com o loiro ao extorqui-lo:
— Se você quer que eu pareça boa o bastante para substituir a Lysander, tenho que parecer boa o bastante! — Rose deu de ombros, virando uma página de A Culpa É Das Estrelas, aproveitando o conforto do sofá naquela tarde de sexta-feira.
— Isso não inclui eu bancar uma ressurreição para você! — contestou Scorpius, irritado.
— Acho então que você não precisa dos meus serviços — deduziu Rose, virando mais uma página. — Oh, Isaac ficou cego...
— TÁ BOM! — rendeu-se Scorpius, bufando de raiva. — Se arrume e vamos. O jantar é às oito.
— Tudo bem, aprendiz de Sherlock Holmes — Rose fechou o livro, exibindo um sorriso vitorioso, parando em frente a ele. — Não vai se arrepender.
(...)
Rose nunca foi fútil, mas fazer Scorpius carregar sacolas cheias de roupas e sapatos foi um prazer inigualável.
— Ah, estou indecisa entre esses sapatos. O que você acha, amor?
Scorpius conteve um palavrão, pois a vendedora estava próxima, e fazia constantes elogios à cordialidade do Malfoy (ser codial no mundo das mulheres era, aparentemente, estourar o cartão de crédito com elas).
— Vocês estão juntos a quanto tempo?
— Começamos a namorar hoje — Rose se admirava no espelho em saltos carregados de brilho, que eram praticamente idênticos aos que tinha acabado de experimentar.
— Hoje? E ele está lhe dando tantos presentes?
— Ele é um fofo não é? Ele me conhece há bastante tempo, mas só agora que finalmente tomou coragem para dizer que me ama. E decidiu me dar a coleção toda de primavera-verão desse ano, para me presentear por ter sofrido tanto por conta da sua lerdeza.
— Eu não tive escolha, amor do meu coração — Ironizou Scorpius, e Rose lhe mandou um beijo no ar.
— Ah, quer saber? Vou levar os dois — Rose se referiu aos dois pares de sapatos (praticamente idênticos!) e a vendedora levou as caixas para tirar a nota.
Scorpius esperou saírem da loja para pegar Rose pelo braço tentando ser o mais discreto possível.
— Você me paga!
— Não deveria ficar tão bravo. Eu poderia ter colocado laxante na sua comida para você não poder ir ao jantar e ter algum tipo de infecção permanente ou uma hemorragia que te mandasse dessa para melhor. Mas não. Ao invés disso estou apenas fazendo com que você me dê alguns presentes básicos.
— Você vai para o inferno por causa disso, Rosalie Weasley!
Rose deu uma risada.
— Ao menos vou ter a coleção primavera-verão para queimar eternamente com estilo! Agora anda logo, projeto de calopsita ambulante. Ainda tenho que passar no salão.
Scorpius murmurou algum palavrão entre os dentes cerrados, mas Rose estava aproveitando intensamente o seu momento “diva do século” para fazer questão de ouvir.
(...)
Alice carregava um saco de papel do Mc’Donalds, e respirou fundo antes de atravessar a rua e subir as escadas do Departamento de Polícia.
Alvo se encontrava sentado atrás de sua escrivaninha, atarefado demais para prestar atenção em quem chegava.
— Ainda está aqui? — Alice perguntou, fazendo com que o moreno se sobressaltasse.
— Ah. É. Cuidando do caso do Finnigan.
— Já teve algum progresso? — questionou Alice, inocentemente, um tanto tensa com o volume de policiais ali.
— Não muito. O Leonard está preso para segurança dele, e amanhã se esgota o prazo para que alguém “venha” matá-lo.
— Acha que alguém vai aparecer?
— Duvido muito — Alvo se espreguiçou. — E você, Ali? Porque está aqui?
— Ah eu... Vim trazer um lanche para você — Ela estendeu o saco de papel para Alvo, que sorriu.
— Valeu, Alice. Eu ia mesmo comer alguma coisa.
— Ahn... Vou passar no banheiro. Quer me levar até em casa depois?
— Ah, vai ser ótimo! — Alvo sorriu bobamente.
Alice devolveu o sorriso antes de virar o corredor. Acelerou o passo, olhando ao redor antes de parar diante de uma porta onde tinha uma plaqueta com o nome “Válter Dursley”.
Tirou do bolso uma chave de fenda e a passou no espaçamento entre a porta e o batente, destrancando-a após alguns segundos.
Adentrou a sala e fechou a porta. Retirou a fita de dentro do bolso interno do casaco, e a colocou em cima da mesa do chefe do chefe, colocando em cima um bilhete com letras de revistas coladas.
Saiu rapidamente, fechando a porta e desaparecendo do corredor. Passou um batom enquanto caminhava e ajeitava os cabelos. Cinco minutos, o tempo necessário para realizar toda a tarefa. Pelo tempo e aparência, qualquer um diria que Alice acabara de sair do banheiro.
(...)
Rose colocara um tomara-que-caia vermelho, e prendia os cabelos ruivos (recentemente alisados) em um penteado, quando sua mãe entrou no quarto e sentou-se na cama.
— Vai sair?
— Scorpius vai me levar em um jantar na casa da família dele. Como não tem a antiga noiva, precisa de alguém para ocupar espaço — A ruiva passou perfume e colocou as joias que fizera o Malfoy comprar para ela. Fitou a mãe pelo espelho, notando o abatimento em sua face. — Algum problema?
— Não. Nada. Eu... Ah, estou desgastada com tanta coisa.
— Com o quê, por exemplo?
— Seu pai. Ele não ficou tão feliz com o bebê quanto deveria ficar.
— Talvez seja porque ele já tem dois filhos. Um terceiro, e tanto trabalho deve assustá-lo. — defendeu Rose, terminando de prender alguns fios soltos no coque com alguns grampos brilhantes e bonitinhos. Admirou-se no espelho, e se virou para a mãe com um sorriso. — Você passou no médico?
Hermione pareceu hesitar antes de finalmente falar.
— Eu abortei o bebê, filha.
O sorriso sumiu da face de Rose. Ela fitou a mãe por alguns segundos, boquiaberta.
— Só pode estar brincando...
— Eu abortei. Sei que foi errado, mas eu pensei melhor. E seu pai me fez pensar...
— PAPAI FEZ VOCÊ PENSAR? ELE FEZ VOCÊ PENSAR? Francamente, mamãe, pensei que fosse mais forte do que isso!
— Rose... Não estou entendendo. Achei que estivesse preocupada com os riscos...
— Você fez isso porque o papai não queria o bebê! Não porque você estava preocupada com os seus riscos.
— Sinto muito, Rosalie. Mas agora já foi.
— Você fala como se não significasse nada para você! Isso é nojento! É deprimente!
— Veja como fala comigo, Rosalie...
— NÃO! Veja você como fala comigo! Estou cansada disso! Papai longe o dia todo. Você parece cada dia mais morta! O que está acontecendo afinal?
Hermione cruzou os braços, levantando-se da cama. Um vislumbre de um olhar triste percorreu sua face.
— Bom jantar com os Malfoy.
— MÃE! — Rose gritou, mas Hermione já tinha saído do quarto.
(...)
Rose saiu do quarto e deu de cara com Scorpius, trajando uma camisa cinza e uma calça jeans, com os cabelos loiros desalinhados e usando um tênis comum.
— Ah, você está aceitavelmente bonitinha.
— Bonitinha é feia arrumada, gracinha — A ruiva ironizou azeda.
— Pois então! — Scorpius contestou como se fosse óbvio. Rose revirou os olhos. — O que houve com o seu show de estrelismo e vivacidade enquanto torrava meu dinheiro?
Eles acabavam de descer para o hall de entrada.
— Eu sou uma variável constante. — Rose pegou as chaves da picape e sua bolsa no cabide atrás da porta.
Deu uma olhada na cozinha, onde sua mãe estava guardando o prato de comida na geladeira, completamente desolada. Não se permitiu sentir dó ou sequer qualquer resquício de pena. Sua mãe não merecia aquilo naquele instante.
Saiu com Scorpius em seu encalço, sem deixar que ele notasse seu mal-estar. Rose se sentia enclausurada com tantas questões difíceis. Por conta do trabalho se distanciara mais de sua mãe, e consequentemente de seu pai. Hermione ter abortado o filho talvez significasse seu desespero em ficar mais afastada da filha, ou talvez mais afastada de Rony.
Mas mesmo assim não fora certo.
— Você não pode dirigir — Scorpius falou assim que Rose destravou a picape e abriu a porta do motorista.
— O quê? Como assim não posso dirigir?
Scorpius deu a volta no veículo, suspirando pesadamente ao parar em frente a Rose.
— Meus pais são conservadores e não vivem no nosso século aparentemente. Eles não aceitam que uma mulher trabalhe, ou dirija ou tenha uma opinião própria tão extravagante. Na verdade, é mais o meu pai que traz esses valores, mas minha mãe acaba seguindo porque... Bom, ela já está acostumada. Então se você aparecer dirigindo, vai conseguir o ódio eterno deles de primeira.
Rose revirou os olhos.
— Foda-se. A picape é minha. Da última vez que você dirigiu eu tive que lavá-la para conseguir me livrar da sensação de que meu espaço tinha sido invadido...
— Daquela vez eu não tive culpa se você bebeu que nem uma maluca. Além do mais, não sei porque precisou lavar... Não aguentou meu perfume irresistível?
— Cala essa boca! — Rose bufou, colocando as chaves na mão dele de má vontade. — Se arranhar minha bebê, ou sujar ela, eu arranco a sua cabeça e o seu amigo inferior!
Scorpius ergueu as mãos em sinal de rendição, enquanto Rose dava a volta na picape e entrava no banco do passageiro.
— Agradeço pela sua bondade.
(...)
Pegaram um trânsito infernal em uma das avenidas, e Scorpius tentou mudar a estação do rádio (estava tocando Katy Perry! Que horror!), mas Rose lhe lançou um olhar mortal assim que ele fez menção de realizar a tarefa.
— Seria bom se você parasse de cantar junto. Aceite que sua voz não é maravilhosa — debochou Scorpius, frustrado com o trânsito ao mesmo tempo. Eles já estavam atrasados.
— Se eu estivesse dirigindo até deixaria você mudar a estação do rádio — Rose cruzou os braços, sorrindo maquiavelicamente.
— Ah, você está me punindo, fazendo uma lavagem cerebral e tortura perversa na minha mente com músicas da Katy Perry. Que ótimo.
— Não tenho culpa se você não tem cultura. YOU MAKE ME FEEL! LIKE I'M LIVIN' A TEENAGE DREAM!
— AH QUE MERDA! PARA DE CANTAR ESSA PORRA!
(...)
O casarão dos Malfoy parecia um laboratório antiquado de torturas e experiências para reviver o Frankestein.
Rose fez uma careta para os portões de ferro e o estilo gótico da fachada da casa, com vitrais e grades nas janelas.
— Você tem certeza que são seus pais que moram aí? Não são vampiros, nem psicopatas, nem caras com serras elétricas que cortam os próprios dedos?
Scorpius a fitou com seriedade, tirando a chave da ignição.
— Primeira regra: elogie a casa. Segunda regra: elogie a comida. Terceira regra: concorde com tudo que eu falar.
Rose abriu a boca para dizer alguma coisa, mas o loiro a interrompeu.
— Também não tagarele demais, nem beba mais do que dois copos de uísque. Meu pai acha que uísque é bebida de macho.
— Por que não contrata uma estátua logo? Ou uma puritana?
— Até que não é má ideia, mas não se acham estátuas para alugar e puritanas estão em extinção — Scorpius deu uma piscadela e um sorrisinho cínico, saindo da picape. Rose bufou ao segui-lo.
O loiro tocou uma campainha e se identificou. Os portões se abriram, e ele puxou Rose para entrar com ele, ambos subindo um lance de escadas infinito até o casarão.
A ruiva notou os jardins bem cuidados, e contou cada uma das janelas para o caso dos pais de Scorpius resolverem arrancar a pele dela e fazer um quadro típico de Leonardo da Vinci com seu sangue.
Scorpius respirou fundo aparentemente tenso. Por fim bateu na porta com aldabra lustrosa em forma de serpente.
Passos foram ouvidos e logo uma governanta de cabelos cinzentos os atendeu.
— Scorpius. Quanto tempo! — a mulher abraçou o loiro, em seguida sorrindo para Rose. — Olá querida. É a nova namorada do Scorpius, devo imaginar?
A ruiva considerou a governanta simpática por sinal.
— Sou sim. — Ela pegou na mão do loiro a contragosto.
— Minerva, papai e mamãe estão bravos pelo atraso? — Scorpius murmurou, enquanto adentravam a casa.
A governanta riu enquanto fechava a porta.
— Estão bastante inquietos. Principalmente a sra.Astoria...
— Pare de tagarelar, Minerva! — A sra. Malfoy surgiu na escadaria de mármore que havia no centro do extenso hall de entrada. Ela trajava um longo vestido preto, e seus cabelos escuros estavam presos em um penteado elegante. Apenas em seu pescoço deviam haver mil reais em joias, e mais ainda nos pulsos e nas orelhas (fora os quilates que compunham seus saltos). — Posso ouvir sua voz à quilômetros.
Ela sorriu para o filho, abrindo os braços assim que se aproximou. Scorpius a abraçou.
Logo atrás vinha o sr. Malfoy (o famoso e influente Draco Malfoy, de quem Rose tanto ouvira falar na mídia e nos principais artigos sobre os maiores empresários do século).
— Achei que estava renegando sua família, Scorpius — brincou o sr.Malfoy, abraçando filho em seguida. — Quanto tempo.
— Não tenho culpa se estavam em Nova York...
Astoria fitou Rose da cabeça aos pés, um sorriso torto se formando em seus lábios.
— Onde está a Lysander, querido? Mandei que as empregadas fizessem espargot especialmente para ela.
Rose sustentou o olhar de Astoria por alguns segundos, forçando um sorriso também.
— Ah, mãe. Eu te falei hoje pela manhã que nós terminamos.
— Pensei que estava brincando. Então, essa é a substituta? Como é seu nome mesmo, querida?
— Rosalie Granger Malfoy. Mas lhe concedo a honra de me chamar de Rose, sogrinha — A ruiva deu uma risada forçada seguindo às suas palavras, e Astoria a acompanhou.
Draco resolveu quebrar as falsidades antes que aquilo virasse uma bola de neve.
— Minerva, por que não vai ver se o jantar está pronto? E acho melhor irmos para a sala de jantar.
Os Malfoy foram à frente, e Rose e Scorpius seguiram mais atrás.
— Com todo respeito, mas posso dar uma voadora na sua mãe? — sussurrou Rose para o loiro, quando já não poderiam mais ser ouvidos.
— Relaxa. Ela adorou você.
— Como adora baratas, ratos e pernilongos? — ironizou Rose, revirando os olhos.
Scorpius não respondeu, pois haviam chegado à sala de jantar. Quadros valiosos preenchiam as paredes que possuíam uma tonalidade clara (nem rosa nem bege), e um piso de madeira lustrado era visível no chão.
— Então, Rose — o sr e sra. Malfoy se sentaram à extensa mesa, e Scorpius puxou a cadeira de Rose para que ela se sentasse, em seguida se acomodando também. — O que você faz?
Antes que a ruiva respondesse, Scorpius a atropelou.
— Ela trabalhava em uma loja de lingeries de uma franquia francesa famosa. Acabou desistindo do trabalho depois de ter tido problemas com alguns clientes inconvenientes, e agora mora na casa dos pais e faz faculdade de Jornalismo.
— Seus pais devem ser muito influentes para você conseguir viver tão... Bela — Astoria pareceu buscar alguma palavra entre “horrível” e “aceitável” que se encaixasse no diálogo, mas aparentemente “bela” foi o melhor que conseguiu.
Novamente Rose foi interrompida por Scorpius.
— São os Weasley. O pai dela é Ronald Weasley, e trabalha em uma importante empresa. É um grande empresário também.
— Suponho que sim — Draco agradeceu com um aceno de cabeça assim que a empregada serviu os pratos à mesa, retirando em seguida à proteção de prata que os protegia. — Conheço Ronald de longas datas. Fomos da mesma classe no colégio.
Astoria sorriu para Rose do outro lado da mesa.
— Espero que aprecie escargot, Rose.
— Ah sim. Eu aprecio muito. Minha mãe consegue fazer excelentes pratos da culinária francesa para nós. — alfinetou Rose, dizendo algo que não era bem verdade. Ela abominava qualquer coisa esquisita como lesmas criadas em cativeiro (no caso, caracóis fofinhos chamados escargot, com um molho simpático de coloração verde em seu interior).
— Isso é ótimo. Lysander adorava escargot. A propósito Scorpius, por que motivo você e ela terminaram um relacionamento tão adorável? — questionou a sra. Malfoy, saboreando o jantar. Rose ainda cutucava com o garfo aquela coisa asquerosa em seu prato.
— Lysander e eu tomamos rumos muito diferentes — justificou Scorpius, perdendo completamente a fome.
Um silêncio se fez, enquanto os Malfoy saboreavam o jantar, e Rose utilizava uma técnica infalível de mover o garfo e mexer a boca, fingindo que estava comendo.
— Ainda está trabalhando no Departamento de Polícia, filho? — Draco perguntou, fitando Scorpius.
— Estou. Trabalhando muito por sinal.
— Soube dessa tal RW. Ela parece estar dando muito problema para vocês da polícia. Ainda acho que você deveria entrar para a empresa da família, Scorpius. Ser um investigador no Brasil não é lucro algum...
— Eu gosto do que faço, pai...
Rose resolveu arrumar algum motivo para não precisar comer, e nada melhor do que dar uma cartada que salvaria sua pele posteriormente:
— Acho que a RW vai ser pega logo. Scorpius é bom no que faz, e não é uma feminista barata que destrói os dotes investigativos dele — A ruiva segurou a mão do loiro por cima da mesa, deixando visível aos olhos dos Malfoy.
— É boa essa sua confiança nele — Astoria perguntou, chamando a empregada com um sininho para que retirasse os pratos e servisse a sobremesa. — Estão juntos há quanto tempo?
Scorpius ainda estava um pouco atordoado com a atitude da ruiva, que ela precisou responder por ele:
— Dois meses. Parece pouco tempo, mas estamos nos dando muito bem. Scorpius está se saindo otimamente bem como investigador, e está tendo uma grande oportunidade de ir para a Polícia Federal.
Astoria pareceu surpresa.
— Isso é sério, querido? Está avançando tanto, assim?
Aquilo não era bem verdade, mas Scorpius não achou ruim sustentar um pouquinho a história que Rose acabara de criar.
— Sim. Preciso apenas concluir o caso da RW.
A sobremesa foi servida (Petit Gâteau), e Scorpius lançou um olhar de agradecimento para Rose, que apenas sorriu minimamente.
Os assuntos posteriores envolveram política, economia, e interesses teoricamente “masculinos”, enquanto Astoria falava com Rose a respeito dos antigos hábitos de Scorpius.
— Scorpius costumava andar pelado pela casa, acredita? Uma vez levamos ele para a Disney, e quase pegou uma pneumonia ao tentar fazer isso em Orlando. A partir daí parou de tentar parecer um Tarzan urbano sem roupa. Foi mais ou menos ao cinco anos de idade. Nunca senti tanta dó dele quanto naquele dia — Astoria deu uma risada, e Rose a acompanhou, grata por ter algum bom motivo para rir.
Ao fim da sobremesa, os Malfoy convidaram Scorpius e Rose para seguirem até a sala principal, para tomarem alguma coisa.
— Estamos indo bem — Scorpius sussurrou para a ruiva, antes de terem de se separar na sala.
Scorpius e Draco foram para o escritório, beber uísque, enquanto Rose e Astoria permaneceram na sala.
— Fico admirada que ainda existam mulheres do mesmo porte que Lysander. Ela fazia parte da família há muito tempo.
Rose fez uma pausa necessária, calculando o que deveria dizer em seguida.
— Eu conhecia Lysander — A ruiva falou, tomando mais um gole do champanhe servido por Minerva a elas. — Desde criança. Mas nunca fomos amigas.
Astoria franziu o cenho.
— Meu filho sabe disso?
— Não, não. Claro que não — Rose bebeu mais um gole do champanhe, atenta à porta do escritório. Baixou o tom de voz. — Eu estudei com Scorpius até o oitavo ano em salas diferentes. Mas ele não se lembra. Ele foi para Nova York e eu fiquei aqui, no Brasil. Nunca fomos muito amigos.
— Eu não imaginava isso...
— É. Pois é. Ele nunca nem soube o meu nome — Rose esvaziou sua taça, e não se conteve em se servir de mais. Colocou mais um pouco na taça de Astoria. — Eu não acho que isso deva valer de alguma coisa no final dos contas. Nos reencontramos acidentalmente, e eu mal sabia do envolvimento dele com a Lysander.
— Isso é... Surpreendente — As bochechas da sra.Malfoy já começavam a ficar rosadas. — Acredito muito em reencontros amorosos, destino e casamentos eternos. Draco e eu vivemos um casamento de quase trinta anos e já nos conhecíamos há muito tempo. Mas você deveria contar a Scorpius quem é.
— Ah bobagem. Ele não se lembraria — Rose tomava cada gole devagar, permanecendo em sua postura de “cópia perfeita da Lysander”. — E no final das contas, não faz mais sentido. Estamos felizes, e é isso que importa. Sem traição, sem mentiras.
— Tin-Tin — Astoria ergueu sua taça, tomando mais um gole. — Acredito que serão felizes. Embora eu gostasse mais da Lysander, e o seu cabelo seja atipicamente incorreto para uma dama, eu gostei de você.
Rose continuou sorrindo.
— Saiba que amo muito seu filho — Ela falou, observando Astoria piscar, um pouco atordoada.
— Eu... Eu estou tão cansada...
— Ah imagino que esteja... O champanhe é um verdadeiro show de estrelas, que nos arrasta para o mundo dos sonhos.
Um segundo depois, Astoria caiu esparramada no sofá, adormecida. Rose tirou o sorriso da face, colocando a taça sobre a mesinha de centro. Ajeitou a sra.Malfoy no sofá agilmente, olhando ao redor. Pulou as pernas da Malfoy, seguindo até a porta do escritório. Podia ouvir ainda a conversa animada de pai e filho, quando girou a chave silenciosamente e os trancou lá dentro.
Voltou-se para as portas da sala de jantar que tinham brecha para a cozinha, e as trancou com a chave presa à fechadura. Realizou o mesmo passo com a porta principal, e calculou em seu celular os cinco minutos necessários.
Correu para a escadaria de mármore, e procurou pela porta do quarto com a plaqueta “Scorpius Malfoy”. Empurrou-a.
Olhou pela janela fechada, e viu exatamente o ponto dos jardins bem cuidados que havia marcado em seu ponto de visão enquanto subia o lance de escadas do lado de fora.
Observou os arredores do quarto. Uma cama com edredons azuis, paredes da cor cinza, um brasão do antigo colégio, e um quadro com uma foto alguns anos mais jovem de um Scorpius se formando no colégio.
Abriu a bolsinha, tirando de lá um embrulho com tecido branco — que depositou no piso — uma chave de fenda, e luvas, que as colocou agilmente. Agachou-se, puxando uma das tábuas que compunham o piso impecável da casa, presente também no quarto, com o auxílio da chave de fenda.
Como todos os pisos antiquados de madeira em casas como aquela, havia uma brecha capaz de esconder algum objeto.
Colocou o embrulho de tecido branco ali, e tirou da bolsinha um conjunto de selos com as cópias de digitais. Colocou em seus dedos, ainda de luvas e desembrulhou o pano branco, pegando na tesoura rosa e no facão com cabo desgastado.
Depositou-os novamente dentro do embrulho de pano branco, e em seguida tampou o local com a tábua, fixando-a bem.
Abriu a janela do quarto de Scorpius, e tocou os vidros com os selos em seus dedos. Encenou uma decida rápida. Olhou em seu relógio. Tinha um minuto e quarenta e três segundos.
Saiu do quarto, e adentrou o quarto do casal Malfoy, onde havia uma televisão com um interfone abaixo.
Apertou o botão vermelho ao tirar o fone do gancho, e viu pela tela os portões se abrirem.
Fechou a porta e retirou as luvas. Cuidadosamente enfiando-as dentro da bolsinha novamente. Destrancou as portas, uma a uma, satisfeita por estar dentro do tempo.
Tinha quinze segundos quando destrancou a porta principal, e correu para o sofá, pegando a taça de champanhe em cima da mesinha de centro. Retirou da bolsa um vidro intitulado “Simeticona” quando na verdade era um sonífero extremamente forte.
Colocou algumas gotas em seu champanhe, e o bebeu, sentindo os efeitos colaterais da droga em seu sistema.
Três segundos. O alarme do casarão disparou. Os portões não poderiam ficar tanto tempo abertos sem que o sistema de segurança funcionasse.
Rose caiu no sono ao lado da sra.Malfoy, antes de ver qualquer reação alheia.
Dominique finalmente pagaria o preço por tudo que fizera.
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