Os Herdeiros da Alvorada
7 Capítulo VI - Mudanças de planos
A princesa Lucy acordava cedo e imediatamente abria as janelas que ficavam no lado leste de seu quarto, que ficava em uma das torres mais altas e mais antiga do palácio. Ela tinha o costume de se debruçar ali para olhar o nascer do sol além do mar de fogo e depois ia para a janela contrária, para ter a visão do reino, que ficava ao oeste. Os pássaros pousavam no parapeito e deixavam com que ela passasse a mão em suas pequenas cabeças, coisa que não era comum a para qualquer pessoa. Depois, quando estava satisfeita, abria um galpão secreto que ficava no teto e tirava sua coleção de espadas e armaduras para limpá-las e treinar um pouco; era costume das fadas fazer isso assim que acordavam.
Ela então tomava um longo banho, arrumava seu cabelo e se vestia, mas é claro, com ajuda de suas servas, Natalie e Genni, as dríades. As três eram como irmãs, pois se conheciam dês de pequenas, quando foram apresentadas umas às outras. No início, Natalie odiava profundamente Genni e o sentimento era recíproco, mas Lucy nunca desistiu de fazer com que elas se dessem bem e no fim, depois de muita insistência, a princesa conseguiu convencê-las de serem amigas, mas isso tudo caia por terra quando ambas começavam a gostar do mesmo rapaz, ou então competiam por alguma outra coisa, como quem teve culpa de algo ou coisa parecida.
Mas aquele dia estava totalmente estranho. Primeiro que os pássaros não apareceram, o que era extremamente raro, pois dês de que nasceu, Lucy era rodeada por esses animais. E segundo por que o metal de suas armas parecia mais pesado, ou seja, aquilo era interferência direta do deus da guerra que queria avisar algo para os filhos da alvorada; o perigo estava se aproximando.
Apesar disso tudo, o céu estava azul e não tinha uma nuvem sequer nele. Os ventos pareciam leves e os raios de sol estavam quentes como sempre foram. A princesa se vestiu com a ajuda de suas amigas e saiu do quarto descendo as escadas espirais com cuidado, pois as pedras estavam desgastadas, o que era extremamente perigoso quando se andava com saltos. O rei estava cansado de falar para a princesa procurar alguém que pudesse arrumar, mas ela quis deixar assim, pois acreditava que havia um motivo para elas estarem daquele jeito.
Ao chegar nos corredores, vários soldados passaram por ela cumprimentando ou então acenando levemente. Ela era uma figura tão única que as pessoas tinham medo de falar algo errado perto dela com receio de passar vergonha, mas ela por outro lado não se importava com isso, pois não só seu olhar e seu sorriso eram meigos, mas toda a sua alma e personalidade também, ou melhor, suas personalidades.
Assim que se aproximou da sala do trono, os guardas abriram as portas imediatamente. Eles cochichavam entre si falando "Idiota" ou "ela está olhando". A presença das dríades também pesava bastante fazendo com que aquele trio fosse conhecido em todas as partes como: As três musas belas
Quando entrou no salão, Lucy viu que perto do trono, que ficava em cima de uma grande escadaria, estava o rei e mais outras pessoas, como a famosa senhorita das sombras, Jack da lanterna e o homem dos três olhos. Haviam muitas outras, mas dessas somente esses três chamavam a atenção. Todos eram estudiosos de alguma área da magia ou de conhecimentos gerais, que era o caso do três olhos.
O rei parecia estar extremamente preocupado. Ele segurava sua longa barba com a mão esquerda enquanto olhava um papel amarelado que estava na direita. Todos olharam assustados para a princesa, pois ela apareceu de repente como era de seu costume.
— Os pássaros não vieram hoje — Lucy falou, com tristeza.
O rei não notou o que ela disse na primeira vez, mas quando viu que ela tinha dito algo, olhou novamente para a garota e perguntou: — O que disse?
— Eu disse que os pássaros não vieram hoje.
— Não vieram? Mas o que eu tenho haver com isso? — o rei perguntou.
— Há algo de errado, papai. O mundo está mudando, eu sei disso — ela falou enquanto se aproximava do trono — minhas armas estão mais pesadas e o clima parece estranho, apesar de tudo aparentar estar normal. Diga-me, papai, o que está acontecendo?
Seu olhar doce se transfigurou em algo frio, assustador, rude e penetrante. O rei sentiu como se sua alma estivesse sendo invadida e os sábios se afastaram, com medo.
— Não adianta esconder nada de você, não é mesmo? — ele falou — bom, vamos esperar que Gaasp chegue e então revelarei tudo. Eu sei que após ouvir o que tenho a dizer para o cholder, você vai querer ir com ele... — o rei parou de falar repentinamente.
— Ir? Ir para onde? — Lucy perguntou.
— Você verá, minha filha, você verá.
Eles esperaram por mais uma hora pelo cholder, que deveria ter chegado mais cedo, mas como era costume de Gaasp se atrasar, ninguém realmente se importou. A princesa foi para uma das sacadas que ficava nas grandes janelas do salão, junto as suas amigas, para olhar a paisagem. Ela parecia focada, pois nem mesmo a conversa de Natalie e Genni chamava a sua atenção.
Depois de mais um tempo, os portões se abriram e Gaasp apareceu, cambaleando. Ele estava acabado. Sua barba estava por fazer, a parte branca de seus olhos agora eram vermelhas, suas roupas estavam todas amarrotadas e suas olheiras ficaram ainda mais escuras; provavelmente ele virou a noite bebendo, como sempre fazia quando algo em sua vida dava errado.
Mas o cholder não estava sozinho. Atrás dele vinha Ganan, que tinha a espada negra em sua cintura, assim como seu pai costumava carregar. Sua armadura brilhante era feita de um material raro naquele mundo, provavelmente misturado, pois a quantidade existente não daria para fazer algo tão grande. Seu caminhar havia mudado completamente e o garoto alegre e sorridente já não existia mais; seu codinome agora era ódio e vingança. O tenente Zaneg e o Chefe dos sacerdotes também foram. Eles estavam acompanhados por vários soldados de alta patente e magos especializados em combate, que lideravam algumas legiões do exército de Anep.
Quando todos haviam chegado, Gaasp pediu a palavra e disse:
— Eu tomei a liberdade de chamar Ganan aqui, Adam — ele falou, depois bocejar — grande parte do que falaremos aqui é sobre o pai dele, não é mesmo?
— Sim, você fez certo. Eu me esqueci de chamá-lo, mas graças aos deuses você possui a mentalidade de um rei, ou talvez até de um sacerdote, não sei. Esses dias tem sido tão pesados que eu tenho me atentado pouco aos detalhes que muitas vezes são muito importantes, mas eu tenho sorte de ter pessoas como você ao meu lado, pois assim eu tenho menos chances de cometer erros como esse — Adam falou enquanto se assentava no trono. Ele parou por um momento, esfregou os olhos com os dedos e depois continuou: — o assunto que trataremos hoje é de suma importância para a sobrevivência de todos nós, anepianos ou não. Sobre isso, eu gostaria de passar a palavra ao três olhos, que explicará melhor a situação, pois ele é o chefe dos estudos e por causa de seu relatório, que foi entregue há algumas horas, vi que sua propriedade para falar sobre isso é maior.
Então o três olhos andou para frente, para se destacar dos demais, e depois se curvou levemente para o rei como forma de agradecimento por suas palavras gentis. Ele ficou em silencio por um tempo, mas depois se virou para todos e começou a falar:
— Bem, primeiramente eu gostaria de falar a respeito do monstro que foi petrificado. Nós confirmamos que ele é sim o boticário e que também foi o autor do círculo desenhado na parede, em seu porão. Nossos estudos estão nos tirado noites de sono, mas apesar disso, os resultados tem sido satisfatórios — o três olhos falou — infelizmente trago más notícias em meio a essas descobertas e a pior delas com certeza é o fato da pedra que prende o monstro estar rachando...
— Mas essa parte nós sabíamos! — Ganan falou — antes de morrer, meu pai havia falado isso para o meu irmão! Há várias pessoas que testemunharam e, portanto, isso não é segredo.
— Sim, nós sabemos, mas a previsão era de uns dois anos, só que agora parece que temos apenas três meses para nos livrarmos da criatura — três olhos falou — e como você disse, várias pessoas testemunharam isso, mas são os detalhes que importam nesse caso.
As pessoas, principalmente os soldos que acompanhavam os outros, começaram um burburinho agitado. Lucy olhou para Gaasp e viu que apesar de marejados, seus olhos estavam determinados, como se uma forte energia divina tivesse passado diante deles.
— Mas três meses não é o suficiente? — Ganan perguntou, aflito. Todas as pessoas pararam de falar em sincronia.
— Não é — três olhos falou — pelo que o Gaasp nos informou sobre o que a oráculo disse a ele, aparentemente o único jeito de derrotara criatura é com a flor negra da morte que nasce por lá, só que de acordo com o passar dos anos, foi ficando cada vez mais difícil dessa planta crescer por causa das variações mágicas que o nosso mundo vem sofrendo. Então, para termos certeza de que conseguiremos essa planta antes que o tempo acabe...
O três olhos parou de falar olhou para o rei para ter certeza de que poderia contar sobre aquilo naquela hora, pois haviam coisa que poderiam ser ditas primeiro ou em outro momento. O soberano fez sinal para que ele continuasse.
— Nós teremos que conseguir uma espécie especial de adubo que só se encontra na teocracia de Malef... — o três olhos falou, gaguejando, como se o que tivesse acabado de falar fosse algum tabu.
— Teocracia de Malef? — Gaasp gritou, furioso — aqueles idiotas nos odeiam, pois um dos seus oitocentos e quarenta e cinco deuses é contra Anep! Quem diabos adora oitocentos e cinco deuses?
— Gaasp, se acalme! — o rei falou, levantando sua mão direita. Ele sabia que o cholder reagiria assim e avisou ao três olhos com antecedência para que ele suavizasse na hora de passar as informações, mas aparentemente isso não adiantou muito.
— Me perdoe, vossa majestade, mas você sabe muito bem do nosso histórico com aquele povo! — Gaasp continuou — uma vez eles me prenderam em uma caverna de ogros, pois eu me recusei a casar com a princesa prometida deles! O senhor acredita nisso? Eles disseram que uma de suas divindades exigia isso de mim! Aposto que nem o sacerdote supremo deles sabe o nome dos deuses de cor.
— Gaasp, é a nossa única oportunidade! — o rei falou.
— Eles vão nos trair! — Gaasp gritou — vão nos oferecer ao deus camelo, ou ao deus rinoceronte das montanhas brancas, não sei!
— Chega! — o rei também gritou, só que mais alto, para que sua voz se sobressaísse — eu disse que é a nossa única opção e pronto!
Adam e Gaasp ficaram se encarando por um tempo. O clima ficou tão tenso que até Lucy, que era um espirito puro, começou a tremer de medo, pois diziam as más línguas que quando o rei e um cholder lutavam entre si seriamente, a divindade da destruição despertava de seu longo sono.
— Depois não diga que eu não avisei! — Gaasp falou, com raiva. Era possível ver algumas faíscas piscando por dentro de sua carne e mostrando seus ossos e nervos, como se pequenos trovões estivessem armazenados nele.
— Sim, nos lembraremos disso caso ocorra algo se ruim — o rei falou enquanto suspirava fundo e fechava os olhos, tentando se acalmar.
Depois disso nem mesmo o três olhos teve coragem de continuar, pois viu que havia falhado em amortecer a notícia assim como o rei havia pedido.
— Vocês podem me dar a palavra? — a senhorita das sombras perguntou, pois viu que seu companheiro não retomaria o que estava dizendo tão cedo — não podemos nos esquecer do general nébulo, senhor.
— Genral? — o rei perguntou.
— Sim, aquele que andou pelos arredores do bosque de Elora.
— Ah, sim, tem isso também! — o rei ficou ainda mais tenso, pois agora tinha se lembrado que havia mais problemas envolvidos nisso tudo — aparentemente Maturam apareceu aqui, em Anep, perto do bosque de Elora!
Todos gemeram alto, assustados. Até mesmo o tenente segurou com força a sua espada como sempre fazia quando ficava com medo, o que era raro, pois ele não se sentia assim por qualquer coisa; isso deixou os soldados menores que o conheciam mais apreensivos.
— Maturam? Aquele Maturam? — Lucy perguntou. Pelo modo que ela falou, todos sentiram como se ela conhecesse a besta pessoalmente, mesmo que seu contato tivesse sido apenas através do Tamulack e de outros escritos importantes de Anep.
— Sim, ele mesmo! — A senhorita das sombras falou, com frieza. Ela não tinha a menor vontade de suavizar e, portanto, tudo o que seria dito por sua boca seria áspero com as areias das terras dos anões.
Lucy se virou, enquanto olhava para o nada, com olhos frios e assustados. Ela colocou a mão em sua cabeça e respirou fundo, mas com as mãos tremulas. Sua magia de fada extravasou para fora e todos puderam ver pela primeira vez o seu lado "humano".
— Bosque de Elora? Maturam? Não é possível, Yashrok está... — ela balbuciou para si, mas todos ouviram, pois sua voz ecoou por toda a sala do trono por causa de seu dom de palavra, que havia sido usado sem querer por causa do susto.
— Algum problema, princesa? — o três olhos perguntou, com medo do que ouviria, pois sabia que a garota era conhecida por enxergar coisas que ninguém via.
Lucy se virou para o trono, assustada, como se tivesse acabado de sair de um transe pesado e profundo.
— Eu... Eu estava pensando... Bosque de Elora, certo? — Ela perguntou.
— Sim, foi o que dissemos — a senhorita das sombras respondeu.
— Esqueçam isso, eu só... — a princesa ficou em silêncio enquanto pensava em algo. O rei e os outros ficaram desconfiados, mas deixaram para la.
— Acreditamos que Maturam esteja envolvido com os escritos da casa do boticário, pois somente ele poderia conseguir ossos de ciclopes, pois esses foram quase todos exterminados quando estavam sobre seu comando na época da guerra entre as fadas e os dragões — a senhorita falou — além do mais, o tipo de círculo não é usado a milênios. Nós só conseguimos identificar sua serventia depois de procurar arquivos muito antigos na grande biblioteca, feitos pelo próprio senhor dos historiadores em pessoa. Esses manuscritos estavam trancados bem fundo, em um local não visto, tapados por pedras, tijolos e uma liga forte e poderosa.
— Como poderíamos esquecer de tais coisas? — o rei perguntou para si mesmo — apesar de serem raros esses acontecimentos, esses escritos são patrimônio muito antigos feitos pelos nossos antepassados! Ou melhor, um dos mais importantes antepassados!
O burburinho voltou, mas logo se foi, pois o três olhos começou a falar.
— Nós conversamos com o sacerdote supremo a respeito disso e chegamos à conclusão, ou quase uma, de que isso é uma confusão lançada pelos inimigos para que não estivéssemos preparados — três olhos falou — além do mais, o círculo é totalmente maligno e é a chave de entrada de um dos portões cinzas, mais especificamente cinza claro.
— Exatamente! — a senhorita falou — o monstro que está petrificado provavelmente veio do portal e se uniu de alguma forma com o boticário; os exorcistas disseram que era um espírito que tomou o homem para si. Agora o que não sabemos é o motivo de Maturam ter destruído aquela pequena vila, afinal, um nébulo como ele atacaria um grande reino, ou coisa parecida, mas nunca algo tão pequeno!
Lucy desviou o olhar para uma das vidraças. O rei percebeu isso e começou a encará-la na esperança de que ela percebesse.
— Sabe de algo, minha filha? — ele perguntou.
A garota permaneceu como estava, como se não tivesse dado importância para a pergunta.
— Sei que temos problemas, pois o general nébulo está entre nós e nem sabemos sua posição. Além disso, a barreira está se desfazendo, não é mesmo? — ela perguntou.
— Sim, está... — o rei respondeu — mas como sabe disso?
— É obvio que isso está acontecendo! Pois nunca um arquideus de elite andaria por essas terras há alguns anos atrás! Além disso, se isso está acontecendo, provavelmente o cometa se aproxima, o que será uma lástima para todos! — ela falou, ainda olhando para o outro lado. Depois ficou em silêncio e se virou para o cholder — Gaasp, mais tarde preciso conversar com você sobre algo que tem me incomodado.
— Algo tem te incomodado, minha filha? Diga-nos o que é! — o rei falou.
— Não posso dizer, é particular! Além disso, temos outros assuntos a tratar agora, não é mesmo? — ela falou, com um certo tom de grosseria, coisa que nunca era vista por parte dela.
— Sim, temos! — o rei se levantou do trono — vamos ter que apressar a sua ida até o vale dos troncos, Gaasp! Eu não me importo de você ir até a torre de Melok, mas antes terá que conseguir a flor primeiro!
Gaasp olhou assustado para o rei, pois foi pego de surpresa. Até aquele momento seus olhos estavam focados no chão, no mesmo lugar onde há muitos anos um rei nébulo foi julgado e posteriormente morto por um cholder em praça pública.
— Mas majestade, eu não tenho uma equipe formada e por isso estava contando com o fim da prova para poder consegui-la! — Gaasp falou, desesperado — o tipo de missão exige algo que tenha passado pelas provações daquele lugar!
— Não exatamente, meu caro e velho amigo — o rei falou — você pode escolher os melhores desse reino com a verba que disponibilizarei. Monte uma equipe poderosa a seu gosto! — o soberano estava com remorso por ter gritado com seu melhor amigo e por isso agora tentava ser mais gentil com ele. Gaasp não caiu nessa. Ele continuava emburrado.
— O problema é escolher, pois eu conheço muita gente habilidosa e como o senhor sabe, sou indeciso nesse tipo de coisa! — Gaasp falou, nervoso. O rei não deu bola, pois sabia que seu humor ficava afetado quando contrariado em uma coisa que tinha certeza de que sabia a respeito.
— Hahahaha — Lucy riu alto e todos olharam para ela. Até mesmo a senhorita das sombras que era uma mulher inexpressiva se mostrou expantada — eu posso lhe ajudar nisso, cholder! — ela falou com um olhar de malícia.
— Eu te conheço, princesa! Sei que isso não sairá de graça — Gaasp falou.
— É, para que eu lhe ajude, você deverá me aceitar em sua equipe! — ela disse enquanto sorria.
— Ah, eu sabia que ela iria querer participar! — o rei falou, rindo — foi por isso que permiti que ela ficasse aqui nessa reunião!
— Ninguém me conhece melhor que o papai — Lucy falou, em tom de deboche. As pessoas ficaram ainda mais surpresas. Somente Adam e Gaasp permaneceram em um estado normal, pois conheciam aquele lado dela.
— Certo! Eu te aceito na minha equipe, mas terá que me prometer que arranjará os melhores guerreiros ou aventureiros desse reino, pois não estou tão confiante quanto a isso — Gaasp falou.
— Não se preocupe, cholder. Fui eu quem escolheu muitos dos que estão na guarda real nesse momento! — ela falou, sorrindo.
O cholder sorriu, pois a confiança de Lucy o cativou.
— Certo, conto contigo!
A reunião não foi tão longa quanto todos imaginaram que seria. Assim que terminou, Lucy e Gaasp foram os primeiros a sair e o restante permaneceu para discutir com mais detalhes a respeito do assunto. Ganan passou direto pela princesa que ficou um pouco desconcertada; ela nunca havia sido ignorada por ele.
A princesa e o cholder desceram as escadas, em silêncio, enquanto olhavam para os quadros que haviam sido restaurados há pouco tempo por um pintor muito conhecido pela família real e por muitos reis de vários reinos do mundo. Lucy já foi pintada por ele, nua, como sempre quisera, após ver um dos quadros de sua tatara avó que havia feito a mesma coisa; aquela peça de arte estava guardada no sótão, bem no fundo, perto de suas armaduras, para nuca ser encontrada por ninguém; a garota tinha arrepios só de pensar em alguém descobrindo isso.
Quando garantiu que estava bem longe de todos, ela segurou o ombro de Gaasp fazendo com que ele parasse de andar repentinamente. O olhar dela mudou para algo vazio e profundo, como se não houvesse mais sentimentos ali. O homem ficou intimidade e quase recuou.
— Sobre o que eu gostaria de conversar com você... — ela falou — aquele garoto que estava com Elora no dia do funeral, quem é?
— Garoto que estava com Elora? Ah, sim, o nome dele é Kouta — Gaasp respondeu — mas por que você quer saber?
Lucy soltou Gaasp e continuou andando, mas com menos velocidade do que antes. Ela olhava para frente, séria, sem desviar os olhos, enquanto segurava sua mão com a outra.
— Ele tem uma energia estranha... é como se... — ela se virou para Gaasp, em silêncio, e o encarou — não sei, é estranha!
— Talvez você esteja falando da energia do bosque. O garoto tem sim uma aura estranha, pois passou anos meditando em meio aquelas árvores. Aquele lugar ficou intacto durante a guerra entre as fadas e os dragões e por isso sua magia permaneceu intocada pelo mal; é como se o bosque fosse um pedaço original de como era o mundo no início — Gaasp falou.
— Sim, eu sei disso, mas não é sobre essa primeira aura que estou falando. Quando eu digo que ele tem uma energia estranha, forasteira, me refiro a sua segunda mana, que está guardada por trás do poder do bosque — Lucy falou.
— Eu não sei do que está falando, princesa, mas acredito que seja só impressão sua, ou eu estou ficando louco, pois nem Elora me falou algo do tipo, nem mesmo quando viemos para cá e o garoto foi tomar banho em um rio nos deixando sozinhos para falar qualquer coisa... — Gaasp falou.
— É, talvez seja impressão minha, mas que tem coisa aí eu sei que tem.
Mais tarde eles se encontrariam nos jardins do palácio, pois Lucy disse que levaria alguns membro novos da equipe para apresentar a Gaasp que estava esperando assentado em um banco, perto do chafariz. Era tarde e céu tinha um aspecto mais sereno com as nuvens alaranjadas e meio rosas. O cholder olhava para as flores e se lembrava se sua antiga paixão, que morou há muito tempo na ilha dos nobres e todo dia ia cantar com os pássaros de manhã, naquele mesmo lugar.
Ela era filha de um nobre e uma princesa, irmã de Adam, que já não morava mais ali. Ela correspondia os sentimentos do cholder e ambos fugiam a noite de vez enquando para ver as estrelas em um dos montes mais altos da capital, que ficava fora da cidade, ao nordeste dali.
Eles riam juntos, cantavam juntos e até planejavam o futuro, para quando estivessem casados e com muitos filhos. Infelizmente essa história não teve um final alegre, pois a moça foi levada para bem longe e nunca mais voltou. As pessoas diziam que ela estava morta, mas Gaasp sempre teve fé de que era mentira, só que infelizmente, quanto mais a idade chegava, mais o cholder perdia as esperanças de um reencontro e se afundava cada vez mais no álcool. Esse vício era um de seus poucos defeitos.
Quando Gaasp estava começando a adormecer por causa do clima tranquilo e dos ventos suaves, três sombras apareceram a sua frente contrapondo o sol que se punha. Seus olhos foram se acostumando até que ele pôde ver que era a princesa e mais duas pessoas desconhecidas até o momento. A direita de Lucy, um pouco atrás dela, estava um garoto jovem, mas forte e com olhos determinados. Ele vestia uma armadura cinza com o símbolo de Yashrok desenhado em seu peitoral e em sua cintura havia uma espada longa de boa qualidade forjada por Deminacks da região amarela.
E a sua esquerda estava um homem velho, careca, que tinha uma barba grande e usava trajes escuros com penas nos ombros e joelhos. Ele tinha um semblante fechado e assustador, e carregava um machado-martelo nas costas; provavelmente devia ser muito forte para manejar tal arma.
— Esses são os primeiros de nosso grupo — a princesa falou, com um sorriso meigo na face — esse é Yoseph, do templo de Yashrok. Ele é um templário jovem, mas experiente — ela apontou para o rapaz de armadura cinza que se curvou imediatamente e desesperadamente.
— É um prazer trabalhar com o senhor em nome de Yashrok, senhor — ele falou — não desapontarei o senhor, senhor...
Gaasp fez uma expressão de estranheza, pois já havia ouvido falarem sobre o rapaz e como ele era um prodígio, mas não pensou que sua personalidade seria tão eletrizante.
— Ah, eu me esqueci — a princesa colocou a mão na frente da boca e soltou uma risadinha, se fingindo de besta — esse outro se chama Yakobus, o diligente.
— Yakobus? Você é o Yakobus? O lendário flautista? — Gaasp perguntou, um pouco animado.
— Não, esse é outro, que chamaremos para o nosso grupo mais tarde. Droga, as pessoas sempre nos confundem — ele olhou para o lado, irritado.
— Ele não é muito bem humorado, hehe — Lucy falou — mas é um ótimo guerreiro, assim como Yoseph. Nós temos outros em mente, mas não os chamamos ainda. Se importa de nos acompanhar, cholder?
Gaasp suspirou fundo, como se estivesse com má vontade, e se levantou com dificuldade. Suas costas doíam e sua cabeça estava tonta, pois sua pressão havia caído depois de ficar tanto tempo assentado; definitivamente a preguiça era um mal de cholder.
O quarteto caminhou até o grande portão do castelo e desceu as escadarias que levavam até a cidade dos nobres, que ficava abaixo da grande morada dos soberanos. Eles passaram pela praça principal e depois desceram mais cinco lances de escadas que levavam até o porto real. Um grande e luxuoso barco os esperava junto a guardas que os acompanhariam pela capital.
As águas estavam tranquilas e o céu bastante estrelado. Era possível ver que o horizonte ainda estava alaranjado, pois o sol havia acabada de se pôr e a lua, majestosa e bela, iluminava bem a noite de ventos suaves.
Quando chegaram na cidade, Lucy foi a primeira a sair da embarcação. Yoseph pulou em sua frente e a impediu de continuar, pois acreditava que os guardas deviam verificar primeiro se o lugar estava seguro para que a princesa pudesse caminhar, mas ela riu com gentileza e agradeceu dizendo que se aparecesse alguém sua magia seria a primeira a ser conjurada.
Eles subiram as escadarias e depois andaram pelas ruas que estavam bem iluminadas. O número de bêbados havia aumentado muito dês das calamidades que haviam acontecido e isso era preocupante, pois o desempenho dos trabalhadores caiu bastante em todo reino e isso afetava até mesmo as pessoas que moravam na ilha dos nobres, pois muitas delas eram donas de navios de pesca ou de grandes plantações de café, uva e trigo.
Depois de muito caminhar, os quatro finalmente chegaram ao chifre de touro, a maior taberna de toda a região. Gaasp, Yacobus e Yoseph não entenderam o que estavam fazendo ali junto com uma princesa naquela hora da noite. Eles se entreolharam com um olhar de confusão enquanto Lucy abria as portinholas enquanto sorria alegremente. Os soldados rapidamente se alocaram, um de cada lado, enquanto seguravam o cabo da espada para caso tivessem que sacá-la.
As pessoas, assustadas com a presença inusitada da garota, a encararam enquanto paravam aos poucos o que estavam fazendo, como se tivessem ficado lentos de repente. A maioria eram velhos ou guerreiros que enchiam a cara depois do serviço. Muitos que tinham os rostos cobertos tiraram suas máscaras para ver melhor, jogando por terra as suas identidades secretas. As garçonetes, admiradas, cochichavam entre si, mas não com maldade, mas sim elogiando a beleza da garota que caminhava tranquilamente enquanto os três marmanjos que estavam atrás olhavam para os lados, assustados, pois nem mesmo eles chamavam tanto a atenção quando iam para esse tipo de ambiente. Claro que muitas pessoas reconheciam Gaasp quando ele ia beber, mas ninguém dava bola para a sua posição hierárquica, pois era muito comum ver guerreiros de todos os tipos nesses lugares, até mesmo os renomados iam tomar umas biritas de vez enquando.
No fundo da taberna, no meio de várias pessoas que estavam juntas em uma roda, assentadas em cadeiras grandes, havia um flautista alto de roupas pretas, cavanhaque curto e cabelos amarrados para trás. Seus cabelos eram caramelizados, o que significava que ele não era dali, assim como a família real, ou qualquer outro com os mesmos atributos.
Ele tocava uma canção triste e melodiosa chamada de "O último olhar" e ao seu lado, assentada em uma cadeira, estava uma garota de pele avermelhada e olhos amarelos que vestia roupas transparentes e usava muitas joias em seus braços e tornozelos; claramente era uma odalisca. Ela cantava com uma voz doce e suave, e isso junto com o sentimentalismo trazido pelo vinho foi um fator decisivo para o derramamento das lágrimas daqueles que presenciaram a canção. Lucy achou exagerada a reação, mas fingiu estar emocionada para não atrair maus olhares.
Com o poder dado a mim, vi seu sonho pelo olhar
Se eu pudesse te diria que ele vai se realizar
Mas na terra que vivemos é capaz de eu falhar
Enquanto tento a todo custo seu sorriso preservar
Ohhhh
A noite cai como a chuva e escorre pelo chão
Os seus olhos sonolentos reafirmam minha paixão
Sei que o fim se aproxima, mas não irei te acordar, pois
Vejo que se aproximam os seres da escuridão
Escuto o bater de suas asas e o rugido de suas vozes
E o que me conforta certamente é o sinal de nossa união
Casados até o fim estaremos, mas não sei do outro lado, pois
Após ver as belezas do céu, não sei se serei amado
Ohhhh
A música parecia ter deixado Gaasp pior do que estava quando a princesa o encontrou se lamentando nos jardins do palácio mais cedo. As pessoas aplaudiram sem parar. Muitas faziam isso para tentar espantar a vontade de chorar ou então para esconderem que haviam chorado, o que não fazia o mínimo sentido para quem não estava com a mente alterada pelo álcool. Quando o flautista e a odalisca deram as costas para as pessoas, pois estavam indo em direção a saída, pois seu dia de espetáculo havia acabado, eles deram de cara com a princesa que sorria e aplaudia.
Ambos assustaram de tal forma que quase caíram, mas por sorte se apoiaram no balcão que estava ali perto. O flautista olhou para a princesa e depois para os três que a acompanhava. Após isso engoliu seco, pois pensou que estava novamente encrencado.
— Já paguei pelos meus crimes, senhora — ele falou, desviando os olhos para baixo. Sua companheira se afastou, com medo — fiquei preso por um tempo nos calabouços e agora tento ganhar meu dinheiro de forma digna!
Todos ficaram em silêncio enquanto esperavam a resposta da garota que analisava a situação com muito cuidado. Ela inclinou levemente a cabeça para o lado e sorriu.
— Eu não estou aqui para prender ou julgá-lo, Yacobus — Lucy falou — estou aqui para contratar os seus serviços!
O flautista rapidamente mudou sua feição. Uma expressão de felicidade apareceu em sua face e sua postura passou de um coitado para um tranbiqueiro negociador.
— Então quer que minha música chegue até a ilha dos nobres, princesa? — ele falou, sorrindo.
— Não exatamente... Olha, eu quero que você entre para minha equipe de guerreiros. Estamos recrutando pessoas fortes para ir a uma missão longe daqui, mas importante para a sobrevivência de Anep — Lucy falou — já temos três integrantes, eles são...
— Então esse é o Yacobus flautista? Pensei que ele seria maior, pelo que as histórias contam — Gaasp interrompeu, encarando o homem, que retribuiu o olhar.
— E você é Gaasp, estou certo? — O flautista falou — pensei que não se pareceria com uma fadinha, mas sim um guerreiro de elite.
— Ousa a me chamar de "fadinha" de forma degradante perto de uma? — Gaasp apontou para Lucy, que agora havia colocado a mão na testa, pois viu que seu plano havia ido para as cucuias.
— Olha Gaasp, eu não me importo... — Lucy tentou falar, mas novamente foi interrompida.
— E ainda usa esse tipo de tom comigo! — Gaasp gritou.
Todos da taberna voltaram seus olhos para a confusão. Até mesmo os que não se importaram com o espetáculo do flautista prestaram a atenção, demonstrando que aquilo era ainda mais interessante.
— Ah, então vocês vêm atrás de mim para arranjar confusão? — o flautista falou — não pensei que a filha do rei se rebaixaria tanto — ele olhou para a princesa que parecia estar envergonhada por estar chamando tanta atenção de forma negativa.
— Escuta, Yacobus, eu não vim brigar! — ela disse, tentando melhorar a situação — eu vim contratar seus serviços por causa de suas habilidades de ladino, sabe? Rápido, esperto...
— Eu não faço mais isso dês que saí da prisão — ele pegou sua bolsa, guardou a flauta indicando que estava com pressa para ir embora — agora sou um bardo e trabalho apenas com isso!
— Mas você não aceitaria fazer esse trabalho nem por cem peças de ouro? — Lucy perguntou.
Por um momento o homem parou para pensar. Ele se sentiu tentado, mas quis deixar quieto, pois agora havia conhecido o amor de sua vida e não queria perder tudo em uma "aventura".
— É o destino de Anep! — Lucy falou — você não terá onde tocar caso esse reino acabe!
— Eu me mudo para outro — Yacobus retrucou.
— Mas os outros reinos também cairão sob os pés dos arquideuses! Você não pode fugir assim!
— Posso e vou!
— Então lute com Gaasp!
Todos ficaram em silêncio. O cholder arregalou os olhos, assustado, e o flautista parou de repente.
— Soube que na época que roubava, você deixava as pessoas perceberem para lutar com elas, não estou certa? Você é um louco por batalhas, eu sei disso! Sua flauta não é só uma ferramenta comum, ela é uma réplica do instrumento do deus da música e muda de forma para qualquer coisa que precise, seja um alaúde, uma arpa e até mesmo suas temidas facas de combate conhecidas como osso e sangue — ela disse, sorrindo — sabe de uma coisa? Gaasp também usa facas em suas lutas, ou seja, por mais que se odeiem, ambos são irmãos de batalha!
O flautista se virou, olhando para a garota, que não tinha mais aquele olhar delicado de antes. Ele sorriu, balançou a cabeça e disse:
— Você não é uma princesa comum, não é mesmo?
— Nunca fui! — Lucy falou, com um sorriso malicioso na face.
— Está bem, eu luto com ele, mas só vou se ele ganhar e se você aumentar minha recompensa para duzentas moedas!
— Fechado! — Lucy falou.
— Me encontre amanhã, nos campos dourados do lado de fora da cidade, estarei la a espera dessa luta — ele deu as costas e saiu. A odalisca o seguiu, correndo, enquanto acenava para a princesa, pois viu que ela poderia ser no futuro uma grande aliada.
Lucy olhou para Gaasp, que ainda estava assustado. Ele não conseguia dizer uma palavra sequer. Ninguém havia perguntado se ele queria participar daquilo, mas como era a princesa que havia feito isso, ele não ousou contrariar, pois não importava como, ela sempre conseguia o que queria.
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