Os Guerreiros do Infinito
19 Aeterna Tranquillitas
Notas iniciais

Os dois kruazip’ts estavam com suas armas prontas para o combate mortal. Sateriasis ainda segurava o martelo sagrado de seu clã, o Martelo de Asmodeus, e Slookhor testava a mais nova tecnologia de guerra do império de Cancri, dispositivos que canalizam a energia empática mais poderosa no corpo do usuário na forma que sua mente perversa desejar. O resultado foram garras bestiais vermelhas como a sua raiva cobrindo suas mãos humanoides. As areias dos desertos escaldantes de Cancri sequer se atreviam a cobrir os seus olhos, cientes do combate que estava prestes a acontecer.
— Você sempre foi muito covarde, Venomania... — Slookhor resmungava, como o veneno mais mortal que saía de suas presas. — Desde a nossa infância juntos. Mas já que não consegue agir... eu irei primeiro.
Slookhor avançou contra o seu inimigo, levando consigo um rastro de energia vermelha, que chegou a cobrir os seus braços com tamanha intensidade. Um rápido e astuto golpe de esquerda foi desferido contra a face de Venomania, que conseguiu defender-se com a lateral da cabeça de seu martelo, devido à enorme força em seus braços. Poderia simplesmente usar seu peso para jogar seu inimigo ao longe, mas por algum motivo, estava se contendo. Ao invés disso, recuou, afundando seus pés nas areias finas do deserto.
— Onde está a força do poderoso clã Sateriasis?! — Slookhor clamou pela glória da batalha, investindo a mão esquerda contra o estômago de seu inimigo, perfurando a sua pele dura e envenenando seu corpo com a energia empática altamente raivosa. Venomania rangeu os dentes de dor e então abriu os braços, gerando uma explosão de energia calma que afastou Slookhor para longe. Teria sido arremessado se não tivesse se segurado no solo com suas garras, mas é claro que Venomania sabia que ele faria isso. Assim como ele, Slookhor sempre foi um soldado exímio do exército kruazip’tiano, e com certeza o mais adequado para suceder ao título de seu clã.
Tomado pela pequena raiva que já começava a consumir o seu coração empático, Sateriasis finalmente se moveu a uma velocidade que se igualava a de seu inimigo, correndo pelas dunas em sua direção. Segurou o cabo do martelo com as duas mãos e deu um pulo, caindo ainda mais rápido. Slookhor foi rápido o suficiente para se esquivar, afinal suas armas eram bem mais leves do que o Martelo de Asmodeus. Ainda assim, o impacto causado da cabeça do martelo contra o chão levantou impressionantes quantidades de areia no local, chegando a abrir uma enorme cratera nas rochas alaranjadas. Slookhor foi jogado aos céus, e arregalou os seus olhos quando viu lá de cima o estrago que apenas um golpe da arma sagrada havia causado. Sateriasis seguia o corpo de seu inimigo com um olhar sereno e frio, como se calculasse ao mesmo tempo toda e qualquer possibilidade de derrota. Apontando a cabeça do martelo para frente, pulou novamente e avançou, fazendo com que a emoção demoníaca cobrisse o seu corpo. Quando o martelo atingiu as garras de Slookhor, que tentou inutilmente se defender, o dispositivo que as energizava teve seu mecanismo de defesa partido, e então os ossos dos dedos do kruazip’t foram instantaneamente despedaçados.
Com mais um golpe desferido contra a sua cabeça pela ponta do cabo do martelo, Venomania enviou seu inimigo ao chão, deixando um rastro de sangue pelos céus. Quando pousou novamente, pôde contemplar seu amigo de infância lutando para que as lágrimas da dor não saíssem. O problema de ser acertado por uma arma demoníaca é que o sentimento de terror começa a se espalhar pelo seu corpo, assim como a raiva se espalhava pelo de Sateriasis.
A visão de Slookhor estava sendo embaçada por alucinações de puro delírio, fazendo com que enxergasse as mais terríveis criaturas diante de si. Ainda assim, simplesmente rangeu os dentes e se ergueu mais uma vez, apertando seus próprios punhos para estancar o sangramento. Por mais que a dor estivesse consumindo seu corpo, ele ousou ativar mais uma vez o mecanismo na lateral de seu cinto, cobrindo suas mãos com sua raiva mais uma vez, mas isso lhe custou um urro de dor.
— Ainda pretende lutar?! —Venomania indagou, quase que indignado.
— Não seja ingênuo... nós dois sabemos que você poderia muito bem ter me matado há instantes atrás.... mas você está com pena de mim, não está, Venomania? Com pena do pequeno Slookhor... eu sempre vivi na sua sombra, almejando tudo o que você tem, mas sempre estando um passo atrás de você! Tudo lhe foi dado facilmente... o título de comandante foi herdado pela sua família, assim como o treinamento imperial... eu conquistei tudo o que eu tenho com o meu próprio sangue! — Slookhor ergueu o seu pulso direito e fez um corte em sua pele com uma das garras da mão esquerda, deixando que seu sangue caísse. Porém antes que o líquido atingisse o chão, foi convertido em energia empática, como se servisse de combustível para seus poderes insanos.
— Você não sabe o valor das coisas que tem, Venomania... — Slookhor prosseguiu. — Isso é inaceitável. E agora quer jogar tudo pelos ares como se não fosse nada, incluindo a nossa amizade?! Eu não vou permitir. Este é o campo de batalha kruazip’tiano, Venomania. Somos os mais mortais inimigos. Você traiu a minha confiança.
Sateriasis suspirou pesadamente. Sabia o valor das palavras de seu amigo, e sabia que estava errado, mas mais nada podia ser feito. — Então eu devo lutar contra você com honra. — Arremessou o martelo contra o chão, prendendo a cabeça da arma no solo. Levou a destra ao cabo dourado de sua espada e a empunhou, deixando que a energia calma purificasse o seu corpo enquanto se concentrava.
— Como quiser. — Slookhor formou a sua posição de ataque mais uma vez, e então ambos correram em direção ao confronto entre suas emoções.
Venomania ergueu o braço direito e desceu a espada com toda a sua força para a face de seu inimigo. Slookhor, por sua vez, já não estava tão rápido devido aos estragos causados pelo Martelo de Asmodeus, então teve de tentar bloquear o ataque. Levantando as duas mãos, parou a lâmina antes que atingisse a sua pele, imobilizando-a entre suas garras. Ainda assim, seus braços tiveram de receber a força dos músculos de Venomania, o que ocasionou no vazamento de mais sangue. Slookhor direcionou uma joelhada com a perna direita ao estômago de Sateriasis, exatamente no mesmo lugar onde a ferida havia sido feita antes. Seu inimigo recuo, e ele aproveitou a abertura para girar, acertando um chute alto na cabeça do kruazip’t.
Slookhor lentamente começou a se aproximar de seu inimigo caído, mas foi derrubado por uma rasteira inesperada. Venomania se levantou novamente e assim fez Slookhor. Sateriasis adotou então uma estratégia diferente de ataque, desferindo golpes com a lâmina dourada onde seria mais difícil de as garras alcançarem para defenderem o corpo. Girando a espada no ar, atingiu as costelas de Slookhor, mas ele conseguiu rasgar a pele de seu braço enquanto ele o erguia para o próximo golpe. A aura raivosa de Slookhor cobriu o seu corpo, aumentando todos os seus atributos. No instante seguinte, ele já estava atrás de Venomania, rasgando as suas costas. Mas com uma explosão de calmaria, foi enviado para trás. Sateriasis então decidiu usar enfim os seus poderes empáticos. Fazendo um simples corte no ar, uma onda de energia que acompanhava o corte de sua espada foi lançada em direção ao seu inimigo.
Slookhor ainda não havia usado plenamente as projeções de sua raiva no campo de batalha, e sim apenas aprendido as técnicas no treinamento. Mas aquele era o momento mais importante e mortal de toda a sua vida, por isso precisava dar tudo de si para conseguir derrotar Venomania. Enquanto a onda de energia calma ia em sua direção, ele ergueu as garras mais uma vez e aumentou sua energia raivosa, projetando versões maiores de suas garras. Assim, foi capaz de parar o corte, mas a energia ainda o empurrou um pouco para trás.
Sendo finalmente consumido por toda a sua raiva, a aura vermelha que antes cobria o seu corpo formou então uma sólida camada sobre a sua pele, como uma armadura. Mas ao invés de limitar os seus movimentos, Slookhor ficou ainda mais poderoso. Avançando sem nem um pingo de medo contra Venomania, começou a desferir poderosos socos com as suas garras fechadas, que causavam uma forte repulsa de energia toda vez que se colidiam com a defesa de Setariasis. Sua espada estava quase se quebrando, então tentou se esquivar. Péssima ideia. A velocidade absurda de Slookhor o atingiu em cheio com um soco em sua face.
Venomania foi arremessado ao outro lado da grande cratera gerada mais cedo pelo golpe do Martelo de Asmodeus, batendo sua cabeça contra o solo. Sangue escorreu pelos seus lábios, mas aquilo estava longe de acabar. Venomania se ergueu novamente e deixou sua espada empunhada verticalmente em direção aos céus à frente de seu corpo, repousando a mão esquerda aberta sobre a sua lâmina.
— Eu não queria ter que usar isso com você, Slookhor. Mas você não me deixa escolha.
— A única escolha nesta batalha é a própria morte, Venomania! — Slookhor abriu os seus braços e projetou as garras maiores mais uma vez. Porém, dessa vez, ele fez com que as enormes garras se separassem das mãos, sendo lançadas em direção a Sateriasis como projéteis.
A energia azul que antes corria ao redor de Venomania foi então absorvida pela espada através da palma de sua mão, e a arma brilhou mais do que nunca. Ele fechou os seus olhos e suspirou com calma, lembrando-se da lição de guerra que seu pai lhe ensinou: “No campo de batalha, a raiva do inimigo é o que faz com que ele queira lhe destruir. Se demonstrar calma, ele perderá o controle de suas ações e perecerá. Lute com calma e paciência, meu filho. ”. A energia voltou mais uma vez a fluir ao seu redor, porém muito mais atrelada ao seu corpo e constante.
Segurando a espada dourada apenas com a destra, os movimentos de Venomania eram leves como uma pluma, e precisos como a ponta de uma flecha. Ele desviou das garras que pôde, e cortou de uma vez só as restantes, eliminando a raiva da qual eram feitas.
Slookhor contemplou aquela cena incrédulo, com os olhos arregalados de espanto. — A técnica de guerra suprema dos Sateriasi...
— Aeterna Tranquillitas. — Venomania proclamou com uma voz tão serena que ela pareceu ecoar por todo o deserto, mesmo que não tivesse paredes.
Porém Slookhor, tomado por uma raiva nunca vista antes em qualquer outro kruazip’t, não podia se render tão facilmente, não aceitaria a derrota tão facilmente. Fechou os seus punhos com força e correu mais uma vez, saltando no meio do caminho e usando a força de seu punho direito como vantagem para se mover mais rapidamente, mirando a face de Venomania novamente.
Porém Venomania estava diferente. Bastou apenas uma rápida e fluída curva para o seu lado direito para escapar do golpe furioso. Ainda com a espada em mãos, cortou o vento verticalmente, atingindo as costas de Slookhor, que caiu no chão. Ele não tinha velocidade o bastante para se levantar e ainda esquivar-se de um ataque eminente, e sabia disso, então bateu o cotovelo no chão com tanta força que foi capaz de canalizar sua energia raivosa através da terra, gerando uma mão de energia debaixo de Venomania. Os dedos começaram a prendê-lo à palma da mão, enquanto ela se elevava aos céus para jogá-lo em direção a sua morte.
Sateriasis manteve sua calma, mesmo que estivesse sendo levantado a metros de altura do solo por uma enorme mão de energia raivosa. Pulando e girando sua lâmina dourada com leveza, desferiu um potente corte de energia calma contra a mão que o segurava, eliminando toda a raiva. Porém antes mesmo que começasse a cair, Slookhor preparava outro ataque. Já de pé, ele retirou o núcleo do mecanismo em seu cinto e o quebrou em suas mãos, liberando toda a energia raivosa de uma só vez. A influência de seu poder era tanta que acabou formando um furacão de areia ao redor do campo de batalha, tapando a visão de Rypt e Infinito Reverso, que ainda observavam a cena ao longe, curiosos.
Movendo seus dedos de forma que modelasse uma série de fios vermelhos entre as suas mãos, Slookhor lançou uma de suas garras como projétil mais uma vez através, porém através deles. O mecanismo empático criado incrementou a potência de seu ataque, transformando a pequena garra em um enorme raio de energia, que passou a consumir toda a energia raivosa disponível, até mesmo o próprio corpo de seu usuário.
Venomania, por sua vez, girou enquanto caía e posicionou a lâmina verticalmente à frente de seu corpo, deixando que a gravidade e seu peso fizessem o resto. Rasgando os céus com um enorme corte azulado, a aura azul que cobria o seu corpo também permitiu-se crescer, servindo como uma camada protetora. Fatiando completamente a onda de raiva que ia em sua direção, Sateriasis foi capaz de chegar ao chão, fincando a lâmina de sua espada ao lado da cabeça de Slookhor, liberando uma repulsa de energia que eliminou toda a raiva, bem como o furacão de areia. Desviando o olhar para seu inimigo caído, Venomania pôde contemplar uma frase que não ouvia há muito tempo.
— Acabe logo com isso, Venomania. — Slookhor quase implorava. Agora livre da insana raiva, era capaz de ver o que havia feito pela glória de um império corrupto.
— Eu não posso te matar. — Sateriasis mantinha o olhar sereno e a calma ao redor de seu ser. Sua aura continuava mais forte do que nunca.
— Se você não me matar, o Império vai. E eu prefiro morrer pelas mãos de um amigo. — Slookhor usou suas últimas forças para erguer seu braço esquerdo e segurar o pulso de Venomania, indicando seu desespero pela preservação de sua honra e dignidade.
— Então como queira. — O kruazip’t suspirou de leve e ergueu a sua espada acima da localização exata de onde seria o coração de Slookhor.
— Que Motus te sinta nos céus, meu amigo. — Slookhor disse suas últimas palavras em referência ao demiurgo dos kruazip’ts, Motus, deus das emoções.
— Que Motus nos honre nos céus. — Venomania completou o pacto sagrado de sacrifício, descendo de apenas uma vez a lâmina da espada contra o coração de seu amigo. A carne foi facilmente perfurada, e o coração parou instantaneamente de bater. — O coração... ponto fraco dos kruazip’ts. — Sateriasis murmurou, lembrando-se das últimas palavras de Bronze Thunder antes de sua primeira derrota. A pouca energia raivosa que ainda corria sobre o corpo de Slookhor se apagou, deixando uma simples camada acinzentada em seu lugar. A aura azul também se esvaiu, a técnica suprema dos Sateriasis exige muito de seu usuário. Enquanto Venomania fechava os olhos para recuperar a sanidade, uma lágrima solitária desceu pelo seu rosto.
— Me pergunto porque não usou essa técnica contra o Bronze quando teve a chance... — Rypt indagou, se aproximando de Venomania assim que teve certeza de que era seguro. Reverso o acompanhava, com as pupilas ainda dilatadas pela recente batalha.
— Eu estava tomado pela fúria de perder para um simples humano. Aeterna Tranquillitas requer calma e paciência acima de tudo. — Sateriasis abriu seus olhos e colocou novamente a espada em suas costas. Ergueu a canhota na direção em que havia jogado o martelo antes, e a arma voou em sua direção, também sendo guardada nas costas.
— Por que não usou o martelo nele? — Reverso perguntou, curioso.
— Ele clamou por uma batalha honrosa. Uma batalha digna no campo de batalha kruazip’tiano. Ele não teria chances contra Asmodeus. De qualquer forma, precisamos ir andando. Se Slookhor estava ciente da corrupção no império, as coisas em Cancri pioraram ainda mais.
— Irão usar esse corpo como eivdência. — Observou Rypt.
Reverso imediatamente conjurou um círculo mágico vermelho sob o corpo morto de Slookhor, fazendo com que a areia o consumisse para as profundezas do solo. Depois disso, nem parecia que havia ocorrido uma batalha bem ali. As rochas alaranjadas também foram cobertas pela areia novamente, e o círculo sumiu. — Problema resolvido.
— Tudo bem, o túnel que nós pegamos nos levou até a lateral esquerda do castelo. Infelizmente, essa parte é cercada por uma barreira intensa de energia empática. Nem mesmo o Martelo de Asmodeus pode quebra-la. Porém minha família implantou várias entradas secretas no palácio real. Usaremos uma delas para chegar até o armazém secreto na estátua do meu patriarca. — Explicou Asmodeus.
— O que exatamente o seu governo está tramando? — Perguntou Rypt.
— É melhor eu demonstrar a vocês. Mas Cancri é nossa única opção no momento, e não poderemos ficar aqui nessas condições. Estejam atentos, não há como ter certeza de que não fomos seguidos.
Reverso e Rypt assentiram com a cabeça, começando a caminhar pelo deserto em direção ao grande palácio do imperador de Cancri. Conforme adentravam mais e mais na cidade, todas as pessoas olhavam de forma estranha para os estrangeiros, a população de Cancri sempre foi muito nacionalista, com algumas exceções, como o próprio Venomania. Por sorte, eles pareciam não saber da batalha que havia ocorrido, ainda.
Caminhando pelos becos entre as ruas até o lado esquerdo mais remoto do palácio, puderam encontrar uma grande quantidade de... absolutamente nada. Aquela parte do deserto parecia ser idêntica a qualquer outra, até que Venomania empunhou seu martelo e bateu a ponta de seu cabo no solo. A energia demoníaca fluiu pelo metal até o chão, ativando um mecanismo escondido na areia. O símbolo do clã dos Sateriasis se ergueu em um suporte que foi preenchido pela energia, gerando uma brecha de invasão. Os três passaram pela abertura recém gerada e foram teleportados pela energia demoníaca para os túneis internos do palácio. A brecha foi fechada e o símbolo abaixou.
Conforme faziam progresso no subterrâneo do palácio real, os tijolos ao redor deles começavam a se tornar dourados, como se estivessem chegando ao destino. Abrindo a porta final, todos saíram pela parte mais inferior da estátua de Sateriasis, o patriarca de seu próprio clã. Aquele era o hall dos heróis de Cancri, kruazip’tianos muito importantes para seu povo. O símbolo supremo da empatia se fazia presente em ouro talhado em prata bem no centro do hall. Porém antes mesmo que Venomania, Sateriasis e Reverso pudessem dar mais um passo, o salão foi preenchido por muitos soldados kruazip’tianos, apontando armas de instabilidade para os invasores.
Então um kruazip’t mais alto do que os outros, usando roupas imperiais douradas, caminhou entre a multidão, olhando para Venomania com desgosto.
— Venomania? Não pensei que voltaria tão cedo.
— O que você está aprontando, Dapav?! — Venomania o acusou, com a morte atravessando-o pelo seu olhar.
— Esse é jeito de tratar o imperador? Ora ora... eu teria mais cuidado se fosse você, está diante dos mais fortes soldados do exército kruazip’tiano.
— Eu já fui o comandante deles, Dapav. São meus soldados.
— Não mais. Slookhor foi promovido em sua ausência.
— Não mais. Eu o matei há alguns minutos.
— O quê?! — Os olhos de Dapav se arregalaram em espanto, ele havia permitido que Slookhor usasse a nova tecnologia de guerra para confrontar o invasor, mas se ele havia sido morto, então o imperador estava em grave perigo, bem como o seu plano.
— É isso mesmo que você ouviu... — Venomania empunhou com força o sagrado Martelo de Asmodeus, colocando-o diante dos olhos dos soldados, que engoliram em seco de espanto. — Soldados, Dapav não é digno de sua lealdade. Da lealdade de ninguém.
Mas ao contrário do efeito esperado, os soldados simplesmente permaneceram imóveis, foi então que Venomania notou em seus olhos um grande vazio. Nem mesmo as suas pupilas negras nadavam em meio ao mar branco dos orbes, apenas encontrou uma imensidão acinzentada.
— Você está controlando-os... — Deduziu Sateriasis, rangendo os dentes.
— Muito astuto, como sempre, meu caro Venomania... desde a sua partida, incrementei muito meu controle empático.
— Isso não é controle empático! Isso é anulação empática, uma técnica proibida pelo próprio Motus!
— Bem, Motus não está aqui, está?! — Dapav se aproximou lentamente de Venomania, fuzilando-o com o olhar. — O povo de Cancri foi consumido pela crença em um falso deus, isso atrasa o nosso desenvolvimento. Todos devem me obedecer.
— Esta é a verdadeira heresia. Você sempre quis que eu fosse embora de Cancri, não foi?
— Mas é claro que quis. Você fez a parte mais fácil quando sugeriu ir em uma expedição para a Terra. Eu tive que insistir que ficasse, assim você iria querer ir embora mais ainda.
—Você cometeu um grave erro.
— E qual foi?
— Me deixar vivo. — Quando Venomania terminou sua frase, olhou imediatamente para Infinito Reverso atrás de si, que entendeu o recado e invocou um círculo mágico sobre o local, absorvendo toda a luz e deixando os soldados em plena escuridão. A reação deles foi instantânea, começando a disparar seus lasers de instabilidade. Depois de alguns instantes de alvoroço e luzes arroxeadas, um silêncio tenso se instalou sobre todos ali, e a escuridão triunfava, o que significava que os invasores ainda estavam vivos.
— Eles ainda estão aqui em algum lugar! Não abaixem a guarda! — Dapav sempre foi aterrorizado pela enorme capacidade destrutiva de Venomania, mas quando o enviou para Terra, chegou a acreditar que nunca o veria novamente. Agora que ele estava de volta, o medo e a loucura começavam a tomar conta do coração do imperador mais uma vez.
De repente, os soldados começaram a ouvir o barulho de uma grande mandíbula se abrindo, e então se deram conta do plano macabro. Rypt é um treiqrypt, alienígenas com a capacidade de manipular o seu próprio organismo. Desta forma, o imperador Rypt se transformou em uma criatura capaz de se camuflar completamente nas sombras, e mover-se mais rapidamente diante de sua presença. Antes mesmo que percebessem, suas gargantas haviam sido cortadas pelas garras reptilianas do tirano. O sangue correu pelo chão branco do hall dos heróis, sujando até mesmo o pátio central do palácio.
Quando as luzes voltaram, encontrou-se sozinho, rodeado apenas pelos corpos mortos e ensanguentados de seus soldados. Olhando para trás, avistou ao longe a imagem dos invasores correndo em direção à sala do trono. Dapav apertou um botão em seu bracelete dourado, chamando todas as tropas kruazip’tianas ao palácio, agora em situação de alerta.
— Foi realmente uma boa distração. Me pergunto por que não usou algo parecido na Terra. — Venomania indagou Rypt, enquanto os três corriam.
— Eu ainda não me recuperei totalmente da explosão de Marte. Uma vez que isso estiver feito, serei mais forte do que nunca.
— Aonde estamos indo? — Perguntou Reverso.
— À sala do trono. Se eu bem me lembro, o gerador do dispositivo de anulação empática de Dapav está escondido embaixo dele. — Respondeu Venomania.
Conforme se aproximavam da escadaria branca que levava à sala do trono, todas as portas laterais do palácio se abriram, dando entrada a centenas de soldados kruazip’tianos, marchando em direção aos invasores.
Assim que chegaram à sala imperial, Venomania, Rypt e Reverso puderam contemplar um enorme trono dourado, cujo encosto se estendia tanto em direção aos céus que podia até mesmo sair do palácio, sendo avistado pelos moradores da cidade como uma torre sagrada. Ingênuos, mal sabiam eles que aquela torre era a principal canalizadora do sinal da arma maligna de Dapav. Cancri estava na palma de sua mão.
Não demorou muito para que os invasores fossem cercados por todos os lados possíveis, sendo ameaçados com inúmeras armas diferentes do exército kruazip’tiano. Algumas sequer Venomania conhecia. Havia ficado fora tanto tempo assim?
— O que farão agora, pequenos invasores? — Dapav finalmente chegou à sala em passos pesados e traiçoeiros, com os braços escondidos atrás de suas costas. Cada um daqueles soldados estava tomado pelo vazio emocional do imperador.
— Nós lutaremos. — Venomania rogou, empunhando o Martelo de Asmodeus na mão direita, e sua espada da calmaria na mão esquerda. Cobriu ambas as armas com suas respectivas energias, preparando-se para o combate. Infinito Reverso ergueu ambas as mãos, ativando suas relíquias cósmicas. Porém, uma de suas luvas possuía agora o brilho vermelho dos círculos demoníacos de Asmodeus. Rypt, por fim, estando com mais força do que antes, fez com que seus punhos se transformassem em enormes garras, e rugiu, dando início ao combate.
[EPÍLOGO]
[ANOS NO FUTURO]
A praça central de Cancri era agora presentada com uma enorme estátua banhada em ouro do grande salvador da civilização kruazip’tiana. Enquanto os pássaros voavam ao seu redor com tamanha sintonia e harmonia, uma mulher solitária se aproximou da estátua e ajoelhou-se diante dela, fechando os seus olhos no mais profundo estado de concentração. O pequeno menino que a acompanhava era seu filho, e como é de praxe de sua idade, estava mais interessado em brincar do que rezar. Porém sua mãe logo o advertiu, apontando-lhe o dedo:
— Preste respeito ao grande salvador de Cancri, aquele que libertou todas as gerações de um grande vazio emocional!
Mesmo que bufando, o garoto assentiu com a cabeça e se ajoelhou ao lado da mãe. Mesmo que baixinhas, suas orações eram as mais honestas. “Venomania, guerreiro de Motus, libertador dos oprimidos, eu vos saúdo”. E a estátua brilhava mais uma vez em azul por toda a sua glória, agradecendo as preces.
Fale com o autor