Os Guardiões - Reino dos Elementais
14 Cicatriz de fogo
Notas iniciais
Jack tinha ouvido o choro de Suzana por longos e longos minutos, porém que se despencavam como cachoeiras que afundariam até mil prédios debaixo da água. Pela primeira vez se abraçaram, e tiveram um grau de intimidade maior do que tinham desde o dia que se conheceram. Jack dizia a Suzana que tudo ia ficar bem, que eles iriam conseguir achar Klaus, que tudo não passava de um mal entendido... mas nada funcionava. Apesar de ser um salamandra, ser do fogo e da vida, o garoto era frio e gélido. Até tempos atrás, sua vida era péssima, horrível para ser exato. Não tinha família, amigos, apenas pessoas que o odiavam por ser diferente. Agora, tinha que ajudar garotas a resolver seus problemas amorosos e tentar confortá-las.
Durante o tempo em que Klaus ficou fora, Jack buscou por formas de conhecer e entender quem estavam enfrentando. Ahura era um verdadeiro mistério para o salamandra, a única coisa que sabia, era que seu nome verdadeiro é Utah. Mas do que isso adiantaria? O diário de Paracelso era o único meio que tinha de obter conhecimento acerca dos antigos elementares e das relíquias, mas ele estava nas mãos de Klaus. Onde será que aquele gnomo estava? Por que não havia comunicado-se com ele?Será que o poder havia lhe subido a cabeça? Será que havia largado eles, pelo que tinha adquirido no conselho?
Jack sentia falta de Klaus, ele havia sido seu primeiro amigo.
Os livros da casa secreta eram sigilosos e cheios de manuscritos de línguas ocultas como enoquiano, que segundo Kathe, era o idioma das harpias. A partir do que conseguiu obter, Ahura não foi burro em se aliar a primeira mãe. Como já sabia, além dos elementais (gnomos, salamandras, silfos e ondins) e seus animais lendários, existiam uma vasta quantidade de seres que andavam pela terra e que viviam entre os elementos da natureza: fadas, goblins, kitsunes, bakenekos, hags, harpias... mas eles eram caóticos e subestimados pelos outros. Por isso, ao longo da história, muitos foram extintos e os poucos que se sobreviveram tiveram que se mesclar com humanos para continuar a viver ou servir a eles, como os goblins.
No entanto, assim como existiam elementares que viviam comumente entre humanos, haviam vários que julgavam deuses e que deviam ser adorados (como Perunú), a primeira mãe era um deles. Chamada também Cailleach, ela era conhecida como mãe da destruições, dos terrores invernais, e senhora da natureza. Na maior parte do ano se ocultava, até que no Samhain ela se levantava para dominar mais uma vez. Gravuras de crianças, grávidas e guerreiros sendo mortos como sacrifícios à ela traziam horror e medo. Se não fosse pela guerra dos gnomos, Cailleach teria devastado a Europa como quase conseguiu quando enviou a peste negra.
Sua localização era incerta, segundo o que as vítimas sobreviventes afirmavam, ela vinha do norte. A maioria das frases eram "Ela veio do norte, e veio para a destruição" ou "A feiticeira da morte!! Ahh!!". Os escritores gnomos podiam ser um pouco específicos no que se referia a relatos emotivos e realistas.
Depois que Suzana tinha acalmado-se e estava perto de Jack, os dois entreolharam-se;
–Desculpe...desculpe por tudo isto-
–Não precisa pedir desculpas, eu entendo você- Suzana levantou os olhos vermelhos arregalados, os cabelos longos desarrumados e despenteados estavam tristes;
–Como?-
–Porque eu sei como é estar sozinho... Pensar que não tem ninguém- Suzana abaixou os olhos arrependida;
–Mas você não está sozinha. O que aconteceu nessa noite foi apenas uma das coisas que explodem entre as pessoas que você ama, Klaus vai vol...- mas foi tarde demais. Suzana pulou nos braços de Jack e o beijou intensamente. Ele estava surpreso. Muito surpreso. Quando ela terminou, os dois se olharam nervosos e ficaram em um longo silencio no sala principal, até que Bob apareceu;
–Olá amigos simplórios- Jack o olhou com reprovação;
–O que você fez com Fang, bolo de pelo?-
–Ah, seu amigo penudo? Não preocupe-se, fiz o favor de fazê-lo se acalmar. Também não pense que vou deixar passar essa, Jack. Ainda vou te matar- Ele olhou para Suzana e deu um sorriso após pular no seu colo e encará-la;
–Como vai querida? Ainda com dor de traição?- o gato virou para o lado e começou a tossir até que colocou para fora uma bola de pelos grudenta. Suzana se sentiu enojada e lançou o gato no chão. Ele murmurou de dor;
–Vou deixar passar essa-
–Ah, claro que vai- censurou Jack -Assim como na outra vez, e na outra, e na outra...-
–Mero humano- zombou Bob -Eu tenho séculos de idade. Meu antigo dono era um gnomo idiota que só queria saber de beber e não me alimentava, eu apenas fiz o que qualquer outra faria: sobrevivi. Como você acha que vocês, elementais, conseguiram permanecer no lugar em que estão até hoje? Sua espécie matou centenas da minha e de várias outras, garoto-
–O quê?- perguntou Suzana assustada. Jack começou a explicar o que sabia e a respeito da primeira mãe;
–Então quer dizer que trata-se apenas de vingança? Todos esses mons...- falava Suzana, até que Bob a olhou e ela mudou de palavra -Todos esses seres querem vingança? Então para que serve o conselho dos leprachauns? Pensei que eles fossem os responsáveis por intermediar os conflitos entre suas subespécies e os elementais da terra!- Bob gargalhou e chorou de rir;
–Como vocês crianças são estúpidas. O conselho é uma grande farsa, uma bela mentira que fazem todos acreditarem que tudo está bem. A HISTÓRIA conta isso- Suzana e Jack se entreolharam confusos, e então Bob revirou os olhos à procura de um único livro na casa secreta: ele era grande, volumoso, velho, mofado, e datava do ano de 1374. Bob começou a ler em voz alta, o que na época chamavam da Batalha quartenária (a última parte da guerra dos gnomos) pois a quarta parte do exército liderado pelo gnomo da raça dos duendes: Waeros, o estranho.
Segundo o livro, a guerra havia começado quando os duendes quiseram se sobrepor acima das outras raças, já que eram mais populosos, e com aliados de outras clãs elementares. Então, com medo de serem retalhados, os Rouge e Cluricauns se aliaram a primeira mãe. Browns e Niggey mantiveram se neutros. O massacre duas gerações (80 anos) , até que a primeira mãe enviou a praga e seus guerreiros mais poderosos. A devastação foi tão grande, que Waeros (líder dos duendes) se aliou aos Browns e Niggey dando fim à guerra, mas, ele tinha algo que lhe favorecia, algo que Bob deixou escapar;
–Um anel?- perguntou Suzana cortando a história -Como assim um anel?!- Bob abaixou os olhos e leu um trecho do combate;
"E quando Waeros entrava na guerra, seu corpo irradiava a guerra e a própria terra a seu valor. Deixava de ser apenas um mero guerreiro, para alcança a divindade e brilhar com honra e glória, exaltando seu trono com fúria"
–O anel é a relíquia!- bradou Jack -A família de Waeros deveria guardar o anel desde sua fundação, até que na guerra utilizaram a seu favor, e por isso existe o conselho e todo o resto!- O conselho dos leprachauns então era um mero círculo de poder, em que nada era decidido, e os verdadeiros conflitos permaneciam. Jack e Suzana deduziram que o anel de Waeros era a relíquia da terra, mas onde estaria? Independente do que fosse, Gaio (conselheiro da ilha Tartária) tivera sabedoria em escolher Klaus: ele queria ajudar;
–Precisamos achar Klaus- falou Jack
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