Os Guardiões do Mundo

1 Os Guardiões do Mundo


Notas iniciais
A música que me inspirou é esta aqui: https://www.youtube.com/watch?v=vp-jswQVr1Q Boa leitura!

E aquele talvez fosse os últimos suspiros da Terra que conhecíamos. Sem o menor aviso, o cenário havia mudado. Seria esse o fim tão aguardado e previsto por muitos? Seria esse o limite que nosso mundo chegara? Eu não sabia responder... Mas ao deparar-me com as grandes rochas que rasgavam os céus, podia ter uma certeza: tudo mudaria, para sempre. Os gigantescos meteoros, projetavam enormes sombras que alarmavam a população naquele dia, que em desespero, corria de um lado a outro em total pânico. Mirei minha melhor amiga de canto, enquanto alcançávamos a rua principal. Algumas das pedras explodiam ao tocar o chão, logo mais atrás, e a destruição era iminente.

— O que vamos fazer? Não tem um lugar para irmos...! – Dissera ela, que apesar de todo o alvoroço, não estava em desespero, e muito menos eu.

— Vamos ficar juntos, até onde der. – Falei. Ela me olhara concordando com um aceno de cabeça. Seguramos nossas mãos, e corremos; não que houvesse um lugar seguro para alcançar, mas pelo menos queríamos nos afastar daquele desespero. Não havia para onde fugir, não havia para onde correr. Mas pensávamos que enquanto estivéssemos juntos, o mundo poderia acabar por completo, não haveria o que temer.

Ao que mirei os céus novamente, surpreso com o que me deparara. Pequenas naves em cor prata, pairavam em grande número por cima da multidão. Muitas delas apanhavam pessoas que adentravam os veículos em estado hipnótico.

— O que está havendo? – Perguntara minha amiga.

— Estão resgatando suas famílias... – Falei, já havia lido algo do tipo em algum lugar. – Pessoas de origem não terrestres, mas que estiveram encarnadas em pele humana. – Ela parecia ter entendido, e mirava com compreensão e admiração o que eles faziam. Só apanhavam pessoas específicas, que por vezes relutavam em deixar algum ente para trás. Muitas outras naves começaram a chegar, algumas amareladas ou vinho, de formas e tamanhos diversos. Talvez houvesse muitas outras espécies diferentes. Continuamos a fugir da chuva de pedras, que assolava a cidade, que assolava o planeta. Me distraí, mirando pessoas feridas que ainda tentavam correr, corpos decepados no meio do caminho, prédios destruídos e pessoas desoladas. Aquilo não deveria ser novidade para ninguém. Já havia ocorrido anteriormente, e era certo que ocorreria de novo, e de novo, e de novo. A derradeira terrestre, os espíritos que voltariam ao lar. Senti um solavanco me puxar, minha amiga havia parado, e mirava acima de nós. Uma grande nave amarela pairava sobre nossas cabeças. Meu coração parou por alguns segundo, e eu soube: seríamos separados. Uma escotilha abaixo da nave se abrira, e de lá um ser humanoide surgiu, alto e magro, vestindo um macacão branco; nos mirava profundamente e de forma imponente. Ele esticara uma das mãos, alcançando minha amiga.

— NÃO! EU NÃO VOU! NÃO VOU DEIXÁ-LO! – Gritou ela em total desespero. Eu a mirei ternamente, tentando forçar o melhor sorriso que eu podia dar-lhe naquele momento.

— Você precisa ir. – Falei. – Eu vou ficar bem, não se preocupe.

— NÃO! Eu não vou deixar você! NÃO POSSO! – Dissera, segurando firmemente minhas mãos. O ser humanoide parecia ter paciência, me olhara com seus grandes olhos acinzentados.

— Cuide dela... Por favor. – Pedi. Ele fizera um sinal positivo de cabeça.

— EU NÃO VOU! – Ela continuava a gritar, mirando o ser que a segurava. – Deixe-o ir junto! Leve-o com a gente, por favor... – Eu sorri, sabia que isso não era possível.

— Não há como... – Falei.

— Então eu NÃO VOU! – Eu mirei o ser, e ele me entendera. Eu queria que ela sobrevivesse, e talvez isso não fosse possível se ela continuasse ali. Mas eu a amava, e não havia nada mais importante no mundo do que ela para mim. Foi então que a vi perder os sentidos nos braços do extraterrestre, que a segurara firmemente. Ele acenara novamente para mim, e eu me afastei, vendo a nave subir lentamente. Por algum motivo ou força de sua própria personalidade, a hipnose instantânea não durara muito, e logo minha amiga recobrara a consciência, e quando dei por conta, pude vê-la bater nos vidros do objeto voador, enquanto me olhava em desespero. Podia ler em seus lábios, seu pedido para que me deixassem entrar também. Eu sorri para ela, fazendo sinal de continência com uma das mãos, um sinal que era costumeiro meu, que os soldados fazem para seus superiores no exército. Foi então que ela parou de gritar. E suas lágrimas invadiram seus olhos, contornando seu belo rosto.

— Nos veremos de novo... – Falei em promessa. E ela pode ler o que eu dizia. Respirei fundo enquanto a nave se afastava. Virei às costas e corri, em direção contrária. Podia sentir que ela ainda me olhava, do vidro da nave de sua família, que viera buscá-la. Agora eu estava sozinho, e precisava correr se quisesse sobreviver. Eu não podia morrer, precisava manter minha vida, por mim, e principalmente, por ela. Continuei meu caminho, sem poder conter as inúmeras lágrimas que pingavam ao longo de onde eu passava. Eu não sabia se a veria de novo, eu não sabia nem se conseguiria viver, mas precisava lutar pela minha vida, independente do que iria acontecer, eu precisava sobreviver. Resignei-me, dando-me forças. Aumentei meus passos e no meio da corrida, um pequeno meteoro atingira o chão na quadra a frente. Muitas pessoas foram atingidas, e eu me vi desviando o caminho para a rua seguinte. Mas não pude prever o que viria, e bem a minha frente pude ver os destroços de pedra em minha direção. Não havia como desviar, e sem que eu tivesse tempo, fui atingido.

Ainda podia sentir o desespero de todos ao meu redor, vozes, gritos, e explosões. Mas onde eu estava, tudo parecia escuro. Meus olhos nada podiam ver. Minha cabeça doía e eu já não podia mais mexer o meu corpo e muito menos senti-lo. Eu estava morrendo...

— Então... – Balbuciei. – É isso... – Sentia falta de ar, e um aperto no peito. – Desculpe... – Disse, lembrando-me dela. – Sinto muito... Não vou poder... Cumprir a promessa. – Falei, como se ela pudesse me ouvir, rindo-me de mim mesmo. Às vezes, promessas eram algo arriscado, seria como prometer que estivéssemos vivos para realiza-las. E é um grande erro... Não podemos prever o amanhã. Meu coração parecia estar sendo comprimido e estava difícil continuar respirando. Talvez eu já não devesse mais lutar... Sorri, era hora de deixar aquele corpo.

***

Algo pareceu cobrir-me por completo. Um manto quente e uma luz forte invadiram minhas pupilas, cujas pálpebras ainda estavam fechadas... Meu corpo estava leve, e parecia flutuar. Abri meus olhos. Um casulo dourado envolvia-me, e aquilo já não parecia mais humano. Meu corpo estava maior, e sem roupa alguma, talvez agora eu não precisasse mais delas. Irradiava de mim uma luz forte em azul claro. Cada célula daquele novo corpo parecia estar se formando naquele exato momento, como um quebra cabeças que se completa aos poucos. Eu não conseguia enxergar nada além daquela cúpula luminosa. Mas eu podia sentir. Muitas ondas de energias como a minha, pairavam próximas. Eu não estava sozinho, haviam muitos como eu, em volta, e à minha frente. Uma força gigantesca que irradiava luz e compaixão. Eu pude enfim me lembrar, acordar de um longo sono em que minha mente me fizera mergulhar, por inúmeras encarnações. Eu me lembrava agora, de quem eu era, e porque estava ali. O casulo de luz se dissipava, e das minhas costas brotavam asas, enormes e fortes, que terminaram de rasgar o resto do que ainda restava do casulo luminoso. Não sabia ao certo quanto tempo havia ficado ali. Me vi cair ao chão, numa queda macia, da qual minhas asas me proporcionaram. Eu podia controla-las tão bem, como podia controlar minhas pernas ou meus braços. Era como se estivessem ali há séculos, só aguardando com paciência para serem utilizadas novamente. Meu corpo de pele luminosa, possuía uma missão. Subi aos céus, alcançando um grande prédio que ainda se mantinha inteiro. Pude ver muitos como eu fazer o mesmo. Embora a luz de cada um deles fossem distintas umas das outras.

— Você precisa resgatar os que sobreviveram, e leva-los para um local seguro. – Dissera uma voz ao meu lado. Um homem de túnica branca e rosto sereno, olhava-me com ternura.

— Para onde? – Perguntei.

— Para longe. – Dissera. — Onde o sol se esconde. – Eu olhei o oeste, tão limpo e claro como os céus da manhã. Eu sabia o que tinha que fazer, e assim o faria.

— Obrigado. – Disse. Ele sorriu, e eu sabia que ele sempre estivera ali, e sempre estaria. Ergui as asas, descendo com tremenda velocidade à procura de sobreviventes. Os meteoros haviam cessado, mas seu rastro de destruição era inegável. Muitos corpos cobriam o chão, numa carnificina agonizante. Mas eu sabia, eram só os corpos. Eles estavam bem, e agora no lugar que deveriam estar. Um grupo de seres como eu, se juntaram a mim. Voando com esplendor a procura de vida. Éramos um pouco maiores do que os humanos, e eu pude ver isso claramente, quando apanhei meu primeiro resgate. Segurei em meu colo, três irmãos que gemiam de dor, encurralados a um canto de uma das ruas, tomada pela destruição. Seus pequenos corpos feridos, sangravam de agonia. Seus olhos miúdos e brilhantes, denunciavam o desespero e o medo. Mas ao mirar os meus, as nuvens negras que em seu olhar habitavam, se dissiparam aos poucos, e eles puderam regenerar suas forças, apanhando parte de minha energia, que casualmente era infinita, e feita para isso.

— Vai ficar tudo bem. – Eu disse, e pude vê-los sorrir.

— Sempre soube que anjos existiam... – Dissera um deles. E eu me surpreendi. Ao contrário deles, eu nunca havia acreditado em anjos, e ironicamente, eu sempre fora um. Nossas crenças fixas, caem por terra quando deixamos nosso corpo físico. O pensamento livre das grades dos conceitos prontos e defasados, prejudicam todos aqueles que jamais se permitiram entender sua própria alma. Ouvi-la somente, nada mais do que se botar em silencio e se esquecer de tudo que aprendera, de tudo que lhe impuseram desde seu nascimento e somente se lembrar... Daquilo que você sempre foi e jamais deixará de ser. Uma alma de luz, que habita o mais profundo de você.

Meus resgates se estenderam das dezenas às centenas, e aqueles que ainda viviam, se recuperaram uma vez mais.

— Bom trabalho. – Ouvi a mesma voz macia dizer. Mirei o homem de roupa branca, sua companhia me conceder. Era tão belo e plácido. Parecia aos meus olhos sorrir, mas sem um músculo mover. A noite havia caído, e as estrelas se mostraram satisfeitas e incrivelmente brilhantes. Não havia alvoroço, som de carros, ou de gritos abafados pelo estresse. Só o silêncio... O silencia na Terra que pedia por ele há tempos, respirava enfim satisfeita, livre da violência que alastrara e se estendera por séculos consecutivos. O ser humano poderia recomeçar, uma chance a mais para se retificar. Mas não eram todos que ali ainda habitariam, só aqueles que haviam se livrado dos inumeráveis defeitos que inundavam a alma humana desde o início dos tempos. Aqueles que haviam aprendido a lição, de libertar o coração das maldades e falsidades que lhe deixavam invadir o peito, tomando-lhe do leito, o puro amor da imensidão. E não existia saída para aqueles que não haviam aprendido, pra fora da Terra eles foram banidos, recomeçando em uma nova dimensão. Aprender não é difícil, é simples e é preciso começar, o hoje mudar, viver melhor consigo mesmo, e encontrar o seu lugar. Ser verdadeiro e você mesmo, não é impossível, é só questão de desejar. Você consegue, eu sei disso, tudo nós podemos conquistar.

— Eu a verei de novo? – Perguntei. Minhas asas recolhidas, agora descansavam depois de tanto trabalhar.

— O que você acha? – Disse ele. Botei-me a pensar, meu coração podia me responder, e ele pulsava faceiro quando pensava, na pessoa que eu mais amava. Sorri. – Você tem sempre as respostas. – Dissera, sorrindo de volta.

— Esta não é mais a minha casa. – Falei. Ambos observávamos o horizonte, sentados no alto de um dos prédios.

— Não. – Disse. – Você agora irá voltar para casa. – Ele me olhou firmemente. – Para sua verdadeira casa. – E ele estava certo, aquela jamais havia sido minha casa de verdade e eu sabia disso. Por vezes me pegava a observar os céus, sentindo falta de algo que não me recordava. Perdido em um mundo que não me respeitava. Não estava à vontade, mas tinha que aguentar, apesar de tudo, sem saber, fui obrigado a me conformar. Aquela seria minha última noite ali. Sentiria falta, tinha que admitir, de um planeta tão belo e rico, era impossível não se recordar. Levaria comigo as lembranças boas, de um lugar que eu tinha certeza, iria melhorar. Agora sim, a Terra há de respirar...

***

Eram incríveis construções gigantes, que pareciam arranhar as nuvens. Com cúpulas redondas em seu pico. Veículos movidos a energia solar, flutuavam acima do solo, ou voavam para além da atmosfera. Seu céu possuía três luas, que se posicionavam relativamente perto, uma vez que era possível ver detalhes dos enormes e bem próximos satélites naturais. Olhando à primeira vista, lembrava-me uma cidade futurista, daquelas de filmes de ficção. Era de encher os olhos, tanta beleza limpa, num ambiente tão claro e desprovido de poluição. Apesar da alta tecnologia, aqueles seres conseguiam energia, sem destruir sua população.

Ao longe uma figura humanoide, viera em minha direção, ao meu lado meu velho amigo, me dava sua proteção. Meu corpo de luz ainda brilhava, e perto de mim aquele ser chegava, e ao mirar seus olhos, meu coração se recordava. Apesar da aparência estar modificada, era ela mesma, sempre sofisticada! Com seu ar supremo, mostrava sua graça. Em seu planeta de origem ela se revelava. Sem amarras ou receio, me abraçou firmemente, acolhendo-me em seu seio; de seus olhos lágrimas novamente brotavam.

— Você não devia chorar... Eu estou aqui, não estou? – E ela sorrira, me abraçando me dizia que só agora estava aliviada. Passamos por tantas coisas, idas e vindas de vidas encarnadas. Aprendemos lições importantes que na Terra são ensinadas. Amor e amizade, compaixão e fraternidade.

Os guardiões do mundo sempre seremos, está em nós, e de novo nos veremos, seja agora ou até o fim dos tempos... Não importa, é começo e recomeço, viver requer apreço, pela arte de ser você mesmo... Eternamente seguirei, aprendendo sempre me compromissarei, e de quem sou, jamais me esquecerei.

Escrita por: Evelyze Nunez – Outubro de 2014

Notas finais
Desculpe se tiver algum erro, li umas mil vezes, mas sempre passa alguma coisa... '-' Espero que tenham gostado!!! *o* Obrigada a todos que leram! Até a próxima!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!