LUCY

Aconteceu tudo tão rápido.

Os pássaros passaram sobre a minha cabeça, enquanto os outros alunos voltaram a gritar e correr em desespero. Alguns tentavam abrir as portas, mas elas pareciam emperradas.

– Adam! — Ouvi alguém gritar. Era um dos garotos novos. Ele era alto. Olhos azuis como o mar e cabelos negros e sedosos. Parecia velho demais para estar numa sala do primeiro ano.

O garoto cujo ele chamava, era o mesmo menino loiro que havia me feito a pergunta. Nesse momento ele estava inerte. Não piscava nem se movia.

– Ei! — Chamei.

Um pássaro passou voando por cima de mim e beliscou meu ombro. Coloquei instintivamente a mão no ombro e senti a dor se espalhar por todo o meu braço.

– ADAM! — O garoto de olhos azuis correu para perto, chutando as carteiras jogadas no chão e tentando não ser acertado pelos pássaros e os outros alunos que gritavam. — Pegue Vocavit!

E então, Adam se mexeu. Virou-se para mim e olhou nos olhos. Por um instante, parecia outra pessoa. Os olhos cinzentos estavam escurecendo, ficando num tom de cinza como o céu durante uma tempestade. Ele levou a mão ao bolso e retirou um disco dourado, que instantaneamente tornou-se um objeto dourado e pequeno que tinha um desenho de uma coruja no material. O objeto era pequeno e curvado, semelhante ao chifre de algum animal. E então me dei conta de que era uma trompa, só que de um modelo antigo.

Adam levou a trompa até a boca e assoprou. Um som ecoou pela sala de aula. Parecia algo como o uivo de um lobo, só que com um som mais límpido.

Os pássaros demoníacos pararam no mesmo instante. Alguns voaram tortos, como se tivessem quebrado as asas ou algo do tipo. E então, eles fugiram janela a fora rapidamente, semelhante a gatos sendo perseguidos por um cachorro. Mas não havia nenhum cachorro, e eles não eram gatos.

Tinha sido a trompa.

No minuto seguinte, um grupo de professores da Academia Schmidt chegou a sala de aula e derrubou a porta. Todos os alunos estavam sendo obrigados a sair quando o garoto de olhos azuis estalou os dedos. Uma brisa percorreu pela sala de repente, e os professores tornaram a fechar a porta como se não houvesse mais ninguém lá. Mas ainda tinha seis jovens, incluindo eu.

– Olhe só! — Exclamou uma garota de trança. — Os alunos não teriam se ferido tanto se o sabichão tivesse pegado a trompa no mesmo momento que as malditas aves entraram.

– O que houve, Adam? — Perguntou o garoto mais velho de olhos azuis.

Subitamente, me coloquei na frente de Adam, franzindo a testa.

– Não foi culpa dele.

– Não sejam tão tolos culpando o Adam. — Falou uma garota no fundo da sala. Seus cabelos eram loiros e longos, tão brilhantes quanto o sol. Os olhos tinham um tom de castanho bem claro e o sorriso era esplendidamente branco. — Olhem o que essas aves fizeram com o meu cabelo!

– Seu cabelo está perfeito, Lua. — Falou um outro garoto de muletas.

– Ah, obrigada. — Ela passou as mãos pelo vestido cor de rosa, ajeitando-o, como se estivesse amassado. Mas a aparência dela estava impecável.

Olhei para Adam. Ele sorriu para mim e interpretei aquilo como um obrigado.

– Afinal, o que é isso? — Perguntei, referindo-me a trompa.

– Foi um presente da minha mãe. — Respondeu ele, rodando o objeto entre os dedos.

– Legal. Eu não tenho mãe. — Admiti, olhando para o chão. — Vivo com meu pai e minha madrasta.

– Entendo. — Levantei a cabeça. Como ele poderia entender o fato de não ter uma mãe? — Por que eu também não tenho uma.

Desconsiderei o que eu havia pensado anteriormente. A ausência de uma mãe é algo ruim, ainda mais durante a infância.

– Na verdade, eu tenho uma mãe.. — Ele começou a falar, sem confiança na voz. — Porém, ela é um pouco ausente.

– Como assim? — Perguntei.

– Ela não.. não vive no meio de.. mortais.

– Já é o suficiente. — Falou o garoto de muletas, parando na minha frente. — Lucy, você está em perigo. Precisa vir conosco.

– Em perigo? Não, eu estou bem.

– Acredite, não está. — Disse ele. — Eu sou Gump, protetor de você e de todos eles. — Falou, se referindo aos outros garotos na sala.

– Aquelas a-aves..

– Aquelas aves foram só o começo. — Falou Adam.

– E então, você vem conosco?

Por um instante eu hesitei. Eu não os conhecia e eles haviam surgido do nada na minha sala de aula. Poderiam estar mentido, mas poderiam estar falando a verdade também. Algo dentro de mim disse que eu deveria aceitar e no segundo seguinte me peguei dizendo:

– Eu vou.

Ouvi um barulho vindo detrás de nós e virei-me para ver o que estava acontecendo. A garota de trança havia chutado algumas cadeiras que se empilhavam na sua frente, então saiu andando em direção a porta e disse:

– Vamos logo com isso, que palhaçada.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Muito obrigada pelos comentários no Prólogo e no primeiro capítulo, estamos muito animados com a fic ♥