Notas iniciais
Capítulo novinho! Espero que gostem.

ALASTOR

Se eu não fosse um semideus, já estaria morto. A velocidade com que meu corpo descia era assustadoramente rápida. Minha pele parecia estar se esticando com o vento frio que subia e tinha impacto contra mim, e por poucos segundos consegui manter os olhos abertos, pois eles estavam lacrimejantes.

Logo após o raio, o porco sumiu de vista, assim como Annie. Eu podia sentir algo nas pontas dos dedos, e soube que era Lara tentando se segurar. Sabia que não aguentaria muito, e logo nos soltaríamos. Aguentei e finalmente abri os olhos. Vi seus cabelos negros esvoaçando ao vento, e suas mãos pequenas e delicadas tentando se aproximar da minha. Estiquei o braço e finalmente a alcancei, segurando-a firmemente pelo pulso, temendo que nos separássemos outra vez. Mas essa possibilidade não estava em questão. Se morrêssemos quando a queda chegasse ao fim, morreríamos juntos.

Eu estava gritando, ou talvez tentasse. O barulho do vento era alto, um sopro interminável que talvez me deixasse surdo se eu sobrevivesse aquilo. Tornei a fechar os olhos e imaginei uma paisagem linda: uma praia extensa e vazia ao pôr do sol, com um mar quieto que vez ou outra se quebrava em pequenas ondas que causavam um barulho agradável. Mas todo o encanto foi perdido quando senti algo se aproximando.

Fiz de tudo para me virar de barriga para cima na queda livre – sem me soltar de Lara – e logo avistei Dianna e Collin sobre o porco, inclinados, descendo cada vez mais. A filha de Ares estava com a lança estendida, mexendo os lábios como se eu pudesse entender o que ela dizia. Acho que ela queria que segurássemos a ponta da lança, mas isso seria impossível. Já estava começando a desistir de viver quando tornei a olhar para baixo. No começo parecia grande, eu soube que era água. Mas conforme fomos caindo cada vez mais, o espaço foi diminuindo. Estávamos prestes a cair numa piscina.

Tornei a fechar os olhos e fiz uma oração à Poseidon. Pelo menos uma vez na vida ele poderia se lembrar de mim novamente, como quando me reconheceu como seu filho, e o tridente brilhante surgiu sobre minha cabeça.

“Ajude-me, pai. “,pedi.

E então senti o impacto contra a água, e soube que estava vivo. Todo o ar que eu perdera durante a queda, foi recuperado no momento em que a água se juntou ao meu corpo, como se fossemos um só. Ainda segurava o pulso de Lara com força, e ao abrir os olhos, encontrei-me com a garota desacordada. Por favor, que não esteja morta, pensei.

Nadei com facilidade até a superfície, indo em direção à borda da piscina. Era como se a piscina tivesse se tornado suficientemente funda para que eu não sofresse o impacto com o fundo. Emergi para fora com o corpo de Lara, e corri para uma espreguiçadeira próxima, deixando o corpo inerte lá. Alguns segundos depois, notei que estávamos secos. Nossas roupas, o cabelo e tudo mais. As vantagens de ser filho de Poseidon. Olhei para os lados, tentando me orientar. Não havia ninguém. Reconheci o lugar depois de analisar toda minha volta. Parecia um parque aquático, porém abandonado. Ao meu lado direito havia uma grade, e grande parte dela havia sido arrancada. Outras piscinas com tobogãs também estavam presentes, e muitas delas, sem água. Tivemos sorte em cair numa cheia.

Voltei minha atenção a Lara quando vi os pequenos flocos de neve se amontoando em seu cabelo. Olhei para cima e notei a neve começando, junto com um vento gelado que podia ser de uma tarde qualquer na Califórnia, mas não na Flórida, onde o calor era o típico clima do estado. Ao olhar para cima novamente, percebi a criatura grande e rosa descendo. O porco alado pousou com delicadeza próximo da piscina onde havíamos caído, e Adam, Lucy e Connor vieram ao nosso encontro.

– Onde estão os outros? – Perguntei, preocupado.

– Foram resgatar Annie. – Respondeu Adam. – Parece que ela caiu longe de vocês.

– O que houve com ela? – Perguntou Connor, se referindo a Lara.

– O impacto foi forte, temo que ela tenha desmaiado durante a queda. Não me lembro de tê-la visto consciente.

– Precisamos de ajuda. – Disse Lucy, inocentemente.

– Não há nada que possamos fazer. – Falei, impedindo que as lágrimas saíssem. – Meu frasco com Ambrósia estava em minha mochila. Ela se foi quando aquele maldito raio caiu.

– Eu tenho um pouco de Ambrósia aqui. – Disse uma voz desconhecida. Olhei para os lado não vi ninguém. – Posso cuidar dela se quiserem.

Levantei-me e coloquei meu corpo em frente ao de Lara, não sabia de onde estava vindo a voz e não estava disposto a deixar que ela se machucasse ainda mais. Em um movimento rápido me virei para Lucy e arranquei uma pequena e afiada faca de seu bolso, em seguida de virei em direção a voz.

– Ei, você não vai precisar disso. – Disse a voz. – E a propósito eu estou atrás de você.

Virei-me para trás e dei de cara com um garoto alto e bronzeado. Ele sorria para nós e tinha nas mãos um frasco de ambrósia e uma mala de primeiros socorros. Seus cabelos eram loiros e um pouco ondulados. Seus olhos brilhavam muito.

– Quem é você? – Perguntei ainda empunhando a faca.

– Sou Charlie. – Respondeu o garoto. Em seguida colocou a mão no meu pulso e o abaixou. – Largue a faca. Só vou ajudar sua amiga.

Charlie saiu andando em direção a Lara e eu me coloquei no seu caminho.

– Qual é, Alastor. Ele só vai ajudar a garota. – Disse Adam.

Ainda um pouco hesitante abri caminho para que o garoto passasse. Ele se abaixou perto de Lara e abriu a mala de primeiros socorros, em seguida com um pequeno pedaço de pano ele começou a limpar os pequenos ferimentos da garota. Deu-lhe um pouco de ambrósia e a colocou sentada.

– Isso basta. A queda de vocês não foi tão ruim, quer dizer, isso porque você é um filho de Poseidon. – Disse Charlie levantando-se e afastando-se de Lara.

– Como sabe que eu sou? Nos viu cair? De onde você saiu? – Atirei todas as perguntas de uma só vez.

Ele não teve tempo de responder. Todos olhavam em minha direção. Olhei para trás para ver o que acontecia e vi Dianna e Collin voltando para onde estávamos. Nos braços de Collin estava uma inconsciente Annie.

Collin correu e a colocou sobre uma espreguiçadeira ao lado de Lara, na beira da piscina. Charlie foi ao seu encontro e nós nos aproximamos. Annie estava horrível. Seu rosto e seus braços estavam sujos, sua blusa estava com uma enorme mancha de sangue e suas pernas estavam com vários cortes.

Charlie aproximou o ouvido de seu coração, em seguida pegou seu pulso para verificar se ainda estava viva. Alguns instantes depois a garota abriu os olhos com dificuldade e levou as mãos em direção à barriga.

– Parece que vou reencontrar Lua. – Disse, fazendo claramente um enorme esforço.

– Não, Annie! Annie, você está bem. – Lucy me empurrou para o lado e se agachou ao lado da amiga, em seguida suas mãos e começou a se esforçar para não chorar. – Você está bem.

– L-lucy. Use a me-mensagem d-de Í-íris. – Annie não conseguia mais dizer as coisas claramente, mas todos nós havíamos entendido. Ela apertou a mão de Lucy e com muito esforço de virou para mim. – Bo-boa sorte.

Seus olhos se fecharam e nunca mais abriram.

– Não! Annie! Annie, fale comigo. Por favor, Annie! — Lucy estava desesperada. Seus cabelos e olhos mudavam de cor descontroladamente enquanto ela chorava e sacudia o braço da semideusa.

Charlie levantou a blusa de Annie e vimos um enorme buraco em sua barriga. Virei para o lado. Era uma cena horrível até mesmo para um semideus acostumado com sangue.

– A encontramos pendurada em uma árvore. Um galho a perfurou na barriga e ela ficou pendurada por ele. Nunca vi nada tão horrível. – Até mesmo Dianna parecia chocada com a cena. – Arrancamos o galho no meio do caminho.

Respirei fundo e olhei para o corpo inerte de Annie.

Três meio-sangues haviam morrido. Eu estava falhando com a minha missão.