Os Filhos do Inverno

4 Rugidos e Negociações


Capítulo 3

Eirwen não tinha a mínima ideia de como aquilo tinha acontecido.

Não conseguia entender como em um momento estava deitada, dormindo em sua cama e no outro ouviu a voz de Jadis em sua cabeça, dizendo que aquela era a hora e no momento seguinte, estava se afogando.

E não fingindo se afogar.

Ela realmente estava se afogando, mal conseguindo manter a cabeça para fora da água. Identificou que estava no mar por conta das ondas enormes que a puxavam e do sabor salgado de toda água que estava engolindo. Tentou em vão procurar por Blanche, Ayaz e Ivory, mas não os encontrou.

Pensou desesperadamente em qualquer feitiço de Jadis que pudesse salvá-la, mas sua mente parecia em branco por conta do desespero, não conseguindo fazer nada.

Ouviu um estrondoso rugido – certamente parecera um rugido – antes de um trovão e quando tudo se iluminou por conta de um raio, conseguiu avistar um enorme galeão.

O majestoso galeão erguia-se imponente contra as ondas violentas e por um momento Eirwen teve medo de ser arremessada contra ele. Pode ver pessoas correndo de um lado para o outro então começou a acenar o quanto seus braços doloridos permitiam, mas insistentemente era puxada para baixo. Não tentou gritar, pois sabia que engoliria ainda mais água e não seria ouvida.

Momentos antes de outra enorme onda a puxar para a escuridão, pode ver um homem na borda do galeão, apontando para onde estava. Esticou uma última vez seus braços, acenando, antes de ser engolida pela água salgada.

Seu corpo era jogado de um lado para o outro violentamente e ela já não sabia qual lado era para cima e qual era para baixo. Seus pulmões queimavam ao passo que sentia sua consciência se esvaindo.

Até que finalmente sentiu um braço em sua cintura, sendo puxada para cima.

Engasgou quando ar e água se misturaram em sua garganta, incapaz de abrir os olhos.

— Segure-se em mim! – a voz de um homem ribombou em sua cabeça e tudo que conseguiu fazer foi agarrar-se ao que percebeu ser o pescoço dele.

Sentaram-se no que parecia uma viga de madeira que foi puxada para cima, para dentro do galeão.

Ainda atordoada, percebeu que o homem a pegou no colo, colocando-a sentada em algum lugar seco e protegido da impiedosa chuva que ainda castigava do lado de fora.

Finalmente abriu os olhos e deparou-se com diversos rostos a encarando, mas o que mais a aliviou foi encontrar as únicas três pessoas que confiava naquele mundo. Tomando um folego vacilante e sem olhar para o resto presente no cômodo novamente, ela jogou-se contra Ayaz e Blanche, sentindo o braço de Ivory envolver suas costas enquanto a testa dele pousava em sua nuca.

Já tinha sentido um medo semelhante aquele uma vez, tinha certeza, pois aquele frio na barriga e o alívio que sentiu ao ver aqueles que considerava como sua família não lhe era estranho. Sua cabeça girava ao mesmo tempo que se perguntava se realmente havia ouvido tal rugido antes do trovão e do raio que revelou o galeão.

Os outros também estavam ofegantes e encharcados, sem entender o que havia acontecido, mas sabiam que aquilo já era o inicio do plano de Jadis, pois ao examinar um pouco onde estavam puderam encontrar diversas pistas que indicavam que aquele era o galeão real, o Esplendor Hialino, do qual a Feiticeira já havia comentado.

A embarcação sacudia de um lado para o outro violentamente e a madeira rangia. Ao longe podiam ouvir algumas vozes dos marinheiros perdidas ao vento, fazendo o possível para manter a situação sob controle no convés.

— Quem são vocês?

Eirwen afastou-se dos braços que a envolviam e virou, se deparando com as quatro pessoas que há tanto tempo imaginava como seriam em sua cabeça. Era fácil de distingui-los entre os marinheiros não apenas por suas vestimentas, mas pela calma e postura que apresentavam naquela situação. Não apresentavam as coroas em suas cabeças, mas ela pode identificar facilmente quem era quem.

A voz feminina que havia falado pertencia a Rainha Susana, a Gentil e Eirwen não pode deixar de ficar embasbacada por um momento com a beleza da mulher a sua frente. Os cabelos longos e escuros caiam como uma cortina sobre seus ombros, alcançando quase sua cintura em ondas que agora estavam tão molhadas quanto as suas. O rosto de feições delicadas estava retorcido numa expressão preocupada que não a deixava menos bela.

Estendeu para Eirwen sua mão, onde havia uma toalha e um vestido. Pelos adornos e detalhes bordados no vestido ela pode facilmente deduzir que se tratava das roupas da própria rainha. Percebeu que os outros já estavam com trocas de roupa em mãos e envolvidos por toalhas.

Hesitante e sem saber exatamente o que falar com medo de um dos outros já ter dito algo, ela estendeu a mão e pegou o que lhe era oferecido, ganhando um pequeno sorriso em resposta.

— Não sabemos... – Eirwen foi despertada pela voz de Ivory – Não nos lembramos de nada de antes da tempestade...

Sua atenção foi desviada por um baixo bufar para quem se encontrava atrás de Susana, o qual deduziu ser Rei Edmundo, o Justo. Percebeu como ele estreitou os olhos para os quatro desconhecidos, os lábios crispados e o cenho franzido. Ele possuía os mesmos cabelos escuros de Susana, mas os olhos, diferente de todos os irmãos, possuíam um tom castanho, tão escuro que aparentava quase ser preto. Ela percebeu que de todos, ele seria o mais difícil de enganar.

— Se não se lembram então por que ela correu para vocês assim que voltou a si? – perguntou Edmundo, como se para provar o pensamento de Eirwen – Isso me parece um gesto de confiança bem grande.

— Nós acordamos juntos em um barco no meio daquela tempestade. Somos os únicos rostos conhecidos um dos outros, creio que a reação dela seja bem natural... – todos sentiram como uma leve tensão se instalou entre os dois homens, mas logo foi quebrada por um espirro de Blanche.

Um espirro falso, obviamente, pois nenhum deles sentia frio.

Eirwen ainda se demorou um pouco na figura de Edmundo, provavelmente a criatura que sua Rainha mais odiava em toda Nárnia. Havia algo nele que atiçava sua curiosidade e não era apenas o quão misterioso ele aparentava ser, mas sim o motivo da Feiticeira ter tanto rancor contra ele.

Ela queria saber o motivo.

Alguém tocou em seu ombro levemente, desviando sua atenção do homem que a intrigava.

Seus olhos encontraram-se com os olhos azuis e gentis da mais nova dos irmãos. Havia algo nela que trazia tranquilidade e – se é que Eirwen jamais se atreveria a dizer perto da Feiticeira – confiança. Susana era sem dúvidas uma mulher lindíssima, mas Lúcia não ficava muito atrás da irmã com aquele sorriso que parecia naturalmente brincar em seus lábios rosados.

A Rainha Lúcia, a Destemida, se encolheu quando encostou em seu ombro.

— Estão muito gelados... – comentou – Acho que é melhor deixarmos para conversar depois que se aquecerem.

— Lúcia tem razão...

Ao olhar para o Grande Rei Pedro, o Magnifico, Eirwen sentiu-se um pouco desapontada. Por seu título ela certamente não havia imaginado um rapaz em seus 24 anos, louro e com uma expressão amistosa. Não havia um sorriso em seus lábios, no entanto ele não passava o ar ameaçador que ela imaginou que teria. Era alto e mais robusto do que Edmundo, mas o irmão mais novo havia causado uma impressão bem mais marcante para ela.

Deduziu que provavelmente ele, assim como Lúcia e Susana, estavam se esforçando para que os quatro ficassem pelo menos um pouco mais a vontade, diferente do rei mais jovem, cuja expressão não suavizava em nenhum momento.

— Vamos levar os dois para outra cabine onde possam se trocar e vocês duas podem ficar aqui mesmo. Quando acabarem haverá alguém as esperando do lado de fora para as levarem até nós.

Ela assentiu e todos deixaram a cabine, conduzindo Ayaz e Ivory para outra onde poderiam se trocar.

Quando ficaram sozinhas, Blanche e Eirwen se abraçaram novamente.

— Eu fiquei com medo... – admitiu Blanche em um sussurro, como se temesse que a Feiticeira pudesse ouvir e brigar com ela por demonstrar tal sentimento – Não pensei que fosse ser assim...

— Eu também não... – a mais velha engoliu em seco, ainda sentindo o sabor da água salgada – Mas acho que era só para que fossemos convincentes... vamos nos trocar logo para terminar com isso...

Blanche concordou com a cabeça, levantando-se e indo para trás do biombo entalhado que tinha no canto da cabine, secando-se e colocando o vestido que tinha em mãos.

Enquanto Susana havia emprestado um dos seus para Eirwen, era Lúcia quem havia lhe cedido o belo vestido azul acinzentado em suas mãos, provavelmente por seu tamanho ser semelhante ao da rainha, apesar de ser um pouco ainda mais baixa que ela. O tecido era grosso e quente, o que provavelmente causaria um leve incomodo, mas sabia que Lúcia havia feito isso por deduzir que estariam congelando.

Ao se vestir deu uma olhada no espelho que havia na parede. O vestido tinha ficado um pouco largo em sua cintura, nada muito noticiável. Sua gola era quadrada e adornada com detalhes bordados em fios prateados, assim como as barras. As mangas eram justas até a altura dos cotovelos e depois se alargavam, caindo graciosamente até o meio de suas mãos.

O corte do vestido de Eirwen era bem parecido, assim como o tecido grosso, mas o seu era em um tom verde musgo belíssimo e as mangas iam justas até os pulsos. Mesmo com os cabelos molhados, ela poderia facilmente se passar por uma Duquesa.

Sem se demorarem mais, as duas saíram da cabine, encontrando o comandante do navio esperando no estreito corredor.

Ele gesticulou para que elas o seguissem, caminhando até o final do corredor onde havia uma pequena escada. Desceram chegando em um espaço bem mais amplo com uma mesa redonda seguramente presa ao chão no meio, em volta da qual as duas viram os Reis e Rainhas, assim como Ayaz e Ivory.

Os dois agora usavam túnicas por cima de camisas brancas e calças escuras.

Junto com eles também estavam dois guardas, provavelmente por precaução, afinal ninguém sabia de onde os quatro haviam vindo.

— Vamos começar de novo então. – disse Edmundo sem muitos rodeios – Quem são vocês?

— Nós realmente não sabemos... – respondeu Eirwen engolindo em seco quando a atenção de todos foi desviada para si.

— Acordamos no meio daquela tempestade, em um barco que virou um pouco antes de vocês encontrarem a gente – continuou Ivory – Mal sabemos onde estamos.

— Estão no Esplendor Hialino, a caminho de Nárnia... – respondeu Pedro educadamente, gesticulando para um mapa esticado em cima da mesa, mostrando a possível localização do galeão em meio a tempestade – Tem certeza que não se lembram de nada? Nomes e nem de onde vieram?

— Não foi o que eles acabaram de dizer? – respondeu Ayaz, ganhando um beliscão discreto em suas costas de Eirwen. Ele crispou os lábios e suspirou antes de continuar mais suavemente: – É a verdade... não tem mais o que possamos fazer...

— Como vamos saber que não são fugitivos? Assassinos ou criminosos? – continuou Edmundo, cruzando os braços na frente do peito – Aqui dentro temos como ficar de olho em vocês, mas não podemos simplesmente largá-los em Nárnia quando chegarmos lá.

— Não queremos causar problemas... – adiantou-se Blanche, vendo que a situação não estava indo exatamente como o esperado, mas afinal, o que era o esperado? – Eu acho que... talvez vocês pudessem tentar acreditar na gente?

— Apesar de não concordar com o jeito que meu irmão está falando, ele tem razão... – disse Susana, mandando um olhar apologético para os quatro – Mal nos apresentamos direito, creio que por conta da surpresa de encontrá-los assim, no meio do nada. Mas nós somos os Reis e Rainhas de Nárnia, espero que entendam que essa suspeita faz parte de nosso dever para proteger nosso povo.

Eirwen percebeu a inquietação de Blanche e não estava muito diferente, mas não deixava transparecer. A partir daquele momento se fizessem algo errado seria às custas de todo o trabalho e treinamento que tiveram da Feiticeira por um ano e, já conhecendo bem como Jadis funcionava, sabia que falhas não seriam aceitas.

Subitamente a memória do estranho rugido veio parar em sua cabeça, juntamente com uma ideia para tentar trazer pelo menos alguns dos governantes de Nárnia para o seu lado.

— Tem uma coisa meio vaga em minha mente... Majestades...– disse antes que pudesse pensar direito nas consequências – Mas não sei se vão acreditar em mim...

— Tente... – encorajou Pedro.

A jovem sentiu como seus companheiros ficaram levemente tensos, esperando pelo que ela diria.

— Eu me lembro de ouvir um som, quando estava me afogando... – engoliu em seco – Não tenho certeza, por isso não sei se vão acreditar, mas era como um rugido... e aí vocês apareceram.

Pode notar uma grande mudança na postura dos presentes. Pedro e Edmundo se entreolharam, como se trocando palavras pelo olhar e quando o mais jovem olhou para eles, viu como ele estreitava os olhos em sua direção, talvez pensando se estava realmente falando a verdade.

Eirwen não estava exatamente mentindo. Ela tinha realmente ouvido um som estranho durante a tempestade, mas não ia mencionar nada. Só o fez porque percebeu que aquilo podia ser usado a seu favor.

— E o que exatamente você acha que isso significa? – perguntou Edmundo em um tom claramente menos intimidador do que antes.

Ela encolheu os ombros.

— Perguntaram se não lembrávamos de realmente nada... eu me lembro disso e achei que talvez fosse algo relevante o suficiente para compartilhar.

— Eu acredito neles.

Lúcia até então havia ficado em silencio, mas quando se pronunciou todos se calaram e olharam para ela.

— Lu... – disse Susana, colocando uma das mãos no ombro da irmã, que estava sentada em um dos bancos em volta da mesa – Não podemos concluir nada apenas com isso.

— Eu sei – respondeu a loira calmamente, sorrindo – Mas eu também ouvi um sinal Dele hoje, lembra? Além do mais, independente disso, não podemos simplesmente largá-los a própria sorte em um lugar que não conhecem. Aslan não gostaria disso.

A mais nova dos irmãos percebeu que Edmundo estava prestes a abrir a boca, provavelmente para contestar novamente, mas ela rapidamente continuou falando.

— Eu entendo que corremos riscos. Como Rainha entendo as preocupações. Mas acredito que podemos pensar em um jeito que fique bom para todos nós – explicou, claramente assumindo sua postura de Rainha de Nárnia, negociando com seus irmãos – Para a segurança de nosso povo eles devem ficar em Cair Paravel até termos certeza que não são nenhum tipo de ameaça ou até que se lembrem detalhes que possamos confirmar. Vamos enviar cartas para os Países Aliados para perguntar se sabem de alguma coisa ou se possuem registros de fugitivos e pediremos que procurem dentre o seu povo se sabem de pessoas desaparecidas. Pois da mesma maneira que podem ser fugitivos, também podem ser vítimas.

— Quer dizer que seremos prisioneiros, Majestade? – perguntou Ivory, observando cautelosamente a jovem Rainha.

— A princípio, convidados. – respondeu ela, ainda com o sorriso suave em seus lábios – A menos que nos deem motivo para acreditarmos que podem ser alguma ameaça. Vamos esperar algumas semanas para ver se conseguem lembrar de alguma coisa e então discutiremos novamente o que fazer.

Lúcia levantou-se do banco e virou-se na direção dos irmãos. De maneira graciosa apesar do balançar da embarcação ela abaixou a cabeça ligeiramente, curvando-se e com uma expressão solene disse:

— Como Rainha Lúcia, a Destemida, peço a vós, Majestades de Nárnia, que permitam a presença dessas pessoas em nossas terras, sob minha total responsabilidade, apenas lhes rogo que a priori sejam tratados como convidados e não como prisioneiros.

Susana e Edmundo permaneceram em silêncio, surpresos pela formalidade que Lúcia assumira com a situação, algo que apenas demonstrava o quão seria ela estava a respeito do assunto.

Pedro pareceu divagar por um momento, analisando novamente as quatro figuras paradas um pouco mais atrás de Lúcia. Eles pareciam tão surpresos pela atitude da Rainha quanto seus irmãos.

— Por favor, levante-se, Rainha Lúcia. – a mencionada levantou novamente a cabeça, fitando Pedro com o mesmo sorriso suave que possuía anteriormente nos lábios – Creio que no final das contas, sua decisão é a mais sensata e agradável para ambas as partes nesse momento. Então como Grande Rei Pedro, aceito que fiquem em Cair Paravel sob sua supervisão. Alguma objeção?

O mais velho virou-se para Susana e Edmundo. A primeira meramente sorriu e negou com a cabeça, mas Pedro pode notar uma certa hesitação de Edmundo. Ele sabia que no momento não havia muito mais o que pudesse fazer, então após alguns segundos também aprovou o pedido de Lúcia com um gesto de cabeça.

Voltando a sua postura normal, Lúcia sorriu extensamente, virando-se para os quatro desconhecidos como uma criança alegre no corpo de uma jovem adulta. Do lado de fora a tempestade lentamente começava a se dissipar.

— Que tal pensarmos em alguns nomes para vocês enquanto comem alguma coisa?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.