Os Filhos do Inverno
1 Prólogo
Prólogo
Ao abrir seus olhos, tudo que ela conseguia ver era a escuridão que a cercava. Tudo que podia sentir era o frio, subindo por seu corpo, causando-lhe arrepios.
Que eu sou? Onde eu estou?
A voz em sua cabeça – sua própria voz – ecoou, sem receber nenhuma resposta.
Ela sentia-se assustada, tão assustada que tentou gritar por ajuda, mas novamente, ninguém respondeu seu apelo. Ninguém estava lá para escutá-la e vir resgatá-la como eles fizeram.
Eles fizeram?, ela pensou, sem ter certeza de onde aquele pensamento havia vindo. Alguém tinha vindo por ela antes, mas onde estavam essas pessoas agora?
Memórias começaram a aparecer e sumir em sua mente, vozes gritando, desespero, medo, dor, sangue e então... o nada onde se encontrava agora. Ela havia visto rostos conhecidos, olhares preocupados, lágrimas, tantas emoções em um único minuto que se estivesse de pé em algum lugar, provavelmente se sentiria tonta.
Sentia como se tivesse perdido pessoas importantes e o desespero a consumia.
Gritou até sua garganta doer.
Lágrimas brilhavam nos cantos de seus olhos, caindo pela face rosada e desaparecendo na escuridão, assim como todas as suas esperanças.
Eu ficarei nessa escuridão para sempre?, perguntou-se, sem se importar de fechar os olhos, pois estando abertos ou fechados era a mesma coisa.
Tentou forçar suas memórias para entender o que havia acontecido consigo, porém os mesmos flashes de antes causaram uma intensa dor de cabeça ao invés de ajudá-la a compreender onde estava ou quem era.
Mais arrepios percorreram seu corpo quando de repente, um vento forte a atingiu, parecendo praticamente um tapa em suas costas. O vento parecia raivoso, quase como louco. A escuridão ainda estava lá e agora ela sentia-se gelada como uma morta.
— Talvez porque você realmente esteja morrendo.
Seus olhos se arregalaram com a voz feminina, gélida, porém belíssima. Tentou procurar em volta qualquer pista de onde a voz estava vindo, mas tudo continuava a mesma coisa e parecia que a mulher estava sempre falando por trás de suas costas, não importa quantas voltas desse.
— Não adianta, criança. Pare de tentar. – disse a mulher, de maneira que a jovem lentamente parou – Boa menina.
— Quem...? – ela começou a perguntar, mas logo foi interrompida pela voz novamente.
— Quem eu sou? Talvez você prefira saber... quem é você? – a jovem soltou uma respiração pesada que estava presa em sua garganta com a simples possibilidade daquela mulher saber o que estava acontecendo e poder ajudá-la.
— Não seja tão ingênua. – Brigou a voz, fazendo-a tremer pela súbita grosseria – Eu sei o que está pensando e não vou fingir. Eu não estou aqui por você. Estou aqui pelo que você pode fazer por mim.
— Eu não entendo... onde é esse lugar?
— Sua cabeça, minha querida. – A mulher respondeu como se fosse a coisa mais normal do mundo – Você está presa aqui até eu terminar de falar com você.
A jovem engoliu em seco quando a conclusão de que aquela mulher era quem a prendia ali a atingiu. Era a única explicação que fazia sentido. Mas novamente, não lembrar nada também não a ajudava a sustentar essa hipótese.
— Você está quase morta. – Continuou a voz, fazendo um arrepio subir por todo o corpo da garota – Então eu posso te dar uma alternativa. Na verdade, a única opção.
Então não é uma alternativa..., pensou ela amargamente e sabia que, de alguma forma, a mulher havia escutado, já que bufou irritada.
— Você pode me servir. Ou pode morrer. Aí estão as suas alternativas.
— Servi-la? – perguntou, franzindo o cenho.
— Não da maneira que você provavelmente pensa. Em um plano maior. Um propósito maior. – A voz tomou um tom suave, quase gentil e ela sentiu como se alguém andasse atrás de si. Logo em seguida, uma sensação fria, como se mãos geladas houvessem encostado em seus ombros – Ajude-me em minha vingança.
— Vingança? Mas... eu mal sei quem sou. Não sei o que está acontecendo... – implorou por mais respostas, sentindo um suspirar irritado ao seu lado antes da sensação em seus ombros sumir.
— Quem você costumava ser não existe mais. Você está praticamente morta, Filha de Eva— A jovem não pode deixar de notar como a mulher pareceu cuspir aquelas palavras – Por acidente, na entrada de meu domínio. Ou do domínio que deveria ser meu. Eu a encontrei, assim como outros que sofreram o mesmo destino naquela noite. Para a sorte de vocês, posso salvar suas almas e corpos, mas apenas se aceitarem levar uma parte de mim com vocês e servirem o meu propósito. Dividirei meus poderes com vocês em troca de lealdade.
Ela sentiu sua mente entrar em uma espécie de estupor. Sua cabeça pareceu começar a pesar e era como se uma névoa tomasse conta de seus pensamentos de uma vez só.
— Minha vida... em troca de lealdade a você? – ela perguntou, tentando voltar ao estado alerta que estava antes, sem sucesso – Mas em que vingança você está tentando me convencer a ajudá-la?
— Uma totalmente justa... Eu só quero de volta o que me pertence. Meu trono.
— É... seu?
— Sim – ela disse secamente e, de novo, a jovem pode sentir o frio em seu ombro, dessa vez a abraçando lentamente – Foi roubado de mim. Ah, aqueles quatro usurpadores! Eles pensam que estou morta, mas uma feiticeira sempre tem uma carta na manga!
— F-Feiticeira?
— Não se preocupe, criança... eu sou a Feiticeira Branca... e enquanto você me servir, enquanto você for leal a mim, estará totalmente segura e protegida. E mais importante... se escolher me servir, você estará viva.
Ela sabia que algo não estava certo, mas a voz daquela mulher, de alguma maneira, fazia com que a mente dela acreditasse que tudo ficaria bem se fizesse como lhe era ordenado.
Uma pequena luz branca apareceu na frente de seus olhos, crescendo até se tornar uma mulher alta e elegante, com um longo vestido branco adornado com pelos que pareciam extremamente macios. A mulher lentamente estendeu a mão, oferecendo-a para a jovem. Seus cabelos eram de um tom louro cinzento, presos em um coque no topo de sua cabeça com o que pareciam ser cristais de gelo. Seus olhos frios fizeram a mais jovem tremer levemente antes de estender a mão e aceitar o que lhe era oferecido.
Com um sorriso que não podia ser nada menos que cruel, a mulher sussurrou o que seria a última coisa que a jovem se lembraria antes de ter apagado totalmente por conta do frio que lhe era passado através do contato de suas mãos.
— De agora em diante, seu nome é Blanche.
Fale com o autor