Os Filhos do Inverno
2 Feitiços Proibidos
Capítulo 1
— Blanche, você está enrolando demais com esse feitiço.
A mencionada não respondeu, apenas deu de ombros, posicionada em cima de uma grande rocha, observando as árvores que deveria utilizar para execução de tal feitiço. Seus cabelos extremamente claros voavam com o vento frio das Terras do Norte.
— Eu realmente acho que não consigo... – disse depois de uma pausa, virando-se na direção da voz de Ivory – Parece errado, Ivo...
Ivory, ou Ivo como os mais novos o chamavam, sacudiu a cabeça, mas não parecia totalmente descontente com a jovem. Sabia muito bem o quanto aquilo era difícil para ela. No feitiço em questão, Blanche deveria utilizar toda a força de vida de tais árvores para aumentar seus próprios poderes. Apesar de não se lembrarem de suas vidas passadas, a jovem sempre fora extremamente gentil e detestava qualquer tipo de treinamento que causasse mal a outras criaturas, fossem animais, criaturas mágicas ou plantas.
— Eu sei que parece errado. Mas você precisa fazer isso para completar o ritual de nossa Rainha – argumentou Ivo suavemente – Se não conseguir agora não tem problema. Venha aqui, vamos descansar um pouco e depois tentamos de novo.
Blanche respirou fundo, descendo da pedra e indo ao encontro do mais velho.
Ivo era bem mais alto que ela e, de todos que a Feiticeira chamava de “seus escolhidos”, ele era aquele cuja aparência menos havia mudado com a magia que ela havia feito para trazê-los de volta.
Sua pele, diferente da dos outros escolhidos, continuava com um tom bronzeado e saudável. Seus cabelos castanho-avermelhados eram lisos e um pouco mais longos, chegando abaixo de seu pescoço. Ele sempre os mantinha presos em um rabo baixo. O que mais se destacava em sua aparência, porém, eram seus olhos. Um deles, o direito, permanecera em seu tom natural, um belo castanho chocolate, enquanto o esquerdo deixava clara a magia da Feiticeira correndo em seu corpo. Era azul. Um tom de azul gélido não apenas por sua cor, mas por tudo que a Feiticeira havia posto dentro de seu coração.
Jadis havia feito uso de um antigo ritual de seu mundo de origem. Partilhando seus poderes com eles através de um trato que os obrigava a cumprir uma condição, imposta por ela quando os ofereceu essa chance de viver novamente. Deveriam ajudá-la a destronar os Reis e Rainhas de Nárnia, restaurando as terras à beleza de seu Inverno Eterno. Tal ritual, porém, era extremamente proibido, de modo que a Feiticeira precisou desgastar grande parte de seu poder para executá-lo e não pode dar a eles toda amplitude de seus poderes.
Não que ela os quisesse dar tudo isso, também.
Ela não era ingênua.
Jamais poderia dar a eles tanto poder.
Por tanto a seus escolhidos foi limitado apenas o suficiente para que recuperassem totalmente suas almas e deixou que os poderes deles se baseassem apenas em seu desejo de trazer seu tão amado inverno de volta para Nárnia.
Por isso seus corpos eram frios e os poderes baseados em gelo, tempestades e neve.
Blanche era a única exceção à regra dos poderes.
Aparentava ser a mais frágil fisicamente. Era baixa e magra, sem nenhum tipo de habilidade para lutas corpo a corpo. Sua alma já estava quase totalmente perdida quando aceitou o trato de Jadis, de modo que tudo em sua aparência havia mudado. Sua pele, outrora saudável como a de Ivo, era pálida e imaculada como a de uma boneca de porcelana. Os olhos verdes agora eram do mesmo tom de azul do esquerdo de Ivo e os cabelos, que costumavam ser dourados como os de uma princesa, haviam se tornado um loiro pálido, quase branco.
E seus poderes eram muito mais fortes do que dos outros, tanto que Jadis ocasionalmente a ensinava sozinha.
— Já acabaram?
Duas silhuetas se aproximaram de Blanche e Ivory, os dois outros escolhidos de Jadis.
Ayaz e Eirwen tinham certeza que eram irmão e irmã no passado. Ambos eram muito parecidos com cabelos negros cacheados, sardas e corpos atléticos. Eirwen era um pouco mais baixa e pálida do que Ayaz e os olhos deles tinham um tom de azul bem mais natural do que os de Blanche.
— Não... eu não consegui de novo... – murmurou Blanche, mordendo os lábios.
Eirwen aproximou-se dela, sorrindo levemente.
— Eu sei que vai conseguir, Blanche...
— Obrigada, Wen... – respondeu a mais baixa – É que o dia está chegando e isso está me deixando nervosa.
Um silêncio de compreensão se instalou entre os quatro.
Já fazia aproximadamente um ano que Jadis os estava preparando. Todos os dias, ela os reunia para contar suas histórias dos 100 anos que havia governado Nárnia. Histórias que sempre terminavam com ela relembrando sobre os quatro irmãos que tinham roubado seu trono de forma injusta, mentindo para o povo e fazendo com que todos se rebelassem contra ela. Gostava de lembrar o quanto os Narnianos amavam seu inverno e sobretudo o quanto eram leais a ela antes de Aslan e os Pevensies.
Sem memórias de seu passado, os quatro Filhos do Inverno – como os súditos de Jadis os chamavam – acatavam as histórias dela como a verdade e haviam nutrido uma grande raiva dos governantes de Nárnia. Sabiam que eram bons reis e rainhas, pois a nação prosperava, mas pela mulher que os havia devolvido a vida, desejavam justiça.
O plano de Jadis era simples.
Ela executaria um ritual, com a ajuda de Blanche, que traria o inverno de volta e transformaria os Pevensies em estátuas de gelo. Porém para que ela pudesse ter êxito em seu plano, precisava estar ciente de todos os passos dos irmãos, pois seria uma questão de tempo até eles descobrirem que algo estava acontecendo. E Jadis, por seu próprio ego e capricho, queria que o ritual acontecesse em Cair Paravel.
Para isso, os Filhos do Inverno seriam enviados para se infiltrar no castelo e se aproximar dos irmãos. Os únicos que possuíam objetivos específicos eram Ayaz e Eirwen. Por serem ambos dotados de extraordinária beleza, Jadis os ensinou como encantar e manipular outros, assim como ela fazia. Seus objetivos deveriam ser Susana e Pedro, por serem os mais velhos e terem o respeito dos irmãos mais novos. Blanche e Ivory não precisavam exatamente encantar Edmundo e Lúcia, pois a Feiticeira tinha planos separados para os dois. Ela parecia guardar um rancor muito maior contra eles, então por escolha própria, os Filhos do Inverno decidiram que tentariam fazer o mesmo que Ayaz e Eirwen fariam com Susana e Pedro.
— Todos nós estamos. Afinal, não sabemos o que esperar – disse Ayaz, sentando-se no chão, sem se importar com a neve que umedeceria suas roupas – As vezes eu me pego tentando lembrar...
Os outros três tensionaram com o comentário.
A vida que tinham antes era um grande tabu para Jadis e ela fazia questão de sempre os lembrar que as pessoas que eram não existiam mais. Ela ficava furiosa com a simples menção do assunto.
— Ei, relaxem, ela nem está aqui! – exclamou ele, percebendo a súbita tensão dos amigos.
— Sim, mas você sabe muito bem que não tem finalidade querer saber a respeito disso... – respondeu Ivory – Tudo que precisamos está aqui com a nossa Rainha.
— As vezes eu também penso... – murmurou Blanche, encolhendo-se um pouco sob o olhar de Ivory – Ora, você mesmo já disse que sente que nos conhecíamos antes.
— Isso sim, mas não tento pensar mais a fundo do que isso.
— Vai dizer que nunca teve curiosidade, Ivo? – perguntou Eirwen, dando de ombros – Todos nós sentimos as vezes...
— Quem sabe... talvez depois que vencermos. Depois que conseguirmos recuperar o trono de nossa Rainha... talvez ela possa nos mostrar... de onde viemos. – a voz de Blanche soava esperançosa, pois estava cansada de sentir-se vazia ou apenas preenchida de ressentimento e raiva.
O olhar de Ivory suavizou ao encontrar com o de Blanche. Ela e Eirwen provavelmente tinham a mesma idade – lá pelos 20 anos – mas a loira era como uma irmã mais nova para todos eles. Talvez pelo fato de Jadis pegar muito mais pesado com ela durante treinamentos ou por saberem que a parte dela no ritual era extremamente difícil, todos assumiam uma postura protetora e carinhosa quando com ela.
Apesar de terem um relacionamento bem amistoso uns com os outros, aquilo acontecia apenas quando estavam entre eles. Dificilmente demonstravam afeição ou carinho perto de Jadis, pois ela os ensinou que tudo não passava de uma grande fraqueza e da mesma maneira que quando mencionavam as vidas passadas, ficava furiosa.
Ivory suspirou.
— Talvez, Blanche... mas por enquanto, temos que deixar tudo isso de lado, certo?
Ela assentiu, sentando-se ao lado de Ayaz.
— Vamos vencer... – assegurou ele após uma breve pausa, passando um braço pelos ombros da menor, que se inclinou contra seu ombro.
— Acho bom mesmo. – a voz de Jadis fez com que todos dessem um salto e Blanche rapidamente se levantasse do lado de Ayaz – Blanche, você deveria estar praticando. Aquele feitiço não vai se lançar sozinho. Isso não é uma brincadeira e vocês sabem muito bem disso.
Todos sentiram uma forte vontade de se prostrarem na frente dela, mas se contiveram, meramente dando-lhe olhares de apoio enquanto a jovem caminhava novamente na direção da pedra onde estava antes.
Sob o olhar ameaçador de Jadis, Blanche respirou fundo, concentrando-se nas árvores cujas copas estavam congeladas. Fechou os olhos e pode sentir as vibrações da vida daqueles seres, vibrações que ela começou a puxar para si, mesclando-as com a vibração de seus poderes, aumentando-os. Uma pressão muito forte começou a atingir sua cabeça, causando-lhe náuseas fortes, mas ela não parou. Estendeu seus braços, canalizando ainda mais aquelas energias, absorvendo o quanto podia.
Apenas quando o ar começou a lhe faltar e seus joelhos a fraquejar que ela abriu novamente os olhos.
Quando olhou novamente para as árvores elas estavam se desfazendo.
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