O príncipe Kar’kion acomodou-se num cadeirão. A sua postura impecável era de certo modo intimidante, mas Leia estava habituada a encontros com altos dignitários de diversos sistemas, com representantes de alto nível, governantes, reis e imperadores, e não se deixou impressionar. Apertou a mão de Luke para lhe dar confiança, ele achou o gesto curioso. Como cavaleiro Jedi munia-se da Força e sabia ultrapassar a simples aparência, penetrar no âmago de qualquer criatura e desfazer os artifícios. Também não se deixava impressionar pela apatia e superioridade do príncipe.

Os dois irmãos sentaram-se no sofá, de frente para o cadeirão.

Leia repetiu o agradecimento inicial.

— Estamos muito gratos que tenhas acedido a encontrar-te connosco, príncipe Kar’kion.

Ele apenas reagiu com um suave meneio da cabeça. Os olhos permaneceram inescrutáveis, ambíguos. A distância e o desconforto eram cultivados como imprescindíveis.

O príncipe era o convidado, aguardava que lhe fizessem a primeira pergunta. Leia percebeu isso. Juntou as mãos e começou:

— É nosso profundo desejo que esta conversa seja justa, esclarecedora e amigável, príncipe Kar’kion. Solicitámos a vossa nobre presença para que possamos, finalmente, ver esclarecidas algumas das questões iniciais que trouxeram a Nova República a Hkion. Os recentes acontecimentos foram… digamos, confusos e revestidos de estranheza. O cavaleiro Jedi Luke Skywalker não foi recebido da forma mais cordial, eu enquanto senadora tive de intervir. Quero que tudo o que se passou seja esquecido em abono de um entendimento mais profundo e completo entre as diversas partes deste… encontro.

— Nunca requisitámos a intervenção do Senado Galáctico nos nossos assuntos internos – disse o príncipe. A voz era grave, monótona, inflexiva, com se estivesse a ler uma deixa, uma frase previamente enunciada num catálogo de afirmações a fazer numa reunião daquele nível.

— Mas é facto que foi apresentada uma petição sobre a utilização de escravos nas vossas minas no Senado Galáctico. Caso contrário…

— Uma calúnia inventada pelos nossos inimigos – cortou o príncipe.

— Hkion é um sistema isolado. Não existem registos de adversários ambiciosos que esperam ganhar alguma vantagem… com o domínio de Hkion e das suas riquezas.

— É inegável que temos riquezas cobiçadas.

— Encontram-se numa região galáctica que assegura a vossa independência. Há séculos que assim tem acontecido.

— Mais um motivo para que o Senado Galáctico nos deixe resolver os nossos assuntos… sozinhos. Sempre tivemos a capacidade de o fazer durante esses séculos que apontaste. Por que motivo seria diferente agora?

— A galáxia emerge cheia de esperança e vitalidade depois de uma guerra civil especialmente violenta. Espera-se cooperação de todos os sistemas para a renovação da organização política, não precisamos de sabotagens subtis que nos remetem… aos tempos mais negros. A Nova República não pode ignorar os apelos veementes daqueles que pretendem justiça.

— Senadora Leia Organa, tens a perfeita consciência do perigo de me apresentar na capital para esta entrevista.

— E, no entanto, não demoraste muito tempo a aparecer, o que me leva a concluir que te encontravas próximo, príncipe Kar’kion.

— Nunca nos devemos afastar demasiado do centro do poder. E fui convocado com uma especial urgência.

Leia recostou-se no sofá, a sorrir de maneira irónica.

— Esperas vantagens desta reunião.

— Estou neste momento no meio… de um jogo de forças. Não desperdiçarei qualquer vantagem que se me apresenta, por mais perigosa que pareça.

— A Nova República não vai tomar partidos na eventualidade de uma guerra entre os clãs de Hkion. Não te irão ser prometidos apoios em troca da tua colaboração.

— O que acontece quando o conflito começar? A Nova República não vai escolher um lado, pelo que vai optar por combater todos os lados… Engano-me nesta suposição? O que significa que existem interesses dentro do Senado para tomarem Hkion, para que seja instalado aqui um governo isento, leal à Nova República e, portanto, estrangeiro. Prepara-se um golpe republicano… Parece-me, senadora, que existe alguém que cobiça efetivamente as riquezas de Hkion.

Leia fez uma careta de desagrado. O seu rosto contraiu-se.

— É isso o que está em causa? É essa a suprema razão para que não considerem a intervenção da Nova República e para que nos esteja a ser dispensado este tratamento… censurável?

Luke disse, intervindo rapidamente para acalmar os ânimos:

— Príncipe Kar’kion, foste tu que enviaste ajuda quando eu estava aprisionado, sob uma acusação de traição.

Os olhos do homem moveram-se para fixar o novo interlocutor, sem que a cara ou o corpo se desviassem uma nesga.

— Respeito os Jedi, respeito a Força. Ao contrário das tradições da casa real do planeta…

De dentro da bainha da capa castanha, Luke retirou o anel.

— Foi-me dito quando me deram o anel que tu não desejavas que o teu nome ficasse associado à minha condição. Bekbaal. Encontrámo-nos com o velho Jedi na floresta e com os seus acólicos. Os Otrok. Era isso o que esperavas?

— Não estou a perceber a pergunta…

— Esperavas que soubéssemos a verdade? Já a sabemos… Existem os fantasmas da névoa, existem os clones que estão a ser fabricados nas luas onde são exploradas as minas. Sabemos sobre a guerra iminente, sobre os planos que cada uma das partes está a fazer para obliterar a outra. Só precisamos de identificar claramente os inimigos, pois parece-nos… que todos são adversários nesta contenda e que não existirão vencedores, no final.

A boca do príncipe estremeceu. Muito suavemente, um tremor impercetível. Estendeu-se o silêncio entre eles. Leia olhou siderada para Luke. Estava aborrecida com a ousadia, pretendia uma abordagem mais diplomática, mais tática. Até ali, Kar’kion não lhes tinha dito nada e com aquela confrontação o mais provável seria levantar-se, alegar uma ofensa insanável e abandonar a sala.

Porém, o príncipe aproveitou a afetação derivada da rigidez dos lábios para traçar um sorriso sobranceiro. Um reflexo pálido de satisfação momentânea.

— Se já sabem a verdade, nobre Jedi, o que pretendem de mim?

— O que queres, príncipe Kar’kion? – perguntou Luke de chofre. – Não se trata somente de derrotar o príncipe Gil’kion ou de conseguir ter acesso aos fantasmas da névoa através de Bekbaal, através deste anel… Trata-se de algo mais.

— Trata-se do poder – respondeu o nobre, simplesmente.

— E basta o trono de Hkion?

— É suficiente.

— O príncipe Gil’kion dir-nos-á o mesmo? – arriscou Leia.

— Para isso deverão falar com o príncipe Gil’kion.

— Iremos ter uma segunda entrevista. Foi solicitada a Tir’etakion, o mordomo que governa em nome do rei.

O príncipe ergueu-se, de repente.

— Não existe rei em Hkion!

Luke levantou-se também, Leia ficou sentada a olhar para os dois homens.

— Conta-nos! – pediu o Jedi.

— Quero o trono e irei usar os fantasmas da névoa para consegui-lo – confessou o príncipe agastado. – Os clones não me pertencem e sempre fui contra esse empreendimento. Se ganhar, desmantelarei a fábrica que produz os clones. Mas há quem deseje manter esse exército… para lutar contra a Nova República. Não sou eu, nem ninguém do meu partido!

Leia colocou-se ao lado de Luke.

— Uma nova guerra civil? Estás a afirmar que os clones serão usados para derrubar a Nova República?

— Existem movimentações na Orla Exterior. Dizem que são antigos oficiais imperiais, mas antes deverão investigar a pista que liga esses descontentes ao Senado Galáctico. O ouro de Hkion está a financiar esse novo esforço bélico. Há naves, uma frota secreta reerguida a partir da sucata recuperada de Jakku!

— Se a Nova República te colocar no trono… serás nosso aliado contra os separatistas? – perguntou Leia.

O príncipe Kar’kion espetou o queixo. Dir-se-ia abismado com a pergunta. Sentenciou que a entrevista tinha terminado e saiu da sala.

Luke e Leia entreolharam-se.

Notas finais
Próximo capítulo: Um inimigo preocupante.