O primeiro objetivo era recuperar as suas armas uma vez saídos da arrecadação que tinha as portas escancaradas. Para isso, Han não colocou o mercenário totalmente inconsciente, só o imobilizou. Precisava que ele lhes revelasse a localização das pistolas e da besta laser, só depois iria pô-lo fora de combate.

Chewbacca tinha percebido as suas intenções desde o início e não estava verdadeiramente a atacar Lando, embora tivesse agido com relativa violência e assustado a sério o socorriano que se debatia para se escapar dos grandes e possantes braços do wookie. Os apertões eram localizados, os empurrões calculados e os urros serviam para mascarar a pantomima. Quando o mercenário entrou na arrecadação, dentes cerrados, a brandir o bastão elétrico, Chewie reparou no movimento corporal de Han que se encostava à parede e que puxava Threepio para afastá-lo da confusão e agiu. Ergueu os braços, agitando-os erraticamente, berrando de modo selvagem. O mercenário teve uma ligeira hesitação e esse foi o seu erro. A eletricidade salpicava sobre a ponta do bastão, Chewie evitou-a por escassos milímetros. Lançou uma manápula, atingiu o mercenário no topo da cabeça de raspão que não o derrubou, apenas o confundiu. O golpe fora inesperado e ligeiro e o mercenário cometeu o segundo deslize, a segunda hesitação, levantando a cabeça para visualizar melhor o atacante. O bastão foi esticado e Chewie lançou a outra manápula que apanhou o mercenário pelo pescoço. O homem caiu de forma dramática, gritando, largando o bastão.

Han deu um pontapé na arma para afastá-la dos dedos abertos do mercenário e acenou para deter o ataque do furioso wookie que apanhara um choque elétrico antes da pancada que desferira. Grunhia, magoado e irritado.

Lando, que já se tinha apercebido do que estava a acontecer, atirara-se ao bastão e era agora ele que o empunhava. Han assentou um joelho entre as omoplatas do mercenário, este bateu com a testa no soalho e gemeu.

— Calma aí, amigo! Não te faremos mal se te mantiveres quietinho…

— Solta-me, bandido – rosnou o homem.

— Aqui somos todos bandidos. Uns mais do que outros, mas ninguém tem uma reputação impecável. Vamos tentar não nos atrapalharmos uns aos outros. Combinado?

— Não me podes ameaçar.

— Vais levar-nos ao lugar onde guardaram as nossas armas. Não admito negociações. Assim que te puseres de pé, vais portar-te bem. Não gritas, não protestas, não lanças nenhum alarme. Se o fizeres, levas uma descarga elétrica do teu próprio bastão e mando o meu wookie arrancar-te um braço. Compreendido, saco de excremento?

O homem suspirou, irritado e contrariado, contraído na sua impotência. Mostrou as mãos, indicando que se rendia à força superior dos seus captores. Han retirou o joelho e puxou o homem segurando-o pela parte de trás do colete surrado que este vestia. Deu-lhe um empurrão, para se certificar de que o infeliz mercenário percebia quem efetivamente mandava ali. A chapa metálica que revestia a parede da cela amolgou-se e estalou ruidosamente quando o homem chocou contra esta, de braços levantados. Resmungou e não se mexeu.

— Oh céus! Precisamos de ser tão bruscos?

— Calado, Threepio! – avisou Lando com o bastão elétrico a postos.

O mercenário estava pouco colaborativo. Deixou-se ficar colado à parede, a fingir uma espécie de revolta que o fazia recusar-se a andar. Han compreendeu que o homem não estava a agir com toda a sua boa vontade, se era que alguma vez tivera alguma. Ele estava habituado a lidar com aquele tipo de escumalha, todavia. Não fizera a sua reputação na Orla Exterior à custa de falinhas mansas e de cortesias inúteis.

Tornou a agarrar no colete do homem e empurrou-o para fora da cela. Chewbacca foi na sua peugada, sabia que iria ser necessário assim que Han lhe desse o sinal para intervir e antecipava o momento de entrar em ação e partir alguns ossos, rugindo de forma bestial. Lando seguiu-os e um cada vez mais nervoso Threepio foi também atrás deles, olhando para todos os lados, temendo até a própria sombra.

— Estás a levar-nos para o local correto? Queremos as nossas armas!

— Sim, sim, general! – resmoneou o homem, numa fúria surda. – Estou a portar-me bem.

— Espero bem que sim. Chewie? Lando?... Vês? Os meus guarda-costas estão a postos. Nada de gracinhas.

— Nunca fui conhecido pelo meu humor.

— Isso foi uma gracinha!

Lando revirou os olhos. Não se via como o guarda-costas daquele corelliano que falava demais, era até desprestigiante, insultuoso e uma série de apodos que lhe arrepiavam a alma até ao tutano. Quem pensava Han que era? Mas não queria, nem podia comprar uma discussão naquelas circunstâncias. Mesmo empunhando o bastão elétrico e sendo o único dos quatro que se encontrava armado, continuava a sentir-se despido, vulnerável e inquieto. Sussurrou para o androide:

— Vigia a retaguarda.

— Oh, general Calrissian – estremeceu o androide –, não saberia como…

— Basta olhares por cima do ombro, de vez em quando.

— Já o estou a fazer, general. Os meus circuitos não se encontram totalmente sossegados.

— Ótimo! Então estás a fazê-lo corretamente.

— Estou? Ah, mas isso…

— Vigia calado. Queres, Threepio?

O mercenário estacionou junto a um armário saliente. Digitou um código sumário utilizando três teclas e a porta deslizou para cima, entrando na ranhura do lintel. Apareceu um espaço acanhado munido de prateleiras desengonçadas. Os seus blasters e a besta laser artesanal estavam, efetivamente, ali. Han deu outro empurrão ao mercenário e recuperou a sua pistola laser DL-44 modificada. Entregou a besta laser a Chewie e a segunda pistola a Lando que a recebeu com a mão esquerda, mantendo o bastão na outra mão apontado ao mercenário que os olhava de baixo para cima, a morder os lábios, a engolir o orgulho ferido, com uma evidente vontade de os atacar ao murro e pontapé, pouco se importando com a sua desvantagem.

— Bem, amigo. Obrigado pela tua colaboração – ironizou Han, apontando-lhe o blaster. – É aqui que nos separamos. Vai à tua vida. Nós não contamos ao Tomason que foste enganado e que deixaste os prisioneiros escapar.

— Não precisas de contar. Ele sabe.

O corelliano endireitou as costas, confuso. Torceu o rosto numa careta entre o incrédulo e o zangado. Ia para disparatar, mas de certo modo, as palavras não lhe atravessaram a garganta. Havia uma espécie de pressentimento que lhe cortou o verbo, que lhe amoleceu a vontade.

— Larguem as armas, corja de inúteis!

A voz de Yur Tomason disparou uma série de arrepios pelas costas de Lando Calrissian abaixo. Rodopiou nos calcanhares. O taanabiano apontava-lhes uma espingarda laser E-11 desde o fundo do corredor, onde a passagem se bifurcava. Estava longe, mas não se devia subestimar a sua mira. Bastava ferir um dos membros do grupo e o descalabro roubaria o sangue-frio daquela empreitada num instante de desorientação. Lando fuzilou Threepio com o olhar – era suposto o androide estar a vigiar a retaguarda! E falhara redondamente.

Han abriu os braços e disse alto:

— Tomason! Deixa-nos ir! Tu não queres ter-nos como prisioneiros! Somos demasiado… valiosos e iríamos criar-te mais dissabores do que alegrias.

— Quero experimentar.

Assobiou para o seu mercenário, instando-o a recuperar o bastão elétrico e as armas dos prisioneiros. O homem deu um passo em frente.

Um enorme rugido reverberou pelo corredor. O wookie fartara-se daquela situação e não desejava que lhe confiscassem a sua querida besta laser artesanal pela segunda vez. Disparou um tiro para o teto que encheu o ar de faíscas vermelhas. O rebentamento assustou todos que se lançaram ao chão. Menos o mercenário. Menos Tomason. Com uma forte pancada dada com o seu braço esquerdo, Chewbacca derrubou o mercenário, deixando-o inconsciente antes que o seu corpo mole tocasse no chão.

Aproveitando o ataque inesperado do wookie, Lando moveu-se por instinto e por raiva. Dois passos, um salto, gritou e encostou a ponta eletrificada do bastão no peito do taanabiano, estava este ainda a tentar recuperar da surpresa do súbito arranque de fúria do copiloto do corelliano. Tomason foi empurrado para trás, de boca escancarada e tombou também sem sentidos com um baque surdo.

— E agora? O que fazemos, general Solo? – perguntou Threepio assustado.

— Chewie! Carrega com o Tomason!

O wookie avançou para recolher o corpo desmaiado. Lando recebeu uma palmada amigável no ombro. Estava ofegante e a tremer, a adrenalina a esvair-se do sangue. Pestanejou.

— Lance excelente, Calrissian.

— General Solo! – protestou Threepio de braços dobrados pelas juntas dos cotovelos. – General Solo, não me parece que levar connosco o líder dos mercenários que operam esta fábrica clandestina de clonagem me pareça uma boa ideia.

Han espetou um dedo na cara do androide.

— Levamos o Tomason e vamos para a Falcon. Ele é o nosso bilhete de saída desta maldita lua. Não admito contestação à minha autoridade.

— General Solo…

E sem mais, os dois humanos, o wookie a carregar com o terceiro humano e o androide abandonaram a fábrica numa corrida em direção ao planalto onde se encontrava pousada a sua nave de fuga.

Notas finais
Próximo capítulo: Agressão e combate.