— O que é que se está a passar aqui?

Han voltou a exigir, voz rouca num berro, a pistola laser a tremer-lhe na mão. Apontava a arma ao humanoide desconhecido que lhe sorria de uma forma deslavada, porém bastante ameaçadora no seu conceito. Daqueles sorrisos mesquinhos que escondiam um teor assassino e intenções malignas. Tinha encontrado muitos na galáxia, que se fingiam seus amigos com rostos semelhantes e não o iriam enganar.

— Han!

A voz de Leia quebrou-lhe um pouco a concentração. Chewbacca rosnou nas suas costas e depois vieram os rangidos das juntas do androide dourado e os arquejos impossíveis do seu processador de voz à medida que ele completava a travessia da galeria sombria.

— Oh céus! Oh céus!

A cúpula do astromec girou, o seu óculo acendeu-se e Artoo emitiu um pio agudo. Os dois androides juntaram-se numa cacofonia de monossílabos e de silvos. Foram ignorados pelos demais.

— Han – pediu a princesa, mostrando a mão esquerda. A direita estava presa na garra esquelética de Bekbaal. – Han, está tudo bem.

— Não me parece que esteja tudo bem. Por que razão não me responderam, se está tudo bem? Luke!

— General Solo – disse o Jedi num tom solene –, estamos na presença digna de Tir’etakion, o mordomo da casa real de Hkion. Um cumprimento é obrigatório.

— Não vou cumprimentar ninguém! – cuspiu o corelliano agastado. – Esse tipo não me parece amigável, Luke. E se é um daqueles aristocratas deste lugar maldito, não são de confiar. Essa gente anda a esconder atividades criminosas da Nova República, e, por aquilo que aqui vejo, fizeram-vos prisioneiros. Está um exército de clones lá fora que querem as nossas cabeças e só conseguimos chegar até aqui porque o Lando e o Tomason têm boa pontaria e os dois príncipes concordaram em ajudar o Tomason.

— Os dois… príncipes? – murmurou Luke. – Eles estão juntos?

— Sim, estão juntos.

O grito de Leia capturou-lhe a atenção. Han fez girar o cano da pistola laser para fazer face a essa ameaça e viu-se a fazer pontaria ao peito ossudo do velho que arrastara a princesa para junto de Luke. Um fantasma da névoa particularmente gigantesco pairava ululante sobre ela, arrastado pela vontade do velho que o controlava a agitar os dedos.

Escutou-se um tropel de passos na galeria e passados alguns segundos-padrão entraram Lando e Tomason na sala. Estavam suados, cansados e excitados. As suas armas fumegavam.

O socorriano contou, numa respiração pesada:

— Os clones cercam o palácio! Não vamos poder aguentar por muito tempo. São demasiados. Os soldados dos príncipes foram dizimados junto ao portão que conseguimos fechar, mas não sabemos por quanto tempo se vai manter fechado. E nós não vamos suportar o cerco e a investida, Han. Estamos encurralados. E não nos podemos esquecer do cruzador estelar. Se o palácio cair, entram os imperiais!

— Detesto dar-lhe razão… mas o Calrissian está certo, Solo – completou Tomason e limpou a testa molhada. – A nossa situação é muito má. Não costumo ser tão pessimista, mas… estes são os factos. Gosto de factos. Sou um homem prático.

Han ignorou toda a sensatez. Puxou pelo mordomo por uma manga, trouxe-o até si e encostou-lhe o cano da pistola na testa.

— Foi ele que deu a ordem. O exército dos clones está a atacar a capital porque ele quer usurpar o poder. E nós, por acaso, estamos no meio desta trapalhada.

— O poder legítimo pertence-lhe, Han – anunciou Luke.

— Temos os príncipes do nosso lado. São eles os verdadeiros herdeiros de Hkion.

— Han…

— Velho, solta a princesa – exigiu Han, num rosnado. – Chewie, o velho é teu. E tu, mordomo, retira a ordem de ataque e tudo se poderá resolver.

O wookie apontou a besta laser artesanal ao velho que se mantinha inexpressivo, a manietar Leia que mordia os lábios, apreensiva e tentava não se mostrar demasiado vulnerável, embora fosse notório que o pulso lhe estava a doer.

— Bekbaal já está morto, Han – disse Luke.

— O quê?!

— Agora, dependemos dos fantasmas da névoa.

— Para quê?

— Só os fantasmas poderão derrotar os clones.

— E do que é que estamos à espera?

— Do encerramento do ciclo.

— Para de falar por enigmas, Luke! Caramba, miúdo! Um tiro certeiro e terminam os nossos problemas. Eu vou matar o mordomo…

— Um blaster é uma arma deselegante e a tua impaciência não é o que precisamos neste momento, meu amigo – interrompeu Luke com um pequeno sorriso.

Entraram os dois príncipes na sala, lado a lado e como se o outro não existisse. Mãos atrás das costas, majestosos, elegantes, recobertos de altivez e brio, que eles usavam como mais uma peça de roupa.

Tir’etakion encolheu-se e sacudiu-se com um espasmo. Han sentiu que ele queria fugir-lhe e capturou-lhe o braço, esmagando o músculo num aperto. Deu-lhe uma pancada na testa com o cano da pistola que afundou na pele, como se quisesse chegar ao osso do crânio.

— Onde vais? Estás com medo dos teus soberanos?

— Não tenho medo deles – retorquiu o mordomo, falando pela primeira vez. – Eles foram criados por mim. São clones. São bonecos animados de falsa vida. Tão artificiais como os vossos androides. Vazios por dentro, sem memórias e sem passado. Cascas. Instrumentos que manobrei e que continuarei a manobrar.

Kar’kion e Gil’kion pareceram não ter escutado qualquer palavra. Em gestos idênticos, retiraram das dobras dos seus ricos casacos bordados com fio de ouro duas adagas que seguraram na mão direita e esquerda, respetivamente. Tir’etakion voltou a agitar-se, Han deu-lhe outro puxão.

— Se eu morrer, eles também morrem! – exclamou o mordomo alucinado, os olhos cheios de ódio injetados de sangue. – São clones. Têm um tempo limitado de vida determinado pela minha própria existência. Se acabarem comigo, a bomba incorporada no seu esqueleto ativa-se e eles explodem dentro de duas horas-padrão.

— Estás a enganar-nos. É mentira! – gritou Han a ficar mais nervoso.

— Queres comprovar a minha teoria? E vocês todos rebentam juntamente com os príncipes. O exército dos clones irá cercar-vos, não poderão sair desta sala e depois, findo o tempo, serão consumidos pelo fogo da explosão. Não há escapatória. E eu venço. Eu vencerei sempre!

O corelliano engasgou-se, entre a raiva e a perplexidade.

Luke ordenou com uma autoridade inédita:

— Han, liberta o nobre Tir’etakion! O destino está traçado. Que a Força esteja com todos nós.

— O que queres dizer?

— Han!! – gritou Leia.

Então, Han obedeceu, contrariado e irritado. Encostou o punho esquerdo crispado aos lábios, manteve o mordomo na mira da sua pistola laser, praguejou de forma inaudível.

Os dois príncipes avançaram e cravaram as adagas no peito do mordomo.

Tir’etakion, porventura, nunca julgaria que o desfecho pudesse ser esse. Os seus olhos tornaram-se vítreos do ódio e da surpresa, acusando o crime, tentando uma derradeira defesa, uma última acusação, agarrando-se à sua chantagem e ao seu logro. O seu manto dourado caiu pesado no chão, o seu corpo esfumou-se como sucedia com aqueles que se uniam à Força.

Uma estridência penetrou-lhe nos tímpanos e Han cobriu os ouvidos com as mãos, assim como o fizeram Lando e Tomason, Luke e Leia. Chewbacca urrou bestialmente. Quando o corelliano entreabriu as pálpebras notou que Bekbaal havia desaparecido e que os fantasmas da névoa reuniam-se em redor de Luke e formavam uma cúpula protetora, isolando o Jedi que recuperava a sua postura. Leia estava livre e ele correu a abraçá-la. Beijou-lhe os cabelos.

— O que foi que aconteceu? – sussurrou, perdido e cansado.

— Acho que vencemos – disse Lando, confuso.

Notas finais
Próximo capítulo: Possível e impossível.