A Millenium Falcon ignorou avisos e pedidos de identificação. Simplesmente penetrou no espaço aéreo da capital, usou o vetor de voo que achou mais adequado e, silenciando todas as advertências, aterrou no espaçoporto que se achava mais próximo. Não aconteceu nada de extraordinário – o cargueiro não foi intercetado por veículos de vigilância e o pouso na pista aconteceu até com relativa facilidade.

A carlinga animou-se, com toda a gente a levantar-se dos respetivos assentos, em grande excitação. Todos menos um…

— O que fazemos com ele? – perguntou Lando, apontando para o taanabiano.

Tomason adiantou-se e respondeu, contorcendo-se na cadeira, preso pelo cinto de segurança:

— Levem-me com vocês! Serei útil.

Han torceu a boca.

— Útil? Assim que te deixarmos uma arma nas mãos, vais trair-nos.

— Não! Não. – Tomason baixou a voz, após respirar fundo. Tentava soar convincente. – Não. Oiçam, não me quero ver envolvido com os imperiais… Agora, com a Nova República a mandar na galáxia, ficaria com a reputação manchada. Percebem? Dêem-me uma chance.

— A mesma chance que irias dar ao Lando?

— Podemos conversar quando isto terminar.

— Estás a negociar a tua situação? – espantou-se Han. – É preciso ter descaramento.

— Sou um comerciante, é claro que estou a negociar a minha situação, Solo!

O corelliano espetou um dedo.

— É general Solo para ti, Tomason!

— Levem-me com vocês! Se está a acontecer um ataque há militares nas ruas, um cerco ao palácio, qualquer situação típica de uma sublevação civil. Vocês são dois, mais um wookie e um androide.

— E contigo seremos três – contrapôs Lando, trocista, de braços cruzados. – As nossas probabilidades não aumentam assim tanto.

— Chewie, solta-o. Ele vai connosco – disse Han e saiu da carlinga.

O socorriano seguiu-o, indignado.

— O que estás a fazer? Agora vais confiar no Tomason?

— Quero chegar depressa junto de Leia. Não quero questões menores a atrapalhar-me o caminho.

— O Tomason não é uma questão menor. É nosso inimigo e iria lucrar com a nossa captura sem pensar duas vezes! Nós éramos prisioneiros dele, caso te tenhas esquecido. Ele vai trair-nos. Eu sei que vai. Assim que encontrar a oportunidade, vai virar-se contra nós. Ele tem andado a negociar com o mordomo de Hkion. Quando chegar a altura de escolher, quem achas que os de Hkion irão proteger? Nós, que somos clandestinos, que somos amigos do Jedi que eles odeiam, que andamos a cheirar os seus assuntos internos? Ou o Tomason, com quem têm andado a fazer dinheiro e a ganhar prestígio?

— Gostei do que ele disse – revelou o corelliano, encolhendo os ombros, numa indiferença estudada. – E como nunca me fiei nas probabilidades do que quer que seja…

— Ah! Então! Continuaremos em inferioridade numérica… mesmo com o Tomason teoricamente do nosso lado.

— Lando, estás a ficar intratável como aquela lata amarela. Será que te podias calar?

— Peço perdão, general Solo – insurgiu-se Threepio. – Não me considero intratável. Estou programado para as relações entre humanos e os ciborgues, pelo que ser intratável é uma configuração que vai contra claramente a minha diretiva primordial…

O corelliano passou pelo androide, ignorando aquele discurso que era suposto ser informativo, mas que se tornava irritante com cada palavra proferida, pois era descabido que uma máquina se mostrasse indignada ou sequer suscetível.

A pista de aterragem estava deserta, sem ninguém à vista, envolvida num sossego artificial. Han olhou para Threepio, ia perguntar-lhe onde estavam os sinais daquele ataque que ele havia reportado mais cedo, mas desistiu da discussão. Só iria perder tempo. Mais valia confirmar tudo com os seus próprios olhos.

Puseram-se a caminho, Han, Lando, Chewbacca, Tomason e Threepio. Atravessaram corredores e portas, rebentando com as fechaduras a tiros laser para poderem passar ao nível seguinte. O taanabiano também se munia com um blaster que lhe fora dado pelo wookie com um aviso em forma de rosnado troante que Tomason achou por bem não rebater. Ele evitou usar a arma naquela fase inicial, para que não lhe apontassem que mais cedo ou mais tarde ele seria o traidor anunciado. Não gostava da companhia, mas também não queria dar razão ao corelliano. Um dilema. Por enquanto, sobrevivia.

Fora do espaçoporto, as ruas também se apresentavam vazias. A calmaria era quente e húmida, o ar agarrava-se como gosma pegajosa às roupas e à pele descoberta, dos rostos e das mãos. Não se via ninguém, nenhum habitante, qualquer veículo. Um cenário fantasmagórico e assustador.

Levantando a cabeça, para lá dos telhados escuros das casas dos bairros da zona baixa da capital, Han lobrigou a colina e o complexo palaciano. Havia uma névoa azulada que envolvia os edifícios, mas ele não era capaz de discernir se derivava do calor saturado ou se seria o tal ataque dos fantasmas da névoa. Era um véu ondulante, uma capa transparente e não se viam vultos ou contornos de criaturas, como seria de esperar de um exército composto por espíritos que tinham sido, em tempos, humanoides.

Han levantou um braço e mandou o grupo avançar. Ao dobrarem uma esquina, o corelliano, que seguia na dianteira e uns passos mais à frente, estacou e de seguida recuou num enorme salto. Uma barragem de fogo varreu a rua e Threepio gritou.

— Por ali não podemos seguir – constatou o corelliano, carregando o seu blaster para estar pronto para disparar.

Lando revirou os olhos com aquela observação medíocre.

— Claro que por ali não podemos seguir. É óbvio que está ali alguém que não gosta de nós. Também vimos os disparos. O que se passa?

— Soldados.

— Imperiais?

— Devem ser as tropas leais ao mordomo – informou Tomason segurando na sua arma com força, erguendo-a à altura do peito, dedo sob o gatilho. Sentia uma comichão irresistível para disparar. Continuou: – Se o palácio está sob ataque, o mordomo deve ter mobilizado o exército para defendê-lo. Ou para tomá-lo de vez. Segundo ouvi dizer, nuns boatos de cantina, o mordomo pretende ser legitimado no trono de Hkion. O cruzador estelar do Império estará por perto para assegurar essa transição de poder.

— Oh céus! Oh céus! – lamentava-se alto o androide.

O wookie rosnava impaciente. Han disparou uma saraivada de tiros para dissuadir o avanço dos soldados e para parar com o fogo ininterrupto que estavam a despejar sobre eles. Espreitou brevemente, de trás da esquina e recolheu-se encostando-se à parede.

— São os teus homens, Tomason? – perguntou entre dentes, numa ironia azeda.

O taanabiano assentiu.

— Sim, são clones. O mordomo serve-se dos clones que estão a ser fabricados na lua Apon One para ir engrossando o exército de Hkion. Não sei até que ponto os aristocratas do sistema estão ao corrente do empreendimento, sempre tratei diretamente com o mordomo e nunca quis falar com outros nobres. Os ricos aborrecem-me…

— Mas tu queres ser rico – observou Lando, num tom ácido.

— Eu sou rico, Calrissian.

— E os dois príncipes que disputam o trono? – insistiu o corelliano. – Também desconhecem que estão a criar um exército massivo de clones para declarar guerra à Nova República?

Yur Tomason rasgou um sorriso trocista.

— Os dois príncipes?

— Sim. Kar’kion e Gil’kion.

— Esses são clones também! – anunciou o taanabiano orgulhoso dessa informação. – Uma encomenda especial do mordomo. Tir’etakion convocou-me à capital numa noite de tempestade. Jamais esqueci essa noite. As forças ocultas e misteriosas do planeta estavam despertas. Havia um medo estranho, uma presença… como agora. – E estremeceu ao dizer aquilo. Recompôs-se. – Pediu-me discrição. Eu fiz o que o mordomo me pediu. Criei os dois clones e entreguei-os nas suas respetivas cápsulas. Simples mercadoria. – Encolheu os ombros, mas notou-se que disfarçava um segundo arrepio.

— Maldito! O que andaste a fazer aqui, Tomason?

— O que foi, Calrissian? Foram negócios. Já o disse! Fizeram-me uma encomenda, eu fiz o fornecimento e recebi o meu pagamento. Qual é a diferença quando era contrabando de especiarias?

— São… clones. Essa tecnologia foi proibida na galáxia depois da Guerra! Imbecil!

— Calados! – pediu Han. – Por ali não podemos seguir. Vamos ter de encontrar um novo caminho para chegar ao palácio. E agora a nossa missão é ainda mais urgente. A Leia precisa de ter estas novas informações. Chewie!

O corelliano e o wookie desataram a correr, obrigando os outros a acompanhá-los na mesma marcha forçada. O androide incluído, que gemia num registo similar ao pânico, que esperassem por ele.

Notas finais
Próximo capítulo: Identidades escondidas.