Os Exilados de Nothridame
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Depois do estranho telefonema que Julie tinha feito ao número que, teoricamente, pertencia a Harry, o restante da semana se desenrolou de forma tranquila, fazendo com que os moradores da casa já tivessem estabelecido uma nova rotina depois da chegada da nova garota.
No dia seguinte após o incidente do telefone, Julie decidiu conversar com o próprio Harry sobre o ocorrido.
— Oh, eu devo ter lhe dado o número errado! – disse, tentando não parecer envergonhado. – Que tipo de homem dá um número errado para a garota que ele está afim? – tentou disfarçar falando qualquer coisa, mas as palavras que saíram da sua boca não foram o que ele esperava.
Na mesma hora, Julie ficou com as bochechas coradas e sem reação.
— Quer dizer, eu... Não que eu... – Harry começou a gaguejar, numa tentativa de “consertar” o que ele tinha dito.
— Sabe, tem um jeito de você recompensar pelo pequeno “mal-entendido”. – flertou ela.
— Ah, é? E o que seria? – ele correspondeu ao flerte.
— Você pode me levar para tomar um café ou chá...
— Depois da aula, seria maravilhoso. – respondeu Harry com um sorriso radiante.
— Sim, seria. – sorriu também. Sem pensar duas vezes, Harry se aproximou dela e deixou um delicado beijo na sua bochecha e, depois, foi embora.
— Ele está tão na sua! – exclamou alguém atrás de Julie. Esta se virou e se deparou com Mary fingindo estar pegando um livro dentro de seu armário, quando na verdade, estava observando o casal.
— Você precisa melhorar muito sua técnica de espionagem. – comentou Julie, sem conseguir se conter de animação. – Eu sei!! – as duas amigas comemoraram como se ainda estivessem no ensino médio.
— Você é tão sortuda! Ele é tão fofo! – exclamou Mary.
— Eu sei! – soltou um gritinho de excitação – Mas não se preocupe, o seu homem está em algum lugar esperando por você.
— Que o universo te ouça!
O sinal tocou assim que Mary acabou de falar. Assim, as duas moças se despediram, pois teriam a última aula em salas diferentes. No momento em que Julie entrou na sala, os ponteiros do relógio pareceram desacelerar, chagando a dar a impressão de que estavam, praticamente, parados. O tempo demorou a passar e, por mais que ela tentasse prestar atenção na aula, a voz da professora parecia leva-la a uma outra dimensão onde só existia ela e Harry, juntos, para sempre.
Quando, finalmente, o último horário de aula chegou ao fim, Julie foi logo em direção à entrada do prédio de literatura, onde a galera geralmente se encontrava antes de ir embora. Como já esperava, Melanie, Nicholas, Nora e o resto do pessoal estavam lá conversando. Ela se aproximou do grupo na esperança de encontrar Harry, porém ele não se encontrava lá.
— Hey, por acaso, algum de vocês viu Harry por ai? – Julie perguntou.
— Eu vi ele saindo ainda no começo do último horário. – respondeu Melanie. – Mas, não sei para onde.
— Ok, valeu. – falando isso, se afastou do grupo indo em direção à saída.
Sentia-se estranha, com um embrulho na barriga; primeiro, o número do celular e agora isso. Será que ele estava brincando com os sentimentos dela? Afinal, Julie havia motivos para desconfiar de garotos; seu último relacionamento não terminou bem por causa, justamente, de uma mentira. Por outro lado, uma parte pequena de seu ser, apesar de tudo isso, dizia que era bem provável que houvesse uma boa explicação para o que estava acontecendo. Ela só não sabia no que confiar.
Ainda dentro do campus, Julie se esbarrou com alguém.
— Está atrasada. – disse Henry, um pouco ríspido.
— O quê? – disse ela, confusa.
— Sr. Evans vai receber uns colegas de trabalho em casa, esqueceu?
— Eu tinha me esquecido completamente! – na mesma hora, ela acelerou o passo e Henry ficou para trás. Notando isso, ela retornou. – Se eu estou atrasada, então você também está.
Henry sorriu, irônico.
— Certo. – e simplesmente, saiu caminhando em outra direção.
— Aonde está indo? – indagou ela, mas ele não a respondeu. Soltou um gruído de raiva, até porque o Sr. Evans havia requisitado todos, sem nenhuma exceção ou desculpa, para estarem em casa durante o evento.
Julie revirou os olhos percebendo que nada o faria mudar de ideia e ir para casa, e já voltara a caminhar em direção à saída quando, de repente, seu corpo todo congelou. Uma força interior mais forte que sua própria consciência a fez mudar de curso e só tarde demais percebeu que estava seguindo Henry, esforçando-se para que ele não a notasse. Ele andava distraidamente e, sem que Julie tivesse conhecimento, estava indo em direção ao mirante no qual eles se encontraram pela primeira vez. Provavelmente, a garota não percebeu aonde Henry iria por causa do caminho que ele estava tomando; era um atalho que passava pelas florestas de pinheiro.
A temperatura começou a baixar na medida em que eles adentravam na floresta e as horas se passaram. Julie não pôde deixar de apreciar o quanto aquelas altas e imponentes árvores a deixavam com uma sensação de bem-estar; Julie sempre fora uma admiradora da natureza e aquele cenário a deslumbrava.
— Você é uma péssima espiã, você sabe né? – Henry fez um comentário depois de abandonar a ideia de fazê-la se perder na floresta.
No primeiro momento, ela ficou sem reação, sendo pega de surpresa. Podia jurar que ele não notara a sua presença ali.
— Desde quando você soube que eu o estava seguindo?
Ele queria dizer desde que saíram da escola, mas acabou falando:
— Há pouco tempo.
— Você vem muito aqui? – perguntou Julie, tentando mantê-lo falando.
— Algumas vezes. – disse, dando de ombros.
— Para onde estamos indo?
— Você verá. – e assim, a conversa acabou.
O casal andou por mais alguns minutos até chegarem no mirante. Henry colocou a mão dentro de uma rachadura da parede de pedra da estrutura e tirou de lá uma chave que destrancou a porta de madeira que dava acesso ao mirante. Ele entrou e, logo em seguida, Julie fez o mesmo. Do lado de dentro, estava frio, úmido e escuro, porém Henry deu fim nisso ao acender a lareira. Julie somente a percebeu quando foi acessa e ficou agradecida por ela existir. O ambiente logo foi recebendo a claridade e o calor das chamas, forçando tanto Henry quanto Julie a tirarem seus sobretudos e os pendurarem nas cadeiras de madeira ao redor da lareira. Eles se sentaram e ficaram em silêncio por alguns segundos.
— Por que você usa óculos de sol todo o tempo? – ela finalmente perguntou. Sabia que, provavelmente, era uma questão delicada, mas não conseguiria ficar mais um dia com aquela dúvida em sua cabeça.
Ele ficou sério por um momento, reação já esperada por Julie e, assim que ela percebeu, se arrependeu de ter perguntado sobre isso, mas antes que pudesse se desculpar, Henry explicou:
— Eu tenho uma doença rara de sensibilidade à luz solar. Ela também deteriora minha íris.
— Como assim?
— Aos poucos, a cor do meus olhos vai ficando mais clara até o momento... – ele parou de falar. Julie esperou para que continuasse. – Bom, os médicos não sabem dizer ao certo o que vai acontecer.
— E a sua visão? Ela é prejudicada? – indagou.
Ele riu, como se o que ela acabara de falar fosse uma piada.
— Não, não. Por incrível que pareça, eu tenho uma visão privilegiada. – disse, ainda com um sorriso no rosto. – Agora é a minha vez de fazer perguntas.
— Ok, parece justo. – concordou Julie.
— O que diabos você veio fazer aqui?!
— O que disse? – ela ficou atônita por um momento devido a mudança brusca de humor do rapaz.
— Você só vai causar problemas! – exclamou, indignado.
— Do que você está falando? – perguntou confusa. Do nada, Henry explodiu para cima dela como se ela fosse culpada por tudo de ruim que acontece no mundo. – Você quer dizer aqui, no mirante?
— Sr. Evans vai ficar tão puto... Você nunca viu ele assim, nem quer, vai por mim. – disse ele.
— Mas você também não ia para o jantar! – rebateu.
— Isso não é da sua conta! Saia daqui! Você precisa sair daqui agora! – Henry levantou da cadeira e praticamente gritou as palavras na cara dela. Mesmo estando de óculos escuros, Julie teve a certeza de que ele olhava dentro de seus olhos.
Ela ficou estática por poucos segundos, encarando-o, antes de pegar seu casaco e sair dali sem olhar para trás. Foi, então, que percebeu o quão escuro já estava e que não fazia ideia de que horas eram. Depois que seu sangue esfriou, Julie pensou e percebeu que Henry até que poderia ter razão: essa situação causaria um problema.
Sem saber ao certo qual caminho tomar, Julie tentou ligar para Art, quem dava a impressão de ser o mais responsável e quem poderia livra-la de se perder na floresta. Ele atendeu a ligação e disse que estaria ai num instante, sem fazer nenhuma pergunta.
Uma nuvem densa cobriu a lua cheia por alguns segundos, deixando a floresta de pinheiro no breu. As corujas pareceram festejar a escuridão repentina, pois seus grunhidos aumentaram de volume e os grilos corresponderam com suas cantigas incessantes, chegando a ser irritante. Num dado momento, todos os seres vivos que ali viviam formaram uma orquestra que preencheu o espaço de forma impressionante; sincronizado ou não, aquilo era a música da vida. Só algo estava fora de sintonia com o restante da floresta: passos constantes e provocando um barulho cada vez mais alto, como se estivesse se aproximando da garota.
— Você está bem? – perguntou Art, assim que se encontrou perto o suficiente para Julie ouvi-lo.
— Sim, sim, eu estou bem. – respondeu afagando as mãos contra os braços, indicando que estava com frio.
— Henry está ai dentro? – indagou ele, apontando para o mirante. Julie apenas fez que sim com a cabeça. – Ok.
Logo em seguida, Art abriu a porta, entrou dentro do recinto e, depois, a fechou.
— Você enlouqueceu de vez?! – exclamou o menino, torcendo para que as paredes de pedra isolassem o som suficientemente para quem estivesse do lado de fora não ouvisse.
— Eu não sei o que está acontecendo comigo. – revelou Henry, tirando o óculos e revelando seus intensos olhos cor verde-claro. Art notou que seu primo estava tenso, preocupado e arrependido.
— Bem... – ele pensou antes de falar. O que queria dizer era: “eu sei exatamente o que está acontecendo”, mas falou: — Por favor, prometa-me que isso não vai se repetir.
— Eu vou tentar, mas você sabe que não depende apenas de mim, não é?
— É, eu sei. – admitiu, depois de um longo suspiro.
— Então, como vai a festa? – perguntou Henry, segurando a risada.
— Papai está tão furioso com você! – disse, tentando não rir.
— E quando ele fica furioso...
— É melhor você se proteger, porque, se não, os móveis podem acabar voando em você! – completou Art, já se contorcendo de rir.
Subitamente, a porta de abriu num estalo.
— Que conveniente para os dois, protegidos por uma muralha de pedra com uma lareira para aquecê-los e, olha só, ainda por cima contando piadas! Enquanto, estou sozinha do lado de fora no frio!
Os dois menino cessaram a risada no mesmo instante.
— Você está certa. – disse Art. – Sentimos muito. – ele olhou para Henry que, sem que ninguém percebesse, já havia recolocado os óculos escuros, mesmo estando de noite. – Acho melhor irmos embora para casa.
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