Os Espiões
2 Os Espiões: "Cilada" - II
― Fique calmo. ― Christian assentiu com as mãos. ― Apesar da casa está lotada até o teto de explosivos, ainda não é motivo para entrarmos em pânico...
― Nós vamos morrer! ― O ruivo o interrompeu aos gritos. ― É o fim!
― Pare com isso. Do jeito que está, vai acordar os outros e eles podem acabar ativando alguma das bombas. ― Explicou, girando o corpo e observando a escadaria para o andar superior. ― Precisamos ver se estão bem, mas sem assustá-los.
Matt não conseguia fazer mais nada a não ser ficar dando voltas no piso amadeirado da cozinha. O moreno, respirando profundamente, engoliu seco e tentou dar um passo sobre o carpete para ter mais visão dos degraus. Assim que encostou os pés no chão, sentiu que algo estava sob o tapete, acoplado nas plumas caramelizadas. Içou o pé novamente e voltou a posição anterior.
― O que foi?
― Tem sensores de movimento pelo tapete. Se eu acionar algum deles...
― Não termine, eu já sei: a gente morre! ― Ambos pararam para raciocinar. ― O que a gente vai fazer?
― Antes de tudo, acordar os outros. ― Ele se virou para os lados e começou a chamar pelos amigos. ― Jill! Pype! Johnny! Acordem!
*
Ela sentiu sua cabeça palpitar pesadamente quando parecia escutar gritos do seu nome. A mulher latina, com grandes cabelos negros encaracolados que caiam até o meio de suas costas, tinha extravagantes olhos pretos que se mantinham fechados e estava usando um grande e formal vestido preto de alças.
Era Jiulia. Abriu o olhar em sinal de agonia. Sua cabeça doía muito, seus reflexos estavam tontos. Quando deu por si, estava deitada com as costas próximas ao vaso sanitário, dentro do banheiro. Surpresa, olhou em volta e avisou alguns pontos vermelhos que brilhavam e davam apitos quase que mudos.
― O que é isso? ― Murmurou, tentando se mexer. Porém, ouviu um grito vindo da sala e cessou os movimentos.
― A casa está cheia de bombas! Não façam movimentos bruscos, qualquer esbarrão nestes dispositivos e viramos churrasco!
― Chris? ― Ela reconheceu a voz. ― Chris, o que está acontecendo aqui?
― Jill, onde você está? ― Matt retornou o grito, preocupado.
― Acho que no banheiro... Mas me sinto drogada e, quando estou assim, não sou muito confiável.
― Você viu as bombas? ― Perguntou o moreno.
― Sim. Estão sobre o piso, nas paredes, na pia, no espelho e sobre o sanitário. Não consigo ver se do outro lado do box tem, mas eu não vou tomar banho a essa hora da manhã... ― Ela logo emitiu um pequeno sorriso de alivio quando olhou para a porta. ― Parece que esqueceram de colocar uma na porta...
― Tudo bem. Fique aí por enquanto, vamos ver se os outros estão bem. ― Disse Christian.
Jiulia observou em volta para ver sua atual situação. Próximo a suas pernas, não havia bombas. Na parede, perto da sua cabeça e atrás de suas costas, também parecia não ter. No entanto, abaixo do pano do seu vestido que recaía sobre a cerâmica, eram notados vários pinos brilhantes.
― Ótimo... Me arrependi de ter comprado este vestido tão longo!
*
Repousada sobre os lençóis claros de uma cama cumprida e mal forrada, encontrava-se uma moça pálida desmaiada. Seus cabelos curtos e loiros estavam espetados como uma peruca de palhaço. Ela usava um short azulado fofo e uma blusa de manga rosa com estampa de flores. Esse era seu pijama.
De repente, Pype sentiu um tremor percorrer os seus braços. Um som extremamente irritante ecoou por sua mente, a obrigando a acordar. Lentamente, abriu os olhos azulados com um longo bocejo. Queria alongar os braços, mas eles estavam paralisados pelo mal jeito que dormiu, sob o travesseiro de plumas.
Olhou para o lado sem se movimentar muito e viu que o som vinha do seu despertador.
― Já são oito horas? Preciso me levantar!
Junto com os gritos vindos do andar inferior, ela notou as coisas brilhantes sobre todos os móveis do quarto. Sua cabeça ainda estava encostada ao travesseiro, e girando os olhos, percebeu que laser saiam das plumas e se direcionavam a diversas áreas do quarto.
― Isso só pode ser brincadeira...
Um rapaz chegou de uma vez até a porta de seu quarto, que estava aberta. Ele era pálido, alto e musculoso. Possuía olhos castanhos, cabelos loiros quase raspados e era cheio de cordões no pescoço. Ele mantinha-se firme na parede, com suas mãos o prendendo a uma altura relativamente boa das bombas no piso. Assim que achou espaço para os pés, desceu.
― Johnny? ― Ela reconheceu o loiro.
― P.P.? ― Era assim que ele a chamava. ― Você está bem?
― Vou ficar se me ajudar a sair daqui.
― Tudo bem. O que quer que eu faça?
― Consegue ver alguns raios avermelhados que estão saindo do meu travesseiro?
― Sim.
― São lasers que se ativam pelo movimento. Ou seja, se eu tentar me levantar e esbarrar em qualquer um desses reflexos, viramos frango assado. ― Explicou. ― Preciso que você me avise onde estão as luzes para que eu possa desviar delas e sair da cama.
― Tá legal, só que eu vou merecer um beijinho, não? ― Ela o lançou um olhar assassino e ele retirou o que disse. ― Só toma cuidado quando descer. O chão está lotado dessas coisas também!
Após um longo suspiro para lhe dar forças, Pype levantou o pescoço cuidadosamente e, com as dicas do amigo, conseguiu levantar a cabeça sem incidentes. Voltou sua atenção para seus braços, que ainda se encontravam abaixo do travesseiro. Para retirá-los, ela sabia que poderia, sem querer, ativar uma das bombas por movimento.
― Se isso não explodir, eu prometo invadir menos computadores!
A moça puxou os braços rapidamente e segurou o travesseiro para que ele tremesse o mínimo possível. Felizmente, saiu inteira depois daquilo e abriu um largo sorriso para o amigo que continuava na porta.
― Será que pode ser mais rápida? Eu preciso ir ao banheiro! ― Johnny reclamou.
― Não vai dar! ― Ele escutou um grito de Jiulia do andar inferior. ― Está ocupado!
― Termine logo, então. Ou terei que mijar no tapete da sala. ― Retrucou.
― É melhor não tentar fazer isso. ― Dessa vez, quem comentou foi Christian. ― Ele está repleto de sensores de movimentos. Como estão vocês dois, aí em cima?
― Tirando a minha vontade de ir ao banheiro, tá tudo bem.
― “Tá tudo bem”? ― Repetiu Pype, lançando-o novamente um olhar fechado.
― Tá, não tá tudo bem. A P.P. está sobre a cama e tem sensores a laser em alguns lugares nos lençóis. Se a gente morrer, a culpa é dela!
― Johnny, se eu e você sairmos dessa casa inteiros, eu é que vou te matar! ― Ela falou.
Logo, a moça firmou as mãos sobre os lençóis macios e averiguou por onde passavam os lasers. Em movimentos rápidos, ela se firmou apenas com as palmas das mãos e deu um longo salto até o chão. Seus pés passaram raspando um dos pinos sobre a cerâmica branca, mas não chegou a ativá-lo.
― Pronto! ― Pype olhou para o loiro com um ar contente. Ele segurava o peito parecendo que viu um fantasma. ― O que foi?
― Nunca mais faça isso. ― Disse. ― Acho que você passou mais perto de me matar do que estas bombas!
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