Os Escolhidos - Destinos Interligados
8 Capítulo 7 - Thomas
Notas iniciais
Passaram-se nove dias para que Aaron pudesse ver Selena novamente. Sim, ele estava contando. Não era apenas pelo fato de ela ter dito para ele manter-se longe, era como se a presença dela tivesse sumido da casa, por mais que a procurasse não a encontrava em lugar algum. Até mesmo Lori estava estranhando o comportamento da amiga.
– Depois da tragédia ela tem ficado cada vez pior. – ela disse abrindo um livro de feitiços. – Liguei para Chloe e ela disse que isso já aconteceu antes, mas a Sel nunca sumiu por tanto tempo.
– Estão falando de mim? – Selena perguntou friamente enquanto passava pela mesa que eles ocupavam na biblioteca. Da última vez que ele a tinha visto, ela estava usando um vestido branco que lhe dava um ar até mesmo divino, mas agora um corpete preto, jeans escuros e botas negras de cano longo vestiam seu corpo. – Deveriam procurar algo mais interessante para fazer.
– Onde você esteve? – Aaron questionou levantando-se.
– Isso não é da sua conta. – ela já havia lhe dito isso uma vez, mas naquele momento ela era aquela Selena doce e não a versão mais sombria que mostrava sua face agora.
Ela deu-lhes as costas e começou a sair, mas Aaron a segurou e lhe jogou sombre o ombro.
– O que você pensa que está fazendo?! – sibilou a feiticeira.
– Resolvendo as coisas. – Ele procurou ignorar todos os olhares que receberam das outras pessoas na biblioteca e continuou: – Feche os olhos.
– E por que eu faria isso?
– Bem, eu avisei.
Ele fechou os próprios olhos e quando os abriu estava no meio da floresta atrás da mansão. Selena começou a se debater e ele a pôs no chão, onde imediatamente ela desmoronou.
– Porque estou vendo tudo em dobro? – perguntou confusa.
– Parece que você lidou com isso bem melhor do que eu imaginei. Estava esperando no mínimo um enjoo ou desmaio.
Ela se levantou cambaleando um pouco e se recostou numa árvore.
– Me dê um bom motivo para continuar desperdiçando meu tempo com alguém como você.
Dessa vez ele não se importou com a ofensa, já estava preparado para isso.
Ele olhou fundo em seus olhos nebulosos que antes eram azuis.
– Essa – ele disse – não é você.
– Esquece, ficar aqui com você é inútil. – abaixando-se pôs a mão esquerda no chão e começou a murmurar.
Mesmo sob as plantas rasteiras Aaron pode distinguir um pentagrama se formando.
– Ah, mas você não vai embora. – dito isso ele se aproximou e abraçou-a por trás, tirando-a do chão.
E mais um feitiço quebrado. Aaron estava batendo o próprio recorde.
– ME LARGA!!! – Selena gritou com fúria agitando as pernas no ar.
– Olha, agora você parece uma menininha mimada. – ele zombou. – Vou te largar se prometer se comportar. – Após um momento ela anuiu.
No instante em que seus pés tocaram o chão ela se afastou um pouco. Ainda de costas para ele, Selena puxou seus cabelos sobre o ombro esquerdo, deixando o direito nu.
– Mas o quê...? – Aaron estava atônito com o que tinha visto.
Abaixando-se Selena tirou rapidamente de cada uma das botas uma adaga de punho dourado. E então mais rápido do que ele pode acompanhar, ela varreu o chão em um arco com o pé direito, derrubando-o. Com um joelho em cada lado do seu corpo ela pôs uma das adagas em seu peito, no local exato do coração.
– Garotas não deveriam ter tanta força.
– Nunca se distraia perante o inimigo. – ela olhou em seus olhos e sorriu acidamente.
– Não lembro de você ser minha inimiga. – ele disse sem se importar com sua posição.
Visivelmente ela estava com vantagem, mas ele era um deus, poderia se livrar daquilo em menos de dois segundos. Seu propósito ali era ver até onde ela chegaria e conseguir respostas.
– Você é persistente. – ela empurrou em pouco a adaga e ele pode sentir a carne sendo perfurada. – Tem ideia do quanto isso é irritante?
– Já me disseram isso antes. E então, que marca é essa nas suas costas?
– Eu não gosto de ficar me repetindo.
– Quer dizer que não é da minha conta? Bom, acontece que é sim. – ele olhou para o próprio peito, de onde sangue dourado tinha começado a escorrer. – Porque eu tenho uma marca praticamente idêntica.
– E dai? Tem coisas muito mais importantes acontecendo no momento. Sabe, eu não entendo porque não te matei ainda. Deve ter um jeito de matar um imortal em algum lugar por aí. Ela até mesmo já me deu permissão...
– Quem é ela?
– … mas por algum motivo estúpido eu não consigo.
– Quem é ela? – insistiu.
– Isso não é informação que deve ser dada a um deus imundo. Talvez eu devesse te matar agora.
– Nunca conseguiria fazer isso. Matar não faz parte de você.
– Aaron, você pode achar que me conhece, mas está completamente errado em tudo que pensa sobre mim.
– Estou mesmo? – ele levantou uma mão e tocou seu rosto. Ela não o impediu e seus olhos pareceram suavizar por um momento. – Então vamos, plante essa adaga no meu peito.
– Não precisa pedir duas vezes. – apesar das palavras, ele pode ver que as mãos dela tremiam levemente.
Aaron sentiu a adaga começar a perfurar mais fundo, ainda assim não tentou sair. Mesmo que ela o fizesse, não poderia matá-lo. Seria doloroso, mas nada mais que isso.
Uma lágrima desceu pelo rosto de Selena e ele pensou tê-la ouvido sussurrar 'pare'. Ela levantou de repente, afastando-se alguns passos e largou as adagas no chão, para depois cair de joelhos, segurando os dois lados da cabeça.
– Selena? – ele levantou de onde ela o tinha derrubado e foi ao seu auxilio. Segurando-a pelos ombros perguntou: – O que está acontecendo?
– Por favor. – ela sussurrou com mais lágrimas descendo pelo rosto e foi quando ele percebeu que seus olhos tinham voltado ao azul invernal. – Faça a dor parar.
Logo depois seus olhos reviraram e seu corpo desfaleceu. Aaron pegou as adagas do chão e tomou Selena em seus braços. Pensando no quanto esse fato estava acontecendo ultimamente, ele teletransportou-se para o quarto de Selena e deixou-a sobre a cama. Da última vez que ele estivera ali pode perceber que Selena não tinha feito uma única alteração no quarto, nada que o identificasse como dela e isso não mudou. Havia apenas duas malas vermelhas de tamanhos diferentes em um canto do quarto e o diário acompanhado de uma caneta na mesa de cabeceira, onde ele deixou as adagas.
Sentou do lado esquerdo da cama meio de costas para ela e olhou seu rosto pálido. Selena parecia tão inocente naquele momento, era como se a estivesse vendo pela primeira vez. Mas o momento não deixava de ser uma estreia, era a primeira vez que ela parecia realmente em paz.
– O que está acontecendo? – murmurou para si mesmo. – Porque ela tem aquela marca? – tocou o ombro próximo ao lugar onde ficava sua própria marca. – O que o conselho divino está tramando?
As pálpebras dela tremularam e então ela abriu os olhos logo em seguida.
– Aaron? – recostando-se na cabeceira da cama olhou ao redor. – Meu quarto? O que eu estou fazendo aqui?
Ela tinha desmaiado. Era natural que estivesse confusa.
– Você desmaiou na floresta, achei melhor te trazer aqui.
Selena o olhou como se não compreendesse.
– Na floresta?
– Você não lembra?
Ela mordeu o lábio inferior.
– Por quanto tempo fiquei fora dessa vez? – indagou baixinho.
– Você não lembra de nada nesses últimos dias. De tudo o que disse?
– A última coisa de que eu lembro é que estava no templo e...
– E...?
– Tudo ficou escuro. – suspirou. – Quanto tempo?
– Você sumiu a nove dias, mas tem estado estranha a dez.
Ela ofegou em descrença e logo depois pôs o rosto entre as mãos.
– O que está acontecendo, Selena? – ele perguntou, mudando sua posição ao lado dela e pondo um braço sobre seus ombros.
Ela apenas ficou em silêncio, até que um som reverberando pelo quarto a fez levantar de súbito. Indo até o canto do quarto ela pegou a mala menor, voltou e colocou-a em cima da cama, abrindo-a logo depois.
– Chloe. – falou após pegar o celular que já tinha parado de tocar. – O que será que ela...? – ele voltou a tocar e Selena quase o derrubou no chão. – Alô? – ela respirou fundo. – Estou indo. – e desligou.
– O que aconteceu?
– A mansão Elísio está sob ataque. Onde estão minhas adagas?
Aaron as pegou de onde as tinha colocado.
– Aqui.
Selena pegou-as com uma das mãos e Aaron notou que na outra ela segurava alguma espécie de arma.
– O que é isso? – perguntou receoso.
– Uma pistola nove milímetros. – parecia cheia de orgulho enquanto falava. – Legal, né?
Aaron se levantou.
– Sabe usar essa coisa?
– Desde os onze anos. Meu irmão aprendeu mais ou menos ao mesmo tempo que eu, com dez.
– Você vai lutar?
– Claro que sim.
Ele tocou seu ombro e disse:
– Feche os olhos.
– Por quê?
Ele deu de ombros.
– Não diga que eu não avisei.
***
– Como você está realmente? – Rennata pode sentir que seu pai estava se esforçando para ser agradável durante os cinco minutos em que estiveram conversando. Não era uma grande surpresa, sempre tinha sido assim. Se sua mãe não se importava, seu pai agia como se simplesmente não soubesse lidar com ela.
– Estou ótima. – o que ela poderia dizer? Que a mansão tinha acendido em vermelho como o inferno e no mesmo instante todos da casa correram para uma sala de guerra que ela nem sabia que existia? Que lá fora haviam vários monstros loucos para fazerem espetinhos de humanos? Ou a mais ridícula das opções: Que enquanto todos seus amigos tinham saído para lutar, ela estava finalmente perdida nos corredores?
Que beleza! Seria uma coisa para o pai dela se orgulhar. Não que ela se importasse.
– Tenho vários amigos aqui. As coisas não poderiam estar melhores.
Nem tudo era mentira. Nesses últimos dias ela pode conhecer todos os moradores permanentes. Obviamente houve a estranheza inicial por ela ser uma humana, mas logo todos começaram a aceitá-la como um deles. Rennata tinha aprendido a gostar de tudo mundo ali, inclusive da garota que tinha chegado depois dela, Shannen, mas Ariel com seu modo consumista de ser e sua paixão platônica pelo garoto da biblioteca, tinha se tornado sua melhor amiga.
– Sua mãe e eu ficamos felizes por você. – dessa vez Alexander parecia realmente sincero.
– Eu também.
– Fim de tempo! – cantarolou uma voz ao fundo. Isabella.
– Tchau, filha. Sua irmã está prestes a pular no meu pescoço para pegar o telefone.
– Até logo, papá.
– E então? – Rennata não precisava perguntar para saber do que a irmã estava falando.
– Você não desiste, não é? Não vim aqui arrumar um namorado se é o que quer saber.
– Ui, calma. Não custa nada perguntar. Sabe, queria te contar uma novidade que você iria adorar… ou não. Mas esquece, não vou dizer não.
– Não ouse me deixar no vácuo!
– Tarde demais. – cantarola e desliga.
Maravilha. Por algum motivo ela achava que era a intenção da irmã não lhe contar nada desde o início, assim ela ficaria pensando nisso pelo resto do dia.
Depois de andar por mais uns dez minutos Rennata finalmente achou o corredor de seu quarto. Todos os corredores naquele lugar pareciam iguais para ela, por isso que quase duas semanas depois ela ainda precisava que Ariel a guiasse para todo lugar. A única coisa que distinguia aquele dos outros era uma porta branca no final. Saltitando de alegria por ter finalmente achado o lugar certo, foi a caminho de seu quarto... mas parou.
Sempre que passava pela porta do quarto de Thomas sentia como se algo a puxasse para dentro e ela nunca resistia a isso. Fechou a porta atrás de si, caminhou até a cama e se ajoelhou no chão ao lado de Thomas.
– Desculpe, ainda não consegui achar um jeito de te tirar dessa. – por mais que tenha pesquisado na biblioteca durante o tempo em que estivera ali, não tinha encontrado nada sobre o caso dele. – Não se preocupe, vou continuar tentando. Não sei se serei de muita ajuda, veja bem, todos estão lá fora lutando e eu estou aqui como uma inútil. Quero fazer algo que os ajude, mas... Sabe, odeio me sentir impotente assim. – ela segurou uma das mãos dele entre as suas. – Ouvi dizer que você era um cara legal, quando sair dessa vai me ajudar a treinar, né?
E então a coisa mais estranha aconteceu. Tudo ao redor do quarto pareceu brilhar em um branco ofuscante, fazendo-a fechar os olhos. Após alguns segundos sentiu o calor de duas mãos apertando as suas. Quando finalmente abriu os olhos ofegou.
– Thomas? – ele estava ali parado, só... olhando para ela e segurando suas mãos.
Seus olhos eram tão azuis que pareciam safiras.
– Quer dizer que você é a tagarela que tem falado comigo? Tenho te escutado todo esse tempo sabia?
Certo. Ele tinha a voz mais suave e agradável do que ela pensava que um garoto poderia ter e era o mais bonito que ela já tinha visto, mas essa não era a primeira coisa que Rennata pensava ouvir saindo da boca dele.
– Você… acordou?
– Olhe em volta querida, não sei como você veio parar aqui, mas essa não é a mansão.
Foi aí que ela se deu conta de que não estavam mais no quarto de Thomas. A alguns metros ao seu lado direito, uma escada de mármore branco descia para o térreo. Olhou lá para baixo e soltou um suspiro surpreso. Haviam cacos de vidro espalhados em toda a sala e vários móveis estavam revirados. O chão estava manchado em alguns lugares com o que parecia... sangue?
– Mas... – ela se virou para ele. – O que aconteceu aqui?
– Bem-vinda a minha casa, – o sorriso que ele de não tinha uma gota de humor. – ou melhor, meu inferno pessoal.
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