Os Escolhidos - Destinos Interligados

11 Capítulo 10 - O Diário de Selena


Notas iniciais
Oi meus amores! Me desculpem por demorar tanto tempo, as férias estão um pouco malucas... enfim, esse cap infelizmente não vai ser na academia porque precisei colocar algumas partes do diário da Selena, mas no próximo que vou postar hoje eles já estão lá. Bjos da angie e não me abandonem!

De: Selena

Assunto: Aaron

Para: Shannen

Oi.

Caso esteja se perguntando, consegui seu e-mail na ficha que Laura me enviou para a aprovação de sua família em Elísio.

Por favor, não conte ao Aaron que te contatei. Sei que não possuo nenhum direito de te pedir algo, nós mal trocamos algumas palavras, mas preciso saber como ele está e não tenho forças o suficiente para falar diretamente com ele agora, por esse motivo pedi para que ele não me procurasse.

Tudo tem acontecido tão rápido...

Estou procurando soluções e respostas, mas o caminho que estou seguindo me assusta cada vez mais. Meu mundo está desmoronando e não pretendo levar outras pessoas comigo, por isso tenho me mantido afastada nesses últimos quatro dias.

Mas as aulas terão início amanhã. Não poderei mais fugir e finalmente ficarei cara a cara com Aaron. Ao menos acho que o verei.

Agora que tem meu diário, pode ser que a opinião dele em relação a mim mude e ele não queira mais me ver. Não sei o que pensar e isso está me levando à beira da insanidade. Então... por favor, preciso de uma resposta.

Obrigado, Selena.

De: Shannen

Assunto: Estou preocupada

Para: Selena

Sempre que precisar de uma amiga para conversar, não hesite em me chamar. Gostei de você e não me engano facilmente em relação ao caráter das pessoas.

Sage praticamente não fala nada por esses dias. Ele passa a maior parte do tempo aqui na mansão Elísio, mas por muitas vezes some sem dar explicação e quando está por perto, passa a maior parte do tempo lendo seu diário. O que quer que seja que tenha escrito nele, tem o perturbado muito. Ele já leu e releu cada palavra, mas continua repetindo o ato como se tivesse deixado passar alguma coisa, algo que poderia solucionar todos os seus problemas. Embora ele não diga, sei que está sofrendo, posso enxergar isso e odeio não poder fazer nada. E há algo estranho que o tem deixado com muita raiva: os deuses fecharam o Olimpo para ele, quero dizer, é um pouco difícil de explicar, mas meu irmão não consegue contatá-los desde que você foi embora. Até o mundo Inferior está fora de alcance. Sage me disse que está muito perto de descobrir algo muito importante, mas não me deu mais detalhes.

Quanto a sua dúvida, não se preocupe, é lógico que o Sage vai querer te ver. Não querendo ser muito direta, mas já sendo, ele está APAIXONADO por você, caso ainda não tenha percebido. Parece até um cachorrinho doente de amor. Não o deixe na geladeira por muito tempo, conselho de uma irmã do cupido ;)

Mudando de assunto, estou preocupada não apenas com Sage, mas com você também. Ninguém consegue te encontrar ou falar com você de forma alguma. Onde você está? Seu irmão, Thomas, parece ter algo muito importante para te dizer e se irritar a Rennata, – algo que ele parece gostar muito – não o mantesse distraído, acho que ele já teria aberto um caminho no tapete da sala de tanto andar para lá e para cá.

Obrigada pela confiança, espero te ver logo.

Shannen.

De: Selena

Assunto: Planos divinos

Para: Shannen

Desculpe por estar causando problemas, não queria que seu irmão ficasse assim, mas não podia continuar escondendo tudo dele, quanto ao Thommy, bom, amanhã é um outro dia e muitos acontecimentos serão inevitáveis, nosso encontro é um deles.

Aaron não consegue entrar em contato com os deuses e está proibido de ir ao Olimpo? Isso é realmente estranho, não estou tendo nenhum problema assim, passo uma boa parte do tempo no Mundo Inferior e já tive algumas conversas com Hecáte e Atena nesse meio tempo (procurar sabedoria nunca é demais). A única explicação que posso imaginar é que o que Aaron sabe, pode ser algo que ameace os planos dos deuses. Isso me deixa bastante curiosa, principalmente porque sabia que ele estava escondendo algo de mim.

Até amanhã.

Selena.

De: Shannen

Assunto: Pedido

Para: Selena

Eu sei que você não quer falar com ninguém, mas não consigo ficar de braços cruzados esperando por nem mais um dia. Poderia me ligar?

Shannen.

***

– Agora você sabe porque eu fui embora. – Selena disse a Shannen levando seu cappuccino aos lábios.

Depois de ler o último e-mail enviado pela garota, tinha passado uns bons vinte minutos debatendo consigo mesma se deveria ligar para ela. Acabou decidindo que não adiantava guardar tanto segredo. Em breve ela estaria morta e todos saberiam. Ligou para Shannen e marcou um encontro em um café a alguns quilômetros de distância da mansão Elísio.

Ela tinha contado sobre quase tudo.

A visão de Chloe, a sensação de ter conhecido Aaron antes, a morte dos seus pais e seu desejo de vingança. Ela omitiu apenas o que viu em seu espelho de clarividência. Aaron aprisionado por Marise.

– Como você pode falar da sua morte de um modo tão frio? – Shannen perguntou com lágrimas nos olhos. Seu latte ainda estava intocado sobre a mesa. – Deuses, o Sage deve estar destruído!

Ela levou uma mão aos lábios contendo um soluço. Parece que tinha sido demais para ela saber de tudo de uma vez só. Esse ódio, essa sede de vingança… esse amor impossível. Selena teve que se conter para não demonstrar o que sentia também. Uma dor avassaladora que chegava a ser até irreal. Uma dor que ela deixava aprisionada bem no fundo de seu ser.

Como ela pode se apaixonar por alguém tão rápido e tão intensamente?

Não, ela lembrou. Eu já o conhecia, meus sonhos foram reais. Foram lembranças. Tem que ter alguma explicação para isso.

– Não chore. – a feiticeira pediu calmamente olhando ao redor. A última coisa que ela queria era chamar atenção desnecessária. – Olha, eu sinto muito, mas…

Mas eu vou morrer de qualquer jeito, pensou. Não adianta tentar mudar o destino.

– Não. – Shannen disse erguendo uma mão. – Pense em você ao menos uma vez na vida. Pare de se desculpar e se machucar. Pare de se afastar das pessoas.

– Quanto menos ligada a elas eu estiver, menos irão se machucar. – parecia que ela estava tentando convencer a si mesma.

– Quanto mais você se afastar, mais lamentarão por não ter podido passar o tempo restante com você!

Selena aumentou seu aperto no copo pela verdade dessas palavras.

– Resumindo: De qualquer modo as pessoas que eu amo sofrerão com os estilhaços. – ela soltou um suspiro cansado e olhou nos olhos violeta de Shannen. – Depois que descobri sobre meu destino me afastei de tudo e de todos. Em um momento que decidi passar algum tempo com minha família, meus pais foram mortos por quem eu pensei ser uma amiga minha. Fazendo uso de feitiços do grimório de magia negra do qual eu era guardiã. Magias que só eu deveria ter poder suficiente para usar. Tem ideia do quão distorcido é isso?

– Eu sei. Deve ter sido horrível viver todos esses meses pensando apenas nisso. Em… vingança. Na traição de Marise. Repassando cada uma das memórias que sobrou em seu pensamento. Mas não é por isso que você tem que aceitar a morte. Deve ter um jeito de…

– Eu não quero alterar nada. – falou resoluta. – Se uma pessoa tenta mudar o destino pode ser que algo ainda pior aconteça e não estou disposta a arriscar.

Como sou hipócrita, pensou. Por mais que eu diga que não vale a pena mudar o destino, tudo que quero é mudar o de Aaron.

– Mas…

Selena negou com a cabeça.

– Se o feitiço que Marise pôs em mim for o que estou pensando, uma das formas de quebrá-lo é com a morte. – ela sorriu. – Ou que a própria Marise o desfaça e isso definitivamente não vai acontecer.

– Você tem ideia do que está falando?! – Shannen se exaltou. – É como se a morte não fosse nada para você!

– Certo e errado. A minha morte não é nada para mim a não ser a oportunidade de conseguir futuramente uma nova vida. Mas eu me importo com os outros. Pelo que Thommy me contou, Marise usou um feitiço proibido do meu grimório e isso me torna um perigo para quem estiver por perto. Eu já tentei matar o Aaron uma vez, mas não pude me forçar a isso. Eu já tentei matar o garoto que eu amo. Aaron é imortal e a confiança dele em mim me fez emergir das trevas. Mas pode ser que da próxima vez eu não consiga parar. Você, meus irmãos, Laura, Melissa, qualquer outro membro do conselho, podem ser os próximos. Se for o feitiço que estou pensando, e tenho noventa e nove por cento de certeza de que é, eu posso me tornar uma máquina de matar a qualquer momento.

– Você é a líder do conselho. – ela diz numa voz pequena. – A feiticeira mais poderosa. Isso seria um caus.

– Agora você está começando a entender. – sorriu friamente. – Então se as trevas me consumirem, se eu morrer tentando alcançar vingança, eu não me importo. – levantou-se. – Mas se eu machucar de modo irreversível alguém que amo ou com quem ao menos me importo, viver também não será uma opção. Eu não conseguiria conviver com a culpa. – pegou a sua bolsa, jogou um pouco de dinheiro em cima da mesa e se virou. – Esqueça o que pedi no e-mail. Diga ao Aaron que estou bem, que ele não precisa se preocupar.

Foram suas últimas palavras antes de se dirigir a saída.

***

– Rennata! – a voz de Ariel perfurou seus sonhos. – Acorda, vamos nos mudar para a academia hoje.

A feiticeira empurrou seu ombro, balançando seu corpo para frente e para trás.

– Deixe de ser preguiçosa. – ela insistiu.

Rennata abriu um pouco os olhos.

– Bom dia, Pequena Sereia. – disse com a voz sonolenta. – Que horas são?

– 9h07min. – Ariel respondeu olhando um relógio de prata em seu pulso.

Rennata voltou a fechar os olhos e se virou para o outro lado.

– Volta aqui às onze. – disse e pouco depois ouviu um suspiro os passos de Ariel saindo do quarto.

Foi tão fácil, pensou.

Estava mergulhando num sono profundo novamente quando se sentiu sendo erguida no ar. Seu corpo foi aconchegado com cuidado e ela se encolheu e suspirou sentindo cheiro de perfume. Pouco depois uma porta foi aberta e uma risada ecoou pelo ambiente.

Uma risada malvada.

Rennata abriu os olhos de repente e remexeu um pouco. Ela viu... uma camisa azul? Levantou a cabeça e Thomas sorriu para ela.

Um sorriso sexy. Droga!

Todo seu corpo tremeu de temor. O que ele estava tramando agora? Ela olhou ao redor e se deu conta de onde estava.

– Mas o que você...?

– Sabe, Hipnos não gosta de fazer hora extra só porque você não quer levantar da cama.

– Hip-quem?

Ele suspirou.

– Você não aprende, pirralha. Hipnos é o deus do sono.

– Ah, que seja. Chega de aula. Me solta!

O sorriso dele apareceu novamente.

– Você que pediu.

Ele a soltou e ela gritou, mas seus gritos foram abafados pela água morna da banheira. Pouco depois, dois braços a pegaram pela cintura e a puxaram para cima novamente. Quando veio a tona, Rennata começou a tossir incontrolavelmente e Thomas lhe deu algumas tapinhas nas costas.

– Bem, parece que agora você não vai poder voltar a dormir. – ele disse. – Termina de tomar seu banho e se veste logo. Os portais vão começar a ser abertos daqui a pouco, nós temos que ir.

– Seu filho do capeta! – ela disse quando pode voltar a respirar normalmente. Levantou-se espirrando água para todo lado e saiu da banheira. – Você vai me pagar!

Um olhar de aprovação apareceu no rosto dele e ela ficou um pouco confusa até que ele a olhou de cima abaixo. Arregalando os olhos ela olhou para o próprio corpo. Tinha sido uma má escolha dormir com um pijama branco. Sua blusa e seu short estavam colados ao seu corpo e o tecido fino das duas peças estavam praticamente transparentes mostrando sua roupa de baixo de cor azul mar.

Ela tirou as mãos da cintura, cruzando-as de frente ao peito.

– SEU TARADO! – gritou sentindo seu rosto ficar totalmente vermelho.

Thomas ergueu as sobrancelhas.

– Parece que eu estou ganhando um monte de apelidos hoje, não é?

– SAI DO MEU BANHEIRO!

Ele olhou para o chão com um sorrisinho nem um pouco envergonhado e lhe deu as costas.

– Tudo bem, pirralha, não precisa gritar. – sua voz continuou inalterada, mas ele coçou a lateral do pescoço, um gesto que ela passou a conhecer bem nos últimos dias.

Aí está, ela pensou. Ele está nervoso. Não que isso o faça deixar de ser um idiota.

– Vai ficar aí parado? – questionou quando ele não se mexeu. – Parece até que nunca viu uma mulher. – Ela descruzou os braços e foi até ele. Pondo as mãos em suas costas o empurrou em direção a saída. – E não ouse dar as caras por aqui tão cedo!

Fechou a porta com força e encostou-se nela, deslizando até o chão e sentindo seu coração batendo forte.

Ao escovar os dentes e terminar o banho, Rennata enrolou uma toalha firmemente ao redor do seu corpo. Olhando-se no espelho, viu seu rosto corar ao lembrar de como Thomas a tinha olhado. Quase com o que parecia… desejo. Malditos hormônios.

Porque ele me chama de pirralha se me olha daquele jeito?

Balançou a cabeça tentando se livrar desses pensamentos, fazendo com que parte da água em seu cabelo respingasse no espelho e foi pé ante pé até a porta.

Mas não estava preparada para o que viu quando saiu.

– Oh, Zeus, – lamentou olhando para o teto. – o que foi que eu fiz para merecer isso? Primeiro um tarado no meu banheiro e agora um chato no meu quarto.

Poseidon estava sentado em sua cama, com os braços cruzados e as pernas esticadas de frente ao corpo, cruzadas nos tornozelos e olhava fixamente as pinturas na parede. Por mais descuidada que parecesse sua posição, seu terno ainda parecia perfeitamente passado, o que para ela ainda era um mistério.

– Não fale isso. – ele disse em tom entediado. – Assim você fere meus sentimentos.

– Como se você tivesse algum. – ela resmungou. – O que está fazendo aqui?

Ele fez um gesto com a mão em sua direção e ela sentiu a toalha desaparecer sobre suas mãos dando lugar a um tecido macio e delicado. Olhou o espelho do outro lado do quarto e se surpreendeu com o que viu refletido.

Uma corrente de prata com uma única pérola adornava seu pescoço e um vestido de seda cobria seu corpo. Possuía um corpete branco com bardados de flores delicadas e pequenas pérolas no centro. A saia chegava um pouco acima dos seus joelhos, alternando em finas camadas de alguns tons entre o branco e o perolado. Seu cabelo loiro, antes liso, agora caía pelas costas em cachos com algumas presilhas prateadas em forma de pequenas borboletas presas ao longo dele.

Tudo bem, ela achou lindo. Mas não precisava admitir isso.

– Eu não sou sua boneca para você ter o direito de escolher meu vestuário. – disse acidamente.

– Simplesmente admita que ficou linda e agradeça por ele não ter te deixado só de biquíni. – disse Thomas saindo de seu closet com uma mala em cada mão. Ele tinha trocado a camisa azul que havia se molhado por uma preta que ficava igualmente bem nele e havia um estojo de guitarra atravessando em suas costas. Provavelmente a Fender da qual ele se orgulhava tanto. – Não que eu seja contra essa segunda opção.

– Você ainda está aqui, seu encosto?! – andou até ele.

– Você não fez as malas e eu não queria ouvir mais desculpas suas sobre o porquê de você não poder ir a academia. – disse simplesmente.

– E por isso se achou no direito de fazer minhas malas? – ele deu de ombros perante a irritação dela. – Ótimo. A última coisa da qual eu precisava era da um pervertido mexendo nas minhas calcinhas e isso foi exatamente o que eu consegui.

– Ela sempre foi tão exagerada assim? – Thomas perguntou a Poseidon.

– Na maior parte do tempo, mas as vezes ela estava deprimida demais até mesmo para falar. – respondeu ele balançando a cabeça negativamente simulando tristeza e limpando uma lágrima imaginaria no canto do olho.

Palhaço.

– Ou eu simplesmente adoro te ignorar. – ela disse olhando por sobre o ombro com um sorriso debochado e a voz mais açucarada que conseguiu. Então viu que Poseidon já tinha se materializado atrás dela, segurando seu arco como se fosse uma oferenda e se virou para ele com raiva. – Isso estava embaixo da cama.

Ele empurrou o arco em sua direção.

– Sério? E eu nem posso imaginar o porquê disso. – disse sarcástico. – Mas querendo ou não você vai levá-lo. E se não o fizer eu posso dar um jeitinho para que ele apareça onde você estiver até que o aceite.

Sim. Porque ela queria muito andar por aí com um arco flutuando sobre a cabeça dela como uma ameaça de morte para quem se aproximasse. Até parece.

– Mas eu nem sei usar isso direito e...

– Eu posso te ensinar. – interveio Thomas.

– Traidor. – sussurrou e ele sorriu. Ela se voltou novamente para seu patrono. – Quer dizer que foi por isso que você veio aqui?

– Em parte, sim. – Poseidon respondeu. – Mas também queria te desejar boa sorte. – sorriu. – Você treinará e se tornará uma guerreira. É tão bom ver que minha garotinha está crescendo.

Ele parecia sincero, o que a surpreendeu.

– O apocalipse está próximo. – Rennata falou. – O deus dos mares falou comigo de outro jeito que não fosse com tédio, deboche e sarcasmo. Isso é realmente novo.

– Não seja tão dura comigo. – ele disse. – Agora vamos, pegue isso.

Se dando por vencida, ela estendeu as mãos e pegou o arco.

– Não o deixe embaixo da cama de novo. – Poseidon avisou e desapareceu em seguida.

– Ele é como um pai para você. – Thomas disse sorrindo.

– O quê?! Enlouqueceu? Ele é no máximo como um irmão mais velho que gosta de pegar no meu pé. – ela foi até a porta e a abriu, saindo para o corredor. – Agora vamos, meu escravo. Traga minhas malas.

– Eu não sou seu escravo. – disse, mas, ainda assim, foi atrás dela.

– Humph. Pode até ser que não, mas você me deve. De quem foi mesmo a ideia brilhante de me jogar na banheira?

– Você foi a única que disse 'me solta!'. – ele imitou a voz dela.

– Mas o plano estava em sua cabeça todo o tempo, caso contrário a banheira não estaria cheia.

– Assumo toda a culpa, mas a Ariel chegou toda irritadinha no meu quarto ordenando que eu viesse te acordar. O que eu poderia fazer, a não ser realizar os desejos de uma dama?

– Nossa, que cavalheiro. – ela zombou. – Eu poderia ter me afogado, seu idiota!

– Em uma banheira? Boa sorte com isso. Mas, de qualquer forma, eu já te contei que sou magnífico em fazer respiração boca a boca?

Que exibido.

– Hahaha. Até parece. Só nos seus sonhos, queridinho.

– Isso é o que nós vamos ver. Escreva minhas palavras: Em menos de um mês eu vou conseguir um beijo seu.

– Pouco provável. – apesar do tom indiferente, sentiu suas bochechas esquentarem.

– Será mais fácil do que você pensa.

Ela parou, virando-se para ele e estreitando os olhos.

– Você parece muito seguro disso. Por acaso pretende me enfeitiçar ou usar qualquer outro truque sujo?

– Ah, não. Meus encantos naturais serão o suficiente. – ele disse despreocupado, deixando as malas no chão.

– Que encantos? – Rennata perguntou com desdém.

Ele ergueu uma sobrancelha.

– Convenhamos, querida, não tem como você resistir a tudo isso. – disse fazendo um gesto ao longo do corpo. – Além disso, estou sendo generoso em te dar um prazo tão longo.

Mal acordou e já está todo metido. Imagine quando estiver totalmente recuperado.

– Você se acha.

– Não, eu tenho certeza. Mas se te deixa mais calma, nós podemos fazer uma aposta.

Ela cruzou os braços, refletindo se realmente era uma boa ideia. Por fim decidiu.

– Tudo bem. Quando o prazo de um mês acabar, eu quero que você pare de me chamar de pirralha. E já vou avisando, eu não vou te beijar, então considere essa aposta como uma derrota.

– Não. Vou considerar como uma vitória dupla.

– O quê?

– Quando eu ganhar, você não terá escolha. Eu serei seu parceiro no baile, pirralha. – um sorriso lento se abriu em seu rosto. – Vai ter que me aguentar a noite toda.

Ela recuou.

– Mas eu não...

– Vai sim. É uma aposta, afinal. Você não está com medo de perder, está?

Suas mãos se apertaram ao redor do arco e ela cerrou os dentes.

– É claro que não. Eu vou ganhar.

Mas até para ela, sua afirmação pareceu duvidosa.

***

Mansão Elísio

14 de junho de 2009

Todos sempre pensaram que eu teria um futuro como líder. Parece que o conselho perderá sua princesa mais cedo do que imaginam.

Hoje Chloe me chamou ao seu quarto e me contou sobre uma de suas visões. Ela disse: Você morrerá em seu aniversário de dezessete anos.

A meu ver, tudo isso parece um conto de fadas de muito mau gosto. Não consigo ver um final feliz por mais que tente.

Não contarei a Marise, ela tem estado muito triste com o que os pais dela fizeram ultimamente, uma notícia assim poderia acabar destruindo o pouco que resta de sua sanidade.

Mas, o que direi aos meus pais? E ao Thommy?

Eu sinto tanto por eles. Sei que me amam e sofrerão muito com a notícia. Vi como Chloe está triste. Apesar de não demonstrar por gestos ou palavras, seus olhos mostram seu sofrimento. Isso me destrói. A cada segundo que passa me sinto mais torturada com o pensamento de feri-los. Mas é preciso. Não posso esconder algo assim deles.

Tomei uma decisão. Por mais que me doa, depois de lhes contar tudo, terei que me afastar deles. Thommy, eu sei, é o que mais sofrerá. Nós sempre fomos tão ligados. Nosso vinculo sempre foi muito forte. O simples pensamento de me afastar dele me dá vontade de chorar, embora não tenha derramado uma lágrima pela notícia de minha morte eminente. Não me assusto com a morte. Ela é algo que faz parte da vida e um dia chegará para todos. No meu caso, será numa idade não aceita com facilidade pelos outros.

Apenas isso.

Mas… sou fraca de tal modo que não poderei ficar para confortá-los.

Será que irão me perdoar por ir embora?

– Extinto de proteção, dor, amor... – Aaron fechou o diário de Selena pela que parecia ser a enésima vez nos últimos quatro dias, quando ouviu a voz de Shannen. – Isso não é exatamente uma boa combinação na maioria das vezes. – Ela se sentou ao seu lado no banco de pedra e lhe olhou com a preocupação gravada em seu rosto. – Você está bem?

Ele desviou o olhar e o fixou na capa vermelha já desgastada do diário.

– Melissa e eu estamos preocupadas com você, Sage. – ela continuou. – Nos últimos dias nem tem falado direito. Fica apenas lendo esse caderno uma vez e outra e parece perder a noção do tempo.

É verdade. Ele já tinha lido o diário do começo ao fim e a cada palavra lida se sentia mais impotente.

– Fale comigo. – ela pediu. – Como você está?

– Você já não deveria ter ido para a academia? – ele perguntou sem lhe dar resposta.

Ela suspirou e seus ombros caíram.

– Quis vir falar com você primeiro. Mas parece que você não quer cooperar, então eu começo. – ela cruzou as pernas e apoiou o cotovelo direito no joelho e o queixo na palma olhando para ele. – Eu falei com a Selena. – ele sentiu que se não estivesse sentado poderia ter caído de joelhos. – Ela pediu para te dizer que está bem, não precisa se preocupar.

– Como? Onde?

Shannen balançou a cabeça negativamente e cerrou os punhos.

– Não importa, ela não está mais lá.

Ele suspirou frustrado passando a mão entre os cabelos.

É claro que não. Selena não quer contato com ninguém. Ele deveria se sentir grato por saber que ela está bem.

– Porque ela quis falar você?

– Para saber como meu irmão cabeça dura está.

A voz dela se tornou instável e uma lágrima escorreu por sua bochecha.

– A Selena é tão forte, não é?

Aaron estendeu a mão e limpou a lágrima.

– Ela te contou? – ele perguntou com cuidado e Shannen anuiu.

– Eu pensei que pudesse ver medo nela. Medo da morte. Depois de tudo que ela passou... Mas eu não vi nada. É tão confuso, eu não compreendo. O poder dela está além da minha capacidade. É como se ela tivesse se fechado junto com todas suas emoções mais fortes em um receptáculo de gelo impenetrável. Ela é amável com todos, mas é muito distante.

– É compreensível que assim seja. – Aaron disse lembrando de tudo que tinha lido no diário.

– Eu sei. Mas se ela continuar se contendo assim, será ainda pior no futuro. As trevas iram tomá-la, ela entrará em colapso. Mesmo que ela seja mais forte do que eu jamais serei, não é o suficiente. Ninguém consegue sobreviver sozinho. Ela precisa de você, Sage.

Ele pôs um braço sobre os ombros dela puxando-a mais para perto. Shannen deitou a cabeça sobre seu ombro e fechou os olhos.

Com o comportamento sempre alegre de sua irmã, às vezes ele esquecia de como ela era sensível.

Aaron podia ver a aura das pessoas, mas com Shannen não era apenas isso. Como filha de Afrodite, parte de poderes permitiam de certa forma “visse” o estado de seus corações e sentisse suas emoções nas mesmas proporções que a pessoa sentia. Não sentir exatamente nada é totalmente incomum. O encontro com Selena deve ter sido bem intenso.

– Eu também penso assim, mas vai ser bem difícil colocar isso na cabeça dela. – ele acariciou os cabelos de Shannen e continuou. – Você acha que eu sou cabeça dura, mas Selena chega a um nível totalmente diferente. Ela já pôs na cabeça que deveria se afastar das pessoas e vem fazendo isso há mais de um ano.

Shannen se afastou e olhou nos olhos dele.

– Mas com você foi diferente, quer dizer, ao menos até quatro dias atrás. Quando você está por perto ela parece ser mais ela mesma. Embora tenha tocado apenas a superfície de suas emoções, eu pude sentir parte de sua dor, tristeza, felicidade, amor... eram sentimentos muitos confusos e embaralhados, mas eram algo. Hoje senti apenas um vazio.

Ele assentiu.

– Isso porque, é como se algo nos ligasse. Já nos encontramos algumas vezes antes, a prova está aqui. – ele ergueu o diário. – Podem ter roubado nossas memórias, mas deixaram vestígios para trás.

– Quem roubou as memórias de vocês? – questionou Shannen confusa.

Ele balançou a cabeça dispensando a pergunta.

– Isso é assunto para outra hora, agora escute.

Ele abriu o diário em uma página que havia marcado, mesmo sabendo que Shannen não via nada naquelas folhas e começou a ler.

Mansão Hekate

31 de Outubro de 2009

Foi uma decisão irresponsável voltar a aparecer depois de tanto tempo sem dar notícias. Principalmente porque foi uma aparição pública. Observei do outro lado do salão de baile, mamãe lutando para manter a compostura.

E perdendo a luta.

Ela correu abrindo caminho por entre as pessoas e me encontrou prendendo-me em um abraço apertado. Havia lágrimas trilhando seu rosto e antes que eu pudesse perceber estava chorando também. Foi um grande alívio sentir o calor de seu abraço depois de meses. Me permitir sentir algo depois de meses.

Aos poucos papai, meus irmãos, Marise, Laura, todos foram aparecendo. Finalmente senti que encontrei meu lugar novamente, algo que infelizmente não irá durar.

Percebi um olhar de reprovação vindo de alguns outros membros do conselho, principalmente de Sophie, mas eu não poderia me importar menos com a opinião deles.

Ethan foi um tanto insistente pedindo para que eu dançasse com ele e achei que seria um tanto descortês (apesar do quanto parecesse tentador) se não lhe cedesse ao menos uma dança, embora tenha parecido não ter sido o suficiente para ele que continuou a insistir depois a valsa finalmente terminou. Acho que ele não entende a definição de: “Nós terminamos. Podemos ser amigos?”.

Felizmente o resto de minha noite não foi uma perda de tempo, pois um garoto que eu já havia percebido estar me observando do outro lado do salão finalmente me chamou para dançar. Ele era bonito e eu não o conhecia, apesar de uma sensação estranha me dizer exatamente o contrário. Era alto, com cabelos loiros e pele clara, mas seus olhos intensos e benevolentes me encantaram de imediato. Azuis com gotas douradas. Inesquecíveis.

Me senti tão segura enquanto ele me girava pelo salão que me permiti esquecer o porquê de querer tanto me manter afastada de qualquer pessoa. Quando nossa valsa teve fim, finalmente perguntei seu nome.

Ele se aproximou e sussurrou: Me chame de Aaron.

Dançamos juntos pelo resto da noite e logo depois ele desapareceu. Como é possível sentir tanta segurança com alguém que você acabou de conhecer?

– Uau. – Shannen disse depois que ele terminou. – Isso deve ter inflado bastante o seu ego.

Ele ergueu as sobrancelhas.

– Esse não é exatamente o ponto aqui, Shannen.

– Tá bom, eu sei. O ponto é que vocês estão ligados pelo destino para viverem a eternidade juntos.

Aaron travou o maxilar, de repente sentindo raiva. Não de Shannen, mas do que todos chamam de destino. Aquilo que insiste em ferrar com a sua vida sempre que pode.

– Exceto que não temos a eternidade para ficar juntos. – falou e Shannen obviamente sentiu seu humor.

– Então lute pelo pouco tempo que vocês tem. – ela disse de repente séria.

– Ah, mas eu vou. Nem que eu tenha que lutar com a própria Selena por isso.

Pelo que ele passou a conhecer de Selena seria uma batalha dura, mas não impossível de ser ganha.

E o destino que se dane.