Pensei nas coisas que meu avô disse enquanto voltamos para Pax. Ele realmente estava certo. Eu não poderia guarda Bee em uma caixinha e achar que ela estaria em segurança e feliz. Ela não estava mais comigo porque precisava de alguém para salvá-la, estávamos juntos porque construímos um relacionamento, que não estava no nosso planejamento.

Eu nunca tinha falado do meu avô para ela. Esses dois anos foram uma loucura e nem cheguei a visitá-lo. Não temos muito contato pelo mesmo motivo que só o descobri depois dos meus vintes anos: minha mãe. Meu pai que nos apresentou, porque se fosse depender dela, nem o conheceria, mas eu não tiro sua razão.

Foi bom termos encontrado ele. Bee com certeza o amou, ficou encantada com a pequena aldeia e até aprendeu a falar alguma coisa na língua deles. Por mais que no começo ela tenha sido um pouco fechada, quando eu percebi já estava sendo rodeada por terem se encantado com suas palavras.

Quando contei o que estava acontecendo para meu avô e que havia um plano para resolvermos a bagunça que eu fiz, Bee me interrompeu, virou os olhos e rebateu me lembrando de que se eu não fosse tão cabeça dura poderíamos ter acabado com isso. E eu respondi: “Já conversamos sobre isso. Não vamos começar de novo.” e ela retrucou “Não foi uma conversa, foi um monólogo.” saindo de perto. Com certeza tinha ficado chateada.

Senti Bee suspirar pesadamente ao meu lado.

Assim que entramos no helicóptero, Bee virou o rosto para a janela se acomodou mais na manta que meu avô tinha dado a ela, encostou-se ao banco fechando os olhos e segurou a minha mão enquanto ele levantava no ar.

Não importava o quanto a gente brigava, Bee nunca me tratava mal ou se afastava de mim. Ela simplesmente ficava em silêncio e segurava a minha mão. Isso acontece, porque na nossa primeira briga séria de casal ficamos dois dias sem nos falar e foi pura “guerra de egos” como minha mãe costuma nomear.

O piloto avisa que pousaríamos em 10 minutos na nossa ilha. Olhei para paisagem maravilhosa de Pax. As poucas luzes que estavam ligadas a deixa ainda mais bela. Quanto mais nos aproximávamos do chão, mais víamos os detalhes das casas, prédios, o parque de preservação e o meu maior desgosto: o começo de uma ponte para nos ligar a outro país que fica a 13.290 metros de distancia.

Bee aperta minha mão de novo. Eu a olho e vejo que ela descobriu o que estava pensando. Troco de mão para abraçá-la e seguro com a outra para tentar esquecer um pouco de tudo que estava acontecendo. Sei que teríamos uma conversa quando chegarmos ao nosso quarto, porém fingi que tudo estava bem.

A saída do helicóptero foi recepcionada, no aeroporto, por médicos e guardas. Depois que garantiram nossa saúde física e emocional, nos liberou com relutância, já eu tinha um galo na cabeça e Bee pulsos e tornozelos arroxeados. Porém eu só queria a minha casa e ficar no hospital de observação estava fora de cogitação. Argumentei com eles que estava muito tarde e que amanhã iríamos passar no hospital para fazer um chekin-in. Antes que eles mudassem de idéia, puxei a minha esposa e sai do aeroporto.

A maioria das pessoas acreditava que morávamos no Palácio Amarelo, porém quando meus pais tiveram o primeiro filho decidiram ficar em uma casa, ao lado da Sede do País, onde teriam mais liberdade para nos criar. Ela tinha dois andares, com três quartos, uma suíte, um banheiro social, sala/copa e uma cozinha. Pode até parecer grande, mas os cômodos são realmente pequenos, menos a sala/copa, meus pais gostavam de receber amigos. E é claro, que mesmo sendo mais de meia-noite, as luzes estavam acesas.

Ouvi o barulho da televisão, quando nos aproximamos percebemos que o jornal de plantão estava dando notícias.

“...acabaram de chegar em sua casa, depois do terceiro seqüestro em dois anos. Os médicos afirmam, que estão em observa...”

Meu pai estava abraçando minha mãe, no sofá. Não ouviram a gente chegar, pois entramos pela porta dos fundos. Ignorei o olhar de Bee quando me preparei para lhes dá um susto por trás.

— Se você fosse menor de idade, ganharia seu primeiro castigo – respondeu minha mãe sem se virar. Dona Anelise Pax com os seus lindos cabelos lisos pretos com alguns fios brancos levantou-se e disse ao marido – Eu disse que você o mimou demais.

Abri os braços, porém ela passou por mim e abraçou Bee olhando se não tinha nenhum machucado. Senti a minha boca abrir com o choque, olhei para meu pai com a bola vazia ainda com os braços estendidos. Ele veio até mim. Agora que eu reparei que estavam com roupas de dormir.

— Fico feliz que está bem – disse me abraçando – Sua mãe estava desesperada, a fera é toda sua. Se você falar que eu disse isso, apoiarei Bee na sua idéia. — e sussurrou afastando-se com um sorriso de lado. Eu tinha plena certeza qual parte da família eu puxei o lado descontraído e o cabelo cacheado. Outro choque. Que tipo de boas vindas é essa? A mãe que não abraça o filho e o pai que o chantageia. Okay. Okay. Nova estratégia.

— Mãe – reclamei virando-me pra ela – Eu é que sou seu filho e não ela. Por que a abraç...? – parei com o olhar que me lançou. Seus olhos pretos brilhavam de raiva.

— Como você teve coragem de levar sua esposa para um lugar, que VOCÊ sabia que poderiam ser seqüestrados, Vinícius Pax? – repreendeu. Por incrível que pareça, Anelise nunca gritava, porém suas palavras gelavam até a alma. Como agora. – Você já pensou se Bee estivesse grávida, o que teria acontecido?

Olhei para Bee rapidamente com os olhos arregalados e os músculos tensos com uma pergunta se formando na minha cabeça. Se ela...

— Eu não estou! – respondeu arregalando os olhos também e sacudindo a cabeça. Eu comecei a relaxar.

— Mas se ela estivesse? – continuou a perguntar – Vocês dois já pensaram nas consequências?

— Mãe, eu não obriguei ela ir – respondi tentando não pensar de fato nas conseqüências – Resolvemos sair juntos.

— É claro, que ela iria com você! Até porque seria muito correto você saindo sozinho e ela voltando pra casa com os guardas! – rebateu criticando. – Você diz não concordar com o plano dela, pois a colocará em perigo, mas está fazendo a mesma coisa saindo deste jeito!

Franzi o cenho. Aí! Poderia te dormindo sem está. Ela estava certa. Muito certa. Ela realmente estava pegando pesado. Meu pai parou ao lado dela antes que isso ficasse feio. Levantou a sobrancelhas como se falasse “eu te falei que ia da ruim”.

— Olha, eu sei que vocês sabem se proteger, mas não invencíveis – disse mais suave e cansado olhando para mim e Bee. – Não podem ser tão responsáveis em cuidar da vida das pessoas que moram neste país, mas irresponsáveis com a vida de vocês. – ela desvinculou-se do meu pai e veio me abraçar. – Eu amo muito vocês. Não quero perdê-los. – a abracei mais forte. Não precisar ser um mestre para saber do que ela estava falando. Toda vez que ela me dá esses sermões, eu tenho certeza que tenho muito que aprender ainda. Minha mãe se afastou. – Esquentei o jantar para vocês. Comam antes de tomar banho e dormir. Vin, não se esqueça do seu reméd...

— Ora, ora, ora – alguém interrompeu minha mãe. Alguém não, meu irmão mais novo – Quem nos deu o ar da graça. – disse irônico descendo a escada. – Vejo pela sua cara que mamãe já deu seu sermão, ainda bem, porque se fosse eu, com certeza, teria partido para os cascudos.

— Cascudos não, massagens nos pés – disse Bee chegando perto do sofá. Vi a bola do meu irmão muchar. Acho que a bronca ficará para amanhã. – Acredito que alguém tem uma aposta para pagar. – completou se sentando nele e esticando os pés para a mesa do centro, mas algo a parou e deixou-os no chão. – Aproveita e trás uma cadeira. Sogra, estou um pouco enjoada – a olhei desconfiado e ela revirou os olhos. – Enjoada por causa da pomada e comi duas bananas no aeroporto, mas amanhã eu prometo que eu tomo o café da manhã direito.

— É, mãe. Amanhã vamos comer tudo que a senhora colocar na mesa – disse e continuei com cuidado – Além do mais, comemos na aldeia do vovô. – Este sim era um assunto delicado. Observei minha mãe tensa e olhar para o meu pai. Troca de olhares. Mamãe assentindo e ignorando o assunto. Como sempre fez nestes anos. Pegou a mão do meu pai e subiu para o quarto me lembrando o remédio.

Notas finais
Até o próximo capítulo. :)