Os Encontros da Nossa Vida
1 Capítulo 1 - Bee
Pedras. Muitas pedras. Estávamos rodeados de pedras. Muito arcaico por sinal e irônico. Depois de uma hora de tédio e silêncio, cheguei à conclusão que estava cercada de três mil e quatrocentas pedras. Descobri também que as pedras faziam o ambiente mais frio já que a temperatura do lugar que a gente se encontrava estava caindo cada vez mais. Olhei para lado onde meu marido se encontrava acordado e sorri ironicamente para ele.
— Estou ficando com frio – disse, sentido meu corpo se arrepiar mais uma vez por falta de uma roupa mais quente – Vamos?
Com toda certeza ele deveria está sentido mais frio do que eu, já que sempre quando íamos para uma visita não oficial ele deixava o terno de lado e vestia um jeans todo surrado com uma camisa pólo, o que o deixava com um ar mais jovem e descontraído, bem diferente do que eu vejo todos os dias.
Ninguém o reconheceria se não fosse pelo anel de prata grosso com dois cavalos marinhos e, no centro uma pedra de safira muito pequena, que quase não se via, dentro de um losango que carrega sempre na mão direita no dedo médio, ao lado da nossa aliança de ouro no dedo anelar, que após o primeiro ano de casado passou a ter um chip localizador, que era ligado em caso de emergência por uma pessoa de confiança. Como agora.
Retribuindo o sorriso, graciosamente ele respondeu.
— Querida, não é melhor esperar os guardas?
Sempre a mesma pergunta, pensei revirando os olhos e tentando não ficar abalada com seu sorriso de moleque levado, que um dia eu fui capaz de achar ridículo. Nota-se: “um dia”. O nosso relacionamento não começou lá muito bem, fomos tentar algo de verdade depois de muitas tragédias e só seguimos em frente devido a um tapa na cara, que a mãe dele deu em mim. E que tapa.
— Ainda não sei por que temos guardas, sendo que sempre somos pegos. E sempre damos um jeito – respondo suspirando.
— Já tivemos essa conversa no último sequestro, eles não têm culpa, nunca deixamos eles nos seguirem. Talvez um dia vamos conseguir confiar em um guarda de novo, mas, enquanto isso não acontece, gosto de comer e andar sem ninguém fazendo muralha entre nós e as outras pessoas – disse suspirando.
Não era a primeira vez que nos sequestravam para conseguir o que queriam. Depois de dois anos de muita investigação gerando um escândalo de uma empresa estrangeira que tínhamos um acordo, começamos a receber ameaças e em seguida descobrimos uma traição, que quase nos fez sumir do mapa.
— Okay, querida, você venceu novamente. – disse soltando as mãos que estavam amarradas há um minuto atrás, de uma cadeira enferrujada que o colocaram sentado.
Na primeira vez que fomos pegos desprevenidos gerara uma cicatriz no meu pulso e um braço deslocado. Vin, nunca se perdoara e para evitar mais machucados do que arranhões pequenos, ele sempre carregava algo afiado nos botões da manga.
Rapidamente, ele livrou-se das cordas que mobilizavam seus pés, levantou caminhando até o lado do cômodo que eu estava e começou a livrar as amarras que estavam me prendendo.
— Isso sempre me lembra como nos conhecemos. – comentei quando ele massageou meus pulsos roxos para o sangue voltar a circular normalmente.
Olhei para porta e atentamente tentei ouvir algo. Nada. Deixei-o continuar. Tínhamos algum tempo.
— Bom, tirando a parte em que ganhei um soco de esquerda e um olho inchado depois, sim, isso também me lembra. – respondeu dando um sorriso mostrando todos os dentes e levantou meus braços e beijou onde os roxos e a cicatriz estavam.
Observei o movimento, quase perdendo o ar e esquecendo por um momento a dor nos pulsos. Balancei a cabeça para voltei a terra.
— Você nunca se esquecerá disso, né?! – sentido meu rosto pegar fogo, como o meu rosto é moreno nem dá para perceber, mas abaixei a cabeça para impedi-lo de ver o meu constrangimento. Tudo bem que ele também não era a pessoa mais fácil do mundo de se lidar quando nos conhecemos, só que eu fui um pouco precipitada nas minhas ações. E devo lembrá-lo que salvei a vida dele.
Tirei as cordas dos pés. Fiquei mais constrangida ainda, quando lembrei, que os sequestradores foram mais ousados, amarrando meus pés, acariciando minhas pernas embaixo do vestido longo e preto insinuando como eu seria na cama. Muito machista devo dizer.
— É uma lembrança para se guardar. Irei contar para nossos filhos um dia. – me emocionei ao ouvi-lo. Filhos. É talvez depois que isso terminar. Quando ele colocou um dedo no meu queixo para levantar minha cabeça continuou calmamente falando – Como nunca me esquecerei desses desgraçados por terem tocado na minha esposa, além de terem falados coisas sujas. E contarei para os meninos como agir se algum dia acontecer com suas irmãs.
Senti o sangue sumir do meu rosto. Sabia o que ele queria dizer. Técnicas do exército nunca eram esquecidas. Não era de tudo mal, mas tem coisas que deveriam ser esquecidas e nunca ensinadas para uma crianças, principalmente para os meus futuros filhos.
Ele viu.
É claro que ele viu, mas nunca sabia se ele estava fingindo que estava desacordado ou se desmaiara por causa da “resistência” fazendo com que os sequestradores batessem forte na sua cabeça.
Pegou minha mão esquerda e brincou com a aliança grossa de ouro igual à dele.
— Como se essa aliança, não indicasse que você é casada. Acho que tenho que mandar fazer uma maior. Esta não está fazendo se...- endireitou o corpo e me ajudou a levantar da cadeira – Vamos! Por sorte deixarei alguns para contar história. É hora do show.
Sabia do que ele estava falando, depois de sermos pegos duas vezes em menos de dois anos, o ritual era o mesmo. Não tinha do que reclamar, um pouco de emoção era sempre bem-vindo. Nunca reclamaria da minha vida, depois de tudo o que passamos isso era considerado nada.
Formos cada um para um lado da porta de ferro pequena. Peguei dois grampos que estavam quase saindo do coque e os preparei em minhas mãos tirando a proteção deles para não machucar o couro cabeludo. Aprendi uma vez que os menores objetos eram de grande auxilio em uma fuga.
Quando enfim consegui ouvir o barulho, que Vin ouviu com o seu “super ouvido”, ele indicou com uma mão que era vez dele.
Vez dele.
Sempre era vez dele. Que babaca.
Fechei a cara e levantei a sobrancelha, isso sempre acabava em discussão.
Bufei baixinho. Ele revirou os olhos.
Sorri quando a porta começou a abrir. Uma pessoa? Chateada. Eles realmente não aprendem. Sempre subestimam nós dois.
Antes que o guarda abrisse a porta toda Vin já tinha o pegado pelo ombro com uma mão apertando um músculo no ombro, fazendo-o desmaiar e com a outra impedira do grito que estava na garganta sair. Devagarzinho, o colocou na cadeira onde estávamos e o amarrou fortemente. Tirou a arma da cintura dele a descarrego e colocou longe de onde ele estava amarrado. Estudei-o por um momento, não tinha o identificando, mas eu tinha uma ideia de onde ele era pelas roupas grossas que usava e a marca do sapato dele. Respirei fundo e me virei para Vin.
— Temos pouco tempo vamos.
Saímos correndo pelo corredor escuro e com as paredes feitas de pedras. Os guardas aprenderam que nunca se devem levar as chaves para nossa sela e eles têm razão. Acabei diminuindo a velocidade por causa das cordas que me apertaram nos tornozelos causando dor e Vin percebeu, odiava sentir sensível, mas era uma coisa além de mim.
Trocamos um olhar ao vermos um fiapo de luz do final do corredor.
Que que eu te carregue? Seus olhos perguntavam.
Balancei a cabeça negando. E comecei a correr no ritmo dele ignorando a dor e a temperatura que continuava caindo.
Mais tarde tem massagem lembrei. É ótimo vencer uma aposta.
Ele deu o sorriso de lado e levantou uma mão mostrando a quantidade de guardas que restavam. E indicou que ele ficaria com três, mas recusei lembrando-o que ele já tinha apagado um. Teimoso como era apontou para meus braços e tornozelos. Neguei, mostrando os grampos e começamos a diminuir os passos. Ao paramos, ele me virou de frente segurando em meus ombros e revirou os olhos. Apontando para porta começou a contagem.
Ignorando ele, percebi que a porta não estava trancada, então, entrei e ouvi-o bufa me seguindo.
Contei, rapidamente, cinco sentados envolta de uma mesa jogando baralho ouvindo uma música suave em outra língua. Enquanto, apagava o primeiro e em seguida os outros dois capangas, lembrei como Vin me encontrou. Como eu disse tinha salvado a vida dele, mas é claro que aconteceu alguns acidente. Respirei fundo quando os últimos fora apagados e sentei na cadeira massageando o meu tornozelo.
— Puts grila! Desta vez eles fizeram o serviço direitinho e amarram muito forte as cordas – reclamei e percebi o que eu falei olhando para ele – Desculpa! Ainda vou controlar minha língua.
Ele revirou os olhos e começou a andar pela sala desarmando os cincos capangas caídos no chão tranquilamente.
— Depois de três anos juntos nem sei se isso é possível mais – respondeu rindo – Só não fale perto da minha mãe. É capaz dela querer te dá mais aulas de etiqueta.
Estremeci.
Conhecer a sua mãe foi bem assustador. Ela com toda certeza não foi com a minha cara. Na primeira vez que a vi, cheguei a certo ponto de querer sair correndo, mas estava meio que sem força para agir no momento. Só depois da terceira conversa começamos a nos entender e iniciarmos um relacionamento de “nora-sogra” saudável. Se puder chamar de saudável ter aulas de etiquetas, comportamento, vestuário e relações públicas. As aulas foram muito importantes, mas não gostaria de tê-las de novo nunca. A única coisa que me acostumei foi usar vestido longo e o resto estou levando com barriga. Mas esta tal de etiqueta é uma droga. Não desejo nem para o meu pior inimigo. Prefiro fazer series sem pausa de agachamento a voltar a ter todas aquelas aulas juntas.
— Reconheceu a língua? – perguntei baixinho.
Ele assentiu desligando o rádio. O silêncio espalhou-se pela sala. Eu não falei tudo sobre o que aconteceu ano retrasado, mas ele tinha certa ideia do motivo real dos sequestros e quem está por trás disso.
Vin virou-se para mim apontando o dedo indicador e em seguida fez um sinal com dois dedos encostando um no outro. Neguei balançando a cabeça que chegou a estralar o pescoço pela raiva do significado do gesto. Cruzei os dedos indicadores os separando em seguida, fiz um L com a mão direita e movimentei fazendo um semicírculo.
Usar libras foi uma descoberta muito importante para comunicação entre nós dois. Porque há coisas que eu não conseguia falar e algumas que não devem ser faladas. Quando Vin descobriu que me expressar em libras é bem melhor que o ato de falar ele passou a usar sempre em momentos tensos como esse.
Eu abaixei a cabeça ainda nervosa. O que ele disse nunca seria verdade. Não é. E não pode ser verdade. Eu não aceitaria. A imagem de um rosto familiar embaçado rindo de mim passou na minha mente. Senti braços ao meu redor e por reflexo me afastei assustada.
— Calma. Sou eu – Vin sussurrou com sua voz calma – Desculpa.
Parei de mexer na hora. Bloqueei quaisquer coisas que minha mente estivesse lembrando e me virei para Vin. Colocando um sorriso forçado no rosto.
— Vamos para casa – disse saindo dos seus braços e andando até a porta – Pelo o que eu sei, estamos em uma mata fechada uns 1.000 metros de Ason. É bom Yure esteja acordado, porque ele irá começar a pagar aposta a partir de hoje.
Peguei a chaves da porta e sai.
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