Os Embaixadores de Orbis
4 Os rebeldes
Acordei às 7:02 e foi como se eu nem tivesse dormido, tivesse apenas passado a noite deitado olhando para o teto. Quando realmente despertei observei o televisor enorme na esquina do quarto olhando para mim, sim, parecia mesmo que estava olhando para mim, como que se pedisse para que eu o assistisse. “Ok, eu assisto” – Disse sozinho.
Tinham inúmeros canais, mas eu não queria saber se o Leopoldo estava apaixonado pela Giulia ou como fazer uma sopa com cascas de batata, eu queria saber o que estava acontecendo no restante do planeta, algum tipo de noticiário. Depois de passar por uns treze canais de novelas e uns nove de reality shows eu finalmente encontrei os noticiários. Deparo-me com a seguinte informação: Adolescente de quinze anos sequestra, tortura e mata cerca de trinta e nove crianças. E em seguida o jornalista, um homem de sorriso forçado, comenta: Esses jovens, cada vez mais impulsivos. Pulam para a outra notícia: O centro de índices mundiais informou nossos novos recordes, os índices de violência, consumo de drogas e corrupção cresceu esse mês mais de 220%. Agora, a cada minuto ocorre cerca de vinte mil homicídios no mundo. Não sei como ainda estamos por aqui hein? – brinca a jornalista e o outro dá uma risada. – Desligo a TV, aquilo é demais pra mim, sinto uma ligeira vontade de desistir de tudo, mas isso logo é ocupado pelo sentimento de compaixão. Eu tenho que os ajudar. Será que aqui é considerado normal fazer piadas com esse tipo de notícias? – Ligo o televisor novamente, eu preciso lidar com a realidade daqui. “Grupo rebelde faz manifestação na Av. 8 contra a operação de recuperação terrestre dos Orbianos, havia cerca de quarenta e dois mil pessoas” – Um sujeito com panos enrolados na cabeça deu uma breve entrevista e disse o seguinte:
– Eles terão que voltar pra casa, querer que a população terrestre se torne pacífica e alegrinha como o povo de Orbis é negar o que nos torna humanos, ELES QUEREM NOS CONTROLAR! – Gritou – E se insistirem, acho que vamos ter um banho de sangue. – Um pesado calafrio percorreu o meu corpo. Por que eu tinha que ligar esse maldito televisor? Por quê?
Priam, 8:40, 03/02/2260
Resolvi fazer uma videoconferência com meus pais que estavam do outro lado da galáxia, eles tinham dito para entrar em contato o mais breve possível e eu fiquei tão fascinado e desesperado com tudo que acabei esquecendo.
– Olá, que dia é hoje por aí? – Meu pai disse alegremente. Será que o rapaz da entrevista estava certo? . Olhei para o calendário que ficava atrás da porta e disse:
– Três de fevereiro. — Disse.
– Filho, você está no passado! – minha mãe soltou uma risada – Hoje é dia quinze aqui. Mas então, como vão as coisas? Você demorou a entrar em contato. Você está bem? Estou te achando abatido.
– Estou bem, é apenas cansaço. – Pausei – Sabe... Tudo aqui é bem diferente e um pouco assustador, mas eu acho que vou me adaptar – Forcei um sorriso.
Meus pais se entreolharam e por fim meu pai disse:
– Seja cauteloso nessa adaptação, não se torne como eles, não se envolva com essas pessoas que matam seus próprios filhos, apenas faça sua parte.
Ele chamou meus seis irmãos e meus avós para participar na conversa, conversamos por vinte minutos sobre como a comida é diferente, como os lençóis da cama são macios e como as pessoas arregalam os olhos quando me vêem, falamos também sobre como estão as coisas por lá sem a minha presença e por fim eu tive que encerrar dizendo que teria um compromisso às dez e não poderia me atrasar.
Priam, 12:20, 03/02
Já estávamos há horas nessa conversa, Gilbert Dan Roth disse que eu dispunha de todo o poder nacional, como tropa policial, exército, aeronáutica e todo tipo de pessoa que usa armas para matar outros. Por fim, para firmar nossa metodologia eu disse:
– Isso será como ensinar a todos como andar e falar novamente, pois uma árvore só é boa para consumo se for plantada em um bom solo, da mesma forma, vamos regredir para que possamos progredir. Nossa metodologia, desde sempre, desde quando os primeiros habitantes de Orbis criaram seus filhos continua a mesma e ela se resume a uma única palavra: Disciplina. É o meio mais lento e difícil, mas com efeitos duradouros e eficazes.
– E como você pretende fazer isso? – Gilbert disse em certo tom de desaprovação.
– Educação. – Moa me interrompeu e se manifestou com essa única palavra. Sorri para ele.
Passamos ainda duas horas conversando sobre planos concretos que poderiam se aplicar e no fim de tudo eu disse:
– Sr. Dan Roth, eu gostaria de uma palavra à sós com você.
– Claro. – Ele respondeu entusiasmado.
Ele me dirigiu a uma sala pequena com uma estante de livros e uma mesa com três telefones e blocos de anotação. Formulei em minha mente o que iria dizer para que nada parecesse grosseiro.
– O senhor foi informado dos grupos rebeldes opositores? – Perguntei
Ele engoliu em seco e de repente mudou de cor, aguardei por alguns segundos a resposta.
– Bem, sim, eu fui informado, mas não se preocupe, nós iremos controlá-los, não será uma ameaça a sua...
– Quando pretendia me contar que existem milhares de pessoas desejando minha morte e de meus companheiros? – Interrompi e disse no tom mais calmo que consegui
– Acho que você está sendo um pouco precipitado, essa situação toda será resolvida o mais breve possível.
– Espero que sim. – Disse friamente.
Voltei para o meu quarto depois de comer uma refeição com meus companheiros, apesar de estranho era tudo muito saboroso. Peguei um livro de História humana e comecei a lê-lo no silêncio do meu quarto, assim como eu fazia quando pequeno. Depois de meus pensamentos me perturbarem tanto era como se de repente aquele quarto e aquele prédio enorme fosse pequeno demais para comportar minha aflição.
Resolvi sair.
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