Os Elementais

2 Capítulo 1 - Julie


Notas iniciais
Espero que gostem... criei algumas palavras para caracterizar os regentes de cada elemento. ^^

Julie passa sorrateira pela porta de sua casa, não querendo estar lá, mas não tendo onde ficar. A sala é pequena e praticamente tudo feito de madeira, os móveis e as prateleiras se mantêm estáticos e cobertos por uma massa densa e gelada. Ela acredita que o frio vem dela.

Aperta-se forte dentro do casaco. Senta-se no pequeno sofá e observa sua pele negra avermelhar quando tira as luvas. Sua boca solta fumaça branca à cada suspiro, ela já se cansou de respirar. Seus olhos verdes cravam o chão enquanto sua mente afunda. Faz dez horas que sua mãe desapareceu, e daqui três dias começará as aulas no colégio especial para elementais. Julie ganhou uma bolsa depois de fazer alguns testes, e essa seria a sua primeira escola. Seus cadernos, amuletos, jarros e facas já estão em sua mochila, ansiosos pela experiência que nunca terão.

Tudo estava bem planejado e organizado como sempre. Mas ontem a noite sombras mergulharam na cama que ela dividia com a mãe e não tiveram nem mesmo a decência de levar as duas. Os borrões deixaram apenas gritos de uma mulher assustada. Julie não encontrou fôlego para gritar, foi tão criança e dependente. Acreditou que podia puxar pés com seus braços leves, mas ficou apenas com mãos ao ar. Humilhante. Depois de horas correndo para além da floresta encontrou uma carta jogada como folha caída na grama espessa. Acabara de voltar da floresta e ainda não acredita na letra de sua mãe na carta.

Só pode ser fraude.

–Queijo! — alguém grita Julie deixa a carta na mesa e vai até a porta com o coração apertado quando vê um Hugo sorridente de cara pálida.

–Olá. — ela sussurra para o homem.

–Boa tarde Julie! Sua mãe quer queijo hoje?

–Hm, não, obrigada — dá um sorriso tenso.

–Ela sempre compra, vamos lá.

Julie olha sobre os ombros do homem e vê o chão amarelo da ruazinha e todos os camelôs que o recheiam. Lembra-se que pode procurar informações por lá.

–Hugo, você já passou pela cartomante hoje?

–Ainda não, por quê?

–Me espere, vou contigo.

Ela encosta a porta e coloca no bolso a carta e um pouco do dinheiro que fica dentro do sofá. Enfia as chaves nos dedos e abre a porta com um sorriso forçado.

Hugo olha um pouco espantado e em seguida sorri com a leveza de sempre. Depois de trancar a casa ela segue com Hugo, subindo a rua. De um lado vê camelôs e barracas, e do outro, casas simples como a sua. Ela o ajuda a segurar a cesta de queijo na hora do pagamento e vai acenando com cabeça para os fregueses satisfeitos. Seus pensamentos estalam, e ela coloca o cabelo curto, liso e castanho atrás da orelha a cada dois passos, tensa. Ainda é cedo para sentirem falta de sua mãe, mas logo os vizinhos começarão a indagar coisas, Julie sabe. De repente se dá conta que está andando muito lenta, parando o corpo para se concentrar, perdeu-se de tudo e se sente sozinha no buraco de sua mente.

–Julie! A menina olha suas mãos que seguram uma pequena bola d'água flutuando sob os dedos e sobre a palma. Em um susto, absorve o líquido de volta para seu corpo. Olha para Hugo ele a protege dos olhares de quem passa com seu braço e murmura sério:

–Você sabe como as pessoas daqui te invejam por sua habilidade, ainda por cima... água.

Boa parte das pessoas são elementais, mas há as que não são. Julie vive em Clifford, onde tal dom é muito raro, e os poucos que existem convivem com o controle do elemento terra, o que em um lugar pequeno é útil apenas para plantações e coisas do tipo. Julie sente-se fora do universo novamente.

–A cartomante é aqui perto. — Hugo aponta uma enorme tenda bege logo à frente. Obrigado pela companhia.

–Muito obrigada — Julie diz praticamente correndo. Mal entra na tenda escura e sente um cheiro forte e agridoce. Ela só fora ali duas vezes para acompanhar a mãe, e apenas ficara do lado de fora esperando. Tem um pouco de receio na verdade, mas entra. Um duende rabugento a recebe.

–Saia — ele ruge.

–Eu gostaria de ter uma consulta.

–Você gostaria de sair e isso que vai fazer, AGORA!

Quem é muito estressado, Julie se recusa a levar à sério. Continua encarando o carinha barbudo. Vê uma senhora espantosamente velha vindo do escuro em um manto roxo. Ela chega murmurando "duende idiota".

–Olá menina, pode entrar — ela sussurra já virando-se.

–Obrigada — Julie sorri para o duende.

O local é tão escuro que a única luz guia é o manto da velha. Julie a segue e logo vê-se sentada em uma cadeira com uma mesa e uma velha à sua frente.

–Diga, menina.

Julie umedece os lábios e as palavras vêem naturalmente.

–O que a senhora sabe sobre sombras?

A velha debruça os cotovelos na mesa.

–Que tipo?

–Manchas pretas... Com vida.

–Pessoas de preto, sem dúvida.

–Não exatamente humanos — a garganta de Julie vai secando — apenas uma mágica ruim...

–Isso não existe, garota.

Um silêncio cortante toma o local. Julie desvia os olhos da velha e olha ao redor enquanto cria uma nova questão.

–Tem alguma ligação com magia?

A velha parece tão cansada... as pálpebras tão caídas que Julie não sabe definir se há olhos nas órbitas. Pergunta ignorada, resposta desconhecida ou a mulher está cochilando? Julie não sabe, também.

Por ora, distrai-se com os quadros que enfeitavam o local. Tão delicados e sem ligação com aquele lugar estranho.

–Quem fez? — Julie aponta.

Uma menina loira aparece atrás da velha. Parecia estar escondida na escuridão. Ela deve ter a idade de Julie, porém bem mais baixa. E tem um sorriso inocente.

–Ela dormiu, não repara. Ah, eu que fiz os quadros. Ei, preciso de ajuda — a loira sorri — Qual é o seu nome?

–Julie — responde levantando enquanto a velha dorme — e o seu?

–Iasmin. Você é uma aquína, não é? Vem aqui rapidinho? — ri levando Julie pelo braço. Ela estava se referindo a elementais regentes de água. Julie retesa os músculos.

–Como sabe?

–Não sei. Você é?

–Sim... — Julie disse confusa enquanto seguia Iasmin pela grande tenda.

–Bom, eu sou terríquia, você sabe, cuido das flores da minha mãe. — ela revira os olhos castanhos com um sorriso bobo no rosto e continua andando aos pulinhos.

–Nunca te vi por aqui — Julie diz mais a vontade.

–Ah, só estou visitando a minha avó — Iasmin responde apontando a cartomante — meu irmão veio comigo e voltou para casa sem avisar. Preciso da ajuda de alguém para voltar, preciso que me ajude, sabe?

–E onde você mora?

–Ravena.

–Não conheço...

As duas chegam na parte que a tenda é iluminada por velas coloridas. O chão é de barro e há um grande espaço lá. Agora Julie pode ver melhor a menina. Iasmin tem o rosto delicado e um cabelo que caí abaixo da cintura, enrolando nas pontas. Ela usa um macacão jeans com vários bolsos, botas marrons e meias listradas de verde e preto.

–Não posso te ajudar, estou procurando minha mãe — Julie diz um pouco culpada.

Iasmin olha com tristeza e espanto.

–O que aconteceu?

Julie hesita.

–Vim aqui falar com sua avó sobre isso. Não sei o que aconteceu, mas sei que ela está viva porque logo depois me deixou uma carta. Não posso sair de Clifford, porque ela deve estar aqui, sabe?

A menina serelepe surpreende Julie com tanta serenidade.

–Entendo — diz com os braços torcidos — mas Clifford é um lugar sagrado, é impossível. Sua mãe não está aqui. Tenho certeza.

–Como assim?

Iasmin sorri consoladora.

–Algumas cidades são protegidas. Se uma pessoa dessas cidades sofrer será em outro lugar. Sua mãe foi teletransportada.

Ou ainda está aqui em segurança, Julie pensou.

–Julie — Iasmin diz — te juro que vamos encontrá-la, ok?

Não vou fecharei acordo com quem acabei de conhecer, Julie pensa por um momento.

–Desculpa, não vou.

A outra se ilumina e começa a fala:

–Ah, tudo bem — diz um pouco sem jeito — essas são minhas botas, está vendo? Se eu puxar aqui... — agacha até os pés e move uma alavanca no calcanhar. Rodas surgem na sola — viu? São patins. Eu os uso para entrar em túneis. Meu irmão sempre me ajuda a abrir os buracos, mas agora eu não consigo.

Julie, curiosa e desconfiada, se agacha no chão e umedece os dedos para o barro. As pequenas gotas de água são sugadas. Com a mão, Julie localiza a água da superfície e a faz subir aos poucos. Iasmin parece maravilhada. Quando há um buraco suficientemente grande e barrento, Julie se levanta.

–Talvez você se suje um pouco — Julie brinca.

Iasmin agradece com um sorriso distraído e se posiciona no círculo com seus patins. Dá varias voltas em si mesma, como uma bailarina, mas muito mais veloz. Quando Julie se dá conta, a menina já sumiu, deixando uma grande vala no local.

–Vá. — uma voz murmurou.

Julie olha para trás e vê o duende. Ele vem acompanhado da velha cartomante encarando a menina. Ela desliza para o lado mas a mulher a segura pelo braço.

–SAI — Julie a chuta.

O duende empurra Julie com a força de um homem, e ela caí na vala atrás dos calcanhares.

Perdida, ela vê terra fechando-se sobre si, e se arrepende de ter cavado o próprio túmulo.

Notas finais
Por favor, comentem a vontade com sugestões e como posso melhorar !! ^^ Esse foi o capítulo de abertura então algumas coisas ainda estão no ar kkkk bjs :*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.