O meu “dia” começou agora.

Era tudo o que eu não queria.

Mas eu tinha.

Nem tudo o que a gente faz é porque nós queremos.

Eu morro de medo de avião. Mas, do mesmo jeito, tive que entrar em um. Obrigada, como sempre. Ou melhor – empurrada.

Mas até que aquentar quase doze horas dentro de um avião não foi tão ruim.

Enquanto concertavam o avião (que estava com defeito) eu fiquei fazendo palavras cruzadas na minha revista. Depois de praticamente uma hora, nós decolamos. E eu, claro, chorando de medo de acontecer alguma coisa.

Meus pais (com quem eu estava sentada) arranjaram alguém para conversar – é óbvio que nem eles iam falar comigo – e eu continuei fazendo palavras cruzadas.

Praticamente uma ou duas horas depois eu parei de fazê-las – provavelmente porque já tinha acabado a revistinha – e comecei a olhar pela janela. Só dava para ver as nuvens – ou sei lá o que isso era.

E lá estava eu, a medrosa garota baixinha de 16 anos, num avião. E com a minha roupa favorita: a minha saia preta da D&G e a minha blusa cinza claro, da Chanel. E também com a minha sandália Skechers.

De vez em quando passavam umas meninhas para zoar – ou será melhor dizer rir? – de mim. E olha que eu estava com as minhas melhores roupas! E eu também tinha feito Baby Liss no meu cabelo!

Chegando à Califórnia, eu logo suspirei: Los Angeles. O puro ar – nem tanto assim – de Los Angeles.

Andamos para o Loews Santa Monica Beach Hotel. Vamos ficar lá uma semana, depois vamos para o Thompson Beverly Hills.

Mas nós nem esperávamos que acontecesse uma coisa que impedisse.

Chegando ao hotel, meus pais foram fazer o check-in, e meus irmãos saíram para falar no celular – óbvio.

Quando entramos no quarto, tinha, no lado direito, uma cama de casal – para meus pais –, duas camas de solteiro – para meus irmãos – e um colchão no chão – provavelmente para mim. No lado esquerdo, tinha um armário velho e uma mesa de vidro com duas cadeiras – que mais podiam se chamar de poltronas. Olhando reto, uma sacada minúscula com grade amarela e com uma cortina listrada também amarela.

A porta do banheiro também ficava na parede direita, logo depois das camas. Sendo que, atrás de cada cama tinha um negócio de madeira – que eu não sei para que aquilo serve – e, entre as duas camas, tinha uma mesa de madeira com um telefone e dois abajures. Simples, não?

Logo depois que meus irmãos saíram para ir no centro da cidade e meus pais terem ido jantar num restaurante chique – de luxo –, eu aproveitei e desci para ver o hotel: não tinha nada de mais nele. Nada a ver com luxo – ou coisa chique.

O Hotel fica na frente da praia, era só descer uma escada e já está pisando na areia.

Mas eu nem imaginava que o hotel seria fechado por uma causa terrível.

Eu e minha família fomos para Los Angeles para encontrar uma nova escola para mim – porque tenho muitos problemas na escola – e também uma nova casa.

Nós tínhamos marcado de nos encontrar na frente do restaurante do hotel ao meio-dia, mas parece que só eu cheguei no horário: meus pais e meus irmãos só chegaram uma hora e meia depois – provavelmente para implicar comigo.

Nós estávamos indo visitar um colégio, e eu e meu irmão íamos brigando – como sempre – no carro.

--Não sei porque temos que ir junto encontrar uma escola para essa chata – implicou ele – Nós podíamos deixar ela sem estudar, não acham?

-- Também acho – foi a vez da minha irmã reclamar – Ela não vai fazer amigos de qualquer jeito!

--Foi só para ela não repetir de ano – rebateu minha mãe.

E foi assim a viagem inteira.

A escola era perfeita. Aquela escola, a Lycee International of Los Angeles – ou mais dita Lilaschool. Não sei como ela era, mas pelo o que meus pais disseram ela era perfeita. Eu mal cheguei a entrar. Só entrei na recepção e na diretoria – que era ao lado – para me matricular. Assim mesmo; meus pais é que decidiram.

E nós nem sabíamos que um acidente iria me fazer sair daquela escola sem ter pisado um dedo dentro dela.

No dia seguinte, fomos bem cedinho – depois de ter tomado café da manhã – ver uma casa para morar. Isso vai demorar mais, eu sei.

A “viagem”foi diferente da viagem para a escola. Ninguém falou nada, ninguém gritou, ninguém reclamou. Só tinha o som do rádio, que estava tocando música country – que por sinal, eu odeio.

A primeira casa que visitamos foi a casa que escolhemos: uma mansão de 658m². Que tem 3 suítes e um dormitório, 4 banheiros (contando com os da suíte), duas cozinhas, duas salas e uma varanda. Todas as paredes são de vidro com insulfilm praticamente preto e a casa, além disso, tinha um formato de W com três andares em cima e dois em baixo.

A casa mais cara da região, a maior de todas.

Que logo seria vendida por causa do desaparecimento de alguém.

Nós vamos nos mudar para aquela casa depois da nossa estadia no segundo hotel, Thompson Beverly Hills.