Os Doze Espíritos
4 Capítulo 3
Uma semana depois eu recebi uma carta enigmática.
Eu não sabia o que era, não sabia como a resolver.
Mas aí me bateu a curiosidade de ver atrás do envelope. Quem era o remetente? Anônimo. Mas tinha um endereço.
Olhei para a carta.
Tinha um monte de símbolos – 6 no total.
Assim: seta para o lado direito, estrela(com acento agudo em cima!?), espaço, estrela, seta para baixo, cruz e triângulo.
O que significa? Eu não sei.
Mas vou saber.
Daqui a pouco.
Olhei dentro do envelope para ver se tinha alguma coisa mais, e, no fundo, bem no fundo havia um papelzinho dobrado dezesseis vezes.
Desdobrei o papel. Fui ver se tinha alguma coisa escrita no papel – nada.
Mas dava pra ver uns rabiscos bem de leve – pareciam bordados em branco no papel.
Saí da casa para ver se dava para ver alguma coisa mais e...
...estava escrito exatamente o que queria saber.
“Miami, 25 de janeiro de 2010.
Mary Emerald,
Como o tempo passa rápido. Fico arrasado de saber que você já tem 16 anos. Daqui a duas semanas, já é seu aniversário. E daqui a uma semana, você já vai estar na aula! No seu terceiro colegial! Então, a formatura.
Estou tão feliz por você!
Mas pena que não vou poder presenciar nenhum desses momentos, assim como perdi e fiz perder o seu natal e ano novo.
Perdão,
Alguém.
PS: Vá ao endereço dá carta. Há algum conhecido seu morando lá.”
Conhecido? Eu não conheço ninguém mais que a minha família...
...e meu pai.
Quem perdeu o meu natal e meu ano novo? Meu pai.
Quem me conhece tão bem assim a ponto de saber a minha idade, meu endereço e meu ano na escola? Meu pai, é claro.
Eu tenho que ir nesse endereço agora.
Escrevi um bilhete para minha mãe escrito “Saí rapidinho. Já volto. Tome cuidado. Ah, mas não me pergunte para onde eu fui. E não reclame.”
E saí. Não de fininho, já como não tinha ninguém mais do que eu naquela casa.
Mas por que meu pai queria me ver se ele me odiava?
Eu queria descobrir muito isso.
E muito mesmo.
Chegando no endereço da carta – que eu tinha anotado num papel para não esquecer e deixado a carta em cima da minha cama – eu toquei a campainha. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Na quarta vez, atenderam.
A porta se abriu devagarzinho, nem parecia que alguém estava abrindo.
--Você veio. – disse uma voz parecida com a do meu pai. Claro, eu acho, porque nunca ouvi a voz dele.
--Er... – quem era, realmente? – Eu recebi uma carta e...
--Entre. – aquela mesma voz disse.
--Quem...?
--Whatherson. Não se lembra?
--Ah, claro. Pai.
--Desculpa minha filha... Eu não podia visitar você... Então mandei uma carta...
--Não. Tudo bem. Eu gosto de cartas.
--Gosta, é?
--Olha, se eu não gostava, vou gostar agora, então... – hesitei um pouco – Se bem que eu prefiro emails.
--Bom, eu queria dizer...
--Por que me chamou aqui?
--Olha...
--Responde.
--Eu ia responder.
--Então responde.
--Você pode achar que eu te odeio – engoli em seco – Mas, não. Eu te adoro. Quase nunca falei com você porque sua mãe te odiava. E o que ela faria se me visse conversando todo educadinho com você?
--Minha mãe? Ah, você está dizendo aquela mulher de cabelos louros e olhos azuis – que para mim parece mais uma modelo – que sempre coloca a culpa em mim por tudo, e que me obriga a fazer todo o trabalho sujo de casa? Não, obrigada.
--Ela faz isso?
--Faz, e bem. Bem até demais.
--Olha, filha, não sei o que posso fazer...
--Pode fazer uma coisa sim. Volta para aquela casa agora.
--Por que eu iria fazer isso, filha? Eu não posso! Elas podem até ter um infarto ou um ataque...
--Que tenham. Se você não voltar agora, Gina vai me obrigar a fazer o trabalho sujo da casa pra sempre, e vai continuar colocando a culpa em mim!
--Eu vi pela janela, filha. Você desistiu de trabalhar para ela!
--Eu desisti, sim! Mas ela que não desistiu de me obrigar a tudo!
Houve um barulho na maçaneta da porta de entrada. Eu olhei para trás – de onde eu estava, claro – e fiquei assustada – com medo, pode se dizer.
--Você tem que sair agora! – disse ele.
--Não! Não enquanto você não desistir e não voltar para casa...
--Olha, filha, volte aqui amanhã ou depois! Você tem que sair agora! Depois a gente conversa!
Fechei os punhos.
De repende lágrimas caíram dos meus olhos...
Por quê?
Eu não sou de chorar...
--Quem é...?
--Hã?! Filha, vai logo!
--Não. E quem é essa pessoa na porta?
--É uma pessoa que não pode te ver!
--Por favor...?
--Por favor. Saía, por favor.
--Certo.
Fiquei lá parada pensando. Como sair pela mesma porta da pessoa que ia entrar?
--Então saía.
--Por onde?
--Ah, pela porta dos fundos! Vai! É na cozinha, não da para ver daqui, fica no final dela!
Corri até a cozinha e avistei a porta de longe.
Não parecia que ela estava trancada.
Abri, passei e logo fechei a porta.
Dei a volta na casa e avistei minha mãe lá na frente. Por que ela estava lá?
Provavelmente porque encontrou a carta. Já como eu fui burra o suficiente de deixar a carta embaixo da qual eu escrevi para ela.
Voltei para os fundos e olhei pela janela da cozinha.
--Quem era?
--Quem era quem?
--A garota que estava com você aqui, agora?
Ah, que nojo!
Será que aquele bolo fofo era mesmo amigo do meu pai?
De qualquer jeito, eu estou ferrada.
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