Os Dois. Nós Três.
1 Primeiras apresentações.
A. (Terceiro dia de aula, 10:00)
Amanda.
- Algum de vocês já sabe o nome dele? – Foi a minha pergunta que começou desordem.
De repente, todos que estavam fazendo alguma coisa – como pentear o cabelo, falar mal de uma amiga próxima ou a matéria da turma especial – pararam para olhar para um único canto.
Em um canto – bem no meio de inúmeros novatos – estava um garoto estranho, louro com fones no ouvido, olhando para o nada. Pelo menos, nada que eu pudesse ver naquela direção.
- Não, ele é esquisito, não fala nada não é? – disse uma das meninas.
- Será? – disse envergonhada – Eu achei ele meio fofinho.
- Vi melhores, aquele ali por exemplo.
Luciana apontou para um outro novato sentado com uma garota, também novata. Demoramos alguns segundos olhando para os dois, o suficiente para vê-los caindo aos beijos, e então, voltaram ao outro garoto.
- E será que ele tem namorada também?
- Espero que não Mandy – Roberta hesitou alguns segundos, depois se voltou para Douglas que estava conosco — Vai puxar assunto com ele para gente!
- O que, por que eu?
- Porque sim, você é simpático, o tipo de cara que todo mundo gosta, então ele vai gostar! Anda, descobre se ele tem namorada.
Douglas parou ajeitando os óculos, olhava para Bruno com a cara um tanto desconfiada e envergonhada.
- Você vai cara?
Bruno parou também, coçando o queixo com o cenho franzido. Era notável que nenhum dos dois queria ir.
- Sei não... Pra que ir?
- Ele não parece muito simpático não é? – falou Douglas – Sei lá, meio esquisito até.
- É mesmo! Esquisito isso sim, aquele tipo de cara que se acha, se liga?
- Não, ele não parece assim – tentei começar a defendê-lo – Ele só é tímido gente. Vocês deveriam ir falar com ele, e nos apresentar depois.
- Isso! Vai Bruninho.
— Depois.
— É, depois – confirmou Doug.
J ( Terceiro dia de aula, 10:05)
Júlio.
— Olha elas.
Jô apontou para um grupo de meninas, eram lindas, é claro, mas não era nelas que estava meu foco , e sim num grupo pequeno um pouco mais distantes, quatro meninas e dois meninos.
— E ah, olha aquelas.
A cada segundo ele apontava para mais e mais garotas. Às vezes eu achava que Jô apontava para as mesmas em lugares diferentes. Até que finalmente ele apontou para onde estava o pequeno grupo.
As garotas conversavam e riam entre si, mas os garotos olhavam para nós, sem querer encará-los, desviei o olhar para outro lugar.
Por um único momento de descuido, minha mente começou a voar, tanto que estava chegando em outro país.
— O que acha?
Jô precisou repetir a pergunta para que eu pudesse entender o que ele dizia.
— Ah é, são lindas.
— Será que algum daqueles caras namoram com alguma das garotas ali?
— Não faço a menor ideia.
Jô se calou, colocando os seus olhos para procurar mais garotas, enquanto novamente minha mente vagava por aquele país.
D. (Na sala de aula – 11:43)
Douglas.
— E então? Vamos lá pessoal, não é difícil.
O professor continuava a olhar a turma esperançoso, mas nenhum dos alunos não abria a boca para tentar responder.
— Não intervenção do Estado na economia?
Algumas pessoas viraram suas cabeças para olhar o garoto que dera a resposta, o mesmo novato loiro de mais cedo, que quando percebeu os olhos de todos corou pigarreando olhando para o outro lado.
— Isso! Qual é o teu nome fera?
— Ér – pigarreou novamente – Júlio.
— Muito prazer, está certo.
O professou continuou a dar aula, mas eu – como muita gente – não parei de olhar o aluno novo por mais alguns segundos.
Ele com certeza deveria ser como muito dos outros alunos dessa escola — pensava enquanto tentava ler um TD – se achando o bonitão, metido. Mas ao mesmo tempo, parecia ser tão tímido e fechado, que não sabia ao certo o que mais pensar.
— Não acredito que as meninas gostaram dele mesmo – cochichou Bruno atrás de mim – O cara é todo esquisitão!
Olhei para Júlio mais uma vez, ele parecia distraído com alguma coisa, mas enquanto eu ainda o olhava, ele virou a cabeça na minha direção e me viu que estava olhando, e rapidamente desviou para o professor novamente.
— Ele olhou para cá ou foi impressão minha? – cochichou novamente Bruno – Olhou, não olhou?
— Acho que sim.
Bruno ia falar outra coisa quando o sinal tocou, animado colocou suas coisas na mochila e pulou para fora da carteira e começou a sair junto com os outros.
As cadeiras se arrastavam e os alunos saiam apressados da sala, demorei um pouco mais, colocando tranquilamente todos os TD’s dentro do caderno, e quando estava prestes a sair, alguém esbarrou em mim e meu caderno caiu, espatifando as folhas que havia acabado de colocar nele.
— Ah cara, desculpa, foi mal.
Virei para saber quem havia se esbarrado em mim, o aluno novato estava parado com a mão na nuca totalmente vermelho. Rapidamente Júlio se abaixou e pegou o caderno e algumas folhas que estavam pelo chão.
— Toma aqui.
— Ah, valeu.
— Que nada – falava ele novamente com a mão na nuca – desculpa.
Abri um sorriso meio forçado e saí da sala indo atrás dos outros.
A. ( 11:50 )
Estávamos todos sentados no pátio da escola quando Douglas se juntou a nós.
— Por que a demora? – perguntei logo que ele se sentou no banco.
Douglas passou a mão pelos cabelos negros com um sorriso na cara, ele nos olhava sem dizer uma palavra, apenas ria.
— Pra que todo esse riso menino?
— Vocês queriam tanto assim que eu conhecesse o novato assim é?
Ninguém disse uma palavra esperando que ele completasse.
— Acabei de esbarrar com o novato lá em cima, bom, ou ele acabou de esbarrar em mim.
— Então você conheceu ele? – bradou Roberta – Se apresentou e tudo?
-Eu não – respondeu ele com um sorriso malicioso nos lábios – Vocês deviam se apresentar, não eu.
— Aí Doug, bastava você ter dito um Oi, sabia disso?
-Vocês deveriam ir dizer... Ah por falar nisso, olha ele ali.
Todos se calaram e voltaram o olhar para o novato que descia as escadas. Ele parecia conversar descontraidamente pela primeira vez desde o inicio das aulas com um amigo que não largava.
— E então? – perguntou Doug – Alguma de vocês irá dar um oi para o garoto?
— Eu vou! – disse me colocando de pé – Vou mostrar a vocês que ele é só tímido.
— Isso, eu vou com você Amanda.
Roberta levantou-se também, olhamos para trás; Douglas , Bruno e Luciana olhavam para nós com sorrisos de deboche, nos desafiando ainda mais a ir.
— Vamos? – perguntei segurando a mão de Roberta.
— Vamos.
Paramos de frente para as escadas, esperando os novatos que desciam. Por dentro, um nervosismo se espalhava rapidamente, meu coração batia mais forte do que o de costume. Pedia silenciosamente para que ele não nos ignorasse, apenas para que os outros não tirassem sarro conosco.
O novato se aproximava e meus lábios se esticavam em um sorriso, ele iria falar — tinha certeza -, mas de repente, ele parou e cochichou algo para o amigo do lado, deu as costas e voltou a subir as escadas rapidamente.
— Mas o que?...
Roberta olhou para mim antes de cair nos risos, não sabendo o que fazer, comecei rir também, inteiramente envergonhada.
— Vem, vamos voltar.
Ela me puxou de volta para a cadeira onde todos riam exageradamente de nós.
— Tímido né? – perguntou Douglas.
Permaneci em silêncio.
J (11:56)
— Finalmente! – disse Jô impaciente – Achei que tivesse se perdido por lá! Então, encontrou o livro?
— Estava bem debaixo da minha carteira.
— Isso é para aprender a deixar de ser esquecido! – Jô deu uma pausa olhando para o relógio e conferindo em volta – Vai fazer o que agora?
— Ah, eu vou no shopping almoçar com a Mayara...
Jô deu um sorriso malicioso, e sem que ele precisasse dizer uma única palavra, eu entendia muito bem o que ele dizia.
— Ela é apenas uma amiga Jorge, não há perigo nenhum de rolar algo entre nós, e mesmo que ela não fosse.
— Ué, por que?
. . .
(No shopping – 12:50)
-Olha que gata Zúlio! – Disse Mayara me cutucando na costela – Ali ó!
Mayara apontava com os olhos animada para as garotas que passavam por nós, ela mais parecendo o Jô hoje de manhã.
Agora estávamos em um shopping muito próximo do meu novo colégio. Mayara era minha amiga de onde estudava antes, e já havia terminado o ensino médio.
— Como anda o novo colégio Zúlio?
Fiz um gesto para que ela esperasse enquanto mastigava o sanduiche. Mayara continuava a olhar em volta totalmente distraída, quando ela novamente me cutucou para olhar uma.
Era loira, cabelos lisos sobre o ombro, não parecia ser muito alta, e estava de costa para nós, usava uma camisa azul, e de longe, era impossível dizer o que ela fazia, mas mexia na nuca com os dedos. Era ela linda, e nem precisava perguntar para saber que Mayara achava o mesmo.
— Bom – comecei a falar, e atenção da Mayara voltou-se para mim – Até que eu estou gostando. Bons professores... E, é bem frequentado o local.
— Bem frequentado é? – repetiu com um sorriso cheio de malícia – e se interessou por alguém?
Essa pergunta foi a mais fácil de se responder. Todas as caras que havia visto desde as aulas começaram, havia uma que me chamara atenção. Uma que houvera me deixado intrigado e deveras interessado.
— Anham, uma pessoa.
Mayara ia começar a falar, quando de repetente se calou, e pegou em meu braço, apontando novamente com os olhos para atrás de mim na mesma hora que alguém me tocou levemente no ombro também; virei-me tentando ver quem era, então me assustei.
— Oi!
— Oi! – pulei da cadeira nervoso – Como vai?
A loira que víamos antes estava atrás de mim, um lindo sorriso nos lábios, o rosto vermelho de vergonha. Eu a conhecia, não sabia exato da onde, mas eu havia quase certeza de que seu rosto era-me familiar.
— Você estuda lá no colégio Adventista não é?
— Sim – disse me lembrando de onde seu rosto era familiar – você também não é?
— Unhum! Ah, meu nome é Amanda.
— Júlio, prazer.
— O prazer é meu.
Amanda mordeu os lábios e olhando para trás de mim, cumprimentou Mayara, e depois, voltou a falar comigo.
— Você ainda está aqui, desde da aula?
— Sim, vim almoçar com minha amiga... Você também?
— Não, não, moro aqui perto, então já passei em casa. Na verdade, vim aqui mesmo para comprar um presente com a minha prima para o seu aniversário.
— Ah legal.
Amanda voltou a abrir um lindo sorriso, que eu retribui acanhadamente. Ela fez menção em falar novamente, quando seu celular começou a tocar.
— Um momento.
Ela se afastou de nós, Mayara fazia um esforço para não cair no riso, eu me sentia um pouco abobalhado, como não havia a reconhecido? Amanda então voltou, com a boca levemente repuxada.
— Eu preciso ir agora Júlio. Bom, foi um prazer te conhecer.
— Nada, o prazer foi todo meu.
Amanda se esticou dando um pequeno beijo em meu rosto, e acenando num tchauzinho para Mayara, foi embora.
Eu ainda estava quente e envergonhado quando voltei para me sentar a mesa. Mayara também estava vermelha, contudo o caso dela, era do riso que havia segurado.
— Correção – disse pigarreando – foram duas pessoas.
. . .
Fale com o autor