Os Dias Solitários de Charlotte Davies
2 Capítulo 2 - Um novo Aroma
Notas iniciais
Charlote passou pela sala de estar e sentiu o cheiro da comida que os pais estavam preparando. Mesmo sendo agradável ela resolveu ir direto para a cama, estava confusa e queria apenas pensar sobre tudo.
Haveria outro apartamento para alugar no prédio? Não, não podia ser. Seus pais teriam mencionado na reunião com o síndico. Perturbada com isso Charlotte tirou suas roupas e colocou a camiseta velha que sempre usava pra dormir.
Quando acordou sentiu o cheiro de torta vir da cozinha. Levantou-se devagar e foi até a cozinha. Chegando lá encontrou a mesa posta, com pães, tortas, biscoitos e mel (que ela gostava de usar para adocicar o leite). Junto à comida estava um bilhete de seus pais.
“Ma chère Charlotte¹,
Deixamos o café na mesa, coma direitinho, oui²?
Vamos à feira e se tivermos sorte estaremos de volta em algumas horas, esperamos que você esteja pronta no caso dela não nos visitar por um tempo.
Un Baiser,
Sa mère et le père³”
Charlotte encarou a carta, enquanto um arrepio subia sua espinha e acabava em sua nuca. Francês. Seus pais mantinham a França em escuro, era como se ela fosse um motivo para Charlotte se lembrar de suas origens (que na visão dos pais não eram muito boas).
Durante os seus 16 anos de vida Charlotte tentou manter essas memórias apagadas, mas ao sentir o contato com a sua língua de origem, sentiu o corpo estremecer. Para aqueles que não a conhecem bem, aqui vai sua história:
Os pais de Charlotte viajavam pela França em seus anos mais jovens, e a encontraram morando com um casal pobre, que trabalhava para uma trupe de artistas. Eles se conheceram em um dos shows, e ficaram encantados pelo charme da menina. Após uma súplica, os pais adotivos de Charlotte concordaram em adotá-la, contanto que seus pais biológicos não voltassem a procurá-la. O motivo nunca foi claro para ela, afinal, tinha apenas 9 anos. O que poderia se entender do mundo com essa idade?
Apesar desse passado Charlotte amava seus pais (não somente adotivos). Ela queria manter as memórias, mas após voltar da França com os novos pais ela nunca ouviu mais nada derivado do francês, e foi privada de suas memórias, forçada a esquecer suas origens. E agora que ela leu essas palavras tudo voltou como um turbilhão.
A nostalgia manteve Charlotte longe da refeição feita para ela. Tudo o que precisava era de um pouco de ar.
Charlotte desceu até a portaria, e foi até o parque do prédio. Lá encontrou Joe, sentado num balanço cabisbaixo. Quando ela se aproximou ele sorriu subitamente, foi algo que não se pode dizer sorriso, pois ele estava tão abismado com a presença da menina que mal pode respirar.
– Como isso é possível? O que você está fazendo aqui? Como você... mas e aquela... mas. E ele parou, e a encarou por mais alguns instantes.
– Do que você está falando? Perguntou Charlotte sem entender ao certo o que estava acontecendo.
– Você não notou?
–O que? A temporada de chuva acabou?
Nessa frase Charlotte deu uma pequena debochada. Era muito comum as chuvas virem e irem nessa época do ano.
– Não sua boba, o que acabou foi a humanidade! Eu achei que só eu tinha sobrado, mas...
– Ei, pera aí. Interrompeu. Do que é que você está falando?
– Chuck, não tem ninguém aqui. Todo mundo sumiu... foi estranho, eu estava voltando da lata de lixo e de repente as pessoas começaram a sumir, de maneira inexplicável as pessoas da rua foram reduzidas e conforme eu piscava os olhos elas sumiam.
Chuck... Como ele sabia desse apelido? Charlotte sentiu o calafrio novamente e entendeu de onde ela conhecia esse apelido.
– Eu juro que tentei parar de piscar, mas meus olhos começaram a arder e eu não pude evitar... Chuck? Ele parou ao ver a expressão da garota. Você está me ouvindo?
– Sim. Escuta, eu não sei do que você está falando, mas não é possível que... não pode ser...
Mas Chuck sabia que ele estava certo.
Por alguma razão isso não a fez estremecer, não fez com que ela se sentisse apavorada, e não a assustou. Ela sentiu uma paz, como se já houvesse sido preparada para esse momento.
– Você está com fome?
– Na verdade sim.
Chuck guiou Joe até o elevador, e subiram juntos em silêncio. Ao chegar no terceiro andar saborearam a melhor refeição que alguém poderia pedir no café da manhã.
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