Os Diários de Diego Dorhemee - Fevereiro

2 03 de Fevereiro de 1880 - Encontros


Notas iniciais
Espero que não fique muito chato essa maneira de escrever como se fosse um diário. Pode ficar meio maçante, então caso leiam eu quero a opinão! (eu posso desistir) :(

Quando as coisas começam a dar certo, tudo começa a dar errado.

Era o meu segundo dia naquela escola e tanta coisa acontecia... estava farto daquilo, eu podia conseguir uma solução para tudo aquilo, mas eu acho que preciso de ajuda...

Meu segundo dia no Instituto de Mecânicas Aplicadas e a luta pela sobrevivência.

03 de Fevereiro de 1880

Meu dia começou á meia-noite em ponto. Eu precisava dar um jeito de sair daquela escola, só não sabia como.

O teste físico de ontem foi muito cansativo, mas eu certamente consigo suportar o cansaço para bolar uma saída daqui.

Os dormitórios da escola ficavam no primeiro andar da Torre Principal (no centro da escola). Eram 400 alunos e havia cem quartos, quatro alunos dormiam em cada quarto e meninos não podiam dormir com meninas.

Meus colegas de quarto eram Higor, Jeremy e Marco (ou era Marcos?) e os três estavam roncando bem alto quando acordei.

Abri uma fresta da janela e vi um dos inspetores dormindo do lado de fora do dormitório, ele também roncava alto e eu rezava para que tivesse sono pesado.

Sai pela porta do quarto tentando fazer a porta ranger o mínimo o possível e andei até a porta no fim do corredor, onde o inspetor dormia sentado numa cadeira.

Eu estava calçando meias para não fazer barulho ao andar e então sai correndo pelo pátio o mais silenciosamente o possível até uma espécie de jardim que tinha no meio do pátio.

- Quem está aí? – Exclamou o inspetor com a voz ainda embargada pelo sono.

Ele estava a quase quinze metros de distância e eu estava atrás de uma moita, ele não podia me ver, mas eu o ouvi caminhando lentamente na minha direção, ele certamente ouviu quando eu saltei na moita.

- Parece que hoje teremos um aluno para ser enviado pra diretoria! – Disse o inspetor depois de um bocejo. Ele estava a dez metros.

Sem que eu percebesse, um vira-lata apareceu na minha frente e lambeu meu rosto. Eu quase morri de susto. Acho que eu vi esse vira-lata no dia anterior andando pelo enorme pátio da escola entre os alunos, ninguém se incomodava com a presença dele ali.

Eu espantei o cachorro com gestos e ele recuou com o rabo entre as pernas, saindo de trás da moita e sendo avistado pelo inspetor.

- Ah! Então é você, vira-lata? – O inspetor pegou uma pedrinha no chão e jogou-a no cachorro, que saiu correndo com o rabo entre as pernas.

O inspetor bocejou novamente e deu meia-volta, dirigindo-se para sua cadeira, eu aproveitei essa oportunidade para sair do pátio, entrando nos corredores da escola.

Passei perto da portaria principal e vi que ela estava sendo vigiada por dois inspetores que jogavam cartas, acho que pôquer. As demais portarias também estavam sendo vigiadas.

Me dirigi até o descampado e vi que haviam inspetores com lampiões fazendo rondas por lá e tive que me esconder debaixo de uma escada para não ser visto.

Debaixo da escada avistei não muito longe dali a tampa de um bueiro, e sem pensar duas vezes eu me enfiei nele sem muitas dificuldades.

Havia uma enorme rede de esgoto passando debaixo da minha escola, minhas meias ficaram encharcadas daquela água fétida e suja, mas eu não me importava, somente segui o curso da água até encontrar a saída que dava num riacho à meio quilômetro da minha escola, perto de um prédio vitoriano.

Caminhei sob a luz da lua e avistei a placa do prédio que me deixou tremendo de felicidade. Era a Real Escola Particular Henry Legrand para garotas.

Era aqui que ela estudava, e eu deveria ter muita sorte para encontrá-la.

As portas da escola rangeram e eu me escondi por instinto enquanto elas abriam. Duas inspetoras da escola abriam as portas para que uma garota com um capuz cinzento passasse.

- Tem certeza que não é perigoso? Ir até sua casa sozinha? – Disse uma das inspetoras.

A garota falou alguma coisa baixo demais para que eu pudesse ouvir, logo depois as portas se fecharam e a garota de capuz cinzento se afastou da escola.

Eu me esgueirei e me aproximei lentamente da garota, apanhando-a por trás e tapando sua boca, ela tentou gritar, mas eu não deixei.

- Não vou lhe fazer mal! – Eu disse – Eu só quero saber se você conhece uma garota que estuda aí! Lilianne Ferdinand!

A garota parou de tentar soltar-se e virou-se para mim depois que eu a soltei. Eu levei um tremendo susto ao reconhecer os olhos azuis da própria Lilianne.

- Lili! Eu não fazia idéia de que era...

Um tapa no rosto não me deixou terminar a frase.

- Isso é por ter me assustado! – Disse Lilianne com raiva.

- Desculpa! Não era isso que eu queria...

Outro tapa deixou minha cabeça girando.

- E esse foi por não aparecer pra falar comigo!

- Deixa eu contar minha história? – Eu disse já a uma distância que seus tapas não me alcançaria.

Eu e Lili nos sentamos à beira do riacho e lá eu contei sobre como era a vida no meu instituto e tudo o que eu vivi no meu primeiro dia, ela me contou sobre a escola dela, que era uma escola particular para meninas.

Caso vocês estejam pensando que Lilianne é minha namorada, saibam que estão enganados. Ela foi a minha melhor, talvez até a única, amiga que eu já tive. Nós nos conhecemos desde pequenos e ela é uma das poucas pessoas que conseguem me suportar.

Nós conversamos por um bom tempo, como não fazíamos há muito tempo, e logo já eram três horas da madrugada e eu estava caindo de sono, devido ao cansaço do teste físico de ontem. Lilianne percebeu isso e disse que eu deveria voltar pelo esgoto para dormir nem que seja um pouco.

Então eu me enfiei pelo esgoto novamente e voltei para minha escola, evitando os inspetores de corredor e entrando no meu dormitório pela janela. Então eu percebi que havia um aluno acordado me olhando pela porta do meu dormitório!

Eu fiquei surpreso, mas ao mesmo tempo furioso por alguém ter visto minha fuga. Ele só estava parado lá, olhando pra mim como uma estátua, como se estivesse em choque.

O vira-lata latiu lá fora e isso acordou o inspetor:

- Quem está aí? – Exclamou o inspetor de corredor.

O garoto correu de volta para o seu dormitório enquanto eu me enfiei de volta aos meus lençóis. O inspetor correu com seu lampião até a porta do meu dormitório, mas acreditou que eu estava dormindo, voltando para seu posto logo em seguida.

Embora ainda estivesse ofegante e com a adrenalina correndo pelo meu sangue, não demorou muito para que eu apagasse devido ao cansaço e às emoções excessivas.

Eu ainda estava muito cansado quando amanheceu. Os inspetores nos tiraram da cama e trancaram os dormitórios. Os alunos se movimentaram para o refeitório onde nosso café da manhã era servido.

Eu resolvi tomar café com Higor, Karina, Jeremy e Marco (ou Marcos, eu ainda não tenho certeza), eu não tinha outra escolha, afinal todos os outros alunos já tinha feito amigos e comiam junto com eles lotando as mesas.

Depois de algum tempo chegou o garoto cujo nome eu nunca consigo me lembrar chegou e sentou-se na minha frente.

Eu me ergui num salto ao perceber que ele era o mesmo garoto que havia me flagrado entrando no dormitório pela madrugada.

- Você! Você é o garoto que...

Eu havia falado alto demais apontado para ele no meio do refeitório, todos estavam olhando pra mim agora. Eu não podia deixar ninguém saber da minha fuga na madrugada, senão eu estaria encrencado.

- O que é que tem o Humbert?

- Humbert? – Ah! Então aquele era o nome dele – Ah! Nada! É que... ele... ele não pegou comida... – Tentei disfarçar.

Humbert fez um sinal tímido pra que eu me sentasse e me acalmasse e assim eu fiz e os alunos pararam de olhar pra mim.

As primeiras aulas do dia eram matérias comuns, aquelas que ensinam em qualquer escola fundamental do século XIX: Dois tempos de Línguas, um tempo de Latim e dois tempos de Aritmética.

Caso você não saiba, as escolas fundamentais são as escolas para onde os pais ricos mandam seus filhos quando eles estão na faixa de 13 a 15 anos, as disciplinas essenciais que todas as escolas fundamentais ensinam são: Literatura, Línguas, Latim, Aritmética, Ciências, História e Artes.

Tais matérias devem ser ensinadas em três anos. O alfabetizado das crianças menores fica por conta dos pais ou então de um tutor (geralmente pago).

Porém a minha escola, além das disciplinas essenciais possui disciplinas mecânicas, eis a lista das matérias do primeiro ano:

Teoria dos materiais de construção mecânica – Nós estudamos quais os materiais que devem ser utilizados para cada tipo de equipamento mecânico.

Teoria das técnicas a vapor – Estudamos os diferentes tipos de máquinas à vapor.

Retificação e regularização de máquinas – Aprendemos a identificas erros e repará-los nas máquinas.

Desenho Esquemático – Aprendemos a fazer desenhos técnicos.

Bem, essa foi a lista que o Higor me deu.

Para evitar o mínimo de contato entre os alunos, haviam três listas de chamada (uma para o nome, outra para o sobrenome e outra para o dia do nascimento), e a partir dessas listas nós éramos separados.

Nas aulas de Línguas, Literatura, Latim eu estudava com Humbert, já em Aritmética e História eu estudava com Karina e Jeremy e nas aulas de Artes e Ciências eu estudava com Higor e Marco (ou Marcos, eu preciso saber o nome dele!).

Bem, mas eu não preciso informar-lhes disso... O fato é que eu estava praticamente dormindo no último tempo de aula, era Aritmética.

O professor me acordou e pediu que eu explicasse a equação que ele havia acabado de resolver (que tipo de professor ensina equações no primeiro dia de aula?). Eu disse que não sabia nada e ele me mandou ir para a diretoria. Perfeito para o primeiro dia...

Eu fui andando sonolento pelos corredores em direção à diretoria, um inspetor me parou e perguntou o que eu estava fazendo, eu calmamente disse que a professora de aritmética havia me enviado para a diretoria e ele me liberou.

Só que um pouco mais adiante eu encontrei dois veteranos, um deles eu havia visto junto de José no dia em que lutamos com as Armas de Pulso, foi ele quem as levou embrulhada nos panos.

- Aonde está indo, arruela? – Disse o veterano familiar.

- Me mandaram ir pra diretoria... – Respondi.

- E o que você fez pra ser mandado para a diretoria?

- Eu dormi na aula de aritmética...

- Olha, se você não quiser ter um real motivo pra ir pra diretoria, é melhor você me passar 10 áureos! – Disse o veterano enquanto o outro ria.

- Eu não quero te dar o meu dinheiro! – Respondi bem firme.

- E eu realmente não queria fazer isso... – O veterano puxou uma Arma de Pulso da cintura, não era como aquela, parecia ser mais desenvolvida, o cano era maior e mais complexo. Ele apontou a pistola para minha barriga e disparou.

Eu fui jogado contra a parede com uma força duas vezes maior que da primeira vez, os dois veteranos começaram a rir e eu fui apagando pouco a pouco.

- Boa Eddie! – Disse o garoto para o que havia atirado.

Eddie... Não posso esquecer... O nome desse filho da mãe...

Eu apaguei e quando eu acordei eu estava na enfermaria, Higor e os outros estavam lá também, sentados do lado da minha cama.

- Meu Deus! O que aconteceu? – Eu disse meio zonzo.

- Você estava caindo de sono, talvez uma fraqueza... aí você desmaiou no corredor quando estava indo pra enfermaria! – Disse Karina.

- Não... – Eu disse lembrando do que realmente acontecera – Eddie...

- Bem, seja o que foi, você ficou desmaiado durante todo o horário do almoço... – Disse Higor.

- O quê? – Exclamei – Que horas são?

Eu saí correndo porta afora até chegar no bueiro. Olhei para os lado para ver se alguém havia me seguido ou estava me vendo, mas agora todos os alunos estavam no banheiro fazendo sua higiene bucal e os inspetores estavam almoçando.

Me enfiei no bueiro novamente e logo saí da escola, avistei Lilianne pouco antes de entrar no colégio.

- Lili! – Eu gritei por ela.

Lilianne parou e ficou olhando pra mim com uma expressão furiosa, eu a deixei esperando por muito tempo, estava ciente de que merecia um tapa.

Eu falei com Lilianne por pouco tempo, já estava na hora dela de voltar para a escola, e minha hora também. Ao menos eu tive tempo de explicar o acontecido.

Ao voltar para a escola, encontrei certa dificuldade em abrir a tampa do bueiro. Alguém estava bloqueando minha passagem!

- Ei, garoto! O que está fazendo aqui? – Disse a voz vindo de fora, eu tinha certeza com era o Eddie – Se quiser continuar andando por aí, me passa 10 áureos!

- Eu só tenho cinco... – Disse outra voz familiar.

- Isso serve! – Respondeu Eddie, e depois indo embora.

Depois de alguns segundos a tampa do bueiro foi retirada e lá estava aquele garoto novamente... Eu nunca consigo me lembrar do nome dele...

- Suba! – Disse ele me ajudando a subir – Eu tive que fechar o bueiro, senão os inspetores lhe veriam!

- Eu... Bem... Obrigado...

- Não se preocupe sobre hoje de madrugada, eu não tenho a intenção de falar pra ninguém! Nem sobre as suas fugas da escola! – Disse o garoto.

- Bem... Valeu, er...

- Humbert.

- Isso... Obrigado de qualquer maneira.

- Se você me deixar quieto no meu canto eu não mexo com você, mas eu posso dedurar você caso eu queira!

- Então nós vamos nos dar bem! Eu também não sou uma pessoa amigável...

- Então nós não vamos nos dar bem! Ao contrário de você eu sou uma pessoa legal!

As aulas da tarde foram de desenho esquemático, com todos os alunos do primeiro ano juntos. Mas eu não consegui prestar atenção, eu só precisava criar um jeito de escapar dos veteranos, eu simplesmente passei a aula da tarde inteira só pensando nisso!

E no fim do dia me surgiu uma idéia, uma idéia que eu iria esquematizar durante a noite...

Notas finais
Por favor comentem a história!