Os Dezessete

23 Capítulo XXIII - Fay Charlotte Valchort


Notas iniciais
Capítulo escrito por Amanda Böell, revisado por Emily de Farias.

– Como ela esta?

– Com muita febre.

– Isso é bom, não é?

– Sim, sim. Significa que ela está lutando para sobreviver.

***

– Me parece uma menina forte, de mais tempo a ela.

Vozes que eu não conheço. Alguém parece preocupado. É comigo? Minhas costas queimam, esta tudo tão...

***

Abro meus olhos.

– Alabastro! – acordo assustada com meu próprio grito, e olho ao redor, tentando me acostumar com a claridade do ambiente, parecia ainda ser de manhã, mas o que eu sei, afinal? Se quer tenho idéia de onde eu estou, porque meu braço já quase não dói, porque minhas costas não mais queimavam como o Inferno ou porque esses detalhes de minha consciência corporal são relevantes. Eu estou bastante confusa.

Meu braço lateja um pouco e eu estou com um leve desconforto por minhas costas estarem tocando o colchão macio. Isso significa que eu devo estar aqui há no mínimo uma semana. Ainda assim, algo doí em mim, e mesmo não sendo muito, me agonia. Uma tristeza que cresce gradativamente.

Isso deve vir de Alabastro, uma semana separados era mais do que estamos acostumados. Ele não está muito longe, isso era certo, mas mesmo assim, é mais do que o comum e longe de ser agradável.

Eu estou deitada numa cama, um travesseiro de penas sob minha cabeça, lençóis brancos, um criado mudo ao lado da cama, uma banheira, uma cadeira, cortinas brancas pesadas na janela. Não é um quarto muito grande, mas de tamanho formidável para uma pessoa. O chão e o teto são de madeira, uma madeira escura. Tento levantar da cama, o mundo gira.

Respiro fundo e tento novamente, levantando mais devagar. Minhas pernas estão doloridas e meio dormentes. Minha cabeça lateja um pouco, Alabastro deve ter caído muito bruscamente. Não me recordo de como cheguei aqui, e não consigo ver minhas armas em local algum. Não gosto dessa situação. Lentamente, centímetro por centímetro, vou me arrastando até sentar no chão, e mais lentamente ainda começo a me alongar.

Reparando em mim, percebi que não estou com as minhas vestes habituais. Minhas roupas foram trocadas, e me puseram em um... Vestido?!

Pela grande Deusa, eu não creio, um vestido? O que eu tenho, onze anos?

Ai minha Grande Deusa Draconiana, o vestido é branco? O que eu sou? Uma noiva?

Onde está minha roupa? Onde estão minhas calças? Como vou montar em Alabastro?!

Preciso chutar a bunda de alguém.

Antes que eu comece a bolar um plano pra sair dali e chutar alguém, um rapaz entra no recinto, carregando uma bacia de madeira cheia de algo que eu ainda não podia ver, ao notar-me no chão alongando as pernas, ele a deixa cair (não sei se por espanto ao ver minhas belíssimas pernas torneadas – afinal, eu sou realmente muito bonita –, ou de espanto por eu ter acordado).

Sorte que não quebrou, porque minha garganta está seca e eu sedenta de água fresca. A propósito, era água dentro da bacia, e quase metade dela se espalha pelo assoalho.

Olho-o com uma mescla de curiosidade e receio. É um rapaz, parecia um pouco mais velho que eu talvez, cabelos cor de onix e uma pele clara como a de quem não esta acostumado a tomar sol ou está doente. Olhos castanhos escuros quase como meu olho esquerdo. Ao olhar mais cuidadosamente, percebo que era bonito e parecia passar por uma mistura de susto e curiosidade. Ele não parece uma ameaça, o que me agrada. Talvez eu não chutasse a bunda dele. Pelo menos é bonito, seria desagradável acordar e encontrar um rapaz feio.

– Onde eu estou? E por que diabos estou num vestido? – minha voz sai rouca, tive que pigarrear. Ele parece sair de seu torpor causado pela surpresa.

– Na minha vila. Encontrei você em uma das trilhas pra cachoeira. Sinceramente, você me parecia morta, até eu notar que respirava com muita dificuldade. Então te trouxe para cá, para cuidar de você – ele tem uma voz aveludada, mas pronuncia cada palavra com a determinação que se espera de um líder, e nunca fui muito fã de líderes. – E está num vestido, porque garotas usam vestidos. É obvio. – responde, colocando a bacia de madeira sobre o criado mudo. – Antes que faça mais perguntas – ele prossegue –, acredito que eu tenha mais direito de fazer perguntas a você, já que, bem, você está viva graças a mim, graças ao fato que lhe dei abrigo e proteção sem nem saber que tipo de pessoa você é.

Moreno espertinho. Avalio ele e, sem motivo para recusar, faço um movimento positivo com a cabeça.

– Como se chama? E o que é aquela criatura que estava perto de você? Aquele réptil azul? – o rapaz pergunta com curiosidade polida.

– Turquesa – corrigi-o, por hábito. –, a cor dele é turquesa, não azul. E “aquele réptil”– faço aspas no ar.– tem nome, e é Alabastro. Meu nome é Fay, Fay Charlotte Valchort, me chame de Fay – respondo, tentando manter aquela polidez desnecessária, minha voz sai com uma nota clara de ameaça no final.

Ele ergue uma sobrancelha, sem parecer se abalar com minha ameaça, um brilho de divertimento aparece nos olhos dele.

– Oh, peço perdão se ofendi o Senhor Alabastro alguma coisa, Senhorita Valchort – a voz dele soa mais sarcástica a cada palavra.

Arqueio minha sobrancelha, Ele está realmente querendo jogar esse jogo comigo?

– Me traga um copo com água, Sr.Bonitinho-pena-que-gosta-de-ser-irônico.

Ele ri, pega um copo de barrode dentro do criado mudo, mergulha na bacia e me entrega. Bebo a água sem nenhum decoro ou modos, com uma vontade sedenta que damas não deveriam ter. Devolvo a ele o copo vazio e ele repete o processo, ate que enfim minha sede passa, o que acontece quatro copos depois.

– Quero ir até onde vocês deixaram Alabastro – olho-o com seriedade, ele demora alguns segundos pra entender o que eu quis dizer.

– Te levarei até ele com duas condições – ele fala com seriedade.

– Que seriam? – pergunto, curiosa e ansiosa.

– Não pode fugir montada em seu amigo assim que chegarmos lá. E não pode causar dano nenhum a nada nem ninguém – ele soa tão serio enquanto estipulava as condições, pena que são tão tolas que me fazem rir, concordo em meio a gargalhadas.

***

Uma hora e meia depois, estamos quase onde Alabastro se encontra, eu posso senti-lo bem perto, logo eu estaria com meu adorável réptil.

Eu ainda estou com o vestido, Paul – descobri que o nome dele é Paul. – demoraria mais que o suportável pra pegar minhas roupas, Alabastro é mais importante. É estranho usar vestido novamente, faz mais de nove anos que eu não usava um, já que montar dragões de vestido não é legal.

Viramos a esquerda depois da ultima casa da vila, então seguimos reto por um caminho de areia, cercado de árvores, estamos adentrando a floresta, viramos a esquerda de uma árvore com um x vermelho pintado, e seguimos reto por outro caminho de areia, essa reta se divide em dois caminhos cercados de árvores, arbustos e flores, o rapaz escolhe o caminho á direita, que tem mais arvores que flores. Após alguns minutos caminhando, consigo ouvir o barulho de água, saio em disparada pela trilha de areia, querendo chegar mais rápido possível onde Alabastro está. Graças a boa Deusa não tem mais curvas ou bifurcações no caminho.

Paul grita pedindo para que eu esperasse, mas como? Duas semanas sem uma parte de mim, era impossível suportar e mesmo se fosse, porque eu iria querer?
Duas longas semanas sem mim, pobre Alabastro. Logo eu o acho, ele está perto da cachoeira, não dentro, mas quase, mesmo de longe percebo o machucado na perna esquerda, triste e irritado. Corro mais rápido que posso, e então ele me vê, e seus olhos mostram que ele sentiu minha falta como eu senti a dele! Meu doce dragão.

Eu grito e ele ruge. Em dois segundos eu estou sem folego, chorando e rindo enquanto de algum jeito abraçava o pescoço dele. Paul chega depois de mim, bem depois, ou talvez não tanto, só sei que demoro para notá-lo, tudo que eu vejo e tudo que importa é Alabastro.

Levo uma hora pra me acalmar, e mais uma pra acalmar Alabastro. Durante uma dessas horas pedi a Paul que buscasse minha mochila. Ele volta não muito depois com ela e uma cesta de frutas.

Faço com que Alabastro entre na água e pegue uma quantidade considerável de peixes. Jogo pra ele um peixe de cada vez, e antes de engolir por inteiro, ele queima um por um.

– Isso não é pouco? – pergunta Paul que me observava, enquanto come uma maçã verde, sentado a uns cinco metros de onde Alabastro está.

– Pouco é algo que pode ser muito. Depende do quanto você se acostumou a lidar. Sou uma domadora e adestradora, quase uma veterinária, especialista em dragões. E dragões saudáveis precisam de uma alimentação balanceada de carne variada – respondo tranquilamente.

– Eu pensei que dragões eram carnívoros, e que geralmente comiam pessoas. Como contam as lendas e os livros infantis – fala Paul, eu rio da ingenuidade dele.

– Existem alguns assim – respondo. –, mas eles são diferentes, são mais perigosos, são menos conectados com a pureza de alma que a Deusa draconiana lhes deu. Um dragão que come carne humana é diferente de um que come carne de gado ou peixe. Tem uma pele diferente, um cheiro diferente, um olhar diferente.
São indomáveis. Não há luz neles. Depois que come mais de quatro pessoas, ele perde a essência de si mesmo e vira uma besta que vive pra comer, mas, para nossa felicidade, poucos são assim.

– Realmente feliz o fato de que poucos são assim – comenta ele, sério.

Observo Alabastro dentro da água, descansando com apenas a cabeça para fora da água. As feridas dele estão cicatrizadas como as minhas, tudo graças a nossa ligação. Sento do lado de Paul, pegando uma maçã.

– Não vou precisar mais que cuidem dos meus machucados – falo após terminar de comer a maça. Paul arqueia uma sobrancelha pra mim, com um olhar de divertimento.

– Estou curada – falo como se isso explicasse tudo propositalmente.

– Sempre esclarecedora – comenta ironicamente.

– Eu venho de uma ilha onde crescemos com dragões – explico. –, quando um bebê nasce, um ovo dragão choca, se o ovo chocou as duas horas e dois minutos da manhã e o bebe também nasceu nessa exata hora, eles se pertencem – falo de forma calma e cadenciada, sentindo a nostalgia me atingir e uma saudade me preencher, eu permaneço sentada ao lado dele, olhando pra Alabastro que descansa dentro da cachoeira. –, é criado um laço de sangue que nada pode romper alem da morte. Esse laço rende vários benefícios, como cicatrização acelerada, quanto mais perto eu estou do Alabastro mais rápido me curo. Somos mais saudáveis, velozes, fortes, e livres que qualquer um – assim que termino de explicar para o jovem dos olhos escuros, ele fica silêncio por uns segundos.

– Qual o problema com os vestidos? – pergunta enfim. – E não venha com “problema? que problema?”, vi a maneira como olhou para as meninas e mulheres da vila, como se fosse errado.

– De onde eu venho, montamos dragões a partir dos onze anos, há casos em que seu corpo e mente estão pronto antes. Seja menino ou menina, a partir dessa idade você pode montar um dragão e voar, então notamos que era mais fácil montar de calças do que com vestidos pomposos. E notaram isso muito antes de eu nascer. As mulheres que usam vestidos são as que não podem mais voar por velhice, gravidez avançada ou doença. Ou que são novas demais para poderem. Então, pra eu usar vestidos significa não poder voar. E eu amo voar – falo animadamente.

– Mas os homens permitem? – ele pergunta um pouco confuso. Rio de sua pergunta absurda.

– Permissão? Não temos que pedir permissão pra um homem, talvez pros nossos pais, e somente quando somos jovens, e mesmo se fossemos meninos seria igual. Homem nenhum manda em mulher nenhuma e mulher nenhuma manda em homem nenhum. Não de onde venho – respondo de forma descontraída. Ele arregala os olhos, realmente surpreso. Com essa reação decido continuar minha explicação.
– Somos filhos da mesma Deusa que concedeu liberdade a todos, somos iguais. Meu pai sempre falou que éramos exceção, nunca irei entender porque não somos a regra, já que não consigo ver como você pode ser diferente de mim, merecer mais que eu. Se somos da mesma raça, temos a mesma carne e nascemos do mesmo jeito –suspiro ao terminar meu discurso. – Eu já falei muito sobre mim e sobre o que sei, se não me contar algumas coisas sobre você e o sobre o que sabe, terei que te matar – murmuro a ultima palavra.

– Aí está nosso primeiro empasse… – responde com tom calmo e brincalhão. – Diante de tais fatos de sua cidade, creio que não há muito que eu possa me orgulhar da minha. Nasci em um feudo próximo daqui, filho do barão – ele fala com sua usual voz aveludada, mas soa amargurado e melancólico. – Ainda criança eu o vi morrer perante um antigo inimigo “político”, que tomou-nos o feudo. Foi nessa hora que fugi junto de minha mãe e fui cuidado por ela até pouco tempo atrás. Um grupo de viajantes que encontraram soldados fugitivos da ditadura imposta em meu antigo feudo construiu esta vila e logo que cheguei aqui me tornei um dos mais influentes. Nossa pretensão é retomar o feudo um dia, mas é um sonho impossível. No demais, sou um ser humano qualquer armado com uma espada, montado em um cavalo e liderando um exército.

Ele da de ombros e se levanta, sacudindo a poeira de suas calças.

– Melhor irmos – ele começa. –, tenho uns trabalhos a fazer e posso te mostrar a vila, lhe dar o desjejum ou qualquer coisa que quiseres. Estamos em seca nessas ultimas luas.

– Certo! Alabastro dormiu e está na água, então vai ficar bem sem mim por umas horas. Quero muito conhecer os aldeões e a vila, comer algo mais nutritivo, e também quero conhecer bem as redondezas, pois saiba que pretendo ficar. Irei lhe ajudar com sua pretensão. Devo a ti. E uma Valchort não deve nada a ninguém, portanto irei fazer com que derrote seu inimigo, caro Paul – falo, animada como sempre. Pego minha bolsa e deixo que Paul carregue a cesta, guiando-me de volta para a vila.

Notas finais
Agradecemos muito pela sua leitura. A autora manda beijos de luz a todos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.