Os Dezessete

21 Capítulo XXI - Melkor Ruspelf


Notas iniciais
Capítulo escrito por Nathan Guilherme Manoel, revisado por Emily de Farias.

Eu via a minha família, meus filhos e minha mulher, brincando sentados no nosso jardim, era tão lindo. Até se tornar em um pesadelo, minha família começar a pegar fogo e gritar "Culpado, culpado, isso é a sua culpa!", eu não conseguia falar, única coisa que eu conseguir fazer foi gritar.

– Ei, ei Acorde! – falou Veronika enquanto sacudia meu ombro. – Melkor, acorde!

– O que foi? O que aconteceu? – me levantei sobressaltado.

– Sério? Eu iria te perguntar a mesma coisa, você estava gritando e chorando. Outro pesadelo? Você sonhou com eles de novo?

– Sim... – respondi.

– O que aconteceu com você? A um ano atrás quando eu te conheci você parecia ter esquecido, pareci já ter superado.

– Eu não sei, é que... É como se eu estivesse caindo na real só agora. Toda noite eu fico pensando “E se eu tivesse ido pra outro lugar?”, “E se eu tivesse ensinado alguns feitiços pra ela?” talvez eu não tivesse perdido tudo.

– Que consideração, você não perdeu tudo, você esta vivo, então se mantenha assim até o fim.

– Até o fim – repeti, pensativo. –, e como saber se já não é o fim?

– Para de ser deprimido, estamos em uma casa abandonada esperando pra entrar em uma taverna cheia de bebâdos e homens escrotos, e você quer ficar nessa depressão? Qual é, VAMOS BEBER! – exclamou ela, sorrindo.

A felicidade dela me contagiava e me fazia seguir em frente, eu e ela já estamos viajando a quase um ano, visitamos a casa de vários treinadores de dragões e nenhum nos recebeu bem, mas existe uma esperança em Gaheal's, um ex-treinador de dragões que agora vive a sua vida em um bar onde o tipo mais “novo” de cerveja foi fabricado no ano passado.

Ao entrar na taverna, logo senti aquele cheiro forte de bebida. Cerveja derramada no chão, mulheres seminuas jogadas no assoalho de madeira com o brilho da bebida nos olhos, brutamontes olhavam enojados pra mim. Eu não ligava, mas Veronika estava com uma expressão de medo.

– Está tudo bem? – sussurei para ela.

– Sim, quer dizer... lembra-se quando eu te falei que tinha muito medo de ser estuprada?

– Sim, lembro.

– Esses caras me dão muito medo, e se eles me estuprarem?

– Eles não vão... são todos gays.

A Taverna Gaheal's era conhecida quase que mundialmente como a primeira taverna a liberar casais do mesmo sexo.

– O que desejam? – perguntou o balconista nem um pouco simpático, o rosto dele era cheio de cortes e marcas, ele só pode ter ido pra guerra, OU, teve uma noite especial com o seu sádico amado.

– Duas garrafas de cerveja com uma dose de informação.

Seu semblante ficou sério após eu pedir a "informação", que em questão de segundos ficou furioso e aquele cara furioso parecia um cão infernal.

– Só as cervejas, informações não faz parte do cardápio.

Veronika ficou irritada e disse:

– Qual é grandalhão, é rápido, só nos diga onde esta o treinador...

– Treinador? Não há nenhum treinador de coisa alguma aqui, não nessa cidade! – bradou ele, elevando o volume da voz a cada palavra, e todos da taverna já nos encaravam com uma cara de desgosto.

– Ok, agora me de a cerveja – falei.

Veronika me olhou com uma cara de espanto, ela parecia ter mesmo pensado que eu tinha desistido da informação.

– Aqui esta a sua cerveja! – disse o balconista, batendo com força o fundo do caneco na mesa, fazendo a cerveja respingar, ele se virou e sai do meu campo de visão.

– Você desistiu das informações? A gente viajou por um ano só pra você vir aqui e beber uma cerveja velha e ir embora? – indagou Veronika.

– Eu amo cervejas velhas, e sim, eu ainda vou conseguir as informações.

Após voltar, o balconista sentou-se numa banqueta atrás do balcão de frente para mim, ele estava me encarando e eu o encarei.

– Está boa essa cerveja? – perguntou.

– Não – respondi. –, ela parece velha, bastante velha.

Ele não gostou nem um pouco do meu comentário, mas eu não estava nem ai pra ele, eu queria as informações.

– Okay, eu viajei muito pra só beber essa cerveja horrível.

Então eu taquei o caneco de cerveja (que ainda tinha um pouco daquela bebida ruim dentro) na cara do atendente com força, a ponto de chegar a abrir um corte na bochecha dele.

– Vai contar ou esta difícil?– estiquei o braço e puxei a cabeça dele de encontro a mesa, o povo ao redor já estava assustado, tentando decidir se me impediam ou fugiam para suas mamães. Eu devia dar explicações a eles?

– Não direi, nun... – então eu bati com a cabeça dele na mesa pela segunda vez e segurei seu rosto contra a madeira, a mesa estava cheia de sangue. I de canto de olho que Veronika via aquela cena com uma expressão de surpresa, o que era estranho, ela não sentia nojo daquilo?

–Pela última vez, diga onde está o treinador! – gritei a plenos pulmões.

–Eu não vou falar, não vou! – falava ele.

Foi aí que puxei um dos bancos que estava no meu lado e bati na cara dele, eu acho que exagerei.

– Vai falar ou quer que eu continue?

– Ok, ok – disse o balconista numa tentativa de se comunicar, enquanto eu ainda segura seu rosto contra o balcão. – O Treinador mora perto da fazenda, a casa velha com uma pilha de livros na entrada – logo depois ele cuspiu dois dentes. Ele estava puto e com razão.

– Então gente, continuem com a sua putaria – falei, me dirigindo aos clientes da taberna. –, e cerveja para todos! – gritei, jogando um saco de moedas de ouro em cima da mesa e me dirigi a porta, Veronika me observava admirada.

– Porque ele queria manter tanto segredo sobre a localização do treinador? – indagou ela enquanto me acompanhava.

– Bem, na Rússia existe um certo preconceito com dragões, qualquer pessoa que treine ou cuide de dragões é considerado um traidor, traidores e assassinos são o lanche favorito do Juiz.

–"Juiz"? quem é esse?

– Você tem 22 anos, sempre morou na Rússia e não conhece o Juiz? Ele tem a lei ao seu favor, todo assassino e traidor é morto por ordem dele, dizem que ele vive vagando por ai, dizem que ele é mais rápido que um coelho, existe até teorias de que ele não seja apenas um homem, mas sim vários Juizes.

– Nossa, espero nunca cruzar com ele.

Já era meia noite, eu e Veronika já estavamos na frente da casa do treinador de dragões, era uma casa pequena com pilhas de livros no chão com janelas pequenas. As luzes estavam acessas, dava pra ouvir gritos de alegrias, alguém estava fazendo uma baita festa ali dentro.

–Bata, chame. Qual o tipo de velho louco tem ali dentro? – cochichou Veronika.

–Eu não sei, e tenho medo de descobrir.

Ao me aproximar da porta, os gritos de alegria pararam, quem quer que morasse naquele lugar sabia que a gente estava ali.

–QUEM É? Teresa? Eu não preciso de seus serviços hoje. Volte amanhã, minha querida – disse ele. Quem será essa Teresa? Que tipo de serviço?

– Não senhor, não é a Teresa – respondi.

–Ufa, ainda bem, espera... Quem são vocês? – perguntou o homem, sem se quer sair de dentro da casa.

– Melkor e Veronika, e nós precisamos falar com você.

– Sou Senhor, muito obrigado. Qual é o assunto?

– Dragões.

–Aaaah, dragões... Entrem.

A porta se abriu e não tinha ninguém na nossa frente, eu entrei primeiro. E, surpresa, ele estava atrás da porta com uma faca, que em menos de cinco segundos estava perigosamente encostada na minha garganta.

Ele era estranho, tinha cabelo branco, porém seu rosto era jovem, tinha os olhos da cor... Rosa, os olhos dele eram rosa claro, mas rosa! Ele usava um manto e não trajava camisa, revelando toda a barriga dele, era sarado, era um tipo de barriga que eu sonhava em ter.

– Quem falou para vocês? – perguntou.

– Falou o que? – rebati.

– Não pense que eu sou idiota.

– A única coisa que eu consigo pensar é nessa faca que tá na minha garganta.

– Ta se sentindo incomodado? Calma, no inferno você poderá relaxar! – disse ele enquanto pressionava lentamente a faca, furando minha pele. Então Phill, aquela cobra louca, subiu sobre ele e deu uma mordida na mão que segurava a faca, o homem soltou a faca.

– SEUS MOOONSTROS, MEU DEDO – gritava ele. –, FILHOS DE UMA PUTA, MEU DEDO.

Veronika o puxou, fazendo o homem se deitar em cima de uma pilha de livros e começou a sugar com a boca o veneno da mordida.

– MIL DESCULPAS – gritei na mesma altura que ele. –, PHIL É ASSIM AS VEZES, VOCÊ O IRRITOU.

–EU O IRRITEI? ESSA É A MINHA CASA! – gritou ele, com a voz esganiçada de indignação e dor.

–Mil desculpa, nós só queremos ajudar com uma coisa.

– "Essa Coisa" é um dragão. – disse Veronika, tirando sua boca de cima do homem.

– Vocês chegam na minha casa, me envenenam e ainda querem que eu ajude? – disse ele, já com o dedo “ajeitado”.

– Nada disso teria acontecido se você, o Anfitrião, soubesse guardar a sua faca – rebateu Veronika – "Todo o bom anfitrião deve saber quando erguer a sua faca." mesma, Eu.

O homem rompeu em gargalhadas. Ele estava rindo do que ela falou? De alguma piada secreta, misteriosa e desconhecida? Como assim?

– Vamos começar de novo, Eu sou Arsec Blazer, me chamem só de Blazer, Veronika e...?

Ele lembrou do nome dela, sorri internamente.

– Melkor.

–Ah sim, Melkor. O que inferno vocês querem?

– Ajuda, para matar um dragão – falei.

– Oras, só cortem a cabeça desse dragão, simples.

–Não é bem assim...

Então eu contei a história toda pra ele, ele parecia estar curioso e intrigado com o que eu falava.

– Dragão falante, com armadura branca e lançava fogo infernal? Bem, existe vários assim, fale mais...

– É só o que eu sei.

– Hum, então venha comigo – disse ele. – Só você – falou, apontando o dedo para mim.

Veronika não gostou nem um pouco desse "Só você", e eu estava estranhando. Ele me guiou até um quarto de vidro, sim um quarto onde todas as parede eram vidros e no centro havia uma cama.

–Deite-se ali.

Eu deitei na cama, e eu conseguia me ver refletido no teto do quarto, eu estava horrível, todo sujo, todo desarrumado.

– O que vai fazer? – perguntei, já suando frio.

– Abrir a sua mente – disse ele.

Elepingou quatro gotas de um liquido roxo que brilhava na minha testa, era incrível. Após por as gotas ele começou a falar alguns feitiços, e aquelas gotas começaram a rodar como um tornado, minha cabeça parecia ter um buraco no meio e ali aconteciam algumas coisas, ele literalmente abriu a minha mente. Imagens apareciam, a minha vida estava sendo exibida, ele assistia com uma cara de quem estava gostando.

Aquilo durou uns 5 minutos, me fazendo fez lembrar coisas, coisas boas e coisas ruins, a morte da minha família foi uma das coisas ruins, e o dia que eu conheci a minha esposa, num festival, todos comiam, bebiam loucamente, estava uma loucura e no meio de toda aquela gente, estava ela. Linda, bem arrumada, de bochechas rosadas, eu tive que puxar assunto com ela, nossa primeira conversa foi sobre guerras. Rever aquilo foi ótimo, porém, triste.

– Você esta chorando? – perguntou Blazer.

–Não, não é que algo entrou no meu olho. – respondi de reflexo.

–Não precisa criar mentira, eu sei, é triste. A primeira vez que eu usei isso em mim mesmo eu chorei quase que uma tarde inteira. Mas enfim, eu sei qual dragão é.

– Qual?

–Não é um lendário, é um dragão guardião, eles geralmente servem pra proteger artefatos raros. Matar um deles é fácil quando se tem a arma certa, que para sua sorte, eu tenho .

– Você não é um simples treinador, né?

–Não, eu sou um feiticeiro, eu já fui um feiticeiro mestre, mas parei. Vamos, eu vou te levar pra sala de armas.

Veronika estava de braços cruzados na porta do quarto, ela estava brava, MUITO brava.

– Hum, o casal terminou o coito?

– Nossa Veronika, o único coito que vai rolar aqui é entre eu e você – disse Blazer, o Ousado.

Veronika esboçou um pequeno sorriso, e Blazer nos guiou até a sala de armas dele, não havia muita coisa.

– Para derrotar esse dragão, você precisa de uma arma de elemento Água – então ele puxou um arco e flecha que estava dentro de um báu –, pegue esse arco e atire bem no peito dele, o coração de um dragão guardião é totalmente fogo, não existe carne. É apenas fogo. Esse Arco é um arco elemental, você mentaliza um elemento e atira, a flecha será o elemento, entendeu?

–Sim, sim, acho que sim – falei.

– Mas, você irá desmaiar quando usar,o arco suga toda a sua energia,entendeu?

– Sim. E como eu vou encontrar ele?

– Então, para chamar um dragão guardião, você tem que apitar isso – e ele me entregou um apito cor de rosa – ,e tem que dizer o nome dele. E sim, como treinador, eu sei o nome daquele. Apite e chame por "Dhuratzu". E para Veronika – ele pegou um escudo que tinha no báu – , o escudo do antigo rei Lasgar, um dos melhores escudos que eu já vi.

– Ok. Obrigado Blazer, estou te devendo essa.

– De nada, fiquem vivos e a Veronika pode passar aqui em casa para... retribuir o favor.

Eles se olhavam de uma forma estranha , os dois pareciam que transavam com os olhos. Eu fiquei com medo.

– Blazer, cuidado com a mordida de cobra – disse Veronika.