Os Dezessete
18 Capítulo XVIII - Fay Charlotte Valchort
Notas iniciais
Tédio. Era sempre a mesma paisagem em cima do meu réptil azul turquesa, minha bunda doía de tanto tempo sentada nas costas de Alabastro. A animação do primeiro dia tinha diminuído cada vez mais a cada dia, embora a primeira semana tivesse sido incrível; afinal, eu amava voar, mas as seguintes tinham sido cheias de tédio, cansaço, desânimo, e dor na bunda. E nada acontecia desde o dia em que eu, cansada do meu próprio desânimo e do de Alabastro, desafiei-o a quem ficava acordado mais tempo. Acabou que nós dormimos exatamente na mesma hora dois dias depois, o que foi no mínimo burro, porque:
1º Um dragão cansado é um dragão com metade da força.
2º Você já viu um dragão voar enquanto dorme? Pois eu nunca vi.
3º É muito difícil não cair do dragão, quando se está exausta.
Então graças à minha ideia brilhante, despencamos do céu.
* * *
Fay acordou cinco minutos antes de serem feitos de purê, porque estava frio, muito frio, e sentir frio sentada num dragão que parece uma fornalha é muito, muito difícil.
Então acordou seu amigão azulado com o chicote, (pois o sono dele estava pesado, e gritar quando se está despencando não funciona) e conseguiram pousar num penhasco qualquer, em algum lugar.
Obviamente que deitaram ali mesmo, sem checar o perímetro ou descobrir onde estavam. Dormiram umas dez horas, mais ou menos.
Teriam dormido mais se Fay não tivesse sido atingida por uma pedra.
Parecia que próximo de onde eles pousaram havia uma aldeia. Foram crianças que jogaram as pedras para acordá-la; deviam ter uns oito anos. Ela acordou bem desperta, afinal é muito difícil acordar grogue quando se é acordada com pedradas. Com seus cabelos curtos e negros como piche bagunçados, remela nos olhos, um bafo que mataria alguém, e nada feliz por seu sonho com um mundo feito de doce ser interrompido.
Fay ficou de pé em Alabastro e com o chicote na mão esquerda, pois é canhota, chicoteou o chão e soltou um grito que assustava os animais menores de onde ela morava e as crianças saíram correndo, menos uma. Tirou a remela dos olhos, esperando a criança ir embora, mas ela não foi, parecia curiosa.
Era um menino menor que os outros de cabelos escuros, olhos claros que tinham heterocromia e pele um pouco queimada no sol. Ele tinha uma mancha em formato de uma pétala de cerejeira no braço direito, também. Curiosa, desceu do monte azul de carne que formava Alabastro e perguntou:
– O que foi?
– Os olhos dele se arregalaram quando notou que seus olhos eram como os da moça mas, com coragem, ele respondeu baixinho, meio trêmulo;
– E-eu e os meus amigos n-não queríamos machucá-la, apenas estávamos curiosos sobre esse bicho gigante. Vocês fizeram muito barulho quando caíram. – Fay ergueu uma sobrancelha e perguntou.
– E quando estão curiosos com forasteiros jogam pedras neles? — o menino se encolheu com a pergunta, acanhado, e bem baixinho pediu:
– Desculpa. – a morena deu de ombros, aceitando as desculpas.
– Onde estou? – perguntou, curiosa, olhando ao redor. Era tudo muito verde e bonito, mas devia ser alto como no topo de um penhasco, ela podia sentir que a altitude não era pouca porque respirar não era tão fácil como se geralmente é em lugares baixos.
– Lzua Lanis. – Ele me respondeu, parecendo à vontade em falar do lar dele.
– Nunca ouvi falar. Tem alguma cachoeira aqui? – Indagou Fay, observando o lugar com maior atenção. Era muito bonito, mas não a parecia uma ilha, devia ser a costa de algum continente.
– Ter tem. Mas é depois da aldeia e demora um pouco ate chegar lá. – o menino respondeu, dando novamente de ombros. Ela não estava com pressa e aldeias não a assustavam, pois podiam ser facilmente destruídas por um dragão grande, como o dela.
– Me leve lá.
Alabastro tinha acordado no momento em que desmontou dele. Estava alerta, pronto pra qualquer coisa.
– Fique atento a possíveis ataques, volto em duas horas. – Mandou após subir nele e pegar sua mochila. Então desceu para poder seguir o menino a pé.
Ele conhecia um caminho que não passava pelo meio da aldeia, porém passava pelo meio da floresta e florestas podem ser perigosas. Mesmo assim não deixou de seguí-lo; ela precisava de um banho, já fazia semanas desde o último e logo não suportaria o próprio cheiro, sem falar que banhos em cachoeiras são sempre os melhores.
Levou uma hora cheia de cobras, esquilos e pássaros nada amigáveis até chegarem, mas valeu a pena: a adestradora dracônica nunca tinha visto água mais cristalina, e isso que morou a vida inteira em uma ilha linda com um mar muito límpido. Dava para facilmente se ver o fundo da cachoeira, que parecia não ser muito profunda, quase sem aquelas pedras incômodas que pinicam os pés e sem muitos peixes. Um ótimo lugar para se banhar.
Olhou para o garoto e seu estômago roncou. Para se desculpar com ela por conta das pedradas, o menino foi atrás de frutas para amenizar a fome dela. Quando ele saiu, ela começou a se despir e, assim que ficou nua, abriu a mochila e tirou de lá uma bolsinha de couro que continha vários sabonetes artesanais. Tirou o de lavanda feito por ela mesma, entrou na água (que era deliciosa), começou a se esfregar com o sabonete até ficar limpa e cheirosa, então mergulhou na água e tirou todo o sabão, que foi levado pela correnteza até as lagoas, saiu da água e guardou o sabonete na bolsinha de couro. Antes de voltar para água, algo chamou sua atenção: era uma pedra redonda, branquinha e lisa. Era quente, bonita e diferente; provavelmente o escamoso iria gostar, então guardou na mochila e logo em seguida voltou a nadar até que o menino voltasse. Cinco minutos depois, ouviu o grito de uma mulher na margem da cachoeira, mas antes que Fay pudesse nadar até ela e ver o que havia acontecido, a mulher saiu correndo que nem uma louca.
Confusa, nadou até o raso da cachoeira, então o menino com as frutas chegou. Assim que ele a viu saindo de dentro da cachoeira, deixou todas as frutas caírem no chão; parecia completamente chocado, mal conseguiu falar por alguns instantes, mas ela o ignorou até estar completamente vestida. Quando ela estava terminando de colocar a mochila, ele gritou:
– Essa é uma cachoeira sagrada! Nadar nela é uma afronta aos deuses!
– Bom, isso é problema seu, deveria ter me avisado antes! Não são meus deuses. – Rebateu Fay, sem paciência pra bobagens como essas.
– Alguém viu você!? – ele perguntou alvoroçado.
– Sim, sim. Uma mulher me viu, gritou e depois saiu correndo. – o menino ficou tão pálido com o que ela respondeu que ela achou que ele fosse desmaiar, mas antes que a mestiça pudesse falar qualquer coisa pra acalmá-lo, ele começou a puxá-la pelo caminho que vieram e em dois minutos estavam correndo. Enquanto corriam, o pequeno disse:
– Eu não podia mostrar a forasteiros a cachoeira! Vão me matar se descobrirem que eu a mostrei!
– Pare de choramingar. Eu tenho um plano, mas vais ter que cooperar comigo. Então cala essa matraca antes que eu mesma cale. – Falou Fay, de forma grosseira.
Sua sorte era ser prevenida; tinha sua adaga preferida que sua mãe lhe dera no cinto, seu chicote e o melhor de tudo: um bom plano.
Levou meia hora pra chegarem lá onde estava o réptil azulado, mas antes de saírem completamente da floresta, parou o garoto na sua frente e disse:
– Sinto muito, isso vai doer. – E então socou o rosto dele e, com a adaga, fez um corte na bochecha dele.
Bagunçou o cabelo dele e deu uma rasgada na bermuda dele e na camiseta, pra fingir que ele tinha tentado lutar, bagunçou seus próprios cabelos e se arranhou toda, para fingir que tinham lutado, e então saíram da floresta dando de cara com a maior parte da aldeia, com forcados, espadas, martelos.
Eles pareciam com muita raiva e um pouco de medo. Fay segurou o pescoço do garotinho com a mão direita e com a esquerda posicionou a adaga no ponto certo para furar a veia central. Então, bem alto para que todos escutassem, começou a falar enquanto se movia o mais próximo possível até o Dragão.
– Se tentarem me atacar ou atacarem meu dragão, matarei o menino e depois meu dragão queimará a aldeia e comerá todos vocês vivos. Então baixem as armas, AGORA.
Assim que ela gritou ‘agora’, o dragão azul levantou voo. Os aldeões se distraíram com a decolagem dele, pois ver um dragão levantar voo não é nada comum ou desinteressante e, graças a essa pequena chance, a domadora saiu correndo com o menino, correndo à toda, e quando os aldeões perceberam que ela estava fugindo, Fay já estava pulando com o menino da beira do penhasco, onde tinham aterrissado horas e horas atrás. Ficaram dois segundos caindo até Alabastro os salvar. Cinco minutos depois ela estava de pé, jogando o menino pros aldeões enquanto gritava zombeteiramente pra eles:
– Obrigada pela hospitalidade!
* * *
Sorrio com a lembrança. Era um bom menino, uma pena que não perguntei o nome dele. Mas meu sorriso não dura, pois sinto uma queimação no meu braço esquerdo, como se Alabastro tivesse sido machucado.
Olho pro meu braço esquerdo e ele está com uma mancha roxa grande. Alabastro estava machucado, e isso não era comum.
Assim que ele tocou nas costas do meu réptil, eu me levantei com a graça e a agilidade que somente alguém que monta dragões possui, já com o chicote na mão esquerda, pronto pra ser usado.
O que me surpreendeu não foram suas asas de galinha gigante, ou seus olhos roxos esquisitos, ou a cor de cabelo estranha, ou a altura dele, que era baixíssima. Foi a aura triste, raivosa e vingativa.
Olhei-o desconfiada e perguntei;
– O que raios você quer, menino galinha?!
Ele por um momento pareceu confuso. Provavelmente porque o chamei de menino galinha.
– Seu dragão. – Ele respondeu, me encarando.
– Se o quer, terá que me matar primeiro. – Exclamei, desafiando a tentar.
Os olhos dele se arregalaram um pouco, Alabastro rugiu e eu golpeei o menino ave no tronco com o chicote, rasgando a túnica dele. Foi ai que ele veio pra cima de mim em uma velocidade acelerada, tentando me golpear na cabeça.
Defendia-me com minha adaga; mesmo sendo canhota, sabia usar as duas mãos em combate. Alabastro fez uma curva fechada e o garoto do cabelo estranho abriu um pouco a guarda por conta do desequilíbrio causado pela instabilidade. Rapidamente, guardei a adaga e dei um gancho de direita nele, o deixando desnorteado. Então dei uma joelhada na boca do estômago e ele cuspiu sangue no meu rosto, quando eu fui limpar o sangue ele me deu uma rasteira e eu caí, então ele pulou por cima de mim e foi em direção ao pescoço de Alabastro. Dei um pulo pra ficar de pé e ordenei bem alto:
– ALABASTRO, MANOBRA EVASIVA.
E foi aí que o menino pássaro quase caiu do dragão e eu peguei minha adaga novamente. Alabastro começou a voar muito rápido enquanto fazia várias curvas fechadas e seria difícil pra alguém não acostumado a voar em dragões acompanhar, bem difícil. Mesmo meio cambaleante, ele veio pra cima de mim com a espada, em alta velocidade, conseguindo fazer vários cortes no meu braço direito, todos profundos o suficiente pra deixar uma cicatriz quando curassem. A túnica dele estava estraçalhada e o couro por baixo estava cheio de rasgos e sangue. Ele me deu uma rasteira novamente e assim que eu caí, chicoteei a mão que manejava a espada com força mais que o suficiente pra derrubá-la da mão dele; assim que ele derrubou a espada, levantei com um salto, ele veio pra cima de mim com os punhos cerrados, mas fui mais rápida e chicoteei em diagonal o rosto dele, fazendo com que sangrasse muito, cegando-o temporariamente. Ele abriu as mãos e então exclamou algo que não consegui entender, mas um segundo depois eu senti, ou deixei de sentir, pois ele tinha de alguma forma, de algum jeito, talvez com algum tipo de magia proibida, ele tinha conseguido me paralisar. Eu só conseguia respirar, ver e ouvir.
Foi quando eu o vi golpear a asa de Alabastro que desejei que aquela magia também pudesse me cegar temporariamente, e assim que ouvi o som gutural que parecia um grito de pura dor, desejei também não poder ouvir temporariamente, e foi nesse momento que a magia me soltou e eu senti. Senti a dor descomunal que rasgava minhas costas, lágrimas caíam aos montes e eu gritava junto ao meu dragão, que dividiu a alma comigo. Mesmo com a vista embaçada e a consciência abalada por conta da dor e do choque, eu conseguia olhar pra baixo pra saber onde iríamos cair. Era um lugar com campo arado, com uma parte cheia de casas modestas em torno de um parque central arredondado. Foi esta a última coisa que vi antes da inconsciência provocada pela dor extrema chegar e, mais uma vez, despencarmos do céu.
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