Os Dezessete
16 Capítulo XVI - Prometheus
Notas iniciais
Parti daquele lugar friento em buscas de mais respostas, eu e Asal. Me teletransportei para perto uma vila de camponeses e cavalheiros, chamada Gludin. Gludin era uma pacata vila, onde possuía uma das mais famosas tavernas das ilhas nortistas. Geralmente, depois de 10 copos de vinho, todos estão numa pancadaria generalizada.
Coloquei meu capuz e segui a estrada principal de pedra polida, levando ao Portão Central do Norte. Gludin, em si, era mais uma vila civilizada do que bárbara. Habitada por infinitos estrangeiros, com infinitos sotaques, era um lugar que sofria grande repressão do governo local. Possuía no centro da cidade, uma estatua representando os anjos e uma igreja, uma das únicas em todo o reino nórdico. Esta igreja continha arquivos secretos e divinos.
Adentrei a vila, entrei num beco sujo e fedido, onde a saída desbocava num ferreiro. Entrei no estabelecimento e pedi a ele uma faca de prata polida. Quando o velhote parrudo deu as costas, aos poucos fui revelando minha verdadeira forma angelical. Eu corpo flutuou do chão, meus músculos se tornaram definidos, meu braço esquerdo virou uma empaladora que libera um cheiro de pedra derretida e enchofre, alem de uma neblina antinatural, meu braço direito emanava poderes negros, meus cabelos ficaram da cor do céu entardecido, e meu coração bombeava o sangue tão fortemente que minhas veias e artérias saltavam de minha pele, ficando a exposição. O velhote, aterrorizado, arremessou a faca em uma perfeita mira. Direto no meu coração.
No reflexo de um espelho no hall da loja, a aura que emanava ao meu arredor se rompeu numa explosão de luz. Estranhamente, tudo aquilo se passara apenas em minha mente. Como uma alucinação ou premonição. O velhote, quase surrando meu rosto, disse:
– Ei garoto, não pedistes essa faca? – perguntou, me mostrando a lâmina prateada e polida.
– S–sim. Perdão! – gaguejei, envergonhado peguei a faca e, para a surpresa solida do velho, paguei a adaga com um topázio real.
Saindo da loja, fui em direção à igreja. Corri a toda, para que os magos locais não me identificassem. Entrando na igreja, olhei tudo ao redor e percebi cada detalhe do local: Uma igreja, feita de mármore branco coletado pelas mãos de anões das montanhas já extintos. Possuía estatuas corroídas de formato anjos, apontando com sua espada a direção da justiça e da redenção. As janelas eram altas e largas, fazendo com que a luz natural fosse o principal fator de iluminação.
Pela primeira vez senti medo. Aquele lugar fazia arrepios subirem por minha espinha e deixava arrepiados os pelos de minha nuca. Notei que havia um padre recitando os versos da Bíblia Sacra. Li a mente dele e tornei a confusa, para que ele não notasse minha presença. Voei em direção a biblioteca.
– Reverendum – Pronunciada as palavras mágicas de meus lábios, a porta se abriu e a magia local não me detectou.
– Por que tens tanto medo da magia local, Prometheus? –– Asal me perguntava aquilo rindo, deixando-me levemente enfurecido.
– Não é da sua conta! – retruquei bruscamente.
Comecei a vasculhar todos os arquivos que tinham dentro daquela biblioteca. Livros, arquivos históricos, bíblias e mais bíblias… Eu não estava conseguindo achar o que procurava.
– Diga-me de uma vez o que tu procuras nesta sala, seu anjo… – interrompi as palavras venenosas de Asal, segurando a bainha da rapier com força. Asal me mordeu, me fazendo sangrar.
Uma gota de sangue caiu no chão e tudo que podia dar de errado e certo ao mesmo tempo, aconteceu. A gota havia feito toda aquela sala ficar banhada sangue prateado, e o único arquivo que eu procurava ficara intacto. Me teletransportei em extâse, peguei aquele arquivo e abri numa página totalmente aleatória. Meus olhos se encheram de lágrimas e cai de joelhos no chão, abraçando aquele caderno com toda minha força.
Eu soluçava. Eu quisera entender o porque daquela carta, eu queria entender tudo o que tinha se passado. Ali tinha uma carta, ainda fechada e endereçada a mim. Num átimo rompi a cera de seu ladre e li. Li como se minha existência dependesse daquilo.
– Prometheus, você esta bem? – perguntara Asal, apreensivo.
– S-s-sim… – respondi, tendo minha voz entrecortada pelos soluços. – Leia! E agora entenda o porque de eu chorar tanto! – lancei a carta ao ar, fazendo Asal criar dois braços etéreos para agarrar o pedaço de papel, escrita a mão a tanto tempo, feita sem qualquer uso de magia.
“Querido Prometheus, não sei como escrever uma carta, pois está sendo a primeira a última.
Sei que até ai você já matou seu irmão, como já profetizado. Queria pedir antes de tudo, calma e coerência. Sente-se, meu amor. Eu tive que apagar sua memória, botar para você dormir, meu bem. No dia quando você nasceu, o céu estava um caos e os Kamael’s estavam lutando contra sua extinção. Os Drag****** (parte ilegível) nos atacaram em nosso próprio reino e não tivemos tanto sucesso de nos defender. Eles utilizaram aquela maldição.
Enfim, meu querido, aqui vai toda a explicação:.Eu bati com força na sua cabeça, tive que lhe colocar em coma e lhe tirar dos céus, para sua proteção e sobrevivência. O cenário era de puro sangue e kamaeis mortos.
Você esta agora em uma missão, buscando vingança e a extinção dos Dr***** (parte ilegível), ou então as devidas explicações, não que elas cheguem a ser suficientes para aplacar toda a dor que sofremos. Seus poderes estão sobre o controle de Asal. Você possui um anjo demoníaco dentro de ti, meu amor. Seu teletransporte foi dado pelo Deus do Tempo.
Seu nome nunca foi Prometheus, e sim Ardnys. Todos seus poderes são herdados de Deuses Antigos.
Enfim meu amor, já é tempo de eu morrer. Você esta aqui, do meu lado, deitadinho, dormindo. Mamãe agora precisa morrer para”
(o restante da carta estava ilegível pelo excesso de sangue seco)
– Meus deuses, agora entendo o porque de eu sempre estar com um fardo na consciência e nunca saber o motivo – dizia Asal atordoado de tanta informação, se dirigindo mais a si mesmo que a mim.
– Eu sinto que um dragão esta sobrevoando essa região. A quantidade de força mágica acumulada é impossível de não ser reconhecida, Asal. E com esta criatura que começarei minha vingança – bradei aquelas palavras, coberto de fúria e ódio.
Dobrei a carta e a guardei dentro do núcleo de Asal. Por último, libera faiscas de magia para que o acervo da igreja ficasse intacto, sem que meu cheiro ou qualquer vestígio meu dissesse que passei por este local.
– Vamos Asal! Temos um dragão para matar! – falei, determinado a seguir, colocando Asal em sua bainha.
– Mas Prometheus – Asal se interrompeu com apenas o olhar que direcionei a ele. Eu tinha um objetivo e não seria um mero instrumento que obstruiria meu caminho. Eu preferia não escutar o que ele tinha a dizer por momento.
Corria em direção a porta, explodindo ela com um corte etéreo de Asal. O padre, assustado, ficou de frente a escada profanando as palavras bíblicas. Eu e Asal nos tornávamos um só, transpassando o corpo do velho padre. Respingos da alma do padre haviam grudado no holograma de minha asa falsa.
Eu iria demorar para tomar altitude a ponto de conseguir alcançar o dragão.
– ESCARIOTERA, VIVENCIS TEMPORARIUM! – gritei em plenos pulmões, fazendo o chão tremer. O ar tremeluziu a minha volta e, numa explosão de ar sob meus pés, tomei um incrível impulso para um voo rápido.
Lá estava eu vigilante, planando no ar, caçando. Foi quando num em instante, um lagarto gigante, de escamas azuis cor de um céu sem nuvens, asas tão grandes que fizeram meu mundo escurecer como a noite, passou rasgando furiosamente o ar por cima de mim, desestabilizando meu voo.
Uma figura humana montava as costas do dragão. Uma garota de cabelos negros com cachos, que balançavam enlouquecidos no vento.
– Asal! Grude nela! AGORA! – minha outra asa, aquela, cicatrizada e machucada, apodrecida e caída, surgiu no lugar do holograma de asa que eu usava para voar. Uma asa demoníaca, uma asa grande como a outra, com penas negras de brilho avermelhado, como carvão em brasa.
– OFREDIUM CHRONOS! – um holograma da espada de Asal era lançado na velocidade da luz e grudava nas escamas do dragão, fazendo com que eu me teletransportasse para lá.
Fale com o autor