Os Dezessete

14 Capítulo XIV - Lea Wolf


Notas iniciais
Capítulo escrito por Letícia Azevedo, revisado por Emily de Farias.

Eu me lembro de um poema que meu pai costumava me recitar quando eu era criança. Não era sobre flores ou fadas que viviam na floresta, era sobre guerra, uma em particular que acontecera milhares de anos atrás. Tinha um homem que se viu obrigado a partir para a guerra, mas ele não queria abandonar sua mãe adoentada. Ele passa dois meses matando pessoas a esmo no campo de batalha, até perder a sanidade e ser mandado pra casa. Sua mãe, milagrosamente viva, o esperava nos portões de sua pequena propriedade com um sorriso no rosto. Ele a matou. Era assustador para mim toda vez que ouvia essa poesia.

– Você é uma Wolf e é capaz de tudo, apenas saiba que sangue e matança não ajudam ninguém. – era o que eu sempre recebia como resposta de meu pai. Só depois de um tempo eu descobri porque ele queria que eu soubesse disso.

Minha história é curta. Nosso senhor feudal estava enfraquecido pela idade e sem ser respeitado por causa de nossa pobreza crescente. Eu nasci no dia em que rebeldes invadiram o feudo em que eu morava. Eles incendiaram as casas, estupraram as mulheres e sequestraram algumas pessoas, minha mãe foi uma delas. No minuto que eles levaram minha mãe aos berros de dentro nosso casebre, a senhora idosa encarregada da fisiopatologia e das simpatias do feudo adentrou por nossa porta, ofegante de tanto correr, e recitou uma profecia. A profecia dizia que eu, que tinha nascido há apenas oito horas, tinha como fardo de vida a vingança de toda aquela injustiça. Aos poucos as pessoas conseguiram reconstruir suas casas, curar as feridas e enterrar os mortos. Os rebeldes não obtiveram sucesso em sua invasão e recuaram. Muitas pessoas foram levadas, as que ficaram não tiveram coragem de sair de lá.

Meu pai sempre fora muito supersticioso, um homem de pura fé. Então, nos próximos dezessete anos, ele treinou para combate como se eu fosse um homem. Não tinha pena. Eu fiquei forte, criei músculos e aprendi a me defender. Nos meus primeiros anos de vida ele me ensinou a ler e a escrever, mas nunca realmente tive tempo pra essas coisas. Meu pai tinha espalhado a história que eu tinha morrido no parto, então as únicas pessoas que sabiam que eu existia além de meu pai eram meu tio e meu primo. Isso nunca foi nenhum drama pra mim como você deve estar pensando agora. Eu queria isso. Eu queria vingar meu feudo. Eu queria vingar minha família. Eu queria minha mãe.

É por isso que agora eu estava cavalgando em um cavalo sem nome, numa floresta que eu só conhecia por nome, Floresta dos Escarpes. A história do Cavalo é tão desgraçada como a minha. Quando eu fiz quatorze anos teve outro ataque dos rebeldes. Desta vez eles foram derrotados plenamente, e os pouquíssimos que não morreram fugiram, deixando os poucos cavalos que tinham pra trás. Meu pai recuperou um deles, e como o cavalo era novo e sabia o caminho para o esconderijo dos rebeldes, ele o guardou para essa missão. O cavalo não tem nome porque não aceitou nenhum que eu quis dá–lo, então eu apenas o chamava de “cavalo” e ele bufava feliz em resposta.

Eu já estava quase caindo no sono montada nele. Não dava para ver a trilha que serpenteava pela floresta por causa da mata densa. Era uma floresta vigorosa pela ausência de homens consumindo dela, uma floresta compacta onde as árvores cresciam muito juntas, impedindo a luz da lua minguante daquela noite iluminar muita coisa. Minha estrela da manhã estava amarrada em minhas costas, e o saco de maçãs estava preso na cela do cavalo. Ele deveria estar de fato carregando muito peso por muito tempo, pois estávamos assim um dia todo. O forcei a parar, mas ao invés de pausar suavemente sob a relva, ele parou bruscamente, derrubando o saco de maçãs no chão.

– Isso não era necessá... – comecei a falar quando um barulho que vinha das árvores à direita me interrompeu. Alarmada, desci do cavalo e fui me esconder do outro lado da trilha. Foi o tempo de eu esconder meu pé atrás de um arbusto que uma figura barbuda saiu de trás das árvores e observou a cena em sua frente.

O sujeito segurava uma espada que o comprimento era duas vezes o meu braço. Dava para ver que era um rebelde, com vestes caras que não combinavam e sapatos rasgados. Obviamente roubara as vestes, mas não conseguira encontrar sapatos e vestira os dele mesmo.

– Hey, Diego, vem cá ver isso! – o cara falou e um segundo depois outra figura surgiu das árvores. Por sorte minha era um magricela, devia ter uns 15 anos e estava desarmado.

– O que é? – o menino perguntou.

– O cavalo, seu idiota! Olha o saco de maçãs no chão. Algum apressadinho nos ouviu e andou se escondendo por aí.

Os dois se encaminhavam ameaçadoramente depressa na direção em que eu estava escondida, e eu sabia que precisava do elemento surpresa para derrotar o cara enorme, mas em um embate corpo a corpo eu estaria fodida. Peguei uma das minhas adagas do bolso e escondi parcialmente com a mão.

– Eis o que vai acontecer. – eu me levantei do arbusto e quase matei o homem do coração, que me olhava como se eu fosse um porco espinho de saias. – Você, grandalhão, vai soltar essa bela espada e talvez nós possamos conversar sobre essa situação mais à vontade.

Ainda mantendo o olhar abismado, e seja porque eu sou mulher ou porque eu não parecia apresentar perigo, o homem botou a espada na bainha das vestes e voltou a me olhar.

– Suponho que vocês sejam rebeldes. – eu falei.

O homem não demonstrou nenhuma reação.

– É bom encontrá–los, sabe. Eu fugi de casa faz dois dias, estava querendo encontrar alguns rebeldes.

– Por quê? – o homem retrucou.

– Porque... Ah, perdão, qual é mesmo seu nome?

– Croel.

– Certo. Bom, Croel, eu estava querendo me juntar à sua... – me remexi teatralmente. Aqueles burros nunca suspeitariam. Causa.

O homem explodiu numa gargalhada descarada, cutucando o menino e rindo ainda mais.

– Causa! – ele disse e caiu na gargalhada de novo. – Ai, essa é a melhor piada que ouço em dias.

O caso é que eu não gosto nem um pouco que riam de mim. Mesmo que seja uma pessoa de dois metros de altura e pelo menos três vezes minha largura. De modo que minha adaga estava voando até a garganta de Croel, e em um segundo, ele parou de rir e estatelou no chão, se afogando no próprio sangue.

Diego, o sujeito magricela, olhava atônito de mim para Croel. Não parecia com medo, só surpreso.

– Você, garoto, tem uma chance de continuar vivo. Me leve até o esconderijo dos rebeldes. – falei.

– Por quê? – ele desafiou.

– Você é surdo? Quero me juntar à causa. – repeti enquanto saía de trás do arbusto e retirava minha adaga do pescoço de Croel.

– Eu não sou um deles.

O garoto realmente, realmente parecia sincero. Só que eu não arriscaria tudo e contaria meu plano (até porque eu não tinha um) para um estranho. Dei de ombros e juntei as maçãs do chão, prendi o saco na sela do cavalo e olhei para o garoto.

– Eu não ligo. – falei finalmente. – Só me leve até lá.

Ele deu de ombros e assentiu, me guiando para fora da trilha, dentro da floresta escura. O cavalo nos seguia, bufando muito irritado. Eu sabia o que ele estava pensando: eu deveria ter matado o garoto. Era muito arriscado, ele poderia dar um sinal para os rebeldes e acabar com a minha vida na primeira chance que tivesse. Porém ele era só uma criança, eu simplesmente não conseguia me obrigar a fazer isso.

– É aqui. – disse ele quando chegamos em uma parte da floresta que eu reconhecia de muitas histórias que meu pai me contava: era a ruína de um castelo. Estava, é claro, deserta. De início não prestei atenção no garoto, que parecia vasculhar o chão buscando alguma coisa. Estava hipnotizada com o cenário. As paredes que sobreviveram da guerra eram conquistadas pelo musgo, e o piso de pedra estava tomado pela relva. Mesmo assim era tão lindo, tão fora da minha realidade.

– Ei.

Olhei para trás e vi o garoto abrindo um alçapão coberto por grama. Não pude evitar uma expressão de surpresa. O alçapão parecia exatamente como qualquer outro pedaço do chão. De início não fez nenhum sentido pra mim. Com certeza revistaram aquela ruína em busca de rebeldes, era o lugar mais óbvio de toda a floresta, como não pensaram em abrir alçapões? A não ser que ninguém soubesse da existência daquele alçapão.

– Como os rebeldes sabiam desse esconderijo? – perguntei enquanto me encaminhava para lá.

– Minha mãe disse que um rebelde era guarda deste castelo aqui, e ele sabia da existência de todos os esconderijos, mas o resto das pessoas que costumavam viver aqui morreram, e o segredo dos alçapões também.

Bom, isso fazia sentido. Não queria pensar que aquele guarda traíra seu castelo e ajudara a matar todos que viviam ali. Procurei pensar em coisas positivas.

Fui até o Cavalo, que nos espiava perto do alçapão com o que parecia um semblante preocupado.

– Escute, – eu disse para ele, mesmo sem saber se ele entenderia. – eu vou até lá só dar uma espiada, e prometo voltar em uma hora. Se eu não voltar, você sabe o que fazer.

A verdade é que ele não sabia o que fazer, vamos encarar: era só um cavalo. Mas fingir ter um plano podia assustar o garoto no caso dele estar planejando me matar, então afaguei o cavalo, guardei uma maçã no bolso e desci as escadas do alçapão com o garoto atrás. Depois que ele fechou o alçapão, não dava para enxergar mais nada. Eu sabia que tinha apenas dois caminhos: esquerda ou direita.

– Esse lugar costumava ser um esconderijo de guerra. Guardavam muitos mantimentos por aqui. – o garoto disse, pegando meu pulso e me guiando as cegas para Deus–sabe–onde. – Para a direita leva até os rebeldes, onde costumava ser a reserva de comida, e a esquerda leva até outro alçapão perto de um rio.

Pegamos o caminho da direita em silêncio e seguimos assim por um tempo. As paredes e o chão eram revestidos de pedra, não havia nada que impedisse o caminho ou me fizesse tropeçar. O garoto parecia seguro de que não ia bater em um poste invisível, diferente de mim, que hesitava em lugares improváveis a espera de uma parede.

– Então, – eu disse, porque o silêncio já estava me incomodando – seus pais são rebeldes?

– Sim.

– Você nasceu aqui?

– Sim.

– Então porque você não é um rebelde? – eu perguntei curiosa.

Ele suspirou e ficou em silencio por alguns momentos.

– Você sabe como é – começou. – nascer e já ter uma vida escolhida pra você? Todas as decisões tomadas por você? Sabe o que é isso?

É claro que eu sabia.

– Quantos anos você tem?

– Vou fazer quinze.

Aquilo quebrou meu coração. Ele me lembrava de como eu era na sua idade, dois anos atrás. A época em que eu me revoltei com meu destino, em que eu queria fugir de casa com meu primo.

– Não é mole crescer com rebeldes, huh? – sugeri.

– Eles não são tão ruins. – ele falou, e eu pude sentir sua voz se suavizando. – Meus pais são severos, mas me amam de qualquer jeito, sabe. Eu só não quero mais essa vida.

Eu ia perguntar alguma coisa sobre o porquê dele não ter fugido ainda, mas o túnel fez uma curva e uma luzinha lá no fundo despertou meus batimentos cardíacos para o que parecia um galope. Era isso, eram eles. E eu não fazia ideia do que fazer. Larguei o pulso de Diego e desamarrei minha estrela da manhã das costas. Obriguei ele a parar.

– Você pode fugir comigo. – eu falei com o tom mais alto, porque já dava pra ouvir a gritaria dos rebeldes. – Não posso te dizer o que é que eu vou fazer lá dentro, mas eu tenho uma missão e ela tem que ser cumprida. Depois que isso acabar, você pode fugir comigo.

Ele me olhou muito sério, naquele breu seu traços infantis pareceram ter tomado a decisão a muito tempo. Apenas assentiu e continuou a andar.

O túnel desembocava em um grande salão de pedra iluminado por tochas. Havia centenas de mesas cercadas por rebeldes bêbados, cantando músicas sobre uma taverna ou algo assim. No fundo do salão havia duas cadeiras e dois ocupantes imponentes vestidos com roupas caras. Eram claramente os líderes, o homem era barbudo e gigante, a mulher era linda e pequena. Riam de alguma coisa e pareciam em uma conversa particular.

Ninguém reparou em nós, até porque estavam muito distraídos com uma figura alguns metros em nossa frente. Era um homem, mas isso era tudo que eu podia adivinhar, porque ele estava coberto de sangue. Se estava vivo ou morto eu não saberia dizer, mas havia um carrasco do seu lado com uma clava na mão e olhos sedentos.

– O que está acontecendo? – sussurrei para Diego.

– Um guarda foi encontrado pela manhã andando por essa região, – ele sussurrou de volta com a expressão que expressava tanto quanto uma folha de papel em branco. – o encontraram e estão o espancando desde então.

– Por que não o mataram logo?

– No começo queriam extrair informações dele, mas ele se recusou completamente, mesmo depois de o torturarem, e agora o estão espancando por diversão.

Antes de eu responder algum grunhido de nojo, a mulher e o homem que estavam na ponta do salão se levantaram e todo mundo se calou. Ficaram cochichando entre si por algum tempo.

– Quem são eles?

– Ah, – Diego disse com a voz enjoada. – esses são meus pais.

Os pais do Diego finalmente pararam de cochichar e agora sustentavam expressões cruéis. O homem se sentou, aparentemente satisfeito, e deixou a mulher falar.

– Homem! Esta é sua última chance – ela gritou e eu me surpreendi com o tom duro de sua voz – De onde você é? A que veio?

O guarda se remexeu levemente e não disse nada.

– Mate. – a mulher disse e sorriu.

Não escutei a clava se enterrando na cabeça do homem. Não ouvi os gritos ensandecidos dos bárbaros, animados com seu pequeno espetáculo. Eu olhava para a mulher. Seus olhos e cabelos incrivelmente negros. O formato da sua boca, de seu nariz.

– Diego, qual o nome de sua mãe? – eu disse, mal sentindo meu corpo. Como se o mundo estivesse adormecendo à minha volta.

– Martha, – ele falou – Martha Wolf.

Eu tinha pequena consciência de que tinha caído, mas não importava. Nada importava agora. Porque a mulher do outro lado daquela sala era minha mãe, a mãe que eu pensava que estava morta, a mãe cuja morte eu cresci sendo ensinada a buscar vingar. E se ela estava viva, isso só significava que eu tinha que vingar sua traição. Eu teria que matá–la, e não me lamentei por isso. Naquele momento, as lágrimas derramadas pelo meu pai em todo aniversário da minha mãe me davam força. Naquele momento, todo o meu treinamento valeu a pena. Naquele momento eu era a vingança, e eu ia completar minha missão.